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outubro 06, 2007

CRIMES PERFEITOS

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Autor que não foi possível identificar

Existem. Se bem enxergarmos, o país e o mundo estão pejados deles. Como brotam fortunas e outras florescem, como surge a classe dominante, como são os jogos do poder? “Se os criminosos não sentissem a necessidade de se vangloriar de seus actos, haveriam muito mais crimes perfeitos, disse Maigret, acendendo o cachimbo” – isto escreveu George Simenon. Outros argumentam que a impressão digital fica. Denunciando. Perseguindo. Capturando. Castigando. Castigando o quê? Tudo. Nada. Mas tentam enganar-nos. E conseguem. Dão-nos esperança. Dão-nos ilusões de um mundo perfeito sem limites que nos prendam, nem sonhos por alcançar. Universo escrito, lido, pensado. Universo que transborda para a calçada, para a cidade numa decepcionante nuvem de perfeição.

Nos amores, o crime perfeito existe. No instante. No dia. No mês. Durante anos. Por tempo sempre curto demais para o infractor e demasiado para a vítima(?). E esta existe, ou, falsamente passiva (acomodada?), simula nada conhecer? Comentando o penúltimo texto, o Minderico deixou perguntas cuja resposta ensaio.

M. - O homem e a mulher existem há centenas de milhares de anos. O conceito de infidelidade nasceu quando? Que influências tiveram as religiões, nomeadamente a Igreja Católica, no criação do conceito de fidelidade?

T.C. – No ODI ET AMO (XXXI), o Filipe Nunes Vicente escreveu que “a dita cuja foi inventada pela Igreja ( Tertuliano o primeiro grande teórico), território hostil aos vendilhões. Fora dos Mandamentos, a fidelidade sexual só se explica pela incompetência. Um tipo cheira demasiado mal, uma mulher está convencida que casou com o pai e por aí fora. Claro que também há o acaso (sinistro): num par, cada um tem exactamente o que falta ao outro. E não precisaram dos padres nem dos psis para o descobrir.”

M. - Se fossemos imortais (eternos fisicamente), o conceito de infidelidade existiria?

T.C. – Todos nos julgamos eternos enquanto «somos», sabendo da morte no final do caminho. Nesta (i)mortalidade, segundo uma pesquisa de Pittman, 50 por cento dos homens e entre 30 a 40 por cento das mulheres que estão a dois cometem infidelidades.

M. - Ser fiel será uma forma superior de egoísmo?

T.C. – Na “Insuportável Leveza do Ser, afirma Milan Kundera: “A primeira traição é irreparável. Provoca uma reacção em cadeia de novas traições, cada uma das quais afasta-nos mais e mais do ponto de nossa traição originaria (…) A fidelidade confere certa unidade a vidas que, de outro jeito, ficariam desintegradas em milhares de impressões fugazes”.

M. - Ser casado(a) implica que se evite desejar dar umas "trucas" com os(as) borrachos(as) que constantemente nos rodeiam? Ser fiel deverá obrigar-nos só fisicamente e/ou também mentalmente?

T.C. – A infidelidade é ruptura de um compromisso tomado livremente e foi, por qualquer circunstância, quebrado. O que constitui um acto de infidelidade varia no meio e nas culturas, não dependendo da presença do comportamento sexual. Wikipédia dixit!

M. - Quando um casal perde a paixão recíproca, o conceito de fidelidade mantém-se?

T.C. – No conceito mais abrangente, a infidelidade ocorre como traição a uma fé (por exemplo religiosa). Nos relacionamentos, o funeral da paixão é fatalidade, mas pode deixar herança: a ternura, a cumplicidade, o desejo, o querer-bem. À soma disto é comum chamar amor. Na vigência do compromisso que o sentimento justifica, uma violação de regras e limites mutuamente acordados, é infidelidade. Ausentes as premissas referidas, caberá ao par redefinir as regras do contrato.

M. - Última provocação: é possível amar-se mais que um homem(mulher) em simultâneo?

T.C. – A evidência de não haver dois amores iguais pode justificar a possibilidade. Não penso assim – se um amor pleno surge, ao paralelo chamaria amizade e aconchego, eventualmente precioso. Mais uma vez, é a lealdade que dita as regras. São leais as relações em que as pessoas não mentem a si mesmas, embora a verdade possa ser dura e origem de sofrimento devastador. Diz a Bíblia nos Provérbios 17:17 que “O amigo ama todo o tempo; e para a angústia nasce o irmão” e em Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro.”


“Pra Ser Sincero” - Engenheiros do Hawaii

Pra ser sincero eu não espero de você mais do que educação,
Beijos sem paixão, crimes sem castigo, aperto de mãos
Apenas bons amigos...
Pra ser sincero eu não espero que você minta
Não se sinta capaz de enganar
Quem não engana a si mesmo
Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito,
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos
Pra ser sincero eu não espero de você mais do que educação
Beijos sem paixão, crimes sem castigo,
Aperto de mãos, apenas bons amigos...
Pra ser sincero não espero que você me perdoe
Por ter perdido a calma
Por ter vendido a alma ao diabo
Um dia desses, num desses encontros casuais
Talvez a gente se encontre,
Talvez a gente encontre explicação
Um dia desses num desses encontros casuais
Talvez eu diga, minha amiga,
Pra ser sincero... prazer em vê-la
Até mais...
Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos.

Publicado por Teresa C. às outubro 6, 2007 10:58 AM

Comentários

Seja como for. Se amar é crime serei condenado eternamente as chamas da paixão !
Beijos!

Publicado por: Justo às outubro 6, 2007 04:09 PM

Justo - Ora bem! Alegre-se: seremos muitos a partilhar a fogueira. :)

Publicado por: Teresa C. às outubro 8, 2007 05:45 PM

Ontem passei os olhos por uma notícia que muito me surpreendeu. A espionagem electrónica com o objectivo de denunciar infidelidades está a aumentar disparatadamente. Os advogados especialistas e os detectives privados são unânimes em dizer que tudo é válido para provar a traição do(a) parceiro(a) do(a) cliente. As provas electrónicas são cada vez mais utilizadas em processos de divórcio e que são os próprios cônjuges desconfiados que praticam a violação de correspondência electrónica, quer nos telemóveis quer nos computadores. O detective dá o exemplo de um sistema de “artilhação” do telemóvel que fica sob vigilância integral num outro telemóvel, em tempo real sem que o seu dono sequer desconfie.
Ora, indo directa e imediatamente ao cerne desta questão, falemos de sexo, ou melhor, das nossas ligações sexuais. No passado, definíamos a fidelidade como a promessa de nos ligarmos sexualmente a uma pessoa e mais nenhuma. Hoje em dia e no futuro, com a mudança de mentalidades, com o aparecimento de novos tipos de relacionamento, com casamentos mais liberais, em que as ligações sexuais podem ser efectivamente mais abertas e indefinidas, o que significará, no fim de contas, a infidelidade? A diferença significativa é que em vez de a fidelidade sexual ser a marca identificadora de uma relação, um dado adquirido como no passado, nas relações do futuro teremos que ter a liberdade de escolher o que queremos o que ela signifique. Ou seja, pode significar o que sempre significou: a opção de ter relações sexuais com um só parceiro; mas também pode significar a lealdade emocional mas tendo a coragem para assumir outras ligações sexuais com outros parceiros, e não só com a pessoa com quem se escolheu para viver. Os defensores acérrimos da monogamia sexual estarão neste momento a tentar arranjar argumentos para demonstrar que esta hipótese só nos tornaria sexualmente mais irresponsáveis. Eu pergunto: e já não o somos actualmente? Pelo que se lê nos jornais, dizem os advogados e detectives, o nosso vizinho do lado e a senhora da quiosque, a resposta é sim, só que, e este é o pormenor importantíssimo desta questão, não admitimos! Fala-se em irresponsabilidade e dá-me a parecer que ela esteja mais associada a relacionamentos tradicionais muito pouco transparentes, cheios de desconfianças, que enchem os bolsos dos advogados e detectives particulares e acabam em disputas e litígios num tribunal, do que a um relacionamento mais liberal, mas assumido e partilhado honestamente entre os seus dois elementos.
Com isto tudo não quero eu dizer que ache, por exemplo, o “swing” a “cena” mais excitante dos últimos tempos ou que não deixará de ser uma forma encapotada e hipócrita de não assumir as limitações de um modelo de casamento à beira de ruptura, mas digo, por outro lado, que é de louvar todos os relacionamentos onde ainda há sinceridade, respeito e confiança mútua, independentemente do tipo de ligação sexual que tenha sido acordada conscientemente entre o casal.
Um casamento que supostamente deveria ser, entre outras coisas, a oficialização de um relacionamento amoroso, para além do jogo de ilusão e de aparências que já é, passa a ser também uma espécie de competição de fidelidade entre dois seres, que, supostamente e acima de tudo, deviam querer-se bem.

Publicado por: agent às outubro 9, 2007 03:02 PM

Agent - li com gosto o seu texto. Pelo que no post disse, o meu acordo é explícito.

Publicado por: Teresa C. às outubro 9, 2007 09:44 PM

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