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outubro 08, 2007
DICIONÁRIO BUÁ-PORTUGUÊS
Graham Mckean
Observando o nosso povo, arrisco: já somos velhos no primeiro buá-buá. Houvera dicionário “buá-português” e dos recém-nascidos o choro seria lamento – “que não, que não podia ser, que estavam tão bem aninhados no útero, era direito adquirido desde a concepção, não tinham sido avisados do aluguer a prazo do lugar, e era injusto, ou lá se era!, verem-se obrigados a, dolorosamente, encher de ar os pulmões. Vítimas das déspotas regras da genética e do abandono pelos “sindicatos da infância por nascer”. O governo ainda menos, ou teria providenciado legislação que impedisse saída do ventre materno antes das quarenta semanas - as trinta e oito forçam-nos à selva aérea, quando quinze dias de nada-fazer os livrava de mãos inábeis e ansiosas e chuchas e colos desajeitados e berços duros e arrotos e sono vigiado. Uma seca!”
No estado adulto, as queixas, na essência, não diferem – somos infelizes ou desafortunados pela incompetência do poder político, pela sobranceiro domínio do dinheiro (quem diz dinheiro diz petróleo ou água num qualquer dia). Pouco mais que traças sem agasalho para esmoerem. Sociedade malvada que ignora a justiça, é cruel e arrivista. Só para os graúdos no «ter» a vida é rosa bebé. Nem para esses, vendo bem, uns esmifrados pelo crescimento dos lucros, sem tempo para a família, para eles, para fruírem dos milhões acumulados, enrolados em affairs de carne ou iates ou de contas bancárias que lhes dêem a precária ilusão de vivos numa vida amortalhada. Faltam génios como os de outrora: um Newton, Churchill, um Mahatma Gandhi, um Einstein, um Eisenhower. Inventivos. Corajosos. Determinados.
E há fatia de verdade no reduto da insatisfação. Que não é de hoje - sempre houve e existirá. Fatum? Sim por que é natural no pensar humano a ânsia por melhor. Louvável por negar o espírito contentinho no pensar e exigir. Não por que as sociedades são dialécticas e se renovam. Não por nos faltar distanciamento imprescindível para ler os acontecimentos numa perspectiva conjuntural. Não por serem indistintos nos seis mil milhões de terrestres os motores de arranque das mudanças geniais e a horda de boas-vontades solidárias. E quando os vemos despontar, depressa tentamos aniquilá-los com clichés de antanho: lunáticos, excêntricos, incumpridores na peneira do fisco, social ou moral. Quantos anos do estado de cadáver corroído por biliões de vermes são precisos para atribuir genialidade a quem, na actualidade, a possui?
Publicado por Teresa C. às outubro 8, 2007 06:47 AM
Comentários
o génio, individual ou colectivo, impõe-se espontânea ou mesmo inadvertidamente muito mais que a pedido ou sob programação
tardar o reconhecimento é apenas mais uma circunstância, das com que se cose a excepcionalidade
já clamar por uma especificidade nacional na matéria pode carecer de assento, já que a esperança vã bem merece descanso prolongado
e mesmo os determinados, espécie mais abundante do que é suposto admitir, tendem a fugir de heroísmos - não por apego às amarras da segurança sempre afeita à corrosão da genialidade, mas pela certeza do descalabro mortífero que fustiga os nos bicos dos pés
é que os declarados génios tiveram, de algum modo ou em certo momento, a dosezinha de poder que lhes compensa a loucura ou ingenuidade e acresce e complementa o ver primeiro ou mais além
e sem poder ... nem santidade quanto mais génio!
Publicado por: ora et labora às outubro 8, 2007 02:32 PM
Tati, querida. Estou cada dia mais propenso a concordar que :"O quociente de inteligência da na terra é uma constante. O que varia é o número de pessoas."
Se bem que a genialidade de alguns pode explicar a total imbecilidade de muitos.
Mas, amar é na verdade o que nos nivela por cima.
(ou de lado...ou ainda embaixo..Xi! Exagerei?)
:o)
Beijos...
Publicado por: Justo às outubro 8, 2007 07:04 PM
Ora et labora - Não desmentindo o majestático poder de quem o tem e abriga e propicia a afirmação da diferença, algumas vezes genial como na história humana acontece(u), chamo determinados no vingar da esperança social quem não teme represálias, desdém ou incompreensão. Retomamos a diferença entre "boas pessoas" e "pessoas boas". No que toca à lusitana especificidade lamurienta e de maus agoiros em riste, tenho-a por diária constatação.
Justo - E olhe que tem razão. Aquele infeliz exemplo da superioridade "estadounidience" deixa-me invariavelmente boquiaberta. Pois se são tantos, mal-feito fora não terem mais notáveis do que os povos pigmeus em número! Vi o seu brilho de humor ao relacionar como directa a proporcionalidade entre génios e imbecis. Mais digo: noutros povos e no particular caso dos "stars & stripes" é conclusão a reter. E amar amemos sempre pelo lado que no momento calhar.
Outros meus.
Publicado por: Teresa C. às outubro 9, 2007 10:04 PM