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outubro 26, 2007

MIOLO VERDE

Mati Klarwein demeter-1986.jpg
Mati Klarwein

A Visão desta semana tem miolo verde. Abordagens simples e suficientemente exaustivas para fazerem bruxulear chama de cidadania ambiental nos leitores distraídos, ou soprarem a dos informados não-praticantes. Até Bento XVI deve andar a ler umas coisas sobre o tema, por ser oficiosa a notícia de preparar uma encíclica verde. Como o produzido naquela geométrica cabeça muitas vezes é reviralho ao consenso e deixa à toa a pacatez das gentes, não lhe boto muita esperança. A ver vamos, porque no Estado de um palácio e parcos jardins que governa, podem os pulgões, reunidos em praga, ter dizimado as rosas e o Príncipe dos jardineiros declarar guerra santa à bicharada menor que lhe arruine os domínios.

Nesta onda de verdura que agita os senhores do mundo, julgá-los finalmente encarneirados no bom caminho é tolice. Se agora assobiam fininho é por levarem a sério Esopo, escravo com olho-vivo para a rataria humana, que garantia a ruína do fazendeiro apostado em exaurir a galinha dos ovos de ouro. Uns manhosos!

Eu, económica ambiental encartada que zela por não descambar para uma chata-do-caraças (os sapatos e botas e sandálias e malas nos meus armários provam-no), ando a remoer a moda das cremações. É espantoso como o homem é estróina até na hora da morte. Tudo o que não aquece nem arrefece o defunto está presente - círios ardentes, resmas de flores em molhos decorativos, laçarotes, urnas nobres, carrão funerário, dezenas de motores atrás em cortejo de combustível queimado. Quando o finado acaba decentemente em cova terrena, ainda ao despojo humano é conferido algum préstimo – entra na cadeia alimentar e obedece a Lavoisier. A cremação é só gasto. Tem aumentado na ordem dos 700%. Em noventa minutos, cocktail de gás natural, outro liquefeito do petróleo, diesel e energia eléctrica é emborcado pelo cadáver daquele que em vida, nada percebendo de retórica, decidiu apressar aquela do S. Afonso de Ligório - Pulvis es et in pulverem reverteris. Só que por um lado saem as cinzas e pelo outro dioxinas que todos juram de cruz não respeitarem a décima de nanograma por metro cúbico.

Asseados e, neste particular bem-pensantes, são os suecos. O gelo como alternativa ao fogo. Uma empresa propõe congelar os cadáveres a -18 ºC e mergulhá-los a seguir em azoto líquido a -196ºC. Ao emergirem, os cadáveres ficam quebradiços, posteriormente convertidos num pó através de sons. A partir daí, os restos mortais são filtrados para recolha de metais preciosos contidos nas obturações ou resquícios de «pacemakers» e outros implantes. Somente depois serão enterrados num caixão feito de amido de milho, a 30cm de profundidade, onde a terra os assimila. Em cima da campa é colocado um verde que aproveitará os nutrientes para crescer. Se o uso cá chegar depressa - trocando o gelo pela recuperação da salmoura nas salinas -, quero ser uma Syringa vulgaris branca.

Publicado por Teresa C. às outubro 26, 2007 08:34 AM

Comentários

Syringa branca, sim. Vulgaris jamais !
Mas penso que tudo é tardio. Nossa Gaia esta morrendo, irreversivelmente. Sobreviverão os que puderem se adaptar. Isto irá custar caro. Logo...
Beijos.

Publicado por: justo às outubro 26, 2007 03:13 PM

E eu a pensar que ser cremado era a melhor solução para evitar o "congestionamento" dos cemitérios. Bastava ligar o crematório e, já está. Claro que não se pensa nos efeitos nefastos que uma opção massiva pela cremação traria para o ambiente portanto, a opção sueca é perfeita.
Não querendo entrar em política, mas entrando, como Sócrates adora tudo o que venha da Escandinávia, talvez a recuperação da salmouro seja, mais rápido do que aquilo que se possa pensar, uma verdadeira realidade e, nesse caso eu serei outra "Syringa vulgaris branca", só que no masculino.

Publicado por: recepcionista às outubro 26, 2007 05:28 PM

...mas tem custos (dos tais) essa indúsria sueca, não tem?

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 27, 2007 12:08 AM

eh verdade!

ha tipos que ateh pa morrer poluem o planeta...

aquilo da reciclagem soa (salvo seja) bem mas haverah como a bela pah de cal?

a proposito, a syiringa eh bonita e sofisticada, movimenta-se de modo interessante, cheira intensamente e bem, mas tem nome portugues: chama-se lilas e como o proprio nome indica eh azulada

branca nao sabia que havia mas tamos sempre a aprender, neh?

fim de semana florido!

Publicado por: Quanta Namera às outubro 27, 2007 12:29 AM

Justo - Vulgaris, sim, ou não seria um lilaseiro. Branco e perfumado, flores polposas em cacho, folhas estilizadas e elegantes. Pela Páscoa iniciam a floração e rpolongam-na até Junho. Isto no meu jardim da Beira, terra fria, que no resto do paísn ignoro os usos deste arbusto (árvore?) lindo.

Recepcionista - Bem visto! Às tantas admire-se se a fixação do nosso PM no modelo escandinavo estiver relaionada com reciclagem de todas as pecinhas, mesmo as das falhas nos dentes e metais que o físico comporte... :)

Pirata-Vermelho - custos deve ter o processo e bem elevados, presumo, mas já pensou na poupança global que dele advém? E depois há o lado poético de ver os seus átomos irem direitinhos para uma coisa viva. Uma espécie de "elixir da longa vida". Os alquimistas lá sabiam.

Quanta Namera - a Syringa meche-se? Com o vento, só pode. De modo interessante? Inverte o tronco com a copa, deve ser isso. Num ponto estamos de acordo - cheira bem. Bom fim de semana.

Publicado por: Teresa C. às outubro 27, 2007 05:58 PM

Coisa tecnicista! Nórdica... sem graça;
agrada-me mais a imagem de um sepulatamento ritual no alto mar já qu'a fogueira caiu em desuso e só se pode produzir fumo n'América e na China.

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 27, 2007 07:12 PM

aA corrida ao crematório, é principalmente, por o enterro ser muitíssimo mais barato.

Publicado por: marta às outubro 27, 2007 11:18 PM

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