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novembro 12, 2007
BEIÇOS ENCARNADOS NO “CLUBE DA AMIZADE”

Shubik D.
Onde medram os sacanas? Os biltres? Os patifes nas relações humanas? Os doutorados em manipular a seu contento quem, por acidente do acaso, lhes entra no covil? Em todo o lado. Na “rede” e fora dela. Em ninhos bem ou mal amanhados. No lugar onde a tradição do clã familiar me fez nascer, deles contam a “má raça”. E relembram antecedentes familiares, o tio ou o trisavô que também era assim. Nada havendo a apontar na herança genética, encolhem os ombros e debitam dito conformado: “num bom ninho pode nascer um mau passarinho.” Ou então: “estragaram-no as companhias quando abalou daqui!...” A vigilância censória dos povoados pequenos, desde cedo, torcendo pepinos arrevesados.
Era assim. Já não é. A globalização, ou o que entendo por ela, estendeu a rede de bits e pixels a cóios que nem constam dos mapas. E, no meio de afazeres ou vagares, gente afastada pela geografia relaciona-se com outra pelas teclas, webcams, depois pelo telefone. Contraria o ancestral dizer que os (des)encontros humanos dependem do acaso e muito da vizinhança dos lugares – mais perto, mais provável a junção.
Fui sabendo, por quem faz desta poda hábito, quais as pontes online que conectam pessoas - blogues, chats, clubes virtuais. De fácil acesso aos adolescentes que cultuam o isolamento no quarto. Alguns propiciando tráficos e masturbação assistida por webcam. Às mulheres a fantasia de se despirem para um anónimo, ou de, cedendo à devassa da intimidade, eles e elas entrarem na compita pela lascívia e pelo afecto. Foi recorrente ouvir o nome de um: “Clube da Amizade”. Coisa inofensiva, disseram-me, sem atingir a fasquia pesada. Quis saber. Preencheram-me o básico e por meia dúzia de vezes, a tanto chegou a minha curiosidade, esperei; no entretanto, escrevia ou peregrinava em busca de pintura. Minutos não eram passados, e no monitor arrebentavam beiços encarnados disparando “schuaks”. Flores. Mensagens. Convites para “bate-papos”. Aguentei três durante escassos minutos cada. Inevitável o pedido de passar ao MSN. Momento certo para me “raspar dali p’ra fora”. Deslizei a clientela por todo o mundo espalhada. Li perfis. Gente às compras no mercado da carne e das ilusões. Sítios adubados pelo anonimato, propícios a ervas daninhas. E o vicioso não está no lugar ou nos clientes. A diferença entre o que testemunhei e o real é simples – como fiz, ali as pessoas aguardam, escondidas, serem encontradas; no quotidiano os olhares fronteiros são cruzados pelo acaso.
CAFÉ DA MANHÃ
"Em linguagem SMS, xenofobismo é não goxtar de certax xenas."
Publicado por Teresa C. às novembro 12, 2007 06:18 AM
Comentários
Verdades e mentiras. Há razões e razões para o anônimato. Algumas se justificam. Outras são evasivas da maldade. A mais antiga das profissões terá seu reinado virtual quando o virtual passar a ser quase real.Já há aparelhos estimulantes que simulam os orgãos sexuais. Luvas. Calças. Blusas. todas com sensores.
Foram desenvolvidas para a guerra de robots. Onde cada robot seria (ou será) um simulacro do que veste o homem (distante e comandante) que se passa pelo robot. Com todas as sensações. (Exceto o olfato, por enquanto!)
Mas, a Internet é tal como os livros. Várias prateleiras. Vários assuntos e autores.
Eu gosto dos clássicos e dos românticos.
Cada qual...cada qual.
Beijos!
Publicado por: justo às novembro 12, 2007 03:41 PM
Bom... confesso que me preencheste um dos meus momentos.
Achei curioso o título deste espaço e aventurei-me a desvendá-lo (espero que me desculpes a ousadia).
Encontrei palavras cruas e afiadas. Desde a irreverência, passando pela ironia e nunca acabando em coisa alguma... dei por mim preso às tuas palavras, como poucos livros o conseguem de mim.
Parabéns (sinceramente)
Publicado por: Aesis às novembro 12, 2007 09:23 PM
Um mundo sem fundo para as investigações do Jules, Deus o tenha...
Publicado por: madame maigret às novembro 13, 2007 12:00 AM
Il y a de cela en chacun de nous, c'est notre richesse, c'est l'onirisme, la fantaisie, bref, la Vie !
Publicado por: Pierre às novembro 13, 2007 03:32 AM
O zapping não é só o vício de quem se senta confortavelmente no sofá e faz do telecomando o seu brinquedo predilecto pela noite dentro, também passou a ser aplicado às relações, um autêntico modo de vida.
É certamente um instinto básico e animalesco, mas algo de diferente terá acontecido à raça humana para que tenhamos deixado de andar nus a saltar de galho em galho...
Essa história da sedução dá uma trabalheira desgraçada é bem mais fácil e prático mandar um "beiço encarnado".
Publicado por: agent às novembro 13, 2007 07:36 PM
Gostei , aliás gosto sempre
cpts
Rm
Publicado por: Rebecca às novembro 13, 2007 08:09 PM
Justo - "Mas, a Internet é tal como os livros. Várias prateleiras. Vários assuntos e autores." Jamais tal imagem me teria ocorrido. Perfeita, porém. E sabe?, numa frase resumiu o que demorei tanto a dizer. Adorei!
Aesis - descobrir o teu espaço foi surpreendente. Um blogue que me enche de orgulho na blogosfera que partilhamos. Fascinou-me o "ambiente", as palavras o pressentido. Parabéns e obrigada pela visita acrescida do comentário.
Madame Maigret - outro sítio como há muito não via pela originalidade, o denominador comum, a coerência e a escrita. Sorte a minha ter leitores assim e que me mimam com um sublinhado ao texto. Repito-me, sei, mas o mesmo digo: "Parabéns e obrigada pela visita acrescida do comentário."
Pierre - La vie a des moments divers: d'illusion trompée et de la plus sublime illusion, de choix et d'omission. A chacun savoir profiter des autres le mieux et le respect.
Agent - e ja nem sei o que dizer. Este texto deu-me sorte, só pode! Descobri bloggers e blogues de infinita qualidade. O seu foi o terceiro e em nada desmerece os restantes. Irei seguindo os seus dias blogosféricos. Quanto talento por aqui anda e eu desconhecia... Obrigada e, de novo, muitos, muitos parabéns
Rebecca - fico-lhe grata pela generosidade das palavras e do comentário.
Publicado por: Teresa C. às novembro 13, 2007 08:50 PM
Não conheço o Clube da Amizade mas concordo, Teresa "ali", nas salas virtuais, as pessoas aguardam ser encontradas. Com motivações diversas. Engate, quase sempre. Mas também existe a procura de entretenimento descontraído, a criação de cumplicidades, o desejo da descoberta de almas afins. Como num sonho. A nossa alma gêmea estava ali, à nossa espera, naquele momento, noutra janela também preenchida por bonecos e caracteres negros. Ou o amigo secreto da nossa infância. Pronto a fascinar-nos com a magia das palavras e a partilha de imaginários.
É frágil matéria? Claro que sim, Mas quantas solidões podem ser suavizadas nestres trilhos?
Algumas, acredito. Desde que ambos os navegadores saibam quais as águas desejadas pelo parceiro. Com clareza. Com respeito.
Já ouvi falar de amizades e amores nascidos em chats. Geralmente efémeros. Fugazes. Voláteis.
Mas se todos os "actores" estão cientes dessa transitoriedade e da debilidade que enforma esses laços, who cares? :)
Publicado por: Alba às novembro 14, 2007 01:13 AM
Alba - entrei naquilo com pré-conceitos, admito. Do que vi nada com préstimo me chamou a atenção salvo apaziguar solidões, vazios e desvios. Admito que estes sítios possam ter aspectos que não vislumbrei. Porém, que dizer quando homens que se dizem casados, no perfil, afirmam procurar mulher para relacionamento "sexual"? E nos convidam para jantar? Ou para passar o fim de semana a dois após conversa de três minutos? E as reptidas visitas ao perfil? E a pobreza do discurso? Não consigo naquele sítio encontrar qualidades que melhorem a vida de quem o frequenta. E depois, mesmo que naqueles sítios surjam amores, não creio neles. Carências, solidão, vazios conjugados a dois?
Admito que noutros sítios a amizade assexuada seja possível e definida de comumm acordo. Alí não me parece. Mas quem sou eu para avaliar o que cada ser escolhe para sobreviver, remediar tédios ou satisfazer apetites? Como diz e bem, "who cares"? Não eu.
A despropósito: o texto que reeditou é fabuloso. Perdi-me nele enquanto recuperava lembranças doces. Escreve tão, mas tão bem!...
Publicado por: Teresa C. às novembro 14, 2007 04:34 PM