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outubro 02, 2007
AS “BOAS PESSOAS”

Kenney Mencher
Alguém me explica o que significa ser-se "boa pessoa"?, perguntou Ela, e eu, que em mim tropeço, aventuro-me à explicação.
Correm difíceis os tempos, soem dizer, como se memórias houvessem de outros melhores nos tempos em que as pessoas são. A crueza quotidiana não é de hoje - assim foi, assim será. No decante, ao passado atribuímos feitiços vários, rodeamos de confettis idos sem regresso que emolduramos à subjectiva medida do querer. E do jeito que ao presente conferem. Confundindo factos com desejos de ter sido. Que não foram. Ou foram e a consciência rejeita. Fábricas de recordações ao serviço do alter ego. O eu-projecto a quem toda a confiança é devida. Sem in factum a merecer. Por que melindres com o próprio tornam argiloso o solo onde se fincam os alicerces individuais, preferimos fabular o atrás acontecido. Isto digo, nada percebendo da anatomia do todo que a pessoa é. Descaro de viciada em especulação científica e do mais que mal conhece, sem desistir do empírico entendimento de si e do cumprido tempo em que foi. Ainda sendo.
Das ditas “boas pessoas” algumas merecem despiciendo petit-non: “totós”. Aturam, engolem e digerem quase tudo. São as double B: Boas-Bocas. Na gastronomia das relações raramente acusam alergia a um alimento ou o culpam de azia. Da cebola e dos alhos queimados num estrugido não reclamam; podem comentar que já resultou melhor, mas afirmá-lo péssimo seria tortura maior do que engolir e calar. E calam no estrugido, nas malfeitorias que testemunham ou de que são vítimas. Pois se atingem o ponto de bater no peito uma, duas, três vezes, a cabeça baixando num mea culpa contrito somente por existirem... E ressentimentos, acumulam? Poucas não, muitas sim. Porque cederam. Porque abdicaram de si e o aparentemente engolido ficou atravessado no gasganete. Como espinha de sável mal cortado e pior frito. Aos que encaixam no retrato chamo de pusilânimes.
Às "boas pessoas", prefiro as pessoas boas. Aqueles que ao tempo em que são trazem acrescento – pela tolerância, pelo diálogo com o mundo (bem pode ser o que avista da sacada e não vai além da esquina da rua), pela generosidade, abnegação se a bondade dos valores ou ideais constantes do privado rol das prioridades exige. E dão o corpo, a alma e a camisa por causas eticamente consentâneas com a família, o respeito pelos outros e por si próprios, a solidariedade com o planeta e com quem nele existe. As boas pessoas, como as entendo, existem. E rodeiam-me muitas. Nesta planura redonda, um exército de bondade faz a diferença que a esperança exige. Acredito.
CAFÉ DA MANHÃ
Há dias, o Minderico, deixou mensagem cifrada:
“O Charal do Ninhou jorda copiamente o biata do Tróia desta Classe da Tati. Jorda todos os planetas os Joões de Vali por ser muito António Forno da piadeira dos covanos e das covanas.
Chochos anchos para as covanas e paracópios a todos os carranchanos e carranchanas que jordam o do Touquim tão copiamente.
Fredericos de cópia fusca”
Procurei no Portal do Minderico o dicionário da “piação do Ninhou”. Desisti e dei a refrega por perdida. Por via de um comentário do Vítor chegou a descodificação.
Tradução:
“O Minderico aprecia muito o "espírito" deste blog. Todos os dias muito se ri por gostar imenso da "conversa" dos homens e mulheres.
Beijos grandes para as miúdas e parabéns a todos os amigos e amigas que tão bem escrevem.
Votos de feliz noite”
Decididamente: o Vítor (o “nosso" Minderico) - é um bom companheiro de caminho que muito estimo.
Publicado por Teresa C. às outubro 2, 2007 06:35 AM
Comentários
sim: "boa pessoa" soa a falso, esforço, pose, artifício, construção e ainda a mole, sem personalidade, capacho, candidato a vítima, coitadinho. por isso penso que há o romantizar do bad boy, da bad girl. são os que, tendo personalidade, não estão alinhados, não se deixam moldar passivamente, não se preocupam em agradar em detrimento de ser. ainda assim pode entender-se boas pessoas pelo que a expressão significa literalmente. pode dizer-se em alternativa pessoas boas, se ajudar a entender o que queremos dizer. e essas, ainda bem que as há. acarinhamo-las, são nosso exemplo, inspiram-nos, fazem-nos ver do mundo a bondade e a luz.
Publicado por: troblogdita às outubro 2, 2007 11:51 AM
Es que...
o que me confunde é que o que descreve no §2 é que não são boas pessoas.
Depois de, no §1, ter ido tão clara, bem podia ter saltado para o §3, mesmo ilustrando com o §2, mas dando-lhes outra designação - moles, abúlicos, sonsos, songa-mongas, indiferentes, apáticos, isso-tudo; o português es una lengua riquissima.
(... el castellano no acentua al 'i'!)
Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 2, 2007 01:00 PM
Felizmente (para mim) acredito que neste planeta existem mais pessoas boas do que pessoas más.
Assim explico porque tudo à minha volta ainda não foi destruído, porque ainda vivo em paz (mesmo em ambiente de guerra, que já experimentei).
Publicado por: James Stuart às outubro 2, 2007 01:00 PM
Bom quadro.
Publicado por: Lapa às outubro 2, 2007 10:48 PM
Troblogdita - tal qual! E quando não é pose, é modo de um ser fazer-se aceite. Encantar. Pessoas boas são outra coisa, como dizes eu digo. É privilégio que não descuido senti-las junto a mim.
Pirata-Vermelho - E eu sou lá mulher de saltar parágrafos quando eles me dão prazer?!...
James Stuart - e rematou com o essencial: não fora a certeza da bondade no mundo e em nós, e seria impossível a pacificação interior.
Lapa - Também gosto! :)
Publicado por: Teresa C. às outubro 3, 2007 07:39 PM
Teresa, seja uma boa Pessoa e explique-me ou a sua boa Amiga ELA que me explique como diabo não consigo comentar-lhe os Momentos desde o dia em que fizemos uma pequena troca: ELA deu-me um poema do Galeano e eu dei-lhe um poema do Perez Estrada. Eu sei, eu sei, sou um nabo com estas coisas, mas tanto também chateia... é que ELA noutro dia cheirava a mãe ;)
Publicado por: fallorca às outubro 3, 2007 08:06 PM
Fallorca - Não entendo a sua dificuldade em entrar nos "meus momentos". Parece-me que os comentários estão activos. Não sei como posso ajudá-lo, mas agradeço a sua atenção!!! Aguardo que consiga. Será um prazer lê-lo!
Publicado por: Ela às outubro 3, 2007 10:03 PM