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outubro 23, 2007
PULP FICTION SEM RESPOSTA

Wendy Ewell
Ligaste pelo meio de sábado. Estranharas a ausência de resposta ao Pulp Fiction que te atribuí como toque. As sms económicas. Perguntas, se tinhas, omitiste. Nem bailaram na voz. Inquieto, sim, no “estás bem?”. “Que não, que houvera uma noite horrível de rebelião orgânica contra os químicos da cura. Vomitara.” Contei da sede. Da diluição do corpo nos litros de líquidos ingeridos. Da liquefação muscular. “Almoçaste, miúda? Estás sozinha, pressinto! Meia hora e estou aí.” Não tive tempo de negar, dizer-te que preferia o nada. Recolhida na concha verde-lima-e-pérola. Fruindo do ninguém.
Ao abrir a porta vi um molho de margaridas à mistura com gipsófilas. “Encostas-as à face. Caramba, nisto devo ser bom... Tu e elas com a mesma cor! Estendeste o outro braço. “Não segures. Mexe. Não cheires, que no estado em que estás nem o braço do Gualdim Pais te sortiria careta.” Apareceste. Finalmente. Recortado no corredor. “Miúda, és divina! Em fato de noite como na mais perversa volúpia esperava encontrar-te! E os chinelos! Ah, como escolheste o pormenor matador... Fofos, quais barcaças onde se perdem os teus pés... Provocadora! Sabes que te favorecem as pernas." Eu ria e tu, sério, simulavas fascínio. “Deita-te no sofá. Estás proibida de abrir a boca salvo para um pedido.” Aconchegaste-me os almofadões ao corpo dorido.
Na cozinha, abrias gavetas e armários. Eu queda, tu calado, silenciando: “que diabo!, as cozinhas são todas iguais. Têm de ser!” Triunfal, dispuseste dois tabuleiros na mesa. As flores enfiadas num jarro. Passaste-me pelo nariz a taça de canja aromatizada com limão e hortelã. “Rejeita se és capaz!” E eu atrás do cheiro, da fruta partida nas taças, das margaridas e da renda das gipsófilas. A cada garfada e a cada palavra tua o apetite voltava. Quando sugeri um café, foste peremptório – “eu sim, tu não!” Cedeste num descafeínado da nespresso que me aromatizasse o sono.
Prolongámos o serão. Contaste-me do filme a que não pudera ir, como iam bem contigo noites com manta de música, “de preferência com gente ao lado que não tenha a face da cor das margaridas”. Rimos com gosto. Ao deitar, pousaste-me na testa o beijo da despedida – “volto amanhã para mudar a água das flores.”
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às outubro 23, 2007 08:47 AM
Comentários
Ah, então tem amigos...
('inda bem!)
há pouco 'disso'
e
é melhor que d'aquilo.
Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 23, 2007 12:24 PM
"d'aquilo"!
q'ria eu d'zer...
(...o tal rapaz é um gajo porreiro e desportivo. Dê-lh'um abraço 'cá da casa'.
E ainda há a questão das flores -maldita romeira-romaria!- mas não eram, pois não?)
Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 23, 2007 12:27 PM
Como é que alguém que «...preferia o nada. Recolhida na concha verde-lima-e-pérola. Fruindo do ninguém.» - pode ficar descansda perante os cuidados ajardinados de quem se despede afirmando (mesmo com um beijo na testa) que “volto amanhã para mudar a água das flores.”? Fiufiufiu...
Publicado por: fallorca às outubro 23, 2007 03:53 PM
Pirata-Vermelho - muito melhor que d'aquilo, que vai-se a ver e são mais os sobressaltos e imprevistos e toma-lá-dá-cá e contabiliddade de mercearia q'aquilo q'aquilo devia ser. Dei o abraço, que esta morada não a sabe - conto mantê-lo na infinita paz da ignorância. As flores eram Pingo Doce a caminho aqui de casa. Tive o cuidado de verificar o papelucho. Romeira-Roma ou Decoflorália eram a queda do artista.
Fallorca - Mas que gargalhadas boas debitei! Os cuidados ajardinados (ponto 1 - ignorava-os) não foram incompatíveis com o fruir do ninguém (ponto 2 - teve humor; ponto 3 - só voltou no dia seguinte). Como o prometido, cuidou das flores, cortou-lhes os talos e mudou a água. Acrescento: espremeu em sumo quatro laranjas, duas para cada um. Vimos um episódio da "Letra L", trocámos comentários corrosivos, ele foi à dele e eu fiquei na minha. (ponto 4 - ninguém regressa à minha caverna sem combinação d'arte, doçura e engenho).
Meninos: as gargalhadas que me provocaram, foram a melhor coisa do dia!
Publicado por: Teresa C. às outubro 23, 2007 05:09 PM
Meninos... ui! Pela parte que me toca, foi tal a leveza que até levantei os pezinhos da tijoleira...
Publicado por: fallorca às outubro 23, 2007 07:41 PM
Teresa C. - OK, sorry. Cavalheiros. Now, I mean it!
Publicado por: Teresa C. às outubro 23, 2007 08:08 PM
A sedução necessita que se considere a(o) outra/o como alguém muito especial? desafiante como quem pode preencher a intimidade e alterar o dia-a-dia?
implica inteligência e emoção?
Sedução...
Beijos
P.S - 'Pulp Fiction', excelente referência
Publicado por: apenas um gajo e nada mais às outubro 23, 2007 10:06 PM
Apenas uma Gajo e Nada Mais - a sedução só precisa de uma só condição: acontecer. O resto? Inventa-se depois!
Beijo
Publicado por: Teresa C. às outubro 24, 2007 05:44 PM
Que post tão ternurento! E ele é o amigo sensível, fraterno e divertido que todas as mulheres sonham...
Publicado por: Alba às outubro 25, 2007 01:19 AM
Alba - por isso o mimo e preservo e lhe aturo os blues. Que também os tem. E é teimoso. Menos do que eu, contudo.
Publicado por: Teresa C. às outubro 26, 2007 08:27 PM