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outubro 19, 2007
DESNUDA-ME

Barndog
Desnuda-me e deixa coberta a pele. Entreabre a tua cortina. Arreda-a como é comum entre vizinhos. Supõe-te numa rua esconsa e sem história. Confina o teu mundo ao que vês da janela. Fascina-me com as histórias cruzadas dos meios pequenos - em que todos vigiam e espreitam e se esgueiram na privacidade de cada um – deturpadas por mulheres solitárias ou por homens limitados ao espaço caseiro pela doença ou desocupação. Claro que a cortina é branca com renda na ponta, franze junto ao vidro, e a deixas cair se me vires a consciência da tua atenção. Não te detenhas na roupa ondulando no estendal, impecavelmente estendida, não vá a lambisgóia do 3º Esq. julgar desleixada a do 2º. Inventa-me neste cenário. Tu espreitas. Eu simulo não dar conta. Logro em que sabemos mover-nos e te faz sorrir ao veres-me, na rua, inclinada para apanhar a chave caída com a sabedoria da mulher que deseja enfeitiçar – pernas esticadas, imodéstia no agachar, as curvas coladas à saia.
Lê-me. Sem receio. Lê-me como um homem que distingue lábios tentadores do útero da mulher. Desatende ao coquetismo. Não te alongues no molde ou no peito arrebitado. Deleita-te. Não esgalhes conquista. Quero que sejas regra e negues a excepção. Entende porque me é tão caro este éter. Aqui há a palavra. A oportunidade de vasculhar o outro por dentro. Basta esperar. Descasca, camada a camada, a cebola. Chega ao âmago. Sem desvios. A objectividade em serviço. O mistério aguçando o apetite. Acresce ao dia azul. Rasga um inesperado sorriso.
Dizes que a minha escrita intimida. Troca verbos e pessoas. É oblíqua. Levanta um pouco mais a ponta da cortina. Vê melhor. Repara como engrinaldo o quotidiano. Consegues ver-me a conjugar roupa e acessórios que amanhã vestirei? Orienta-te. Entrei na cozinha. Separo a louça para o jantar. Volto à sala. Estendo a toalha e alinho os talheres. Os guardanapos enrolados e presos numa margarida como argola. Não me vês à volta dos preparos da comida? A organização escapou-te. Subtil, eu? Repara no que visto. Estou solta dentro das calças seguras com atilho e da camisa de algodão. Descalça. Viro-me. Olha a mola que me prende algum do cabelo. Pareço-te oblíqua? Intimido? Trauteio incoerência no que pareço e faço? Esquece o que sabes das mulheres. Eu sou uma. Una. Nada mais.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às outubro 19, 2007 12:00 PM
Comentários
Se ainda houvesse necessidade de eu ter que dizer a que venho aqui...ler isto já bastaria. Mas, sabe o melhor ? É que tem mais... muito mais por entre as cortinas.
Publicado por: Justo às outubro 19, 2007 01:55 PM
tão belo!
Publicado por: troblogdita às outubro 19, 2007 05:08 PM
e não há nada ?
não é por negar a realidade que a compreendemos melhor...
mas tudo vai em bom caminho, há luz, tempo e vontade de o percorrer, a introspecção pode acontecer, mesmo se inconsequente - e por haveria de o ser ?
basta ser
e é talvez demasiado
ciao, fim de semana esplêndido!
PS - a palavra... a palavra também vem de trôpega de entredentes, se amordaçada a alma; entre 'uma' e 'una' vai um arco-íris, sol, chuva, um tesouro, um ponto focal, um horizonte, um ar, um céu, um olhar, um estar lá, um querer ver, um crer; 'uma' é pressuposto, dogma, genuína convicção - 'una' é deliberação, um programa, conspiração; desolée: una é que não...
Publicado por: A. Q. Pranto às outubro 20, 2007 12:58 AM
Teresa
Bastas vezes lhe tenho dito quanto sou fâ da sua escrita.
Os adjectivos escapam-se-me porque estou arredio dessa coisa que se chama talento.
Sei que já disse que a sua escrita é a cores, levo este para o meu arquivo, se não se importa.
agora chama-se "Com blogs de ver"
http://lfm-gamados.blogspot.com/
Para ler sempre que me apetecer, se lhe desagradar basta dizer ok ?
Publicado por: Luis Maia às outubro 20, 2007 03:23 AM
Este texto é, todo ele, um mo(nu)mento de sedução. O voyeurismo que gostamos de inspirar nos homens que nos interessam. As palavras e a sua magia. O caminho para a nossa alma que sonhamos ser trilhado pelo outro.
Gostei, claro!
Publicado por: Alba às outubro 20, 2007 10:12 PM
A Q Pranto - Não entendi, mas o objectivo também não era esse, pois não?
Alba, Justo, Troblogdita e Luís Maia - o texto é tudo o que a querida Alba "leu" e o que cada um entendeu. Mas sentiram-me. Souberam-me inteira no escrito. Viram-me por terem ousado levantar a cortina. E eu mostrei.
Publicado por: Teresa C. às outubro 22, 2007 07:17 PM