« COLECTIVIZARAM O PECADO | Entrada | O LADO DE DENTRO DO DECOTE »

novembro 21, 2007

BAILE E PANTOMINA

Detail from Le Bal a Bougival.jpg
Detalhe de "Le Bal a Bougival" - Renoir

Lioz é o que se lobriga primeiro. Escadaria forrada a encarnado, dourados depois. Assentos dispostos em semi-luas até à pista modesta. Balcões para encherem copos e servirem de alívio às cruzes dos herdeiros marialvas que dardejam olhares carnívoros às peças femininas. Eles e elas podiam ser actores escolhidos a dedo pelo Ettore Scola para filmar “O Baile”. Também neste lugar escuso das noites de Lisboa são curtos os diálogos, palpável a tensão emocional, a dramaturgia sustentada pela coreografia dos gestos. Quem ali se aventura é melhor ir preparado para uma incursão no mundo da pantomima das relações humanas, urbanas, maganas.

A premissa do lugar é, como no “Baile”, imutável: diluir a solidão e encontrar um parceiro que aqueça noites e o momento no carrocel de uma pista de dança. O elenco permanece: a florista, o jovem do subúrbio, a manequim reformada, a alcoólatra, a dama-pipi, a refugiada (brasileira de facto), o sacristão à procura do ámen duma ela, a pernas-e-mamas, o homem-que-veio-de-longe e não é o Gabin, o pós-yuppie, o aluno de Apolo, o empresário, o herói da guerra, o aristocrata, o rufia com jaqueta de couro e topete, o mister-músculo lá do bairro. Elas esperam um convite para dançar daqueles que as negas não temem; os tímidos aguardam que alguma traduza os tiques para convite de enleio.

A mise-en-scène garante aos prováveis enredos a cola do conhecimento dos corpos à cause le pot pourri musical – o kitsch francês e iglesiano para os sussurros, salsa, rumbas e sambas denunciando meneios, rock’n roll e disco dance a combinarem com os papos e as rugas dançarinas. Naquele microcosmo de solidão enganada, a música sobe de detalhe técnico à condição de alcoviteira. E, tal como no filme do Scola, este baile é um panorama psicológico dos personagens que transcende as regras comuns nos lugares nocturnos de ajuntamento de homens e mulheres.

CAFÉ DA MANHÃ

- Este é o “Baile” a sério

- Leitura obrigatória: "Nua"

Publicado por Teresa C. às novembro 21, 2007 06:13 AM

Comentários

Casa do Alentejo...
não é, pois não?
Ond'é que é isto!? Q's'eu soubesse dançar...

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 21, 2007 03:06 PM

O bailarico do Scola era outra coisa, com aquela marca de data e de zona que o acentuavam e distinguiam bem desta 'inocência' daqui, cheia de malandrice e de 'fadistice à portuguesa'.

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 21, 2007 03:11 PM

Q'belo texto.


(Viv'a dona do blog!)

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 21, 2007 03:13 PM

(O Sempr'em Festa... não, qu'a escada era de madeira. A Tágide... fechou; transformou-se e não tinha pista modesta. O Fontória? -já não vou lá há muito tempo- querem ver?!... Ora esta...!)

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 21, 2007 03:18 PM

Da primeira vez que li este texto impressionou-me a nota deprimente. As solidões retratadas com objectiva crueza.
Reli e vi que estava enganada. Trata-se de um texto comovente. Para lá do anedótico, do ridículo, do medíocre, sentimos o pulsar dessas almas que deambulam entre fumo e luzes espessas, sedentas de um pouco de calor e de toque. De uma palavra. De um olhar que lhes faça esquecer o desamparo e o tédio.

P.S. Vi o filme de Scola há tantos anos! Foi bom lembrá-lo.

Publicado por: Alba às novembro 21, 2007 06:02 PM

Pirata-Vermelho - falta um! E ha mais dois, soube. Mas aquele de que falo é bem no centro da noite de Lisboa. Que o Baile do Scola é outra coisa, se eu sei!, conquanto existam entre esse e este denominadores comuns.

Alba - Quase julguei não ter transmitido esse aspecto que notou. Nas horas em que lá estive, observando, atenta, o todo e as partes, fui tocada pelo peso (desespero?) daquelas esperanças precárias.

Publicado por: Teresa C. às novembro 21, 2007 10:07 PM

Que coisa incrivel você fez neste postado.
Reuniu o que existe de mais humano com a candura da alma...
Ler por aqui é muito prazeroso!
O baile da vida. Somos cada um daqueles fantásticos personagens. Humanos de verdade...
Também gosto de ficar parado, por vezes, em uma estação do metrô e fico observando os passantes.
Há alguns que realmente são tirados de livros ou de revistas. Por vezes não vejo a diferença entre o que seja caricaturas.
Obrigado , de novo!

Publicado por: Justo às novembro 21, 2007 10:17 PM

Ganda vídeo-clip (insisto, e estou-me nas tintas para outra designação)!!! Tenho de sacar este filme: nunca vi tanto lacrau capado embevecido com naftalina e pó-de-arroz... ahahahaha

Publicado por: fallorca às novembro 22, 2007 09:26 AM

Justo - e tem razão. Naquele lugar estamos lá todos retratados nas pequenas misérias e gestos nobres que o ambiente não revela. Mas existem porque nem um de nós tem somente a face soalheira. A lunar, quantas vezes!, fica solta e foge da consciência.

Fallorca - se vir o filme, prepare-se para o detalhe dos gestos aos quais significado não falta e à coreografia dos gestos que quase dispensa os diálogos.

Publicado por: Teresa C. às novembro 22, 2007 06:26 PM

Comente




Recordar-me?