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novembro 20, 2007
COLECTIVIZARAM O PECADO

Terry Rodgers
O pecado está em vias de extinção. Finada a minha geração, será conceito fóssil armazenado em dicionários. Nem o facto traria à colação, não fosse a pena que me dá saber passado o arrepio na espinha e o aperto nas entranhas inerente ao pecado cometido em grande estilo. Pecar era acção, estimulava deliciosos desvios do recto caminho, preferencialmente em boa companhia. Fornecia dose extra de adrenalina aos actos clandestinos. Obrigava a joelhos dobrados e a pedido de absolvição. A rezar, cabeça baixa e ombros murchos, a penitência atribuída. Sair do genuflexório com o espírito limpo e passado a ferro, ocupado, desde logo, em venialidades pecaminosas. Isto era no tempo em que a masturbação, os beijos lascivos e os apalpões e fornicar fora do casamento eram pecado. A desonestidade, também. O catálogo dos pecados mortais era maquiavelicamente escasso – avareza, soberba, gula, ira, preguiça, luxúria e inveja – e abrangente (quem não cair, no mínimo, em seis que levante o braço!).
No hoje, em vez de pecados individuais há virtudes, desvios, distúrbios ou doenças. A avareza tornou-se sensatez, a ira é manifestação emotiva, a inveja passou a competitividade. A gula e a preguiça foram (des)promovidas a infracções sociais: a primeira pelos gastos que acarreta aos Estados no tratamento da diabetes e das doenças cardiovasculares, a segunda por atentar contra o esperado aumento dos índices de produtividade. As putas dividem-se em duas categorias: as simples prestadoras de serviços sexuais pagos em dinheiro vivo e as que à mesa são umas senhoras e os homens desejam na vida e na cama doméstica. Os putanheiros são dados como doentes psiquiátricos, a carecerem de tratamento ambulatório ou de internamento em clínicas de adictos que lhes moderem a tesão.
Colectivizaram o pecado, esvaziando-o de sentido e piada. Agora, há infracções sociais ou crimes contra a humanidade. Tudo vago. Podendo ser cometidos sem sair de casa ou fazer coisa alguma - não separar lixos, não fechar luzes e torneiras, não ter ambição, não poupar, não pagar os impostos do automóvel, da autarquia pela propriedade de quatro paredes, do trabalho, dos esgotos (sem que as Câmaras perfumem canos e sanitas), e, o pior de todos, não aceitar qualquer roubo legalizado.
Publicado por Teresa C. às novembro 20, 2007 06:20 AM
Comentários
Quelle belle image ! Scène doucement sensuelle...
Publicado por: Pierre às novembro 20, 2007 08:23 AM
Como se graffitou na entrada da igreja da Praça de Londres, nos idos de 70, «abaixo a hipocrisia, viva a tesão permamente!» E não visava só o priapismo, olarecas...
Publicado por: fallorca às novembro 20, 2007 10:22 AM
Digam o que disserem, querida Amiga, inventem o que inventarem para promover a hipocrisia (também esta hipocritamente apelidade de "o politicamente correcto...), o "pecado" continuará a existir. Eu diria, "graças a Deus"!!!
O que seria de nós sem a permanente manifestação da nossa "pobre" humanidade?
O que faríamos nós sem o estímulo que o "pecado" representa?
Ficarímos reduzidos à qualidade de máquinas ou à suave sensaboria de anjos.
E a Vida? O que faríamos dela?!
Publicado por: j às novembro 20, 2007 11:27 AM
Não gosto da palavra "pecado", sinto-a sempre ligada à culpa e a uma "moralidadezinha" de trazer por casa. Há, de facto, uma substituição de conceitos que varia entre a "auto-punição" e o politicamente "incorrecto". Preferiria chamar-lhe "estado de desassossego" que oscila entre o que a minha consciência dita e o que o superego recrimina. Caro Fallorca, cuidado... em estado de permanente "tesão" qualquer um(a) sucumbiria, julgo!
Publicado por: Ela às novembro 20, 2007 11:50 AM
ah!... Quem me dera, Teresa, vir a conhecer um mundo livre de pecados.
De saber que as pessoas fazem o que é certo pelo certo.
Que são fiéis porque ser fiél a si mesma é o princípio de tudo e que pecar é tão somente ofender a si próprio.Que a única religião é o religar ao amor do próximo.
Evoluimos lentamente.Por isto me recordo de quando era criança achava que o mundo havia sido feito ao meu redor.E que D'us sempre me olhava com compaixão.
Aprendi com o passar do tempo, que nada disto era verdade.
Mas...vejam vocês que agora os fisicos quânticos me vem dizer que sim. Que é "mais ou menos" assim mesmo.
Graças a D'us.
Ela: Querida, eu vivo a vida em permanente tesão.
Porque simplesmente a vida é um tesão.
(sorrindo ?)
Beijos.
Publicado por: Justo às novembro 20, 2007 01:53 PM
Assim, sim, a gent'entende-se, qrida TC!
Qualquer que fosse... que seja, a postura, no plano filosófico ou ideológico.
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 20, 2007 02:24 PM
Olha! Até qu'enfim que se revELA...
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 20, 2007 02:39 PM
... assim, sim, a gent'entende-se.
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 20, 2007 02:40 PM
A passadista noção de pecado -uma fabricação da igreja- deixava entrever o intervalo de concessão como consolo do 'pobre' - pobre de meios, pobre de espírito, pobre de esperança. Acresecentou-se-lhe a noção de feio, em contraponto a belo, ou bonito, excluindo mais uma vez o pobre de meios e etc. Por esta via e por semelhança, seria de rejeitar e excluir qualquer noção de pecado, em qualquer domínio ou com qualquer incidência sob risco de ter que aceitar a moda como instrumento de dominação, assumindo, de passagem, qualquer manequim analfabeto -macho ou fêmea- num plano de eleição que subvalorizaria outras formas de (con)vivência ou pensamento social(izante) e ...
ok ok
fic'assim!
(Desculp'a seca!)
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 20, 2007 02:51 PM
ELA eu acho é que as meninas andaram a comer carapaus secos, da Nazaré... fiufiu
Publicado por: fallorca às novembro 20, 2007 02:54 PM
ELA - olhe que um «"estado de desassossego" que oscila» também não me parece um fiel de balança recomendável...
Publicado por: fallorca às novembro 20, 2007 02:56 PM
Acalmem-se, que os padres são uns tontos ... no Céu, estaremos sempre todos em estado de permanente tesão ... será a felicidade eterna ... contemplar Deus de "pau feito", deve ser giro
(mas deve doer c'mó caraças)
Publicado por: Minderico às novembro 20, 2007 09:25 PM
Isto esta cada vez mais divertido heim ?
:o)
Publicado por: Justo às novembro 20, 2007 10:54 PM
Na sociedade actual, um dos maiores desafios (senão o maior) que se colocam ao ser humano é a sua capacidade de pautar a sua vivência, convivência, sem necessitar da bengala dos falsos profetas e daqueles que nos prometem a felicidade post mortem. Desacreditadas (e bem) as instituições seculares o ser humano deixa a fase da adolescência para entrar na fase adulta, resta saber se a capacidade e os conhecimentos que até aqui adquiriu são suficientes para manter a sua actuação dentro dos limites do razoável para assim poder sobreviver com qualidade e sem vulgarizar algumas coisas que, no nosso dia-a-dia ainda merecem ser contempladas.
Publicado por: recepcionista às novembro 21, 2007 09:48 AM
Minderico, deve ser por isso que sou ateu... xiça, que raio de ideia a sua, antes o Inferno, covil de pecaminosas e pecaminosos. Parece que sou tão alérgico à água benta, que quando me baptizaram desatei a assobiar pró padre, que nunca me perdoou o desaforo e me fazia a vida celestialmente negra no colégio. Um afinado fiufiufiu, para si :)
Publicado por: fallorca às novembro 21, 2007 12:18 PM
Pierre - Exactement ce que je pense d'elle et a été la raison du choix. Le Terry Rodgers est un hiper réaliste avec beaucoup de talent.
Fallorca - Grande tirada, sim senhor! Já agora, lá para baixo, tenha a fineza de me retirar do lote das meninas que andam a comer carapaus secos. ;)
J.- também rejeito a qualidade de máquinas ou anjos. Pecadora me confesso e que se atrevam a colectivizar o que só a mim pertence.
Ela - Eu, ao contrário, à palavra pecado, ainda mais ao acto, acho uma piada... danada. ;)
Justo - um mundo sem pecados? Nunca! Qual seria a graça de estar vivo?
Pirata-Vermelho - Ora ainda bem que, salvo o deferimento, o texto está a seu contento!
Minderico - e quem resistira à tesão eterna? Eu não!
Recepcionista - sábias palavras, só que os augúrios não são os melhores. Isto digo olhando o mundo, logo eu que de pessimista nada tenho.
Publicado por: Teresa C. às novembro 21, 2007 09:54 PM
Que danada da Tati!
:0"
Publicado por: Justo às novembro 21, 2007 10:20 PM