« setembro 2007 | Entrada | novembro 2007 »
outubro 31, 2007
PÚBIS LOGO ALI EM BAIXO

Mati Klarwein
Era tudo muito simples: eles atacavam, sitiavam?, a mulher cobiçada, elas rendiam-se ou não. Senão – reservando a autonomia das mulheres ao entre-paredes do lar, esqueceram que lhes forneciam de mão-beijada um poder incomensurável. Elas educavam os filhos regurgitando modelos ancestrais, determinavam quando estavam prontas as cuecas, peúgas e camisas, conservavam os homens num banho-maria confortável e indefeso, abrigando sob as respectivas asas protectoras todo o clã familiar. Às raparigas, fosse pelo exemplo, ou pelo discurso tradicional, era transmitido o modo de os «levar-à-certa», perpetuando a sabedoria de manipulação. Aos rapazes a pedagogia ia no sentido de optarem, chegada a ocasião, por mulher que fizesse sopa de sustento, mantivesse limpo o ninho e parisse bem.
Meado o século passado, elas foram para a rua. Na mão a ceira das compras pelo final do dia, mas de manhã, ah!... pela manhã saíam, com(o) eles, para ganhar o pão. Encheram universidades, ao próprio corpo e ao deles impuseram regras por via da pílula contraceptiva sem abdicarem do matriarcado (clandestino?). Mesmo na aparência do mais exaltado machismo, a elas competia o encolher de ombros condescendente perante as «manias» dos respectivos. E, salvo nos casos de bebedeira ou pancadaria – desvios sem tempo no tempo -, traziam dinheiro para casa, encarando os acessos autoritários deles como prova de mais não serem que uns tristes-coitados a precisarem de convencimento da autoridade que elas não desmentiam a troco dum homem capaz de as proteger de inadvertido ladrão que se esgueirasse pela porta ou pela janela e lhes fizesse mal. Esperavam pelo malfeitor a vida toda – “aqui-d’el-rei que nunca mais chega quem me arrebate do tédio e do barrigudo descamisado que se deita ao meu lado!” –, aos maridos, por via da transgressão temida e sonhada, também.
Décadas volvidas, e, no meio do entulho consumista, todos julgam que a felicidade é um direito que alguém ou um sindicato ou o governo ou a sociedade deve garantir. Elas acumulam a sapiência doméstica com a parição, profissões iguais às deles e o domínio do “abre-te Sésamo” da gruta do tesouro por onde aspira entrar qualquer Ali Babá. Eles, baralhados perante o novo feminino, vêem-nas passar de umbigo à mostra, calças descidas até onde a púbis começa, amaldiçoam não terem nascido com software embutido de que conste o Pantagruel e uma enciclopédia de prendas domésticas, titubeiam, esqueceram a senha, não sabem o que fazer até elas decidirem segredar-lhes a password . Que podem mudar a qualquer momento. E mudam. E eles, de novo, às-aranhas. E vão de metro a tecnossexuais a qualquer coisa a meio termo entre os peludos-coça-fruta e os delapidados-resumidos-a-pêlos-no-sovaco. E elas passam. Ondulam, como ontem e sempre, as ancas. O peito bem à frente do caminho. Barrigas lisas que o frio não arrepia. Púbis logo ali em baixo.
CAFÉ DA MANHÃ
“Saramago escreve cristalinamente.” – Miguel Sousa Tavares no “Pessoal e Transmissível” de ontem.
Publicado por Teresa C. às 06:22 AM | Comentários (21)
outubro 30, 2007
NEGÓCIO QU’AMORES CAMPEIA

Andrew Walko
Em cada trinta segundos, na União Europeia, por cada dois casamentos um acaba em divórcio. 172800 por dia. Em Portugal, um terço dos casamentos é dissolvido, setenta e cinco por cento dos quais a pedido da mulher. Não me pronuncio sobre a possível inquietude dos números – a rapidez das mutações sociais não ajuda ao distanciamento e à objectividade da análise. Tendo o meu leque de certezas duas varas - a vida e a morte -, o das convicções é mais abonado. Entre elas a de subscrever uma reflexão do Pirata-Vermelho, já nem sei a propósito de que tema. Afirmava: “ (...)nenhuma convivência prolongada se fundamenta e apoia em grandes amores! Nem preponderantemente nisso. Imagina o desconforto e o desconsolo que me causa o facto de estar repetidamente a constatar que centenas de pessoas que conheço ou de que tenho notícia, sofrerem do mesmo mal - a teimosia de confundir afectos com arranjos e a teimosia em apoiar as convivências nos amores sexuados, excluindo ou relegando, em importância, outras qualidades da pessoa próxima?”
Porque as sociedades são dialécticas, a Áustria engendrou a Primeira Feira do Divórcio. Há que responder a novas realidades, foi o entendimento, seja pelo lucro ou pelo auxílio às gentes enrodilhadas em fracturas matrimoniais. Pelo que li, aquilo esteve à pinha de advogados prestimosos, agências de viagens para os solitários, imobiliárias, detectives, laboratórios para testes de paternidade, organizadores de festas da libertação. Um delírio. Longe vão os tempos em que um par casava sem pensar no rompimento do laço. Hoje, dizem profiláctica a prevenção de inúmeros detalhes. É o tempo do pragmatismo nos afectos. Louvo a racionalidade, dói a desesperança implícita. Ou talvez nem seja nada disto e apenas lixiviar as nódoas que podem conspurcar o contrato, que as da alma não há feiras ou detergente que eliminem.
“A verdade é que conheço pouca gente tão feliz como alguns recém-divorciados.” E antigos, e muitos casados. Porque a felicidade não começa nem acaba por num papel ficar assinatura prantada.
E, como alguém escreveu, recito:
“A Leonor casadoira ficou sem o esposo e já não oira
e
é das que conheço muitas
são mulheres 'd'um homem só'
enquanto duram as paixões
ou não desfazem o nó
dedicadas mais qu'as demais
aos interesses qu'as norteiam
boas sócias
são leais
até ao dia em qu'as coisas reais
fecham negócio! qu'amores campeia
Publicado por Teresa C. às 06:20 AM | Comentários (24)
outubro 29, 2007
LUVA NA MÃO DE UMA BINOCHE

Jia Lu
A Cécilia fartou-se. Quis o divórcio. Sair de vinte anos duma sociedade binomial afectiva. Terminar de modo prosaico um (des)encontro extraordinariamente romântico – ela, noiva, de caneta na mão assinando o registo do casamento, ele, casado, oficiando o contrato e decidindo na hora fazer dela a sua nova-futura-mulher. Coisa de cinema assentando como luva na mão de uma Binoche. Retorno de investimento garantido pelos toneis de lágrimas das espectadoras comovidas e de coração diluído no eu-também-quero-que-isto-sonho-desde-a-primeira-Barbie. A Ségolène fez o mesmo ao François Hollande após a derrota eleitoral. A proximidade do Eliseu como guilhotina dos amores na alta política francesa. Coisa simbólica – o factor desequilibrante do poder a arruinar afecto em decomposição. A valer o mesmo que promoção dum assistente de padeiro a chefe de produção das carcaças num empresa panificadora – o homem ganha mais, inflama o ego, incha, muda atitudes e o centeio fatiado, que também era o casamento, ressente-se.
Definitivamente, Cécilia ex-Sarkozy não é uma mulher na linha das grandes heroínas românticas, prontas a sacrificarem a vida pelo homem que amam. Do pai russo herdou, além do apelido Ciganer, um carácter apaixonado, frágil e ciclotímico – um dia ama, no outro detesta. Da mãe espanhola recebeu o temperamento forte e caprichoso. A belíssima ex-manequim não cede sem luta o lugar de prima dona nas encenações em que participa. Não que procure o centro do palco onde convergem as luzes; antes exige não ser dada como adquirida na subserviência aos protocolos ou objecto de rara beleza que, por arrasto, faz brilhar quem a ama. Graças a ela, a tradição das primeiras-damas entregues às boas-obras, à cegueira burguesa, à hipocrisia romanesca de Maupassant, caiu. A moral pública do Eliseu saiu, finalmente!, da terceira República.
CAFÉ DA MANHÃ
Desafia-me o Eduardo Pitta a entrar na casualidade das palavras que enlaçam os livros. O desafio exige o cumprimento de cinco passos:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco bloggers.
“A teologia feminista conclui que a identificação do divino com imagens masculinas exclui as mulheres da possibilidade de «figurarem Deus», isto é, de serem reconhecidas como verdadeiras imagens de Deus.”
“Deus e a Palavra de Deus na Teologia Feminista” - tese de doutoramento de Teresa Martinho Toldy, Edições Paulinas
Não resisto a um apontamento mais: “o pecado, nesta ordem de ideias, consiste em rejeitar a interdependência que se estabelece entre os amantes, entre o que ama e aquele que é amado.”
Que o laço de palavras continue por via da Alba, da Ela, da Mcorreia, da Vera Carvalho e da Vieira do Mar. Sejam as queridas de sempre e entrem neste loto de palavras. Fácil - é só estender a mão - e divertido.
Publicado por Teresa C. às 06:24 AM | Comentários (6)
outubro 28, 2007
ABAIXO DO UMBIGO TRÊS DEDOS

Sorayama
Não me foi concedida procuração do feminino. Nem me falta, porque a cada ser sua cabeça, seu corpo, sua lingerie. Seu fascínio. It’s all about this – feitiço. Para o meu prazer do princípio ao fim. Se é de cetim a pele, se do ocioso prescindo e cuido de manter contido, de veludo o desejo de me sentir Mulher a cada segundo dos milhares que fazem o dia, a escolha da lingerie é ritual precioso do amanhecer e de muitos entarderceres. Nenhuma, preta, branca, da cor da minha ilusão. E do que visto. Se ele vai gostar? Nem me pergunto. Gostará de ter na frente uma mulher solta, que sabe o que quer dar e receber e, por isso, é a mulher e a lingerie que ele ambiciona. Belas na invenção do momento. Uma e outra. Naquele sumptuoso silêncio da visão do instante único. Não fui a mesma ontem, não o serei amanhã. Captura o momento. Nunca deste haverá outro. E que venha e dispa e caia e cheire a almíscar ou a sândalo. Que fiquem as meias de liga. Sem biqueira para luzir o vermelho das unhas. E que, vestindo as pernas, subam no ar ou uma descaia para o lado. Das fronteiras mantendo alguma.
Incógnita aos olhos do vulgo, sei que o sutiã tem renda preta sobreposta a uma base cinza e violeta. Que me aconchega o peito e o gosto. Que casa com o triângulo inferior, não na importância, mas no sítio – abaixo do umbigo três dedos travessos. Preso ao outro por tiras que no quadril apertam com laços. Que ninguém vê durante o labor, ou nas compras da casa, ao conduzir ou enquanto caminho na rua. Mas sinto-os. Os laços que um gesto desatam. Meu? Who knows? Who knows what could happen no dia de uma mulher. E trauteio a música da Avril Lavigne - “Do what you do / Just keep on laughing / One thing's true / There's always a brand new day / I'm gonna live today like / it's my last day”.
Porque os enfeitiça a lingerie duma mulher. Por ser o resquício do impossível. O frémito do proibido. Pico de adrenalina que a psique comanda. O peso simbólico do que a lingerie (des)tapa. De nada valendo se não escorrer pitada de genuína e alegre malícia do olhar, dos gestos, da boca da mulher. Como mel sobre fatia de pão fresco.
CAFÉ DA MANHÃ
Com este texto participo nas reflexões sobre “lingerie e os seus mistérios” que ontem animou este espaço. Aos queridos comentadores Alba, Ela, Fallorca, Justo, Minderico e Pirata-Vermelho agradeço o privilégio de, a partir do quase nada que forneço, construírem um delicioso espaço de inteligência e graça.
Publicado por Teresa C. às 08:58 AM | Comentários (11)
outubro 27, 2007
GAVETA DE INTIMIDADES

Barndog
Comemorou o centenário a peça básica da lingerie feminina que às mulheres conforta o peito pelo contrapoder à gravidade. O Corte Inglés, alinhou na efeméride e surpreendeu-me com substantivo desconto numa sacada de intimidades. Abençoei, mais não fora pela economia ben-vinda, o espírito despachado e prático da jovem habitante de Manhattan, Mary Jacobs, que, descontente com o espartilho impossível de disfarçar sob o vestido de noite atrevido, a meias com a empregada concebeu um porta-seios a partir dum par de lenços e fitas. O original suporte resultou, as amigas cobiçaram-no e vendeu a patente por mil e quinhentos dólares à Warner Bros que em três décadas arrecadou um lucro de quinze milhões. Para a empresa o jackpot, para as mulheres a libertação do incómodo espartilho que desde a Renascença as comprimia.
O sutiã flutua na crista das ondas da moda – aumenta, diminui, abre à frente, atrás, ao lado, tem janela para a amamentação, rivaliza na serventia da fantasia com página erótica da Playboy numa gaveta masculina. Têm bolsas de enchimento – a estes chamo os de meia-mama -, arames, silicone, rendas ou népia delas, são leves como plumas, criam regos em vales suaves, sobem, arredondam, contornam a mama, podem deixar arejado o mamilo para que o colocado por cima revele, foram queimados, reabilitados, mas sobreviveram. Pujantes e lindos. Tentações sublimes para as mulheres. E temos gavetas cheias – organizados por cores, por finalidade, por ilusão. Cada um dobrado em concha e cujo recheio é uma microcoisa que substitui com infinitas vantagens la petite culotte. À Mary Jacobs o meu p(r)eito.
Publicado por Teresa C. às 09:58 AM | Comentários (12)
outubro 26, 2007
MIOLO VERDE

Mati Klarwein
A Visão desta semana tem miolo verde. Abordagens simples e suficientemente exaustivas para fazerem bruxulear chama de cidadania ambiental nos leitores distraídos, ou soprarem a dos informados não-praticantes. Até Bento XVI deve andar a ler umas coisas sobre o tema, por ser oficiosa a notícia de preparar uma encíclica verde. Como o produzido naquela geométrica cabeça muitas vezes é reviralho ao consenso e deixa à toa a pacatez das gentes, não lhe boto muita esperança. A ver vamos, porque no Estado de um palácio e parcos jardins que governa, podem os pulgões, reunidos em praga, ter dizimado as rosas e o Príncipe dos jardineiros declarar guerra santa à bicharada menor que lhe arruine os domínios.
Nesta onda de verdura que agita os senhores do mundo, julgá-los finalmente encarneirados no bom caminho é tolice. Se agora assobiam fininho é por levarem a sério Esopo, escravo com olho-vivo para a rataria humana, que garantia a ruína do fazendeiro apostado em exaurir a galinha dos ovos de ouro. Uns manhosos!
Eu, económica ambiental encartada que zela por não descambar para uma chata-do-caraças (os sapatos e botas e sandálias e malas nos meus armários provam-no), ando a remoer a moda das cremações. É espantoso como o homem é estróina até na hora da morte. Tudo o que não aquece nem arrefece o defunto está presente - círios ardentes, resmas de flores em molhos decorativos, laçarotes, urnas nobres, carrão funerário, dezenas de motores atrás em cortejo de combustível queimado. Quando o finado acaba decentemente em cova terrena, ainda ao despojo humano é conferido algum préstimo – entra na cadeia alimentar e obedece a Lavoisier. A cremação é só gasto. Tem aumentado na ordem dos 700%. Em noventa minutos, cocktail de gás natural, outro liquefeito do petróleo, diesel e energia eléctrica é emborcado pelo cadáver daquele que em vida, nada percebendo de retórica, decidiu apressar aquela do S. Afonso de Ligório - Pulvis es et in pulverem reverteris. Só que por um lado saem as cinzas e pelo outro dioxinas que todos juram de cruz não respeitarem a décima de nanograma por metro cúbico.
Asseados e, neste particular bem-pensantes, são os suecos. O gelo como alternativa ao fogo. Uma empresa propõe congelar os cadáveres a -18 ºC e mergulhá-los a seguir em azoto líquido a -196ºC. Ao emergirem, os cadáveres ficam quebradiços, posteriormente convertidos num pó através de sons. A partir daí, os restos mortais são filtrados para recolha de metais preciosos contidos nas obturações ou resquícios de «pacemakers» e outros implantes. Somente depois serão enterrados num caixão feito de amido de milho, a 30cm de profundidade, onde a terra os assimila. Em cima da campa é colocado um verde que aproveitará os nutrientes para crescer. Se o uso cá chegar depressa - trocando o gelo pela recuperação da salmoura nas salinas -, quero ser uma Syringa vulgaris branca.
Publicado por Teresa C. às 08:34 AM | Comentários (7)
outubro 25, 2007
MASTURBAÇÃO NO CONFESSIONÁRIO

Alain Aslan
Diferença entre masturbação masculina e masturbação feminina - a primeira é inócua e a segunda pode ser mortal (o xeque Yussuf al-Qaradawi assegurou que a masturbação masculina não tem qualquer problema, mas a masturbação feminina pode levar à morte se romper o hímen e o pai, irmão ou futuro marido da rapariga virem a matá-la).
Raramente uma laracha contém tantas verdades inteiras e meadas. O tempo passou pela masturbação feminina como manto negro que tudo abafa. Quem coscuvilhar o tema, pela maioria dos registos dirá que a mulher se masturba desde o meio do século passado. Nem no gineceu elas desentopem. Mas sabem. E praticam. E dão-se bem. Sem que à regra escape uma – piada maliciosa sobre o assunto congrega riso compatível com não-dito saboreado. Quis saber mais do que mal-disse o sorumbático Freud – “o orgasmo extra-vaginal é sexo infantil.” Neste particular, tenho-o por invejoso dum orgasmo independente do macho e respectiva penetração. Pior para ele, melhor para as mulheres, foi sabido depois: “O orgasmo atingido através da masturbação não é diferente daquele da relação sexual compartilhada, seja em intensidade, duração ou qualidade.” O Le Pen deve ter sabido disto ao sugerir a masturbação feminina como contraceptivo. Sempre à frente no desandar!...
Uma colombiana, Edda Manga, ganhou um prémio de pesquisa histórica pela sua tese de doutoramento sobre um caso de masturbação feminina em Havana no século XVIII. A tese, intitulada "Aparições divinas e copulações endiabradas", investiga o caso protagonizado por uma mulher que se masturbava durante horas enquanto se confessava na igreja. É um "relato sobre Cecilia Rodríguez, cuja vida na Havana do século XVIII transcorreu no meio do conflito entre as crenças religiosas africanas e os costumes do racionalismo ilustrado francês". Manga contou que nos documentos da Inquisição consultados, deparou com um sobre aquela cubana que se masturbava durante a confissão e que, além disso, convenceu os sacerdotes da Inquisição de praticar um acto sagrado. Muito mais criativa do que sugestões avulsas envolvendo webcams, jactos de bidé, o chuveiro, os vibradores, as bolas plásticas, o travesseiro (ainda em uso, ou o referido é uma almofada? Em qualquer caso um atentado ecológico – numa base diária, cada performance, uma lavagem!) e o high tech da masturbação - um sugador de clitóris que funciona a vácuo. Ouvi reconto dum artefacto usado pela mulher quando o companheiro está inoperante, pela distância, presumo. Sob comando do homem, a “coisa inteligente” inicia a função e a portadora sobe ao Éden. E se a coisa dessincroniza e ela está a meio duma reunião importante? Continua as intervenções subindo e descendo no assento? E porque é ele a regular a coisa? Chamem-me antiquada, mas entre alguns instrumentos inquisitórios e os actuais “masturbóides” não encontro substantiva diferença. Reparo final: e porque à masturbação feminina respondem mil instrumentos, quando a mulher vem de nascença equipada com o necessário?
Publicado por Teresa C. às 06:52 AM | Comentários (12)
outubro 24, 2007
O BRUXEDO DA GRUTA
Erica Chappuis
Contei para cima de um quarto de ano sem nos vermos. Na quinta-feira, animada pelo regresso ao trabalho, vi-me forte, julguei normalizado o tónus e a energia. Combinámos ultrapassar a distância do silêncio e alimentar a amizade. Porque cada afecto tem lastro, pesado o nosso, ritualiza atitudes e espera acrescentar faces ao cristal das memórias, entretivemos com ansiedade a espera pelo fim do dia. Do abraço cingido não contabilizámos o tempo. Nem o alívio. Nem a serenidade abarcada. E voltaríamos ao abraço se nos afastávamos para averiguar registos dos desmandos do tempo. Ou do entretanto vivido que do outro não sabíamos. Mas nada – a ponta seca e o buril, com os quais a vida grava os acontecimentos nos rostos, mal haviam começado a esboçar os registos.
Saímos para jantar. Demorou o entremez: “esta mesa agrada”, “uma bebida?”, “escolheram?”, “o vinho?”, a troca de copos e a ciranda. Na bonança da servilidade, dispensámos pancadas de Moliére e subimos ao palco da amizade. Fomos, como sempre, performers, combinando artes várias: o teatro para tornar vívidos factos, a música ressoando nas divergências que não enjeitamos, a dança do encanto que nos é tão cara, da alma os contorcionismos, os malabares do riso. No alto do teu trapézio voadar, dizias mais alto que o rufar dos tambores: “se nos deitamos com uma, e repetimos a (des)graça, vai cobrar-nos exclusividade. Sem entender que comer, beber, dormir, defecar e copular são actos de sobrevivência. Sabes que sou organizado. Mantenho o frigorífico abastecido para qualquer eventualidade. A fisiologia disciplinei na expulsão do desnecessário. A tesão escapa a regras. É imprevisível. Voltamos à organização e ao lume-brando das disponíveis. Nove números marcados, se não for a primeira, outra coincidirá no desejo. Porque não aceitam elas a urgência da queca um marcador genético, uma variante das orelhas-de-abano? Que teimemos nos couros-de-estatística – tentar até uma cair. Apagando provas e evitando prejuízos. Mentir, não!, mas omitir às respectivas por respeito. Há duas coisas pelas quais vocês nos dominam: a gruta e o caldo hormonal onde dissolvem adivinhação. Bruxedo. Que nos confunde e restaura, uma a uma, as pistas apagadas.”
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 06:51 AM | Comentários (7)
outubro 23, 2007
PULP FICTION SEM RESPOSTA

Wendy Ewell
Ligaste pelo meio de sábado. Estranharas a ausência de resposta ao Pulp Fiction que te atribuí como toque. As sms económicas. Perguntas, se tinhas, omitiste. Nem bailaram na voz. Inquieto, sim, no “estás bem?”. “Que não, que houvera uma noite horrível de rebelião orgânica contra os químicos da cura. Vomitara.” Contei da sede. Da diluição do corpo nos litros de líquidos ingeridos. Da liquefação muscular. “Almoçaste, miúda? Estás sozinha, pressinto! Meia hora e estou aí.” Não tive tempo de negar, dizer-te que preferia o nada. Recolhida na concha verde-lima-e-pérola. Fruindo do ninguém.
Ao abrir a porta vi um molho de margaridas à mistura com gipsófilas. “Encostas-as à face. Caramba, nisto devo ser bom... Tu e elas com a mesma cor! Estendeste o outro braço. “Não segures. Mexe. Não cheires, que no estado em que estás nem o braço do Gualdim Pais te sortiria careta.” Apareceste. Finalmente. Recortado no corredor. “Miúda, és divina! Em fato de noite como na mais perversa volúpia esperava encontrar-te! E os chinelos! Ah, como escolheste o pormenor matador... Fofos, quais barcaças onde se perdem os teus pés... Provocadora! Sabes que te favorecem as pernas." Eu ria e tu, sério, simulavas fascínio. “Deita-te no sofá. Estás proibida de abrir a boca salvo para um pedido.” Aconchegaste-me os almofadões ao corpo dorido.
Na cozinha, abrias gavetas e armários. Eu queda, tu calado, silenciando: “que diabo!, as cozinhas são todas iguais. Têm de ser!” Triunfal, dispuseste dois tabuleiros na mesa. As flores enfiadas num jarro. Passaste-me pelo nariz a taça de canja aromatizada com limão e hortelã. “Rejeita se és capaz!” E eu atrás do cheiro, da fruta partida nas taças, das margaridas e da renda das gipsófilas. A cada garfada e a cada palavra tua o apetite voltava. Quando sugeri um café, foste peremptório – “eu sim, tu não!” Cedeste num descafeínado da nespresso que me aromatizasse o sono.
Prolongámos o serão. Contaste-me do filme a que não pudera ir, como iam bem contigo noites com manta de música, “de preferência com gente ao lado que não tenha a face da cor das margaridas”. Rimos com gosto. Ao deitar, pousaste-me na testa o beijo da despedida – “volto amanhã para mudar a água das flores.”
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 08:47 AM | Comentários (10)
outubro 22, 2007
DEITADO COM A MULHER DO OUTRO, É O MARIDO QUE DESEJA.

Michael Zavros
Carlos Fuentes, alega ao seu Don Juan a frase: "Porque nenhuma mulher me interessa se não tiver um amante, marido, confessor ou Deus, ao qual pertença ...".
O mito de Don Juan representa um ideal masculino e, nalguns segmentos culturais, também um ideal feminino . Padrão de personalidade narcisista, enamorada, sem escrúpulos, amada e odiada, que tudo faz valer para conquistar uma mulher (homem). Ideal em alta neste tempo aberto à liberdade sexual explícita. Um Dom Juan é adicto à sedução, enamorado na aparência, abandonando depois a presa em favor de novas conquistas. Consultei Foucault que afirma arrebentar o Don Juan com duas grandes regras da civilização ocidental: a lei da aliança e a do desejo fiel (há quanto tempo arrebentadas, pergunto?). Foucault confere aos Dom Juans um aspecto contestador que, e sou eu a dizer, vai bem com a aura romanesca que lhe acresce favores.
Procurei ténues luzes na psiquiatria clínica: o desprezo para com o sentimento alheio pode ser critério para o diagnóstico de Sociopatia ou Personalidade Anti-Social. Para o Don Juan só conta o instante do prazer e o triunfo da conquista, principalmente quando a presa tem uma situação civil proibida (casada, irmã ou filha de amigo, etc). Ignora a decência embora, socialmente e pela própria arte da sedução, exiba o oposto. Alguns «psis» defendem haver, além do narcisismo com pendor feminino e imaturidade afectiva, significativos sentimentos homossexuais latentes nesses indivíduos - levando para a cama a mulher de outro, o Don Juan relaciona-se com o marido, o que aumenta o seu prazer.
Compulsivo jogo patológico, este. Apesar da compulsão, o doente de donjuanismo não é mais viril ou mais activo sexualmente, raramente apresentando um desempenho sexual que vá além do mediano. A mestria reside na habilidade de oferecer à mulher o que ela mais deseja. Seduz porque tem a habilidade de intuir os gostos e fraquezas das vítimas. Amantes banais, exímios encenadores teatrais. O mito do “Príncipe Encantado” com final infeliz. Como todos os mitos.
Publicado por Teresa C. às 09:18 AM | Comentários (12)
outubro 21, 2007
PARA ENCONTRAR A ALMA GÉMEA

Kim Parkhust
Alma gémea. Conceito comum nas bocas masculinas. Piamente acreditam que as ditas almas os esperam num volta do caminho. Esoterismos avulsos e livros-de-auto-ajuda recomendam energia de pensamento focada nessa procura. E muita fé. Dizem que Deus ao criar a alma deu-lhe a forma de uma esfera. Cortou-a depois em duas metades e colocou cada uma num corpo diferente. A alma gémea é a nossa metade perdida que temos por missão encontrar para um amor eterno. Que pode estar ao nosso lado ou num país distante. Que nos amará todos os dias e que amaremos de igual modo. Sem desfalecimentos. Sem dias de amor menor. Num éden de perfeição afectiva. Até ao fim do tempo. Até a eternidade. A morte como incidente que no além conservará unidas as duas partes da esfera. Para encontrar a alma gémea, rezar. Acender uma vela. Pôr de molho quartzo rosa numa jarra com dois litros de água. Colocar, durante cerca de 4 horas, o cristal em 0,5 litro de água pura com um punhado de sal marinho. Lavá-lo depois em água corrente (em água limpa de rio ou no mar). Tomar o cristal nas mãos e orar pelo esbarrar como a alma gémea. Colocar o cristal no vaso com água até 80% da sua capacidade. Utilizar, de preferência, água mineral ou filtrada. No dia seguinte e desse dia em diante, em jejum, tomar um copo da água, repetindo o desejo de encontrar a alma gémea. Repor a água à medida que a for gastando. A água e o quartzo rosa irão abrir o chacra cardíaco, preparando-nos para o amor e a felicidade.
Num sítio tão precário como o mundo, não desistir de um quinhão de eternidade é a nova utopia. E nascem seitas, abarrotam as agendas dos astrólogos e os consultórios dos vendilhões de corpos eternamente jovens.
Publicado por Teresa C. às 12:15 PM | Comentários (6)
outubro 20, 2007
LIBIDINOSA CHAMA

“Proibido fumar em locais fechados”. Para muitos um alívio por se verem livres do fumo dos adictos da nicotina. Para estes, será um atentado não só ao vício, mas a uma das mais antigas e eficazes técnicas de abordagem. A espera do voo num aeroporto, uma bebida num bar, a obscuridade da discoteca, o atraso de alguém para um jantar que o enfado aguarda perdem a dose de improviso que o “tem um isqueiro, por favor?”, ou comentário de arrependido adiado tingido de insinuação debochada – “isto faz tão mal; devíamos deixar-nos disto... Lá se ia o-faz-mal-sabe-bem, e não me refiro só ao tabaco...” A chama de um isqueiro incendeia libidinosamente o cigarro num entretém de tédio e fornece pretexto para potencial satisfação das pulsões dos incontinentes sexuais
À partida, a fumaça é denominador comum que permitir explorar outras afinidades. Todas juntas a convergirem na “irmandade das almas”. “Gémeas” nos alvores da conquista. Cada baforada permitindo a pose do silêncio fácil de confundir com atitude reflexiva. Fatalmente sedutora se lhe for somado um olhar matador e voluptuosidade. A atmosfera nublada e a idêntica condição de proscritos do politicamente correcto prometendo intimidades rebeldes.
Com a proibição, o relacionamento social sai, numa primeira fase, prejudicado e com sérias consequências na economia nacional – as etapas seguintes a qualquer «engate», jantarinhos, motéis e hotéis, desaparecem. Contudo, criativos como somos quando «desenrascar» é preciso, não nos deixaremos abater. Fumaremos à sorrelfa e o institucionalizado «engate» permanecerá imune a pressões.
Publicado por Teresa C. às 11:49 AM | Comentários (13)
outubro 19, 2007
DESNUDA-ME

Barndog
Desnuda-me e deixa coberta a pele. Entreabre a tua cortina. Arreda-a como é comum entre vizinhos. Supõe-te numa rua esconsa e sem história. Confina o teu mundo ao que vês da janela. Fascina-me com as histórias cruzadas dos meios pequenos - em que todos vigiam e espreitam e se esgueiram na privacidade de cada um – deturpadas por mulheres solitárias ou por homens limitados ao espaço caseiro pela doença ou desocupação. Claro que a cortina é branca com renda na ponta, franze junto ao vidro, e a deixas cair se me vires a consciência da tua atenção. Não te detenhas na roupa ondulando no estendal, impecavelmente estendida, não vá a lambisgóia do 3º Esq. julgar desleixada a do 2º. Inventa-me neste cenário. Tu espreitas. Eu simulo não dar conta. Logro em que sabemos mover-nos e te faz sorrir ao veres-me, na rua, inclinada para apanhar a chave caída com a sabedoria da mulher que deseja enfeitiçar – pernas esticadas, imodéstia no agachar, as curvas coladas à saia.
Lê-me. Sem receio. Lê-me como um homem que distingue lábios tentadores do útero da mulher. Desatende ao coquetismo. Não te alongues no molde ou no peito arrebitado. Deleita-te. Não esgalhes conquista. Quero que sejas regra e negues a excepção. Entende porque me é tão caro este éter. Aqui há a palavra. A oportunidade de vasculhar o outro por dentro. Basta esperar. Descasca, camada a camada, a cebola. Chega ao âmago. Sem desvios. A objectividade em serviço. O mistério aguçando o apetite. Acresce ao dia azul. Rasga um inesperado sorriso.
Dizes que a minha escrita intimida. Troca verbos e pessoas. É oblíqua. Levanta um pouco mais a ponta da cortina. Vê melhor. Repara como engrinaldo o quotidiano. Consegues ver-me a conjugar roupa e acessórios que amanhã vestirei? Orienta-te. Entrei na cozinha. Separo a louça para o jantar. Volto à sala. Estendo a toalha e alinho os talheres. Os guardanapos enrolados e presos numa margarida como argola. Não me vês à volta dos preparos da comida? A organização escapou-te. Subtil, eu? Repara no que visto. Estou solta dentro das calças seguras com atilho e da camisa de algodão. Descalça. Viro-me. Olha a mola que me prende algum do cabelo. Pareço-te oblíqua? Intimido? Trauteio incoerência no que pareço e faço? Esquece o que sabes das mulheres. Eu sou uma. Una. Nada mais.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 12:00 PM | Comentários (6)
outubro 18, 2007
A HISTÓRIA DO FEIO

Jim Warren
Do Feio reza a história. Desconheço se Savinien de Cyrano possuía a disformidade inspiradora da peça de Rostand. Factos são o Savinien ter acrescentado ao nome “de Bergerac” e estarem os seus despojos corpóreos sitos no Cemitério do Père-Lachaise.
“Pintor algum jamais desenhará
perfil semelhante ao de Bergerac;
mais bizarro, excessivo, extravagante,
grotesco, caricato e petulante!
Penacho no chapéu, capa e espada,
corajoso não perde uma estocada!
Fingindo um rabo de galo insolente
empina-se e enfrenta todos o Valente!
Exímio espadachim, consigo porta
uma crista esquisita, rubra, torta...
Um nariz! Mas que penca gigantesca,
feia, disforme, polichinelesca!
Todos que vêem um narigudo tal
pensam: Ah Meu Deus, que hipérbole nasal!
Não seria melhor tirá-lo? Engano!
Jamais o tira o intrépido Cyrano!”
Aristóteles distinguia o Belo e o seu oposto: o primeiro como um indicador de virtude, o Feio como o mal e o seu sinal. Os conceitos primários de hoje quase cópia daqueles. O Feio dominando aparições dum real feito de sombras e de medos. Associado ao cómico e ao obsceno. À dor. À doença. À fome. À guerra. À exclusão. "É considerado feio o rosto dos excluídos, o trabalhador rural, as mãos embrutecidas do operário. É preciso uma estética de libertação a partir dos oprimidos, que são a maioria da população que não se encaixa nos padrões de beleza", li por aí. E negamos o desagradável. Afirmamos, socialmente, não existirem pessoas feias, idiotas ou malvadas. Mas, não existindo o pouco inteligente o feio e o malvado, como pode haver o superdotado, o belo e o bondoso?
“Beauty is in the eye of the beholder”, lugar-comum que exclui o Feio - Feio, do ponto de vista de alguém, nada mais. Nas vanguardas do século XX surge o triunfo do Feio, também como contrapoder. A fealdade portuguesa pela mão do Almada, do Amadeo de Souza Cardoso, dos expressionistas Eloy, Pomar, Júlio Resende, dos surrealistas Dacosta, Cruzeiro Seixas, Nos percursos individuais de Júlio Pomar, Paula Rêgo, Bértholo, Batarda. Todos dando corpo a uma "bela fealdade" contemporânea.
Bernardo Pinto de Almeida escreveu: “O Feio é a irrupção do expressivo. Enquanto houver fealdade, há esperança e utopia.” Sejamos feios.
CAFÉ DA MANHÃ
De Umberto Eco, a “História do Feio” - edição da Difel (colecção Álbuns Ilustrados).
Publicado por Teresa C. às 07:52 AM | Comentários (7)
outubro 17, 2007
PASSAROLA, PÁSSARA, PASSARINHA

Al Moore
Passarola. Pássara. Passarinha. A do Bartolomeu de Gusmão que em voo galgou um quilómetro e aterrou no Terreiro do Passo. A do Chico Buarque. A azeitona miúda. Ou outra. A Cila. Que galga e aterra e exaspera e é traquina.
Entorpecida por shot – malgré o volume de líquido engolido deixar longe os 44,4 ml – de Ben-u-ron, Brufen e Actifed com o propósito de embebedar o vírus que me escolheu para ninho, quem zonzeou fui eu. A cabeça é uma coisa vaga, algures acima do pescoço, onde o nariz não pinga porque o Actifed proíbe, que não dói, nem reage, nem embirra, desde que a intercalada dose de BBs mantenha o nível de anestesia. Depois, há a humilhação. Uma coisa é ter uma gripe - a do ano, se possível, que nisto, como em tudo, gosto de me sentir up to date - com dignidade reconhecida por vacina e temor das gentes, outra é a condição de constipada que legitima cara-de-mete-nojo, e muito diferente é uma virose sem pedigree reconhecido. Ao “coitada, que tens?, estás com um aspecto péssimo”, respondo a verdade e vem o escrutínio: “o que sentes?, dói-te a barriga?, tens diarreia?, vómitos?, eu tive isso quando estive de férias em Cabo Verde.”
A Cila (aos recém-arribados esclareço ser a mui querida funcionária), ao contrário do seu comum, só piora. A meio da tarde, constato azul o aro da sanita. Indago a razão. Dá-ma: “encontrei-a assim, e até os lençóis da cama mudei por estarem azuis. Está tingida; não sai nem com lixívia. Calei para não incomodar” Eu, parva. Não me abati: “e os lençóis?” – “Já os meti na máquina e saiu o azul!” O queixo pendia-me. “Como, se de manhã estava tudo normal e a lingerie é branca? Sugere que me sentei em cima de uma lata de tinta, não dei conta, adormeci calmamente, acordei, et cetera e tal e nada vi?” Que sim, que fora distracção minha, “coitadinha, também no estado em que está!...” Conduzi-a ao local do crime. Levantei o aro e, pela zanga baixando o tom de voz, tossi: “ a virose desta tinta branca empolada, a madeira à mostra, o riscado do esfregão, tem nome: lixívia da boa e detergente com amoníaco. Não repita.”
Pássara
E aí
Ela cisma de voltar
Sorri
Quase pra te provocar
Sim, goza tal felicidade
Que tu vais ter que te amargar
Vais perseguir a maldita
Vais insultá-la na rua
Vais jogar pedras na lua
Vais montar uma guarita
Pra que aquela esquisita
Não se atreva a voltar
E aí, e aí, e aí
E aí
Ela cisma de voltar
Sorri
Quase pra te perdoar
Sim, exala tal liberdade
Que não podes mais tolerar
Vai manchar tuas verdades
Vai se enfiar no teu leito
Trair-te no teu próprio peito
Vai quebrar todas as grades
De que um homem é feito
Pra esquecer de voar
E aí, e aí, e aí
E aí
Ela cisma de voltar
Sorri
Quase pra te convidar
Quase pra te convencer
Quase pra te complicar
Quase pra te confundir
Mesmo pra te enlouquecer
Mesmo pra te despertar
E aí - Chico Buarque
CAFÉ DA MANHÃ
A pedido do Reverendo Arcepispo, com gosto divulgo o Passatempo "Melhor Post de Humor da Semana"
Publicado por Teresa C. às 09:21 AM | Comentários (11)
outubro 16, 2007
MULHERES - COM NAILS OU SEM
Aurelie Corre
As mulheres de hoje dividem-se em duas categorias fundamentais: as que têm nails e as que se limitam às unhas nas mãos. As nails impecáveis, longas, duras como penedo, envernizadas por igual, luzindo a perfeição. As unhas ratadas, incertas, prontas a lascar - como se tivessem proveito para carpaccio inovador – e a quebrar se a dona as quer inteiras para complementar o glamour. Que ela inventa, porque é diversificado o gosto pelo pouco poético órgão córneo das mãos. Se alguns (anormais?) têm fascínio por unhas roídas!...
Mulheres com nails deveriam constituir case study. Prescindem de manusear objectos de modo inconsciente. Vasculhar o fundo da mala em busca das chaves ou da caneta é arriscado por chegarem primeiro as nails e depois o dedo. Apanhar bem caído ao chão só de cócoras e com tempo para organizar as pinças. Carregar o telemóvel obriga a conhecer leis da Mecânica - os dedos, como alavanca inter-resistente, levantam a tampa onde o “pinchavelho” encaixa. Ao vestirem uma manga encaracolam as mãos. Uma carícia obriga a calcular distâncias entre a pele-alvo e a polpas dos dedos. A Matemática sempre a bombar. Tarefas domésticas, sim, mas pausadamente. Detergentes são maldição – vai a cola, o verniz e o gel. Imprescindível: saber de Química. Mulheres com nails - cruzamento científico entre Newton, Mendeleiev e Pitágoras. Uns portentos!
As pueris ou mal-amanhadas, como eu, apreciam a impetuosidade dos gestos e suportam a precariedade das unhas. Cortam, limam, põem creme, pintam os tocos de sobra e dão-se por felizes se elas adiantam dois milímetros às pontas dos dedos. Mas experimentei nails, que não sou menos do que as outras e nas disciplinas científicas tenho competências. Há pouco menos de dois meses, um evento pedia esmero máximo. Após um ror de tempo na manicura, saí aviada com elas. Esplêndidas. Durante dois dias mirei para cima de cem vezes os apêndices. Ao terceiro dia, ronronas tu, ronrono eu, vem p’ra aqui, vai p’ro lado, e zás!, uma deu de si. Quebrou numa diagonal inverosímil - meia à mostra a modesta verdade. Tardou o regresso da risada para o começado que a nail interrompera.
CAFÉ DA MANHÃ
- Dois milhões de portugueses vivem com menos de 360 euros. Se esta quantia não fosse garantida pelo Estado, o número subiria a quatro milhões. Pouco aquém da metade do nosso povo. Fica claro o mau-gosto do texto acima.
- Para a fracção mínima de gente que de uma unha partida faz drama, encontrei receita que alivie a mágoa e deixe disponível para os dramas sérios que ao lado acontecem.
“Conserte unha com papel”
“Você esperou quase três meses para as suas unhas crescerem, mas no primeiro descuido... ték, quebrou, lascou, detonou! Parece conspiração, quando as unhas estão grandes e bonitas, sempre tem uma engraçadinha que resolve acabar com a festa. A solução é cortar? Calma, nem tudo esta perdido. Colar com papel. Parece estranho? Que nada! Você só vai precisar de uma cola própria para unhas (do tipo que cola unha postiça) e de um lenço de papel. Daí é só cortar um pedaço bem pequeno do lenço de papel e colar sobre a fissura da unha com a cola especial. O papel fica praticamente imperceptível porque adere com facilidade. Depois é só pintar as unhas normalmente e fingir que nada aconteceu. E se molhar? Sem problemas, a cola protege o papel. Você terá que trocar o papelzinho a cada dez dias, aproximadamente, até a unha crescer.” Um achado de engenharia, digo.
Publicado por Teresa C. às 10:16 AM | Comentários (17)
outubro 15, 2007
O AMOR-PAIXÃO DENTRO DELE

Jia Lu
Num acaso, encontrei a Leonor. Partilhamos a condição de amigas que a ausência de presença e fala não deteriora. Linda sem o ser. Tem o je ne sais pas quoi que faz brilhar uma mulher num recinto apinhado. Virar a cabeça dos homens. Aos discretos enviesar os olhos. Aos acompanhados por outras mulheres responderem a estas mecanicamente, enlaçando-as, até, como manobra de diversão, enquanto nela entornam cobiça e gula. Alta, corpo definido e esbelto, pele de cetim. Olhos profundos. Gestos sábios. A sedução com nome: Leonor.
E falámos. E contou-me. De muito já sabia – os renovados amores. Jamais sozinha. Mesmo quando as aparências mantinha. Homens na sombra. Homens na luz. Um de cada vez. Quando de um amor fazia cinzas, outro a incandescia. Persistia nos afectos que prolongava durante anos. Sem leviandades. Ou aventuras. Ou triangulações. Excepto durante o velório do amor que partia. Isenta de reservas ao que surgia. Entregue inteira. A cada um contando a verdade de quem era. Omitindo a existência do poço para onde o arrastaria. Viva a esperança daquela vez não ser assim. De manter acesa a fogueira da alma e do sexo. Límpida e franca quando mentia e assegurava intacto o amor. Que a mutilava.
Disse:“Há duas coisas em que não posso tocar, a família e os sentimentos. Quando esqueço uma, a outra desfaz-se. Destruídas ambas, o que me fica? Luxúria? Bestialidade? Cacofonia de rugidos, uivos e arfares? Por isso despeço o homem que tornei família e me desfaz sentimentos. Penso-me injusta ao repeli-lo. Mas desiludida pela alma do homem, cansa-me o sexo com ele. Preciso de me sentir só. Tapar o poço com pesada laje de cimento. Eu cá fora. O amor-paixão dentro dele.”
Vi luto no rosto dela. Abraçou-me - nunca o havia feito. Tínhamos a face molhada no beijo da despedida.
Publicado por Teresa C. às 06:48 AM | Comentários (9)
outubro 14, 2007
BEN-U-RON, OK! E MARTAS

Keith Garv
Fim de semana soalheiro com desfrute fora-de-portas. Contrariedade: gripe, virose ou menu completo duma constipação (pingo, corpo moído, tosse, arrepios e febre). Há um par de anos que me passeava sã e rija como um pêro, espantando a Influenza sazonal. Ganho o recorrente desafio dos cabelos torcidos e derramados pelas costas ao sair do ginásio nos dias de briol, tinha por certas defesas eriçadas ou ruindade celular que os microorganismos saltitões recusavam como pasto. Quem na arrogância chafurda, mais cedo do que tarde recebe ensinadela de truz - garganta dorida, nariz arrolhado, latejos na cabeça como tambor rufando num tatoo militar, pela dores os ossos proclamando, um a um, a existência. Achando mal empregue a cama para imobilidade doente, conhecendo dos sofás o (des)conforto estimulante para jogos e várias brincadeiras, prefiro calmarias aconchegantes. Mais eficazes que Ben-u-ron, chutam para um canto os sintomas.
Diminuída a energia do físico, o paracetamol exponencia a do espírito corrosivo. Calhou à OK!TeleSeguro a vez. Na parte de um dia (in)útil, obriguei-me a tirar senha para uma Marta imprimir uma documento. Três mulheres aviavam duas freguesas – uma era manifesto caso de incontinência nas teclas. Tirei a senha vinte e oito, excedendo em seis a última em atendimento. Não me pareceu mal. Decidi entreter a espera “limpando” o telemóvel. Nem saquei do livro por estar a leitura em “ponto de pérola” e não merecer a desfeita de interrupção abrupta. Dez minutos voaram. Esmiucei as funcionárias. Marta nem uma. Sorriso avaro, olhar mortiço, tédio na atitude e na fala. Duas horas depois, quatro clientes aviadas. Mau rácio. Por essa altura, na leitura chegara ao “ponto de estrada”. Homens só os que arribavam e sumiam vindos das entranhas da sede, um deles, convenho, bem servido de traseiro e figura condizente. Duas horas de espera para enfiar na pasta o papelucho.
Perplexidade 1 – a Marta açucarada dos spots publicitários atende primorosamente os homens enrascados. Tudo resolve em menos da queima de um fósforo. Pela mensagem subliminar do anúncio era suposta predominância masculina na clientela. Será que as respectivas os substituem na ida à OK! temendo das Martas os encantos?
Perplexidade 2 – desmentida a suposição anterior, as burocracias domésticas estão a cargo delas? Que farão eles entretanto? Almoçam e cavaqueiam amenamente no interlúdio do trabalho? Aproveitam para abastecerem a despensa familiar, poupando-as a pesos esforçados? Servem o almoço aos filhos?
Perplexidade 3 – se a rapidez na resolução de incidentes é o leitmotiv da companhia e da publicidade, façamos contas: duas clientes aviadas por hora, dezasseis por dia saindo com fúria e desilusão nos rostos. Por isso a Marta existe na publicidade. Sorri delico-doce. E atende homens. E é eficaz. A Companhia também, assim a Marta estivesse ao serviço. Que não está. Daqui o documento de rescisão do contrato.
Publicado por Teresa C. às 11:23 AM | Comentários (15)
outubro 13, 2007
A TEORIA DO 11

Paul Azzopardi
O 11 passou a número inquietante.
Atentemos:
1- New York City tem 11 letras.
2- Afeganistão tem 11 letras.
3- 'The Pentagon' tem 11 letras.
4- George W. Bush tem 11 letras.
Interessante:
1- Nova Iorque é o estado número 11 dos EUA;
2- o primeiro dos voos que embateu contra as Torres Gémeas era o Nº 11;
3- o voo número 11 levava a bordo 92 passageiros; a soma dos seus algarismos dá: 9+2 = 11;
4- o avião que fez explodir as Torres, levava 65 passageiros; a soma dos seus algarismos dá: 6+5 = 11;
5- a tragédia teve lugar a 11 de Setembro, ou seja, 11 do 9; a soma dos seus algarismos dá: 1+1+9 = 11.
Perturbador:
1- as vítimas totais que faleceram nos aviões eram 254: 2+5+4 = 11;
2- o dia 11 de Setembro, é o dia número 254 do ano: 2+5+4 = 11;
3- a partir do 11 de Setembro sobram 111 dias até ao fim de um ano;
4- Nostradamus (11 letras) profetiza a destruição de Nova Iorque na Centúria número 11 dos seus escritos.
Intrigante:
1. as Torres Gémeas tinham a forma de um gigantesco 11.
2- o atentado de Madrid aconteceu no dia 11.03.2004. Somando estes algarismos dá: 1+1+0+3+2+0+0+4 = 11.
3- o atentado de Madrid aconteceu 911 dias depois do de New York. Somando os algarismos dá: 9+1+1 = 11
Arrepiante:
- ALVALADE XXI tem 11 letras... .
Conclusão lusitana:
Bin Laden é «lagarto» desde pequenino.”
Autor desconhecido que nem no ócio dá folga aos neurónios
Nota: teoria tão válida como a do “Murro num Electrodoméstico e ele Passa a Funcionar” ou a do "Casamento como Relacionamento a Dois em que Uma Pessoa Está Sempre Certa e a Outra é o Marido."
Publicado por Teresa C. às 08:09 AM | Comentários (9)
outubro 12, 2007
CAPUCHINHO-PRONTO-A-COMER

Keith Garv
Ontem, cheguei derreada. Uma dúzia de horas fora de casa. Para quem do cocooning é fã, custa. Demais. Num quarto do dia mergulhei em “yottas, zettas, exas, petas, teras e gigas”. Ao baixar a fasquia, passei aos “pico, fento, ato e zepto”. Um desmando intelectual. Computadores bloqueados - máquinas mais imprevisíveis e teimosas que muitos humanos – planificação escangalhada, foram impostos interlúdios que não descurei. Violadores compulsivos. Presos e soltos. Risco social. Que fazer? Avisar a comunidade que os irá receber? Deixar que o anonimato desça como pano de cena e conclua o primeiro de muitos actos? Castração química? Se até a NASA discute a castração temporária dos astronautas privados de sexo em longas missões espaciais, pelo receio de eventual disputa que ponha em causa o sucesso da incumbência!... Alvitre: obrigar os violadores a remediarem-se com os buracos das fechaduras. Parece-me bem. Julgo que muitos deles endoudaram pela exiguidade ou fragilidade ou obstinação dos atributos que não cessam de testar.
Não indo, nem vindo as máquinas – suprimo, pudor obriga!, a deliciosa máxima da queridíssima Margarida em vernáculo expressivo – falada foi a diferença ente liberdade sexual e libertinagem. Estória: ia o capuchinho vermelho cantarolando olari olará, quando se depara com o lobo-mau. Olhar comprido e dardejante, rosna, adocicando o tom: “vou comer o que nunca ninguém te comeu!”. Responde a menina: “Ora, ora, não sejas parvo, só se for o cesto!”. Substância da graçola: o capuchinho pronto-a-comer, o lobo comilão como metáfora deste tempo, de muitos tempos, de todos os tempos. Negar é ocioso.
Foi omissa a reacção do predador. Estou convicta duma gaguejada resposta, de brusca falta de apetite, da súbita pressa em sair dali, alegando outros afazeres. Descosida a ancestral farda, os lobos-maus ficam indefesos perante capuchinhos-vermelhos que de si conhecem o querer.
CAFÉ DA MANHÃ
A química de superfícies “rendeu” o Prémio Nobel de Química 2007 ao alemão Gerhard Ertl. Os estudos que desenvolveu foram divulgados à comunidade científica uma década atrás. Este desfasamento entre o “Eureka!” e o prémio, resulta da necessidade de confirmação prática da teoria desenvolvida. Em qualquer ramo da ciência é semelhante a este o processo de validação.
A romancista Doris Lessing venceu o Prêmio Nobel de Literatura 2007. “Nascida na Pérsia (actual Irão) em 22 de outubro de 1919, filha de britânicos, ela é a mais idosa vencedora do Nobel de Literatura e a 11.ª mulher a ganhar o prémio. A última foi a austríaca Elfriede Jelinek, em 2004, e a primeira, a chilena Gabriela Mistral, em 1945.”
O Prémio Nobel da Paz foi repartido com Al Gore. Mérito indiscutível por desde os anos oitenta, em que somente alguns cientistas se interessavam de modo sério e empenhado pelo ambiente, ser o único político de nomeada a defender corajosamente a poupança energética, o acesso igualitário aos combustíveis fósseis e divulgar ao mundo a Verdade Inconveniente de depender a paz dos povos da preservação do planeta como bem comum.
Publicado por Teresa C. às 09:22 AM | Comentários (15)
outubro 11, 2007
EROTICA.COM

Honey Potter
Aprecio boas companhias. Boas real e metaforicamente, entenda-se. Sem que boas precisem de ser nos dotes corporais. Ou também, que a beleza não enjeito. O meu critério fugidio como enguia aos padrões convencionais. A beleza costumada raramente me encanta porque isenta de senão. Ora, é o senão que apita o desafio. Entro nele bem ou mal equipada. Único objectivo: jogar. Da cabeça o conteúdo, do tronco o coração e dos membros os gestos. Condição: adversário bom, real e metaforicamente. Bom significando melhor que eu, o que aumenta o leque das escolhas. Regra única: não a ter. Regras são como forma de bolo - limitam. Enfadam. E não podem, por ficarem tolhidas as boas companhias. As companhias boas, são como alho chocho ou cebola melada por dentro – secas ou bajuladoras. Secas pelo pregão da moralidade, bajuladoras se extremam a brandura.
Dei por mim, enviesado o caminho à conta do “Sem Pénis”, ligada a sítios extraordinários pela recomendações dos respectivos autores. O Saúde Masculina considera que as leituras daqui fazem bem à saúde deles. Penhora e responsabiliza a deferência, pensando eu nas almas que me têm por feminista (dignificar as pessoas, entre elas as mulheres, é isso?) e aguerrida (sou lá capaz de guerrear um parceiro de jogo, salvo em posições de improviso ou concertadas?!). À Paula Lee, como Amante Profissional, deduzo não lhe prejudicar a freguesia. Selecta. A freguesia e a excelência da cabeça, o mais ignoro, da que se reclama disponível para sexo marcado. The last but not the least, no “http://megite.com/$erotica/:tour_sapphicerotica_com/” estou ensanduichada entre o “Sex and Propaganda” e o “Fetiche Dreams”.
Não posso, não devo, não gosto de desiludir aqueles que aqui depositam confiança. Olhando de alto a baixo esta página, contabilizo um rabo, um nu enfezado, outro entretido com uma câmara e um de cócoras. Em quinze dias, correspondi às expectativas daqueles visitantes quatro vezes. Pouco, muito pouco. Estarei a dar em “certinha”? Que me livrem os deuses e, não sendo pesado o incómodo, me ajudem a levantar bem alta a bandeira do erotismo.
Publicado por Teresa C. às 06:35 AM | Comentários (12)
outubro 10, 2007
QUAL CÂNDIDO DE VOLTAIRE

Dinh Dang
Facto: o L. M., bom amigo, propunha-se ler a revista do semanário, refastelado no altar da «casinha». Metade do serviço aviado, abonou-se de papel para a limpeza intermédia que depois largou na cova do altar. Continuada a leitura, enquanto mais não chegava, fez um golpe no dedo ao desfolhar o papel. Hipocondríaco, alcançou álcool e algodão, não entrasse “microbicharada” pelo golpe mínimo, quiçá infectando, pior, alastrando numa septicemia mortal. Tratou a ferida e remeteu o algodão à companhia do papel e do despojo intestinal. Acendeu um cigarro e continuou a leitura. Não havendo modo do resto arribar, lançou a beata para a cova. Só deu pela coisa quando o traseiro e os apêndices passaram de quentinhos a pasto de chama. Levanta-se de supetão agarrado ao essencial, desequilibra-se e bate com o cocuruto na esquina da bancada. Vai de charola para o hospital com as pudendas partes queimadas e a cabeça rachada. The End.
Livre-arbítrio: “possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante.” Mas a isenção de condicionantes nos nossos actos, existe? Determinismo ou liberdade de escolhas? Sobre isto, há muito a Filosofia anda às turras. Facto é a sociedade de hoje resultar do livre-arbítrio passado e cada um se defrontar com os resultados das acções. Os membros idos e vivos das sociedades terrenas fizeram menos do que deviam em beneficio do bem comum. Miséria, desemprego, violência não existiriam se outro tivesse sido o comportamento colectivo. Esta realidade permite a milhões o livre-arbítrio? Assim sendo, a concepção determinista, segundo a qual todos os acontecimentos são consequência de circunstâncias anteriores, ganha terreno. Mas não foi o L.M. que decidiu desinfectar a ferida? E fumar? E ir para a «casinha» ler o jornal? Porém, foi à casinha sob imperiosa necessidade física que do arbítrio não dependia. É hipocondríaco sem que num amanhecer rezingão tenha decidido: “vou tornar-me um apanhadinho por maleitas”.
Num tempo soft & light como o nosso, vinga o soft determinism (aceita a paridade do determinismo com a liberdade de escolhas) ou “livre-arbítrio compatibilista”. E trago a estória de Voltaire sobre o passarinhar no mundo de um sujeito chamado Cândido que decidir a sua vida não conseguia. O livre arbítrio existe, mas pelas desigualdades (as sociais encimando o rol) elevado número de pessoas jamais chegará ao ponto de tomar uma decisão importante na vida por faltar à sobrevivência o fundamental.
CAFÉ DA MANHÃ
Agradeço ao Edgar o destaque que achou por bem dar ao “Dicionário Buá-Português”.
A não perder este "Amor Tóxico”.
Publicado por Teresa C. às 06:27 AM | Comentários (5)
outubro 09, 2007
O ROSÉ QUE NO FRIO ESPERAVA

Barndog
Sabia o mês, o dia, dele o meio, em que dela entendeu a inquietação. Início de Junho. Dia sétimo, pela manhã. No sítio de fins-de-semana e verões interrompidos quatro anos atrás. Que amava. As memórias e o lugar – as abóbadas mansas dos pinheiros, a terra de relva esparramada até ao areal isolado mesmo no zénite do estio, a açoteia da casa ao oceano virada por dois lados, os pine-cliffs – assim baptizara os dez centímetros de ave de peito dourado - que, num bater de asas veloz, debicavam pinheiros.
Após o concerto da Gal, o dia seis acabado, voaram pela A2. Fosse pelo silêncio climatizado que a brandura da música compunha, ou pela fadiga acumulada, à meia dúzia de frases a vigília soçobrou. Fez do corpo uma concha e adormeceu. Rondavam as duas da madrugada quando acordou, a tempo de orientar o encontro com a casa. Branca, rasa visto da rua da Aldeia Velha, com primeiro andar se olhada da praceta interior. Aspirou o cheiro do arbusto resinoso que os jardineiros continham e para ela resultava como agulha de bússola. Imóvel, escutou o ressono do mar. Entrariam depois. Ele surpreso, ela acostumada. Numa súbita espertina mostrou-lhe os cantos, os quadros, a harmonia do espaço. Ele abriu uma garrafa de Rosé que no frio esperava. Tomaram enrolado assento na moleza do sofá. E conversaram sobre o que não era esperado. O deslace começou ali, antes de sobreporem os corpos, do sono e das nesgas da manhã infiltradas pelos desencontros dos reposteiros.
Na esplanada cerce à praia, madeiras tratadas por fronteira, beberam o café do acordar. Loquaz, desfilava entre risos factos, anedotário ali vivido, os olhos fulgindo e aos poucos esmorecidos pelo desconforto dele. Entumecido por fermento que ela, esforçada, não sabia identificar. E diluiu a fala até a rarefazer o bastante para dele saber. Foi como desrolhar pipo intacto com vinho novo – o conteúdo rojou com fragor. Brotaram ciúmes das memórias, condenou a prosápia do lugar, a que nela via e pessoa simples desmentia. Ao estancar as golfadas de azedume, o silêncio era cerrado. Ignorou ou não soube ou não quis entender a mulher que nos afectos abrangia pessoas, coisas e lugares. Mas ela soube. Sempre soubera não amar quem ao seu lado não caminhava. Quem desentendia a música do dizer. Por querer. Ficando, abandonou-o. Ali. O lugar, amava. O homem, não.
Publicado por Teresa C. às 06:49 AM | Comentários (8)
outubro 08, 2007
DICIONÁRIO BUÁ-PORTUGUÊS
Graham Mckean
Observando o nosso povo, arrisco: já somos velhos no primeiro buá-buá. Houvera dicionário “buá-português” e dos recém-nascidos o choro seria lamento – “que não, que não podia ser, que estavam tão bem aninhados no útero, era direito adquirido desde a concepção, não tinham sido avisados do aluguer a prazo do lugar, e era injusto, ou lá se era!, verem-se obrigados a, dolorosamente, encher de ar os pulmões. Vítimas das déspotas regras da genética e do abandono pelos “sindicatos da infância por nascer”. O governo ainda menos, ou teria providenciado legislação que impedisse saída do ventre materno antes das quarenta semanas - as trinta e oito forçam-nos à selva aérea, quando quinze dias de nada-fazer os livrava de mãos inábeis e ansiosas e chuchas e colos desajeitados e berços duros e arrotos e sono vigiado. Uma seca!”
No estado adulto, as queixas, na essência, não diferem – somos infelizes ou desafortunados pela incompetência do poder político, pela sobranceiro domínio do dinheiro (quem diz dinheiro diz petróleo ou água num qualquer dia). Pouco mais que traças sem agasalho para esmoerem. Sociedade malvada que ignora a justiça, é cruel e arrivista. Só para os graúdos no «ter» a vida é rosa bebé. Nem para esses, vendo bem, uns esmifrados pelo crescimento dos lucros, sem tempo para a família, para eles, para fruírem dos milhões acumulados, enrolados em affairs de carne ou iates ou de contas bancárias que lhes dêem a precária ilusão de vivos numa vida amortalhada. Faltam génios como os de outrora: um Newton, Churchill, um Mahatma Gandhi, um Einstein, um Eisenhower. Inventivos. Corajosos. Determinados.
E há fatia de verdade no reduto da insatisfação. Que não é de hoje - sempre houve e existirá. Fatum? Sim por que é natural no pensar humano a ânsia por melhor. Louvável por negar o espírito contentinho no pensar e exigir. Não por que as sociedades são dialécticas e se renovam. Não por nos faltar distanciamento imprescindível para ler os acontecimentos numa perspectiva conjuntural. Não por serem indistintos nos seis mil milhões de terrestres os motores de arranque das mudanças geniais e a horda de boas-vontades solidárias. E quando os vemos despontar, depressa tentamos aniquilá-los com clichés de antanho: lunáticos, excêntricos, incumpridores na peneira do fisco, social ou moral. Quantos anos do estado de cadáver corroído por biliões de vermes são precisos para atribuir genialidade a quem, na actualidade, a possui?
Publicado por Teresa C. às 06:47 AM | Comentários (3)
outubro 07, 2007
“TRIÁLOGO” ESQUIZÓIDE

Andre Wek
A Tati dobrava o riso, a Teresa C. abanava a cabeça como quem reprova doudices sem tamanho que unidade por inventar meça. “Estás demais!” disse a primeira quando a autora viu. E, num olhar deliciado, avaliava o descaro do vestido do qual coxa sobrava, o colo respirando alegremente no décolleté cavado, as meias de liga rendada escapulindo sob as tiras das sandálias. Altas. Perante o entusiasmo frívolo da Tati, a Autora desconfiou - “se ela aprova, pela certa estou descomedida!”, e volveu a atenção para a Teresa C. Criatura tolerante, introspectiva, percebeu o implícito pedido de avaliação sensata. Mirou a Autora de alto a baixo. “Preto por preto vestido, tens aquele outro lavrado no estilo vintage da Jackie enroupada pela Coco Chanel; pelo joelho, bem comportado, cintura marcada, a pedir os teus clássicos de verniz e a mala a condizer. Este... como dizer sem te ferir? É ousado e ao recato muito deve. Porém, isto sabes, importa é o prazer que o traje der e a noite acrescentar.” Em silêncio, a Autora olhou as duas que assim falavam. Com ternura reviu parte de si no riso espontâneo e na vivacidade frontal da Tati. Ouvindo a Teresa C., identificou a peculiar e muita sua feição de abordar os outros e os aceitar. Olhando ambas, a Autora ergueu o queixo, volteou no ar o cabelo e pintou de carmim os lábios. Um afago de gloss para o berrante desdizer. E saiu para celebrar.
Publicado por Teresa C. às 11:34 AM | Comentários (12)
outubro 06, 2007
CRIMES PERFEITOS

Autor que não foi possível identificar
Existem. Se bem enxergarmos, o país e o mundo estão pejados deles. Como brotam fortunas e outras florescem, como surge a classe dominante, como são os jogos do poder? “Se os criminosos não sentissem a necessidade de se vangloriar de seus actos, haveriam muito mais crimes perfeitos, disse Maigret, acendendo o cachimbo” – isto escreveu George Simenon. Outros argumentam que a impressão digital fica. Denunciando. Perseguindo. Capturando. Castigando. Castigando o quê? Tudo. Nada. Mas tentam enganar-nos. E conseguem. Dão-nos esperança. Dão-nos ilusões de um mundo perfeito sem limites que nos prendam, nem sonhos por alcançar. Universo escrito, lido, pensado. Universo que transborda para a calçada, para a cidade numa decepcionante nuvem de perfeição.
Nos amores, o crime perfeito existe. No instante. No dia. No mês. Durante anos. Por tempo sempre curto demais para o infractor e demasiado para a vítima(?). E esta existe, ou, falsamente passiva (acomodada?), simula nada conhecer? Comentando o penúltimo texto, o Minderico deixou perguntas cuja resposta ensaio.
M. - O homem e a mulher existem há centenas de milhares de anos. O conceito de infidelidade nasceu quando? Que influências tiveram as religiões, nomeadamente a Igreja Católica, no criação do conceito de fidelidade?
T.C. – No ODI ET AMO (XXXI), o Filipe Nunes Vicente escreveu que “a dita cuja foi inventada pela Igreja ( Tertuliano o primeiro grande teórico), território hostil aos vendilhões. Fora dos Mandamentos, a fidelidade sexual só se explica pela incompetência. Um tipo cheira demasiado mal, uma mulher está convencida que casou com o pai e por aí fora. Claro que também há o acaso (sinistro): num par, cada um tem exactamente o que falta ao outro. E não precisaram dos padres nem dos psis para o descobrir.”
M. - Se fossemos imortais (eternos fisicamente), o conceito de infidelidade existiria?
T.C. – Todos nos julgamos eternos enquanto «somos», sabendo da morte no final do caminho. Nesta (i)mortalidade, segundo uma pesquisa de Pittman, 50 por cento dos homens e entre 30 a 40 por cento das mulheres que estão a dois cometem infidelidades.
M. - Ser fiel será uma forma superior de egoísmo?
T.C. – Na “Insuportável Leveza do Ser, afirma Milan Kundera: “A primeira traição é irreparável. Provoca uma reacção em cadeia de novas traições, cada uma das quais afasta-nos mais e mais do ponto de nossa traição originaria (…) A fidelidade confere certa unidade a vidas que, de outro jeito, ficariam desintegradas em milhares de impressões fugazes”.
M. - Ser casado(a) implica que se evite desejar dar umas "trucas" com os(as) borrachos(as) que constantemente nos rodeiam? Ser fiel deverá obrigar-nos só fisicamente e/ou também mentalmente?
T.C. – A infidelidade é ruptura de um compromisso tomado livremente e foi, por qualquer circunstância, quebrado. O que constitui um acto de infidelidade varia no meio e nas culturas, não dependendo da presença do comportamento sexual. Wikipédia dixit!
M. - Quando um casal perde a paixão recíproca, o conceito de fidelidade mantém-se?
T.C. – No conceito mais abrangente, a infidelidade ocorre como traição a uma fé (por exemplo religiosa). Nos relacionamentos, o funeral da paixão é fatalidade, mas pode deixar herança: a ternura, a cumplicidade, o desejo, o querer-bem. À soma disto é comum chamar amor. Na vigência do compromisso que o sentimento justifica, uma violação de regras e limites mutuamente acordados, é infidelidade. Ausentes as premissas referidas, caberá ao par redefinir as regras do contrato.
M. - Última provocação: é possível amar-se mais que um homem(mulher) em simultâneo?
T.C. – A evidência de não haver dois amores iguais pode justificar a possibilidade. Não penso assim – se um amor pleno surge, ao paralelo chamaria amizade e aconchego, eventualmente precioso. Mais uma vez, é a lealdade que dita as regras. São leais as relações em que as pessoas não mentem a si mesmas, embora a verdade possa ser dura e origem de sofrimento devastador. Diz a Bíblia nos Provérbios 17:17 que “O amigo ama todo o tempo; e para a angústia nasce o irmão” e em Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro.”
“Pra Ser Sincero” - Engenheiros do Hawaii
Pra ser sincero eu não espero de você mais do que educação,
Beijos sem paixão, crimes sem castigo, aperto de mãos
Apenas bons amigos...
Pra ser sincero eu não espero que você minta
Não se sinta capaz de enganar
Quem não engana a si mesmo
Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito,
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos
Pra ser sincero eu não espero de você mais do que educação
Beijos sem paixão, crimes sem castigo,
Aperto de mãos, apenas bons amigos...
Pra ser sincero não espero que você me perdoe
Por ter perdido a calma
Por ter vendido a alma ao diabo
Um dia desses, num desses encontros casuais
Talvez a gente se encontre,
Talvez a gente encontre explicação
Um dia desses num desses encontros casuais
Talvez eu diga, minha amiga,
Pra ser sincero... prazer em vê-la
Até mais...
Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos.
Publicado por Teresa C. às 10:58 AM | Comentários (4)
outubro 05, 2007
FIM-DE-SEMANA-PROLONGADO-P’RA-MIM-ROUBADO

Michael and Inessa Garmash
Feriados à sexta-feira são roubo que não admito. Pese a paixão, insana?, pelo trabalho, um dia a mais sem despertador faz toda a diferença. Sendo de três dias um fim-de-semana usual, aguardo o início de Novembro para fruir dos benditos feriados nacionais Não bastava, acumulei programas, qual deles o de maior encanto. Para hoje, a proposta de dois obrigaram-me a difícil opção: almoçarada em Montalvo entre amigos e amigos que amigos dos nossos amigos são – o grupo do fim de ano de 2006 -, ou final de dia com amigos de viagens estivais. Montalvo é lugar que não perco – sítio lindo numa zona protegida, porto palafítico assente no sapal, por detrás as dunas que de sul acolhem o Sado. A gente é boa, sã, alegre, composta por amigos do peito (a São e o C. da S. J. recebem divinamente!), o palato sai eufórico e o passeio pós-prandial pelo condomínio de vastos hectares é ritual de andança, cavaqueira e gargalhar assegurado. Por outro lado, como recusar convívio de amigos que enriqueceram o lazer deste Verão? Difícil escolha, porém conforme ao gosto maior.
Como aos íntimos afirmo, e agora assumo publicamente, sou muito «mulherzinha» - frívola q.b. (para quem das receitas culinárias não conhece os códigos, significa “que baste”), caprichosa, de quando em vez, e banalíssima. O estereótipo do género desminto em menos do que fazem o favor de imaginar. Capaz de, entre o trabalho e os afectos, intercalar consumo – uma adorável casaquinha, brilhante como verniz, por onde a chuva crie rios se caterva de nuvens conjugarem o pingar, e botas rentes ao joelho, salto diminuído, compatíveis com leggings ou skinny enfiadas por dentro, a garantirem conforto no quotidiano e no dolce far niente. Como neste fim-de-semana-prolongado-p’ra-mim-roubado. Cabelos ao vento e à chuva que vier, rosto lavado, pés bem calçados, doudos por treparem caminhos e pisarem a areia das dunas e dos pinhais. E voltarem enlameados que cuidarei de limpar antes de me recolher ao aconchego das paredes, ao espojar num cadeirão olhando o horizonte de dentro e o de fora, que as portadas são largas e emolduram devaneios. Sem livro na mão, antes caterva de jornais e revistas de modas científicas. Com sorte, talvez o cheiro a terra molhada me inebrie o estar.
Publicado por Teresa C. às 12:16 PM | Comentários (5)
outubro 04, 2007
O ELOGIO DA MENTIRA

Gena Ivanov
Acresce penas ao viver quem, descontando propósitos satíricos, não aprendeu a mentir. Com desenvoltura. Como segunda natureza da visível. Porfiadamente. Debitando asserções que sabe falsas e não hesita em difundir, consciente do dolo que pode causar. Além desta mentira de dicionário, outras há: as mentiras a que muitos chamam verdades selectivas. A omissão, por exemplo. Menos grave – afirmam os manuais - do que a verdade maldosa, intencionalmente escancarada como arma de tortura ou burla. “Com a verdade me enganas” é ditado que a ética tem por sábio.
Na encruzilhada da mentira e da verdade, são tecidos enredos que capturam os puros – que ainda os há! Excluídas as mentiras sociais como urgências compassivas, raras por definição, e distintas da insuportável hipocrisia, há dois níveis da mentira: a que atrás de si arrasta culpa e firme intento de evitar repetição, e a que a boca derrama como se fora água corrente, deixando enxuto o lugar donde saiu. Os mentirosos compulsivos e os habitués pimpões dela fazem lixívia dos vícios privados, a permitir estender na corda pública uma vida imaculada.
No ODI ET AMO (XXXV), o Filipe Nunes Vicente escreveu: “A mentira é essencial numa relação amorosa. Nos bons tempos, ela organizava o espaço e permitia zonas de sobrevivência: ele contentava-se com o sexo fácil ocasional, ela com uma paixão secreta pelo colega de escritório. Nenhum deles impunha a verdade dos seus grunhidos e suspiros. Hoje, como somos todos muito intimistas e verdadeiros, somos incapazes de conter as convulsões. A verdade exige que as nossas histórias sejam reescritas continuamente. A autonomia das entranhas devolve-nos, no final, uma vida estilhaçada. Mas verdadeira.”
Não carece de legenda. Ainda assim, aventuro-me: antes a arisca verdade que pode balançar-me, mas não derruba, do que comédia de enganos representada sem o pré-aviso do palco e panos de cena.
Publicado por Teresa C. às 06:58 AM | Comentários (23)
outubro 03, 2007
E DELE FAÇA ALGA OU PENA

A. D. Cook
Ainda há gente que remata diálogos com um clássico: “eu não mudo, assim fui, assim serei”. Reclamo assombro notável perante tão veemente afirmação. Nega o indivíduo de si a evolução? Enfaticamente se reconhece incapaz de aprendizagens? Nega a própria inteligência? Ora se é o mesmo de muitas coisas e também de aprender!... Tenho por certo que a banalidade da frase é defesa e aviso à navegação – “aceito permuta de ideias se o «eu» não estiver em causa (porque não sei lidar com abordagens íntimas) e for ponto assente que tenho espírito de aço (não torço e resisto).” Como negativo e positivo de fotografia gravada em material sensível à luz – o acetato de celulose é o suporte comum -, sinto hoje desagrado ante o meu laudatório de outrora. O Outono, no caso.
Em rua que atravessa o coração de Lisboa e, assentada, percorro duas vezes ao dia, os plátanos e as tílias enrubescem mal é finado Setembro. A atmosfera entretecendo o tapete de folhas que não resistiram ao fustigo da chuva. Idílico cenário que acarta consequências - adeus à pele ao léu, ao algodão ou à seda rente ao corpo que de mais não precisa e até não se lhe dava andar vestido com um colar de pérolas, não foram os preceitos e as regras e o pudor. E rejeito a muda para roupa de múltiplas camadas, a preguiça do dia que tarda na despedida, do sol a luz entretanto filtrada. E quero lá saber da rentrée e da corrida às compras de entreténs da nova colecção! Mais quero rosto ao alto, amenidade e procissão de fotões sem barreiras nubladas, mar que me receba o corpo e dele faça alga ou pena. Devoro os últimos abrunhos, os pêssegos com penugem e os carecas. Recuso meias e mangas. Condescendi em engaiolar os pés em sapatos. Em comprar ignorada revista feminina impressa em belíssimo papel couché. Mirei as propostas de moda – confesso a perdição por uns sapatos da Pepe Jeans -, li gordas de amores proibidos, de “como um amante salvou o meu casamento” e quejandos. Cenas da vida real, reconheço. Como a da freguesia de Monte Abraão que, sem ajuda da segunda maior câmara do país, Sintra, ganhou processo contra a rede de alta tensão cuja teia de cabos retelha gentes que não desistem do direito à saúde. Elementar, dir-se-ia. Nem um pouco!, quando zonas nobres de Lisboa, como Belém, arriscam apagão. É ainda tempo de Verão no ânimo de quem, sendo David, luta contra Golias.
Publicado por Teresa C. às 07:02 AM | Comentários (17)
outubro 02, 2007
AS “BOAS PESSOAS”

Kenney Mencher
Alguém me explica o que significa ser-se "boa pessoa"?, perguntou Ela, e eu, que em mim tropeço, aventuro-me à explicação.
Correm difíceis os tempos, soem dizer, como se memórias houvessem de outros melhores nos tempos em que as pessoas são. A crueza quotidiana não é de hoje - assim foi, assim será. No decante, ao passado atribuímos feitiços vários, rodeamos de confettis idos sem regresso que emolduramos à subjectiva medida do querer. E do jeito que ao presente conferem. Confundindo factos com desejos de ter sido. Que não foram. Ou foram e a consciência rejeita. Fábricas de recordações ao serviço do alter ego. O eu-projecto a quem toda a confiança é devida. Sem in factum a merecer. Por que melindres com o próprio tornam argiloso o solo onde se fincam os alicerces individuais, preferimos fabular o atrás acontecido. Isto digo, nada percebendo da anatomia do todo que a pessoa é. Descaro de viciada em especulação científica e do mais que mal conhece, sem desistir do empírico entendimento de si e do cumprido tempo em que foi. Ainda sendo.
Das ditas “boas pessoas” algumas merecem despiciendo petit-non: “totós”. Aturam, engolem e digerem quase tudo. São as double B: Boas-Bocas. Na gastronomia das relações raramente acusam alergia a um alimento ou o culpam de azia. Da cebola e dos alhos queimados num estrugido não reclamam; podem comentar que já resultou melhor, mas afirmá-lo péssimo seria tortura maior do que engolir e calar. E calam no estrugido, nas malfeitorias que testemunham ou de que são vítimas. Pois se atingem o ponto de bater no peito uma, duas, três vezes, a cabeça baixando num mea culpa contrito somente por existirem... E ressentimentos, acumulam? Poucas não, muitas sim. Porque cederam. Porque abdicaram de si e o aparentemente engolido ficou atravessado no gasganete. Como espinha de sável mal cortado e pior frito. Aos que encaixam no retrato chamo de pusilânimes.
Às "boas pessoas", prefiro as pessoas boas. Aqueles que ao tempo em que são trazem acrescento – pela tolerância, pelo diálogo com o mundo (bem pode ser o que avista da sacada e não vai além da esquina da rua), pela generosidade, abnegação se a bondade dos valores ou ideais constantes do privado rol das prioridades exige. E dão o corpo, a alma e a camisa por causas eticamente consentâneas com a família, o respeito pelos outros e por si próprios, a solidariedade com o planeta e com quem nele existe. As boas pessoas, como as entendo, existem. E rodeiam-me muitas. Nesta planura redonda, um exército de bondade faz a diferença que a esperança exige. Acredito.
CAFÉ DA MANHÃ
Há dias, o Minderico, deixou mensagem cifrada:
“O Charal do Ninhou jorda copiamente o biata do Tróia desta Classe da Tati. Jorda todos os planetas os Joões de Vali por ser muito António Forno da piadeira dos covanos e das covanas.
Chochos anchos para as covanas e paracópios a todos os carranchanos e carranchanas que jordam o do Touquim tão copiamente.
Fredericos de cópia fusca”
Procurei no Portal do Minderico o dicionário da “piação do Ninhou”. Desisti e dei a refrega por perdida. Por via de um comentário do Vítor chegou a descodificação.
Tradução:
“O Minderico aprecia muito o "espírito" deste blog. Todos os dias muito se ri por gostar imenso da "conversa" dos homens e mulheres.
Beijos grandes para as miúdas e parabéns a todos os amigos e amigas que tão bem escrevem.
Votos de feliz noite”
Decididamente: o Vítor (o “nosso" Minderico) - é um bom companheiro de caminho que muito estimo.
Publicado por Teresa C. às 06:35 AM | Comentários (7)
outubro 01, 2007
SÓ OS ANJINHOS COMEM FRUTA VERDE

Andrew Valko
“Só os anjinhos é que comem fruta verde... enquanto vêem a Fodibela. Desculpem, a Floribela...”, escreveu o J. Fallorca a propósito da imagem publicada no dia 15 de Setembro. Mas comem, principalmente quando a parra ameaça encanecer. Homens e mulheres frequentemente ideiam, à luz da subjectividade, serem menos desejáveis por imperfeições físicas ou pelo estatuto social, esquecendo ser um ideal estético tedioso se faltar condimento adequado. A impiedosa pressão mediática metralha o cidadão que atravessa a rua e pela frente agiganta esbeltas divindades nos outdoors publicitários, é engolida com a sopa de nabiças e o frango assado em frente da televisão, desfolhada nas revistas, exposta nas montras das cidade. Garantida a subsistência, sobra psiquismo para inseguranças que não digo ociosas por causarem angústia e, quantas vezes?, sofrimento.
Os homens, rezam os estereótipos que a tradição conserva acesos, temem da virilidade o murcho. Entre os quarentas e os cinquentas, é ver muitos de loca em loca, diligentemente confirmando da carne a ressurreição. Para os de angústia afundada, quanto mais tenra a delas, mais dura a deles. Razão que pondero é esta: pela minguada experiência do saber emocional, idade curta facilita o deslumbre e as criaturas caem de joelhos ou de rastos perante o que julgam perícia. E adornam o momento com gemidos, esgares e trejeitos copiados de revistecas e pornografia vista a meias com namorados maçaricos, aos mais velhos perdoando a unidade da investida em favor do saber-fazer. Aprendem umas coisas que aplicam depois com o amigo de faculdade. Casam, até.
Com as mulheres é quase o mesmo – um homem faz melhor que botox, injecções de cologéneo ou lifting cirúrgico, é mais gostoso e, incomparavelmente, mais barato. Ficam radiosas, radiantes e, não raro, pontapeiam o casamento. Cansadas de engomar camisas, de peúgas desirmanadas, do arrasto solitário de sacos de paparoca que desaparece num ai e de parceiros 4M (fourM - maridos-machistas-marialvas-mafiosos), a decisão só não peca por tardia porque sendo tempo o tempo informa. Aliviam os (des)gostos e regridem décadas no aspecto. Ao que parece, o divórcio emagrece-as, torna-as deslumbrantes e mais sexys. Se não aos olhos de todos, pelo menos ao olhar de um. O que importa.
Entre os estereótipos dos homens e das mulheres divorciados nascidos around sixties, há diferenças. Ou elas se aquietam, emocionalmente bem resolvidas, ou serenamente confiam no porvir que lhes traga homem a sério e, sem baixar a fasquia, providenciam presente equilibrado. Eles indagam, perplexos, como é possível terem sido deixados pela respectiva a ver navios no Alto de Santa Catarina, quando dele ela não fugiu à desfilada para se aninhar noutro homem. Atemorizam-se ao vê-las autónomas, refinadas no labor da entrega e do retorno, conscientes da diferença entre o bom e o sofrível. Alguns descrêem de si. Maldizem a solidão. Alienam-se com pechinchas ou saldos de ocasião que a exigência interior condena. Por isso culpabilizados. Inquietos. Sofredores.
Publicado por Teresa C. às 06:54 AM | Comentários (10)
