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outubro 04, 2007

O ELOGIO DA MENTIRA

Gena Ivanov d_1957_01.jpg
Gena Ivanov

Acresce penas ao viver quem, descontando propósitos satíricos, não aprendeu a mentir. Com desenvoltura. Como segunda natureza da visível. Porfiadamente. Debitando asserções que sabe falsas e não hesita em difundir, consciente do dolo que pode causar. Além desta mentira de dicionário, outras há: as mentiras a que muitos chamam verdades selectivas. A omissão, por exemplo. Menos grave – afirmam os manuais - do que a verdade maldosa, intencionalmente escancarada como arma de tortura ou burla. “Com a verdade me enganas” é ditado que a ética tem por sábio.

Na encruzilhada da mentira e da verdade, são tecidos enredos que capturam os puros – que ainda os há! Excluídas as mentiras sociais como urgências compassivas, raras por definição, e distintas da insuportável hipocrisia, há dois níveis da mentira: a que atrás de si arrasta culpa e firme intento de evitar repetição, e a que a boca derrama como se fora água corrente, deixando enxuto o lugar donde saiu. Os mentirosos compulsivos e os habitués pimpões dela fazem lixívia dos vícios privados, a permitir estender na corda pública uma vida imaculada.

No ODI ET AMO (XXXV), o Filipe Nunes Vicente escreveu: “A mentira é essencial numa relação amorosa. Nos bons tempos, ela organizava o espaço e permitia zonas de sobrevivência: ele contentava-se com o sexo fácil ocasional, ela com uma paixão secreta pelo colega de escritório. Nenhum deles impunha a verdade dos seus grunhidos e suspiros. Hoje, como somos todos muito intimistas e verdadeiros, somos incapazes de conter as convulsões. A verdade exige que as nossas histórias sejam reescritas continuamente. A autonomia das entranhas devolve-nos, no final, uma vida estilhaçada. Mas verdadeira.”

Não carece de legenda. Ainda assim, aventuro-me: antes a arisca verdade que pode balançar-me, mas não derruba, do que comédia de enganos representada sem o pré-aviso do palco e panos de cena.

Publicado por Teresa C. às outubro 4, 2007 06:58 AM

Comentários

Mas o que é a verdade, afinal?
Aquilo que somos ou o que parecemos ser?
A mentira evidente ou a verdade camuflada?
A vida é assim: feita de verdade e de mentira. Acontece é que a verdade, por mais dura que seja, nunca prejudica ninguém. Contudo, a mentira pode muitas vezes causar feridas insanáveis.
Mas ambas fazem parte da natureza humana. Como tal, teremos que conviver com elas, o melhor que for possível.

Publicado por: j às outubro 4, 2007 11:24 AM

A verdade parece-me ser a coincidência entre o que penso e o que é, o casamento entre a consciência e a realidade, a junção do ser e do pensar, a dança entre factos e relatos. Acho que não consegui ser clara, desculpem-me!!!

Publicado por: Ela às outubro 4, 2007 01:14 PM

(Sempre houve odi-et-amo(s) verdadeiramente falsos, n'est ce pas?)
Desta vez é o §último que está melhor que tudo.

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 4, 2007 01:38 PM

Não falta muito e, neste blog, estamos todos a chorar, como se fosse numa casinha, já agora, plantad'à beira-mar.

('Ainda me amas', interrogava ela, imprecisa,
num indagar adiado pela afronta d'o diabo qu'as leve! a todas...)

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 4, 2007 02:00 PM

Não estará a ser indelicado e grosseiro? A mim parece-me que sim...

Publicado por: Ela às outubro 4, 2007 02:21 PM

sim, antes a verdade. apesar da bagagem e das implicações. antes a verdade.
nisto de verdade e de mentira em relações amorosas, lembro-me sempre de dois filmes. de um, "Magnólia", a cena entre o famoso apresentador de concursos e a mulher - por saber que vai morrer em breve e após décadas de casamento decide dizer à mulher que a enganou, que teve casos com outras mulheres. lembro-me de a mulher o ter desprezado naquela altura, ter achado o homem imaturo, cobarde e cruel, por não saber guardar para si aquela verdade e querer passar o fardo para ela. a relação deles terminou naquele momento, e apenas por isso, não pelas traições. lembro-me também de outro filme, "Closer" e de muitos diálogos, principalmente de um dos finais, em que uma personagem (mulher) acaba a relação com outra (depois de encontros e desencontros) porque este quer saber se ela foi para a cama com outro (e pergunta-lhe por não aguentar a dúvida que esse outro homem lhe plantou, maquievelicamente, dizendo-lhe que foi isso que aconteceu, como forma de vingança). ela não suporta a dúvida dele, e percebe que ele nunca será a pessoa por quem ela se tinha apaixonado.
eu prefiro a verdade, atempadamente. e aceito a dúvida, porque a produzo, também. e mesmo uma verdade fora de tempo é preferível a um tempo fora da verdade.
abraço.

Publicado por: troblogdita às outubro 4, 2007 02:32 PM

troblodita - À verdade, cheers!!!

Publicado por: Ela às outubro 4, 2007 02:34 PM

O senhor pirata vermelho ainda não entendeu que estamos todos um pouquinho fartos de tanta baboseira. Esta ultima nem baboseira foi, mas sim um insulto - a todas as mulheres e aos visitantes deste blog.
Vá arejar, homem.

Publicado por: Anónimo visitante às outubro 4, 2007 05:33 PM

A mim, parece-me que não;
embora não sabendo reconhecer a sua referência de de conceito de grosseria
e
embora sabendo a utilidade da grosseria na provocação de rupturas de incremento de qualidade.

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 4, 2007 05:35 PM

Ela, cheers!!!

Publicado por: troblogdita às outubro 4, 2007 05:41 PM

"Quem não lê é como quem não vê"
(aspas minhas qu'o aforismo é meu)

...'o diabo qu'as leve' a ELAS, não a vós, oh senhoras proto-ofendidas.

(Tá visto, aqui, que não se pode mexer nos amores perdidos!)


---------------------
Quanto a grosserias,
defina baboseira, oh senhor(a?) anónimo(a?).
E,
de passagem, clarifique a dimensão da sua intenção de insultar na expressão 'Vá arejar, homem', à luz do vernáculo consagrado 'Vá (...) ' de implicações reconhecidamente injuriosas.

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 4, 2007 05:45 PM

Caro "pirata": Que o "diabo me leve", sim... principalmente se for um diabo simpático e civilizado. Gosto de homens com classe por isso me despeço de diálogo consigo. Abraço e bom fim de semana.

Publicado por: Ela às outubro 4, 2007 06:32 PM

('Classe'...
o que é isso?
Visto por quem? De onde!?...

A 'Classe' vista por um mano que se ginga no CCMassamá será a mesma de que fala um santanoso que se bamboleia à porta do CCBelém?
A 'Classe' da sra. ministra faz esquecer que se trata de...? (isso mesmo!)
Ou
a classe do arrivista lá da b'loura impressiona pela vivacidade e pelo jaguar mal estacionado?
Qual 'Classe'?
A do sr. arcebispo?
A do sr. engenheiro?
A 'Classe' nobre do sr. conde de não-sei-daonde?

Presumindo que não será da 'Classe' do cigano nem da do sargento nem da do puto da garagem nem da mnina da caixa nem da floribela bem do gajo dela nem do gajo giro do check-in nem ... 'Classe'?!
Was ist das? )


Nunca foi diálogo!
Você não entenderia o que digo.

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 4, 2007 07:34 PM

Obs:Estou a adorar o nível de tratamento entre os comentarista. Poderiam poupar-nos as agressões?
Grato.
Tati? Sem comentários!
Beijos!

Publicado por: Justo às outubro 4, 2007 09:07 PM

Cópia Fusca

É dideza piar didi :-(

Vítor

Publicado por: Minderico às outubro 4, 2007 11:43 PM

a mim, o que me faz impressão, sempre fará, é o conceito que alguns senhores, tal como Filipe Nunes Vicente, têm (ainda há muitos)de pensar que num casamento tem de haver forçosamente traições, e fazer-lhes o respectivo branqueamento, chamando-lhes mentiras.
Quem acha que não consegue deixar de trair, só pode ter uma vida estilhaçada, não sei sequer se será verdadeira, mas felizmente estilhaçada.
Isso quer dizer que a mulher já não aceita os padrões de machismo, para ser meiguinha, do pequeno texto transcrito.

Publicado por: marta às outubro 5, 2007 01:26 AM

a mim, o que me faz impressão, sempre fará, é o conceito que alguns senhores, tal como Filipe Nunes Vicente, têm (ainda há muitos)de pensar que num casamento tem de haver forçosamente traições, e fazer-lhes o respectivo branqueamento, chamando-lhes mentiras.
Quem acha que não consegue deixar de trair, só pode ter uma vida estilhaçada, não sei sequer se será verdadeira, mas felizmente estilhaçada.
Isso quer dizer que a mulher já não aceita os padrões de machismo, para ser meiguinha, do pequeno texto transcrito.

Publicado por: marta às outubro 5, 2007 01:26 AM

Só para baralhar e confundir ;-)

1º - O homem e a mulher existem há centenas de milhares de anos.

2º - O conceito de infidelidade nasceu quando?

3ª - Que influências tiveram as religiões, nomeadamente a Igreja Católica, no criação do conceito de fidelidade?

4º - Se fossemos imortais (eternos fisicamente), o conceito de infidelidade existiria?

5º - Ser fiel será uma forma superior de egoísmo?

6º - Ser casado(a) implica que se evite desejar dar umas "trucas" com os(as) borrachos(as) que constantemente nos rodeiam?

7º - Ser fiel deverá obrigar-nos só fisicamente e/ou também mentalmente?

8º - Quando um casal perde a paixão recíproca, o conceito de fidelidade mantém-se?

9º - Última provocação: é possível amar-se mais que um homem(mulher) em simultâneo?

Fredericos de cópia fusca

Vítor

Publicado por: Minderico às outubro 5, 2007 01:50 AM

Quem não pode, não quer ou não consegue ser leal (porque esta é a palavra correcta para a verdade entre duas pessoas), não assuma compromissos. Quem prefere amar (e dormir) com mais do que uma pessoa (nada contra), mantenha-se fora de vinculos apenas com uma. É tudo tão simples meu Deus!!! Apenas uma questão de consciência, nem sequer está em causa moral e os bons costumes, desses eu desconfio sempre. O que está em causa é a seriedade para connosco e os outros, nada mais!

Publicado por: Ela às outubro 5, 2007 10:48 AM

ELA

Perfeitamente de acordo. Entenda a minha "provocação" acima como isso mesmo - uma provocação.

Bom fim de semana

Publicado por: Minderico às outubro 5, 2007 11:47 AM

A sua tentativa de provocação esbarra na crueza do contrato matrimonial no âmbito do qual fidelidade significa claramente foder em regime de exclusividade com o conjuge e não mais; o amigo Mindas falou em fidelidade dos casados e essa pois formal e obrigatória. Outras formas de conivência, solidariedade ou comparticipação estarão especificadas de outra forma, naquele contrato.

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 5, 2007 06:11 PM

J. - a dualidade comum à vida de todos e que aponta, subscrevo; porém, as decorrências de uma e doutra não cesso de reflectir. Inquieta-me, reconheço, o tema, tão presente no quotidiano individual,

Ela - foste clara sim. E fica certa do lido não se divergir daquilo por ti pensado.

Pirata-Vermelho - ora aí está mais um acordo entre nós - o último parágrafo é o sumo do texto. Já no acrescento "('Ainda me amas', interrogava ela, imprecisa,
num indagar adiado pela afronta d'o diabo qu'as leve! a todas...)", o seu humor, normalmente inteligente e polido, neste caso não é facilmente entendido.

Torblogdita - as referências cinematográficas que seleccionaste são de eleição! No "Closer" então, a verdade da mentira que perpassa todo o filme, a desconjunção astral que mais não é do que exercício do livre arbítrio dos seres, tudo contribui para eu ter esta fita como uma que amiúde revejo. "... mesmo uma verdade fora de tempo é preferível a um tempo fora da verdade". Tal qual.

Marta - sabe que a consciência individual, durante algum tempo, pode ser amordaçada. Nunca para todo o sempre, ou a pessoa não é Pessoa que outra pessoa ame. Digo eu... Uma nota: julgo que
a reflexão do Filipe Nunes Vicente não aponta para a fatalidade de ser infiel. Porém, não desdigo outras leituras. Como a sua.
Obrigada pelo comentário.

Publicado por: Teresa C. às outubro 6, 2007 02:43 PM

Hélas! Ça semble... porém, você entendeu o que mostra que não é nada de inatingível, hermético ou 'tribal'

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 6, 2007 02:54 PM

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Recordar-me?