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novembro 28, 2007
BAZAR DE CARIDADE OU O PARADIGMA DO NEGREIRO

Blake Flynn
Em África, a cada três segundos e meio morre um ser humano à fome. Na parte austral, (sub)vivem 10 milhões de adultos e crianças a que falta o mínimo do alimento. No Malawi, - segundo fontes do respectivo governo -, 70% da população de 11 milhões passa fome. Noventa por cento dos casos mundiais de malária ocorrem na África Subsariana. Setenta e um por cento dos portadores do vírus HIV no planeta vivem na região – no Zimbabwe, 1 em cada 4 adultos tem SIDA – e a esperança de vida dos africanos caiu para os 45 anos. Continente preso na armadilha dos conflitos armados, da insegurança alimentar, das epidemias, da instabilidade política e religiosa, do crescimento populacional, calamidades ambientais aceleradas pelas alterações climáticas.
Devastado por secas, cheias e guerras civis, o continente africano desespera. Findos os conflitos, o terror e a permanente ameaça à reconstrução das comunidades continua pelas minas e munições não explodidas. Perante isto, o Ocidente encolhe os ombros. O drama africano deixou de ser notícia na imprensa internacional – é mais cómodo responsabilizar o clima e a preguiça do pobre do que alterar a ordem social, contrariando os privilégios dos grupos dominantes e dos respectivos cúmplices: os impérios económicos/políticos ocidentais. Uns e outros, hipocritamente, pacificam a (má)consciência ao fazerem da África desconjuntada um bazar de caridade. Entre eles comentando, whisky velho no copo, que a vida(?) dos pobrezinhos continua a ser um mistério.
CAFÉ DA MANHÃ
Os argumentos do negreiro, para não ajudar o Outro são quase sempre os mesmos. Alega frequentemente que não pode fazer porque ainda não tem todos os seus problemas domésticos resolvidos. Não tem a casa ou o automóvel dos seus sonhos, as férias que há muito deseja. A solidariedade do negreiro reduz-se em dar ao Outro (preto,pobre, etc) os sobejos, os desperdícios do festim. Os pobres não necessitam de mais, contentam-se com as sobras. A sua preocupação está centrada na ementa do festim, não nos restos.
Muitos pensam segundo o paradigma capitalista, o Outro é parte de um negócio a curto prazo (Toma Lá da Cá), a médio prazo ( Toma lá, e quando tiveres condições para isso retribui com juros) ou no longo prazo (Toma lá e diz a outros que foi eu que te dei). ara se pôr fim à fome no mundo.
Publicado por Teresa C. às novembro 28, 2007 06:48 AM
Comentários
Portugal, Teresa, centre-se no que se passa em Portugal com a imposição ao mundo do 'american way of life'.
Infelizmente a vida na América não é como a mostra a TV e o cinema; e os jornais e revistas; e alguma literatura espaalhada pelo mundo nos últimos 50 anos... The American (dreamed) Way of Life que nos estão a impor não é mais que a globaliz.. que a generalização de um sistema de crescimento da riqueza que, como qualquer sistema, se fortalece na razão directa dos meios de que dispõem os seus agentes-beneficiários (ninguem que você conheça, descanse...) para contrariar a entropia; assim, quem mais trabalha mais terá que trabalhar - lá, quinze dias férias por ano não é mau! mas não é para todos; chegar cinco minutos atrasado porque o nevão... pois, à segunda o atrasadinho é despedido por uma ordem verbal; não aceitar todos os pequenos-adicionais de tarefa saídos da cabeça do chefezinho é ver a vida feita de negro e o melhor será tratar usufruir da 'mobilidade dinâmica', um progresso que nós não temos ...
etc!
O American Dream que está a ser implementado na Europa e que se faz sentir aqui, em Portugal, com o agravamento decorrente da pobreza (material e outras) desta Area Administrativa éque a deveria preocupar. Os Darfures são para peencher a espera até ir trabalhar amanhã... tal como a Letra L e o último jogo SCP-MU, ontem, tudo na RTP em conjunto com uma coisa impensável chamada Sempre em Pé.
HOJE (dia de sol! que bom...),
ali na SAv da Liberdade,
aquela mnina muinta gira a quem você mironou os sapatinhos Prada (???) vai almoçar um croquette e um copinho de leite morno porque não tem dinheiro para mais, não porque almoçar seja estúpido - desiluda-se!
Agora imagine o que se passa por aí fora...
(Eu sei qu'o coment é apressado. Não é argumento é apontamento)
THINK!
como se diz(ia) na IBM ...
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 28, 2007 12:59 PM
Privatizou-se, no mundo, a riqueza e o luxo.
Sociabilizou-se, no mundo, a miséria e a doença.
Por cá queimam-se mendigos nas ruas, durante a madrugada, e dizem ser "guerra entre eles". Eles quem cara-pálida?
Colocam-se uma menor de idade presa com vinte homens, sendo seviciada durante dias e dias para ao final ouvirmos de um delegado a seguinte "explicação": delegado-geral do Estado, Raimundo Benassuly, que disse que a menor que ficou presa por um mês em uma cela com 20 homens que a submeteram a violências sexuais deveria ter "algum problema mental".
O Brasil esta pouco a pouco melhorando alguma coisa na dignidade dos mais miseráveis. Mas a casta da casca diz que por isto estamos na lanterna( os últimos, mas com conotação jocosa) dos países desenvolvidos no trato com humanos.
Bom..querida.
A África é aqui mesmo...ou ali...
Tanto faz.
Os que nos oprimem é que são a "africa".
Beijos.
(PS:Casta da casca é intencional!)
Publicado por: Justo às novembro 28, 2007 04:19 PM
Pergunto-me muitas vezes se a maior desgraça de África não terá sido a violência inaudita com que os Europeus "civilizados" a colonizaram.
Tentar impor a um continente modos de vida e de estar, completamente diferentes dos africanos, teria sido útil?
A suposta"evangelização" dos africanos, matando-os muitas vezes, serviu o progresso de África?
Raptá-los e fazer deles novos servos da gleba, impondo-lhes horrorosas condições de vida, serviu a democracia e a sempre iluminada e louvada vanguarda ocidental?
Proteger e negociar com ditadores que só são diferentes do "ariano" Hitler na cor da pele, serve África?
Serve o Mundo?
Serve a Humanidade?
Publicado por: Minderico às novembro 28, 2007 11:31 PM
Qu'ingenuidade, amigo Mindas!
Quando os europeus chegaram os povos africanos, com milénios de história, exibiam entre si e no seio da própria comunidade, formas de exploração e de exercício do poder arbitrárias e primitivas; hoje, cerca de quinhentos anos depois da presença europeia-do-norte na áfrica-do-sul, 'idem aspas' sob a roupagem de um modernismo, necessário-imposto para manter o status-quo (seja qual for...).
Sem prejuízo do reconhecimento de qualidades e algumas peculiaridades notáveis dos povos que vivem em África, vistos um-a-um, há que assumir que os africanos têm formas de viver e de encarar o indívido dificilmente aceitáveis, do ponto do cidadão de um Estado moderno (europeu ou não) , dotado de uma qualquer ordem cívica e jurídica que obrigue a respeitar o vizinho e impeça o exercício do poder pessoal indiscriminado.
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 29, 2007 05:39 PM
Meu D'us...
Pirata?
Publicado por: Justo às novembro 29, 2007 06:26 PM
Justo - "Os que nos oprimem é que são a "africa"." Lá tal como aqui. Áfricas há em todos os países, mesmo nos aparentemente bem comportadinhos porque submetidos às democracias(?) (re)conhecidas.
Pirata-Vermelho - apontamento que em muito tem razão de ser, lido seja como análise objectiva do que por ontros continentes se passa e também neste pedacinho de um que é nosso.
Quando escreveu "Sem prejuízo do reconhecimento de qualidades e algumas peculiaridades notáveis dos povos que vivem em África, vistos um-a-um, há que assumir que os africanos têm formas de viver e de encarar o indívido dificilmente aceitáveis, do ponto do cidadão de um Estado moderno (europeu ou não)" discordo da culpa que atribui aos cidadãos africanos em geral. Vítimas sim, culpados não, salvo das elites governantes que, pelo acesso a formação que o povo anónimo não possui - tomaram viver com dignidade mínima um dia que fosse! -, revelam a mesquinhez de quem dos povos ditos desenvolvidos aprendeu o pior.
Minderico - Sim, serve. Pela tentativa de permanente diálogo que os povos devem manter entre si e atendendo à sua ponderada interogação se a "maior desgraça de África não terá sido a violência inaudita com que os Europeus "civilizados" a colonizaram". Mas quem sou eu, ignorante de tanto que às sociedades respeita, para opinar com maior substância?
Publicado por: Teresa C. às novembro 30, 2007 12:27 PM
Isso que diz é uma parte do que se passa, uma vertente da acções visíveis no quotidiano de qualquer área política - não é linear que se possa de um modo geral, desculpabilizar os povos por contraste c'os que os governam, os de dentro, semelhantes por terem a mesma origem, os de fora, equiparados, por razões afins.
Sem deixar de considerar o seu sublinhado na medida em que a acção torpe ou selvática dos governantes terá implicações geralmente mais gravosas; mas, só por isso...
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 30, 2007 05:17 PM
Pirata-Vermelho - "os políticos que os povos geram". Belíssima sugestão para um texto. Seguirá dentro de momentos.
Publicado por: Teresa C. às novembro 30, 2007 06:20 PM