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outubro 31, 2007

PÚBIS LOGO ALI EM BAIXO

Mati Klarwein harmel-klarwein-YYYY.jpg
Mati Klarwein

Era tudo muito simples: eles atacavam, sitiavam?, a mulher cobiçada, elas rendiam-se ou não. Senão – reservando a autonomia das mulheres ao entre-paredes do lar, esqueceram que lhes forneciam de mão-beijada um poder incomensurável. Elas educavam os filhos regurgitando modelos ancestrais, determinavam quando estavam prontas as cuecas, peúgas e camisas, conservavam os homens num banho-maria confortável e indefeso, abrigando sob as respectivas asas protectoras todo o clã familiar. Às raparigas, fosse pelo exemplo, ou pelo discurso tradicional, era transmitido o modo de os «levar-à-certa», perpetuando a sabedoria de manipulação. Aos rapazes a pedagogia ia no sentido de optarem, chegada a ocasião, por mulher que fizesse sopa de sustento, mantivesse limpo o ninho e parisse bem.

Meado o século passado, elas foram para a rua. Na mão a ceira das compras pelo final do dia, mas de manhã, ah!... pela manhã saíam, com(o) eles, para ganhar o pão. Encheram universidades, ao próprio corpo e ao deles impuseram regras por via da pílula contraceptiva sem abdicarem do matriarcado (clandestino?). Mesmo na aparência do mais exaltado machismo, a elas competia o encolher de ombros condescendente perante as «manias» dos respectivos. E, salvo nos casos de bebedeira ou pancadaria – desvios sem tempo no tempo -, traziam dinheiro para casa, encarando os acessos autoritários deles como prova de mais não serem que uns tristes-coitados a precisarem de convencimento da autoridade que elas não desmentiam a troco dum homem capaz de as proteger de inadvertido ladrão que se esgueirasse pela porta ou pela janela e lhes fizesse mal. Esperavam pelo malfeitor a vida toda – “aqui-d’el-rei que nunca mais chega quem me arrebate do tédio e do barrigudo descamisado que se deita ao meu lado!” –, aos maridos, por via da transgressão temida e sonhada, também.

Décadas volvidas, e, no meio do entulho consumista, todos julgam que a felicidade é um direito que alguém ou um sindicato ou o governo ou a sociedade deve garantir. Elas acumulam a sapiência doméstica com a parição, profissões iguais às deles e o domínio do “abre-te Sésamo” da gruta do tesouro por onde aspira entrar qualquer Ali Babá. Eles, baralhados perante o novo feminino, vêem-nas passar de umbigo à mostra, calças descidas até onde a púbis começa, amaldiçoam não terem nascido com software embutido de que conste o Pantagruel e uma enciclopédia de prendas domésticas, titubeiam, esqueceram a senha, não sabem o que fazer até elas decidirem segredar-lhes a password . Que podem mudar a qualquer momento. E mudam. E eles, de novo, às-aranhas. E vão de metro a tecnossexuais a qualquer coisa a meio termo entre os peludos-coça-fruta e os delapidados-resumidos-a-pêlos-no-sovaco. E elas passam. Ondulam, como ontem e sempre, as ancas. O peito bem à frente do caminho. Barrigas lisas que o frio não arrepia. Púbis logo ali em baixo.


CAFÉ DA MANHÃ

“Saramago escreve cristalinamente.” – Miguel Sousa Tavares no “Pessoal e Transmissível” de ontem.

Publicado por Teresa C. às outubro 31, 2007 06:22 AM

Comentários

Como diria o meu inesquecível César Monteiro (e tendo como pano de fundo o amarelo desta casa), "adorei, adorei, adorei..."

Publicado por: fallorca às outubro 31, 2007 09:25 AM

«Às raparigas, fosse pelo exemplo, ou pelo discurso tradicional, era transmitido o modo de os «levar-à-certa», perpetuando a sabedoria de manipulação.» E começavam cedo, as ranhositas, nas eiras e nos quartos caiados das férias na serra, a desafiarem-nos/me para os aromas recônditos do "logo ali em baixo". Meio atónito/s interrogava-me, onde, onde? E era aquilo..., mas só com direito a permuta disponibilizada pelos meus calções. Mudam-se as tácticas, prevalecem as vontades.
Pirata-vermelho e Minderico não me deixem a pregar na infância!

Publicado por: fallorca às outubro 31, 2007 09:41 AM

O tempo da escravatura femenina já acabou há muito tempo, ou por outro lado já devia ter acabado....mas infelizmente ainda existem muitos seres masculinos que consideram que as mãos não são iguais aos das suas companheiras...Por isso e por muito mais que exista a liberdade de gritarmos bem alto a nossa independência desses seres que a maior parte das vezes só querem a companheira para lhes servir de criada...e de consolo!!!!!

Publicado por: Incógnita às outubro 31, 2007 11:15 AM

Já que hoje não há § que se lh'aponte, apague ali abaixo o dichote do Tavares e do Saramacho.


Cristalino é o melro!
(Lembra-se da anedota?...)

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 31, 2007 05:31 PM

Já vem de ancestrais o medo que os homens sentem das mulheres? Sabe-se lá que medo é este. Desde a proibição às mulheres do gozo, até mesmo o ato covarde da oblituração do clitoris, vem açoitando a mulher de forma inimaginável.Por outro lado é a ignorância do que seja o amor em forma humana, cujo nome dá-se mulher, que faz com que tal aconteça.Penso que denotamos tão deliciosamente provocante sensação de sedução, com poucos dedos de distância ao âmago da questão, que no século XVII :"As mulheres começaram a usar anáguas no lugar das crinolinas, e também mangas três-quartos. Essa última transformação desnudava pela primeira vez o braço das mulheres, desde a queda do Império Romano, mais de mil anos antes"..
Podem imaginar o que representaria "ombros nus"?
Se hoje, há mulheres, mesmo sendo eu apenas um "centimetro-sexual" , afirmo que há, cujo desnudar dos ombros já é um assombro. Imaginem então se o desnudar de braços, após mais de mil anos cobertos não seria muito mais que o espantoso "púbis logo ali em baixo"? As mulheres sempre procuraram tornar os homens melhores e ainda procuram. Quando olho para o passado e sua história, e vejo estas moças a fazerem como a Tati afirma: " Ondulam, como ontem e sempre, as ancas. O peito bem à frente do caminho. Barrigas lisas que o frio não arrepia. Púbis logo ali em baixo.".. Agradeço imensamente o tempo que vivo. Pois não temo perder meus sessenta e cinco quilos para o meu um metro e setenta aos cincoenta e cinco anos. Sem barriga pois vinho algum que eu saiba embarriga. Ao menos não a mim.
E viva o século XXI e seu "púbis logo ali...". O que me leva a alegre sensação de imaginar o que virá no século XXII ?

Publicado por: justo às outubro 31, 2007 07:18 PM

Fallorca - Deo gratias!, que de assunto tão polémico temi o pior. O meu «levar à certa» não tinha tanto a ver com pilinhas e pipis (não de frangos, claro!) mas com dar a corda certa no momento certo para que a hora marcada fosse a desejada pela mulher. Piorei?

Incógnita - Ai que a vou irritar, mas olhe que servir de criada de vez em quando é barrigada de incontáveis prazeres. Depois, num outro dia, ou no mesmo, que a arte da sedução e das parcerias amorosas não se esgota num instante, será ele o nosso mordomo. Fardado. De preferência somente com um guardanapo branco no braço

Pirta-Vermelho- Jura? Nada a apontar no texto? Sério? Ainda tenho bem presente um comentário seu de num texto de três parágrafos o melhor ser o último (obviamente não me pertencia!). Aquela do Saramago teve o seu endereço. Eu adoro, o Miguel também e mais há. Ainda o verei convertido num "Saramago Novo".

Justo - é essa imprevisibilidade do "daqui a pouco" que é o amanhã nas meteóricas sociedades em que vivemos, que seduz e pede a leitura do hoje alicerçada no passado. E o que virá é bom de certeza se aniquilarmos fantasmas e preconceitos e continuarmos cabeças fora do redil.

Publicado por: Teresa C. às outubro 31, 2007 08:10 PM

Vade retro t'arrenego que por mim não passará e por baixo de toda a folha ainda um dia te levará te levará quem tanto mal me quisesse e sem querer ficar por má.

Não sabe que sou alérgico à falsidade d'oportunista? Seja rico ou adventista...
Antes queria a cegueira, ser maneta e ter menos de trinta anos!

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 31, 2007 08:40 PM

É com menos um 'te levará', senão não faz efeito

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 31, 2007 08:42 PM

(A referência à idade, no meu desejo, só tem a ver com a vaga recente de iliteracia e com a incapacidade de escrever em português (OU! em qualquer outra língua). Desenho das letras incluído...
Lembra-se de como escreve o aluno do 3ºano de CS(*) que anda a distribuir correio aí na sua rua, quando lhe deixa um aviso de carta registada?)


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(*)
CS - Comunicação Social; uma licenciatura.

Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 31, 2007 08:51 PM

Que maravilha de texto, Teresa! Perspicácia, ironia, agilidade, humor e, claro, uma inspiração imensa!

Sabe que ao ler o post me lembrei de fragmentos dos filmes do Almodovar? É que neste artigo estão muitos dos traços das culturas do sul da Europa, do nosso matriarcado "subterrâneo", cheio de "manhas", provérbios e encantamentos! E adorei essa complacência ternurenta para com os homens.

O Saramago? Gosto muito. Calhou-me o "Todos os Nomes" no desafio que me fez. Não é engraçado?

Publicado por: Alba às novembro 1, 2007 01:51 AM

E agora, já estou a aprender com os seus outros comentadores e faço outro comentário:
É curioso ter escolhido a imagem de uma mulher muito maternal que quase embala um homem que parece mirrar, para ficar mais pequenino. Um menino. :)

Publicado por: Alba às novembro 1, 2007 01:54 AM

Tati, não "piorou" nem "despiorou". Você é assim e nós gostamos/apreciamos/espicaçamos, caso contrário tinha o blog limpinho de comentários ;)

Publicado por: fallorca às novembro 1, 2007 10:00 AM

Alba - mirrar? Óbalhamedeus (assim, à pirata-vermelho...) então a menina não gosta que um homem/o seu homem se aniche em si até onde a ternura for possível??

Publicado por: fallorca às novembro 1, 2007 10:18 AM

Alba; Acho que Fallorca tem razão. Até porque penso que todo homem procura mil mulheres em "sua" mulher.
A mãe, a amante, a irmã, a companheira, a conselheira... Enfim. Estes laços de ternura que desde muito cedo, quem sabe até mesmo no ventre se cria ? Fallorca é pleno de razão "até onde a ternura for possível"... Oxála não tenha fim.
Que todo homem jamais esqueça de ser eternamente e ternamente um menino.
Beijos.

Publicado por: Justo às novembro 1, 2007 12:56 PM

"A mãe, a amante, a irmã, a companheira, a conselheira" - Caro Justo, é preciso perceberem,oh almas masculinas, que só queremos ser mães dos nossos filhos. Um homem não é um filho, não pode ser um filho! Por favor...Justo, poupe-me!!!

Publicado por: Ela às novembro 1, 2007 03:37 PM

Até porque penso que todo homem procura mil mulheres em "sua" mulher.
Que culpa tenho eu?
Talvez encontrastes o motivo do poupar.
Poupo-te Ela. Talvez tenhas razão. Afinal não sou mulher, nem mãe, nem amante nem coisa alguma que mulher é.
Pois deveriam as mulheres, em última instância tratar os homens como homens e não filhos?
Nada disto SEI "Ela". Apenas observo.
Porém entre as reticências deveria eu ter dado enfâse ao PAI ?
PS:Há coisas lindissimas em teu blog.
Entre as mais lindas:
"Cheiro a mãe"
Tinha acabado de sair do quarto. Era manhã cedo. O perfume que a minha filha sempre conheceu, sempre sentiu, o aroma que me acompanha todos os dias. Passo por ela sem perceber a pressa dos meus passos. Olha-me com um sorriso e diz:
- O teu quarto cheira imenso a mãe!

Ela. Poupe-te !
Desculpe;

Publicado por: Justo às novembro 1, 2007 03:52 PM

Obrigada Justo. Nem é para pedir desculpa. Apenas para lhe dizer que me irrita a "mania" masculina de pensarem que somos mamãs... Sei que o mesmo se passa ao contrário e, de certo, não quererão ser pais da mulher que querem como compamheira. Era apenas isso que queria dizer com o "poupe-me". De facto, é coisa que me tira do sério é a tendência a verem nas mulheres/companheiras a substituta da mãe. E ressalvo aqui as excepções que, sabemos, são poucas.

Publicado por: Ela às novembro 1, 2007 03:58 PM

Pirata-Vermelho - OK, OK, não esperarei a sua conversão, pronto! E esta "Antes queria a cegueira, ser maneta e ter menos de trinta anos!" esteve uma delícia! E as razões? melhores ainda.

Alba - Outra pessoa de excelente gosto que partilha o meu gosto pelo Saramago. Pode não ser um excelente contador de histórias, mas quanto a tratar bem a língua portuguesa, não duvido. E sim, concordo, há reminiscências dos filmes do Almodovar porque também ele não desiste de entender o feminino e, por via, dele o masculino.
Fiquei feliz por ter entendido o sentido da escolha da pintura. A mulher amiga, cúmplice e amante e o homem que a não teme, antes nela se recolhe.

Ela - num ponto divergimos, minha querida - não me importo de ser de quando em vez a mãe no sentido de um amor generoso que não espera retorno. Esta é a característica primeira do amor maternal. Por isso entendo o Fallorca e o Justo. Porque também não me abespinho se o meu homem, vendo-me precisada, se investir da figura paterna e me der colo. Muito. Tanto quanto adoro dar. Mas percebo bem o que queres dizer quando afirmas "não queremos ser as vossas mães", que é como quem diz, substituirmo-nos às vossas responsabilidades e tarefas enquanto companheiros.

Fallorca - sou terrível sei, mas que fazer se gosto de mim assim?!...

Publicado por: Teresa C. às novembro 1, 2007 08:46 PM

Então se gosta não desgoste ;)

Publicado por: fallorca às novembro 1, 2007 10:39 PM

Demonstre que o Saramago trata bem a língua portuguesa.

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 2, 2007 11:24 PM

Pirata-Vermelho - e uma opinião intelectual demonstra-se objectivamente? Respeitando um a um os passos requeridos para uma demonstração? Não está em causa um conhecimento científico. Pragmático. Preciso. É importante a distinção entre opinião e facto. Este é passível de demonstração, aquela não.

Publicado por: Teresa C. às novembro 3, 2007 09:24 AM

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