« GAIATA SEM PRAZO | Entrada | DESGRAÇOU-A SER PRINCESA »
novembro 14, 2007
ADEUS DIVÓRCIOS, TRISTEZAS E DÍVIDAS

Kenney Mencher
A nova ordem social tem preceito rígido: estar saudável. Impõe a ingestão de frutos e vegetais de cores garridas – os vermelhos mirtilos, tomates, amoras e framboesas, laranjas, tangerinas e cenouras, kiwis, espinafres e todos os verdes, couve e alface roxas. Quem ao abastecimento de vitaminas no supermercado, preferir pílulas da farmácia, infringiu a norma da dieta ideal. Traseiro, todo o santo dia, fincado em assento, já pecou. Que se mexa, que a trote vá para o trabalho, dispense o elevador e pela escada trepe ao décimo andar, que substitua o motor pela bicicleta, que aprenda a respirar, que mantenha a coluna direita, que não fume, não beba café ou mais de dois meios-copos de vinho por dia, que dispense bebidas destiladas - a cerveja incluída -, que se besunte com ecrã total para esconder a pele do Sol empinado, não abuse dos duches por surripiarem a indispensável gordura protectora (até agora chamada porcaria), que a água escorra sem mistelas de banho ácidas ou alcalinas, em qualquer caso danosas. E que durma. Muito. O que o relógio biológico ordenar lá do alto do quiasma no hipotálamo. Mas, atenção!, sem cair no vício da sesta, hábito nocivo à saúde das economias com prioridade sobre a das gentes. Daí almoços leves. Frugais: sopa, iogurte e fruta. Parcos em proteínas animais. Sem doçuras. Preferencialmente de pé.
O sucesso das economias necessita de funcionários (escravos?) fortes que não gastem dinheiros públicos em doenças, hospitais, farmácias e dias de baixa. A sociedade obriga a tensão arterial, colesterol, pulmões e demais órgãos afinados por bitolas economicamente viáveis. Depois, as úlceras, as depressões, as insónias denunciam um desgraçado – desgraçado?, qual quê?, um pecador por infringir os mandamentos da saúde, pois fosse obediente e estaria rijo como um pêro! Aguentaria a pesporrência do chefe e a torre de afazeres. Trabalharia sem horário por ter dormido bem. Correria de um lado para o outro porque ao trote ganhara hábito. Estando deprimido, mais teria que enfiar pílulas à sorrelfa sem, publicamente, enviar sinais de ruptura. Saúde traz felicidade. Adeus divórcios, tristezas – a saúde é o bem maior! – e dívidas - numa vida regrada, o indivíduo diminui o consumo. E quem disser abominável a nova ordem social ou é um extraviado ou um lorpa. Em qualquer caso, candidato a ser triturado pela máquina produtiva.
Publicado por Teresa C. às novembro 14, 2007 06:25 AM
Comentários
Falta uma vitimina importante: faça sexo. é bom para a elegância e para as doenças cardiovascularas. indispensável!
Publicado por: João Norte às novembro 14, 2007 08:16 AM
Com isso tudo, só tenho a concluir que sou um extraviado. Ou será que sou um lorpa?!
Que raio de coisa para se descobrir aos 35!!!
Publicado por: João Pedro Rodrigues às novembro 14, 2007 09:08 AM
Deixe-me dizer-lhe, querida Amiga, que adoro as suas "frivolidades", tal como admiro a seriedade das suas subliminares mensagens "sociais".
A de hoje aponta para um aspecto que poucos conseguem ver: a desenfreada exploração da imagem e do corpo, como objecto a preservar para manter o nível de exploração e não como meio para ajudar a elevar o espírito aos níveis a que ete aspira incessantemente.
Sem dúvida que é muito bom poder ver um belo corpo mantido com desvelo e cuidado. Mas cuidemos também do espírito, que é o que nos fica quando o corpito falha...
Publicado por: j às novembro 14, 2007 09:19 AM
Ena cum carassssas!
(Ganda coment...)
Tome lá a sua alma gémea-d'hoje
http://multimedia.rtp.pt/index.php?prog=1091
e d'ontem... não sei.
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 14, 2007 07:02 PM
Acho que tudo passa...
Até a uva passa...
Então vou apenas passar
um pensamento passado:
"
Há o tempo da infância
Neste tempo eu penso em Deus
Há o tempo de criar
Neste tempo eu penso como Deus
Há o tempo de lutar
Neste tempo penso ser Deus
Há o tempo de te Amar
Neste tempo
Deus
pensa ser
eu.
"
Beijos.
Publicado por: justo às novembro 14, 2007 11:07 PM
(Of course, by 'ganda coment' and as in some other occasions as well, I mean your text about the world as it is, dear TC, not the spare comments here above)
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 15, 2007 12:09 AM
Oh! pra mim aqui, passante a 1 da manhã sem nada para dizer!
Publicado por: Minderico às novembro 15, 2007 12:53 AM
Teresa, este é um dos seus textos mais "engagés". Subtil e subversivo. Numa palavra: excelente!
Publicado por: Alba às novembro 15, 2007 12:10 PM
PS: A minha "pírula" quero azul. Por favor!
Publicado por: justo às novembro 15, 2007 02:44 PM
João Norte: dizem que sim e que ao esplendor da pele só faz bem. Quer a verdade? Não noto nada! ;)
João Pedro Rodrigues - ora aí está uma boa idade para colocar o pauzinho na engrenagem como cantava o José Mário Branco e atentar em Brecht:
" (...)Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes."
J - E assim traficam as mentes os mandadores do baile que dançamos. Os que desacertam o passo proscritos e depois engolidos pela bocarra da máquina. Quem ao 1,2,3 obedece é á mesma comido. Por isso refilo e afino olhos e ouvidos e fujo, enquanto posso, à maldita.
Pirata-Vermelho - um boa sugestão. Obrigada.
Justo - Não lhe dou pílula azul que não deve precisar, mas tome lá este poema da Natália Correia. ;)
"Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte"
Minderico - Olha que bom vê-lo por aqui e receber um olá seu! ;))
Alba - O texto resume o que julgo ser uma face do poliedro social que nos arrebanha. Se gostou e generosamente passou aqui para mo dizer, agradeço. Muito.
Publicado por: Teresa C. às novembro 15, 2007 07:08 PM
Teresa?!
Que belo!
Muito obrigado!
É lindíssimo!
E com tudo isto, mágicamente fazemos a vida ser vivida!
Simplesmente lírico!
Beijos!
Publicado por: justo às novembro 15, 2007 09:27 PM