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outubro 10, 2007
QUAL CÂNDIDO DE VOLTAIRE

Dinh Dang
Facto: o L. M., bom amigo, propunha-se ler a revista do semanário, refastelado no altar da «casinha». Metade do serviço aviado, abonou-se de papel para a limpeza intermédia que depois largou na cova do altar. Continuada a leitura, enquanto mais não chegava, fez um golpe no dedo ao desfolhar o papel. Hipocondríaco, alcançou álcool e algodão, não entrasse “microbicharada” pelo golpe mínimo, quiçá infectando, pior, alastrando numa septicemia mortal. Tratou a ferida e remeteu o algodão à companhia do papel e do despojo intestinal. Acendeu um cigarro e continuou a leitura. Não havendo modo do resto arribar, lançou a beata para a cova. Só deu pela coisa quando o traseiro e os apêndices passaram de quentinhos a pasto de chama. Levanta-se de supetão agarrado ao essencial, desequilibra-se e bate com o cocuruto na esquina da bancada. Vai de charola para o hospital com as pudendas partes queimadas e a cabeça rachada. The End.
Livre-arbítrio: “possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante.” Mas a isenção de condicionantes nos nossos actos, existe? Determinismo ou liberdade de escolhas? Sobre isto, há muito a Filosofia anda às turras. Facto é a sociedade de hoje resultar do livre-arbítrio passado e cada um se defrontar com os resultados das acções. Os membros idos e vivos das sociedades terrenas fizeram menos do que deviam em beneficio do bem comum. Miséria, desemprego, violência não existiriam se outro tivesse sido o comportamento colectivo. Esta realidade permite a milhões o livre-arbítrio? Assim sendo, a concepção determinista, segundo a qual todos os acontecimentos são consequência de circunstâncias anteriores, ganha terreno. Mas não foi o L.M. que decidiu desinfectar a ferida? E fumar? E ir para a «casinha» ler o jornal? Porém, foi à casinha sob imperiosa necessidade física que do arbítrio não dependia. É hipocondríaco sem que num amanhecer rezingão tenha decidido: “vou tornar-me um apanhadinho por maleitas”.
Num tempo soft & light como o nosso, vinga o soft determinism (aceita a paridade do determinismo com a liberdade de escolhas) ou “livre-arbítrio compatibilista”. E trago a estória de Voltaire sobre o passarinhar no mundo de um sujeito chamado Cândido que decidir a sua vida não conseguia. O livre arbítrio existe, mas pelas desigualdades (as sociais encimando o rol) elevado número de pessoas jamais chegará ao ponto de tomar uma decisão importante na vida por faltar à sobrevivência o fundamental.
CAFÉ DA MANHÃ
Agradeço ao Edgar o destaque que achou por bem dar ao “Dicionário Buá-Português”.
A não perder este "Amor Tóxico”.
Publicado por Teresa C. às outubro 10, 2007 06:27 AM
Comentários
A encenação com que tudo aqui começa é forte; aguenta-se mal à partida mas reconhece-se-lhe a acuidade à chegada; e alguma agilidade intelecto-emocional... digamos.(ls. 1 a 7)
Porém, ficou tudo breve e bem dito nas duas últimas linhas, embora já 'lá em cima' se tivesse feito notar que parece 'determinismo', o facto de permanecer e prevalecer, desde sempre, o impedimento da solidariedade estruturante.(ls. 10 e 11)
Facto - Você não acredita em bruxas.
Publicado por: -pirata-vermelho- às outubro 10, 2007 02:02 PM
Olá, boa noite
Depois de ler este texto da Teresa C. deu-me ganas de escrever, também, um artigo sobre o livre-arbítrio e o determinismo.
Por falta de inspiração no momento, deixo para um qualquer dia.
Entretanto, indico-vos o endereço deste espantoso vídeo do Ricardo Araújo Pereira, que vi no blog da ELA.
Publicado por: Minderico às outubro 10, 2007 09:28 PM
Algo que me provoca irritação é o fatalismo com que se aceita que existe um Destino que conduz a nossa vida e permite desculpabilizar e libertar de responsabilidades todas as decisões tomadas e escolhas feitas.
A experiência em aceitar e assumir os erros cometidos é a grande ajuda nas escolhas que se vão concretizando ao longo da vida.
Beijo assumido
Publicado por: apenas um gajo e nada mais às outubro 10, 2007 10:50 PM
o livre-arbítrio, como o perdão, não existe verdadeiramente, é um artifício para assegurar a convivência social
com o perdão, apaziguam-se tensões e arrumam-se adequadamente algumas culpas, permitindo encarar positivamente o devir - ou o próprio dia e ... carpe diem!
com o livre-arbítrio, legitima-se a exigência de responsabilidade, individualizam-se as culpas e os perdões, disciplina-se a vida em sociedade
enfim, também não existem verdadeiramente o frio ou o mal (Einstein dixit) mas dão um jeitão para mais facilmente compreendermos a realidade e, sobretudo, para a ela nos adaptar-mos
estratégias, portanto, de sobrevivência
e - porque não dizê-lo? - nessa medida, determinadas !
Publicado por: ora et labora às outubro 11, 2007 01:35 AM
Pirata-Vermelho - bingo! Não acredito, mas no bruxedo das desigualdades que decapam arbítrio libertos, ai!, nesse creio.
Minderico - bem que gostava de ler a uma dissertação sua sobre o tema. Se condimentada com aquela pitada, que por aqui uma vez afirmou possuir, de Homem-do-Norte-Carago tanto melhor.
O vídeo está óptimo e tinha-o visto no blog d'Ela. Grata pela divulgação aqui.
Apenas um Gajo e Nada Mais - tolero com dificuldade quem sacode do capote a àgua pela desresponsabilização. Se recorrente, pior. Quem de tal prática é entusiasta, será que o respectivo sentido crítico evolui? Ao menos existe? Que aprenderão quando "batem com a cabeça na parede? A culpa é da parede? Foi distracção da fortuna? Esta passividade é atrito que ao mundo impede de rolar, Beijo responsável. ;)
Ora et Labora - apreciei a sua argumentação e julgo que o meu pensar ficou claro no que atrás escrevi.
Publicado por: Teresa C. às outubro 11, 2007 01:30 PM