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outubro 20, 2007
LIBIDINOSA CHAMA

“Proibido fumar em locais fechados”. Para muitos um alívio por se verem livres do fumo dos adictos da nicotina. Para estes, será um atentado não só ao vício, mas a uma das mais antigas e eficazes técnicas de abordagem. A espera do voo num aeroporto, uma bebida num bar, a obscuridade da discoteca, o atraso de alguém para um jantar que o enfado aguarda perdem a dose de improviso que o “tem um isqueiro, por favor?”, ou comentário de arrependido adiado tingido de insinuação debochada – “isto faz tão mal; devíamos deixar-nos disto... Lá se ia o-faz-mal-sabe-bem, e não me refiro só ao tabaco...” A chama de um isqueiro incendeia libidinosamente o cigarro num entretém de tédio e fornece pretexto para potencial satisfação das pulsões dos incontinentes sexuais
À partida, a fumaça é denominador comum que permitir explorar outras afinidades. Todas juntas a convergirem na “irmandade das almas”. “Gémeas” nos alvores da conquista. Cada baforada permitindo a pose do silêncio fácil de confundir com atitude reflexiva. Fatalmente sedutora se lhe for somado um olhar matador e voluptuosidade. A atmosfera nublada e a idêntica condição de proscritos do politicamente correcto prometendo intimidades rebeldes.
Com a proibição, o relacionamento social sai, numa primeira fase, prejudicado e com sérias consequências na economia nacional – as etapas seguintes a qualquer «engate», jantarinhos, motéis e hotéis, desaparecem. Contudo, criativos como somos quando «desenrascar» é preciso, não nos deixaremos abater. Fumaremos à sorrelfa e o institucionalizado «engate» permanecerá imune a pressões.
Publicado por Teresa C. às outubro 20, 2007 11:49 AM
Comentários
«Fumar à sorrelfa e o institucionalizado "engate" permanecerá imune a pressões» - Porque raio a sua frase me remete para o Robert Walser: «Costuma-se apelidar, ainda em vida, o escritor como personagem ridículo; seja como for, é sempre uma sombra, está sempre à parte, alheio ao inefável prazer de estar no centro, prazer de que desfruta o resto das pessoas; só é importante quando escreve sem descanso, quer dizer, às escondidas.»
Publicado por: fallorca às outubro 20, 2007 12:10 PM
Os meus mais sinceros agradecimentos pela recomendação que, indesculpavelmente, só agora tive oportunidade de ver.
Espero que visite a pensão tal como tem feito até agora, e quem sabe, como hóspede habitual, para todos termos o privilégio de ler as coisas extraordinárias que escreve.
Bem-haja.
Publicado por: Recepcionista às outubro 20, 2007 02:53 PM
Mais uma das hipocrisia destas sociedades actuais...
Publicado por: K. às outubro 20, 2007 02:53 PM
Independntemente do mal que faz, fumar um cigarro pode ser o MOMENTO perfeito para um "engate" perfeito. Daqueles que nem precisam de palavras, os melhores!
Publicado por: Ela às outubro 20, 2007 02:57 PM
Ela - engate fumado? defumado? de fumeiro? fumegante? eheheh
Publicado por: fallorca às outubro 20, 2007 03:17 PM
A palavra "engate" não me soa a elegância, postura que prezo, principalmente no que toca à alma. Diria... conversa, estar, absolutamente, estar, caro Fallorca.
Publicado por: Ela às outubro 20, 2007 03:34 PM
Pois quanto a mim, a palavra "engate" soa-me sempre a reboque, a ACP... um horror!
Publicado por: fallorca às outubro 20, 2007 03:54 PM
Hum... hoje acho que já fumei demais
Publicado por: fallorca às outubro 20, 2007 07:36 PM
Abandonei os cigarros em janeiro de 2005.
Hoje eu fumo os olhos dela...
Publicado por: Justo às outubro 20, 2007 07:39 PM
Muito bem observado :)
Nunca fui fumadora mas reconheço o contributo do fumo para a ambiência glamourosa de alguns encontros. E isso está tão presente no cinema dos anos 40, por exemplo!
Publicado por: Alba às outubro 20, 2007 10:03 PM
Oh mnina, a fumar é qu'a gente s'engata?! Saia lá do Casablanca do outro do olhar matador! Visto daqui, hoje, o tipo era um canastrão pouco convincente e a princesa nórdica tinha qualquer coisa de inacabado, não chegava para qualquer aluna do 3º ano da lusófona.
Por esse andar ainda me descaio e a equiparo ao PP(*) que pensa qu'o pópó resolve 'o assunto'.
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(*) Parvo do Porsche
Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 20, 2007 11:52 PM
Fallorca - e mesmo quem para escritor não reúne condições, no recolhimento da escrita habitamos um mundo privado, à parte do outro onde se movem as outras gentes.
Recepcionista - Há muito aprecio a sua Pensão. Foi um prazer ajudar a divulgar tanta imaginação, observação crítica e graça.
K. - Bem verdade!...
Fallorca - termo horrível, concordo, mas se trocado por sinónimo muitos ficariam a ver navios no Alto de Santa Catarina. Institucionalizou-se, paciência.
Justo - essas expressões de ternura e amor renovado pela mulher que o acompanha, são uma delícia. Sem dúvida, ela merece.
Alba - é a névoa, são as pausas, é o olhar semicerrado, é a aura de mistério. Tudo, excepto o cheiro. E lá se vai a sedução quando os cigarros apodrecem no cinzeiro...
Pirata-Veremlho - não percebi nadica do que disse, mas o defeito é meu, só pode! Falta-me sagacidade e humor e dedução lógica que atinja a sua.
Publicado por: Teresa C. às outubro 21, 2007 06:41 PM
Ela - Minha querida, como omiti o teu comentário! É que, como sempre, sabes destas regras da pura sedução que não requer estratégia, mas táo somente o que a vontade ditar. E aquela do «engate» soa-me a discurso de canalizador ou electricista. Quando alguma coisa avaria, pela certa o «engate» falhou!
Publicado por: Teresa C. às outubro 22, 2007 11:43 AM