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outubro 24, 2007

O BRUXEDO DA GRUTA

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Erica Chappuis

Contei para cima de um quarto de ano sem nos vermos. Na quinta-feira, animada pelo regresso ao trabalho, vi-me forte, julguei normalizado o tónus e a energia. Combinámos ultrapassar a distância do silêncio e alimentar a amizade. Porque cada afecto tem lastro, pesado o nosso, ritualiza atitudes e espera acrescentar faces ao cristal das memórias, entretivemos com ansiedade a espera pelo fim do dia. Do abraço cingido não contabilizámos o tempo. Nem o alívio. Nem a serenidade abarcada. E voltaríamos ao abraço se nos afastávamos para averiguar registos dos desmandos do tempo. Ou do entretanto vivido que do outro não sabíamos. Mas nada – a ponta seca e o buril, com os quais a vida grava os acontecimentos nos rostos, mal haviam começado a esboçar os registos.

Saímos para jantar. Demorou o entremez: “esta mesa agrada”, “uma bebida?”, “escolheram?”, “o vinho?”, a troca de copos e a ciranda. Na bonança da servilidade, dispensámos pancadas de Moliére e subimos ao palco da amizade. Fomos, como sempre, performers, combinando artes várias: o teatro para tornar vívidos factos, a música ressoando nas divergências que não enjeitamos, a dança do encanto que nos é tão cara, da alma os contorcionismos, os malabares do riso. No alto do teu trapézio voadar, dizias mais alto que o rufar dos tambores: “se nos deitamos com uma, e repetimos a (des)graça, vai cobrar-nos exclusividade. Sem entender que comer, beber, dormir, defecar e copular são actos de sobrevivência. Sabes que sou organizado. Mantenho o frigorífico abastecido para qualquer eventualidade. A fisiologia disciplinei na expulsão do desnecessário. A tesão escapa a regras. É imprevisível. Voltamos à organização e ao lume-brando das disponíveis. Nove números marcados, se não for a primeira, outra coincidirá no desejo. Porque não aceitam elas a urgência da queca um marcador genético, uma variante das orelhas-de-abano? Que teimemos nos couros-de-estatística – tentar até uma cair. Apagando provas e evitando prejuízos. Mentir, não!, mas omitir às respectivas por respeito. Há duas coisas pelas quais vocês nos dominam: a gruta e o caldo hormonal onde dissolvem adivinhação. Bruxedo. Que nos confunde e restaura, uma a uma, as pistas apagadas.”


CAFÉ DA MANHÃ

Poligamia faz mal aos homens (...) As companheiras, por sua vez, vivem durante mais tempo. Os investigadores Tim Clutton-Brock e Kavita Isvaran (...) concluíram que isto acontece em função da intensa competição sexual. Traçando uma comparação entre espécies monogâmicas (em que o macho tem uma única parceira) e poligâmicas (em que cada macho copula com várias fêmeas), os cientistas constatam que a competição por fêmeas tende, naturalmente, a ser mais instigada no segundo grupo. Ou seja, os machos que mantêm uma única parceira vivem de forma mais descansada, enquanto os polígamos precisam de se esforçar nas sucessivas conquistas sexuais.

Publicado por Teresa C. às outubro 24, 2007 06:51 AM

Comentários

Bruxedo da Gruta.- Um texto muito bem conseguido. parabéns.

Publicado por: João Norte às outubro 24, 2007 12:11 PM

DUAS

Uma - o que tenho eu e os circunstantes aqui ouvintes a ver c'a 'telenovela' como entenderá descrever a sua vida (no hard feelings, please!) e que teriam, os mesmos circunstantes, a ver c'a vida dos seus amigos?
Duas - aquela conversinha da monogamia não ignora:
1-a natureza da espécie - sendo por isso os machos mais activos naquele particular aspecto, se assim estiver demonstrado?
e
2-a natureza da espécie - sendo por isso necessárias mais fêmeas?

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 24, 2007 01:20 PM

Comento de imediato a citação do "Café da Manhã": morra marta mas morra farta.

E o teu texto é muito realista. Anda algum sócio a divulgar segredos e a violar a solidariedade de classe... :-)

Publicado por: shark às outubro 24, 2007 04:57 PM

João Norte - Obrigada. Muitos parabéns pelo quarto aniversário do seu blog. O texto de hoje está divino!

Pirata Vermelho - e quem manda o meu amigo julgar que são factos da vida real? Atenção: não lhe estou a chamar inocente, seria injusto o atributo, mas confundir real com realidade pessoal é risco que um leitor corre. A verdade é o seu comentário ter sido um elogio fantástico, tão realista lhe pareceu o texto. Assim quase me convence que sou muita boa nisto! Mas explico-lhe: o texto de hoje teve a intenção única de em conjunto com o de ontem descreverem dois modos de viver o masculino, ou, o que é mais correcto, dois instantes diferentes do masculino. A publicação sucessiva serve a unidade do tema. Mas, cá para mim, a verdade é outra: o caríssimo Pirata tem visto tanta novela que as encontra partout. Ora o que "houvera de lh'acontecer"!...

Shark - O teu sentido crítico conheço-o e respeito-o. Mas que os homens não são tão solidários assim... Ai que grande verdade!!!!!

Publicado por: Teresa C. às outubro 24, 2007 06:02 PM

Sim, o quotidiano não perdoa...
mas
não confunda, agora você, o referido com quem refere. Nada, em mim, indica 'essa' profusão ou assiduidade.

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 24, 2007 07:30 PM

:) :)
Deus abençoe os amigos que nos dão essas dicas, tão preciosas, rompendo o pacto segredo que existe, tacitamente, entre os homens!

Publicado por: Alba às outubro 25, 2007 01:22 AM

Alba - não fossem estes deslizes e mais vezes cairíamos como patinhas. :)

Publicado por: Teresa C. às outubro 26, 2007 08:26 PM

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