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outubro 17, 2007
PASSAROLA, PÁSSARA, PASSARINHA

Al Moore
Passarola. Pássara. Passarinha. A do Bartolomeu de Gusmão que em voo galgou um quilómetro e aterrou no Terreiro do Passo. A do Chico Buarque. A azeitona miúda. Ou outra. A Cila. Que galga e aterra e exaspera e é traquina.
Entorpecida por shot – malgré o volume de líquido engolido deixar longe os 44,4 ml – de Ben-u-ron, Brufen e Actifed com o propósito de embebedar o vírus que me escolheu para ninho, quem zonzeou fui eu. A cabeça é uma coisa vaga, algures acima do pescoço, onde o nariz não pinga porque o Actifed proíbe, que não dói, nem reage, nem embirra, desde que a intercalada dose de BBs mantenha o nível de anestesia. Depois, há a humilhação. Uma coisa é ter uma gripe - a do ano, se possível, que nisto, como em tudo, gosto de me sentir up to date - com dignidade reconhecida por vacina e temor das gentes, outra é a condição de constipada que legitima cara-de-mete-nojo, e muito diferente é uma virose sem pedigree reconhecido. Ao “coitada, que tens?, estás com um aspecto péssimo”, respondo a verdade e vem o escrutínio: “o que sentes?, dói-te a barriga?, tens diarreia?, vómitos?, eu tive isso quando estive de férias em Cabo Verde.”
A Cila (aos recém-arribados esclareço ser a mui querida funcionária), ao contrário do seu comum, só piora. A meio da tarde, constato azul o aro da sanita. Indago a razão. Dá-ma: “encontrei-a assim, e até os lençóis da cama mudei por estarem azuis. Está tingida; não sai nem com lixívia. Calei para não incomodar” Eu, parva. Não me abati: “e os lençóis?” – “Já os meti na máquina e saiu o azul!” O queixo pendia-me. “Como, se de manhã estava tudo normal e a lingerie é branca? Sugere que me sentei em cima de uma lata de tinta, não dei conta, adormeci calmamente, acordei, et cetera e tal e nada vi?” Que sim, que fora distracção minha, “coitadinha, também no estado em que está!...” Conduzi-a ao local do crime. Levantei o aro e, pela zanga baixando o tom de voz, tossi: “ a virose desta tinta branca empolada, a madeira à mostra, o riscado do esfregão, tem nome: lixívia da boa e detergente com amoníaco. Não repita.”
Pássara
E aí
Ela cisma de voltar
Sorri
Quase pra te provocar
Sim, goza tal felicidade
Que tu vais ter que te amargar
Vais perseguir a maldita
Vais insultá-la na rua
Vais jogar pedras na lua
Vais montar uma guarita
Pra que aquela esquisita
Não se atreva a voltar
E aí, e aí, e aí
E aí
Ela cisma de voltar
Sorri
Quase pra te perdoar
Sim, exala tal liberdade
Que não podes mais tolerar
Vai manchar tuas verdades
Vai se enfiar no teu leito
Trair-te no teu próprio peito
Vai quebrar todas as grades
De que um homem é feito
Pra esquecer de voar
E aí, e aí, e aí
E aí
Ela cisma de voltar
Sorri
Quase pra te convidar
Quase pra te convencer
Quase pra te complicar
Quase pra te confundir
Mesmo pra te enlouquecer
Mesmo pra te despertar
E aí - Chico Buarque
CAFÉ DA MANHÃ
A pedido do Reverendo Arcepispo, com gosto divulgo o Passatempo "Melhor Post de Humor da Semana"
Publicado por Teresa C. às outubro 17, 2007 09:21 AM
Comentários
As melhoras, Teresa querida.
dia bom, proveitoso, entre dias bons!
abraço.
Publicado por: troblogdita às outubro 17, 2007 10:01 AM
Fiquei tão desconjuntado com o qu'aqui me é dado que me refugio no lacónico lá do montado - na'há cá pássaros, nem passarinhos, nem passarucos! Nem aves de rapina nem pardalecas armadas'ós cucos...
Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 17, 2007 02:36 PM
As melhoras Teresa - abafe-se, abife-se e avinhe-se, tá?
Pedagógico o "raspanetezinho" à funcionária hehe
Publicado por: Minderico às outubro 17, 2007 02:40 PM
Melhoras. Fique em boa companhia, com o Chico!
Publicado por: anita às outubro 17, 2007 04:57 PM
Sara !
Publicado por: Justo às outubro 17, 2007 07:03 PM
Manuela !
Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 17, 2007 07:29 PM
Receita infalível.
Avie-se, adivinhe-se e abespinhe-se
Ó rama é que linda rama, modere-se e não se enviese
Protega-se, tolere-se e vai-ver-que-isso-passa
Encharque-se, enxugue-se e encharque-se e enxugue-se outra vez (pode repetir o ciclo)
Nutra-se líquida e generosamente
Não se modere e não condescenda – after all it’s only a virus
Encane, etílique-se, mas com elegância
Embale-se ou, alternativamente, exapsere-se
E espirre à vontade.
PS. Não se esqueça de postar (com ou sem virus)
As melhoras
Publicado por: Laranja às outubro 17, 2007 11:36 PM
Pirata vermelho ?
Que senso de humor !!!
:o)
Publicado por: Justo às outubro 18, 2007 12:22 AM
Caríssimos,
A «piquena» já está bem, recomenda-se (não sei a quem nem para quê) é uma coisa é certa: já não faz mal a ninguém. A cara-mete-nojo corou, o nariz está prestes a readquirir a forma usual, os olhos já abrem razoavelmente, o corpo suporta a vertical sem necessidade de ombreira que o ampare.
O Feio consubstanciado no modo como me olhei. Os outros belos porque saudáveis. Eu como uma coisa sem eira-nem-beira. A subjectividade pode ser tirana se uma cidadã não a remete ao devido lugar. Tentei, mas c'os diabos, bastava inadvertida passagem por um espelho para pensar de mim para mim: foi desta que o viço sumiu. Mas não. Estava "a modos que" enxofrado com o ataque sofrido. Remédio santo - enfiei um trapo modernucho e, o mais importante!, novo, desafiei o esqueleto com uns saltos e fiz-me à vida. Não fora o calor de morrer que à conta do trapinho novo passei, e o dia teria sido perfeito. E foi, porque assim o vi.
Foram os meus queridos amigos uns queridos. Mimaram-me, aturaram-me e ficaram juntos a mim. Beijo um a um.
Publicado por: Teresa C. às outubro 18, 2007 07:24 PM
Sarou !
:o)
Publicado por: Justo às outubro 18, 2007 10:40 PM
Justo - piorou! :(
Publicado por: Teresa C. às outubro 21, 2007 05:51 PM
