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novembro 17, 2007
CONSTITUIÇÃO DO BOM GOSTO

Amanda Besl
A “Constituição do Bom Gosto” devia resumir-se a um preceito – “A apresentação e o discurso dos cidadãos devem respeitar adultos e crianças de qualquer raça ou religião.” Numa penada, tudo resolvido: eliminada a censura social ao fato-de-treino usado em qualquer lugar durante o fim de semana ou nos lazeres. Ténis amortecendo o passo. O conforto dos algodões e das t-shirts, das sweats com fecho e capuz. Os rabos de cavalo apressados ou as molas no cabelo. O rosto por maquilhar. Corpos livres de estorvos. Por arrasto, os espíritos desprezando as imposições do in & out que constam das revistas e do Larousse das Boas Maneiras. Das “bobonnices” de escárnio e maldizer. Esquecida a falsa credibilidade conferida pelo fato-e-gravata ou tailleur impostos pelo empregador, seja o funcionário quadro elevado ou assistente de loja. Enfiado livremente para melhor parecer ou como sacola para acartar nos bolsos as bugigangas da era dos chips: o telemóvel e a carteira inchada de cartões - do clube de futebol, do clube de vídeo, do supermercado, cartões de crédito que a empresa oferece e vigia os gastos, ou pessoais que o consumo esgotou -, o telemóvel, as identificações.
O país, fosse a “Constituição do Bom Gosto” aprovada, saía a ganhar. Ao colorir, desmentia a fama, espalhada pelo mundo, de ter gentes a preto e cinzento. Aumentava a alegria e a produtividade pelo à-vontade de quem ao trabalho dá prioridade e se marimba para os sinais exteriores do estatuto social. E se no estrito circulo dos afortunados-cidadãos-do-mundo são valores a privacidade e a simplicidade, muitos de nós, gente comum, prezamos os mesmos. Despedido o ocioso. O fátuo. O precário. O duvidoso. O estabelecido por ninguém e pelo todo.
Publicado por Teresa C. às novembro 17, 2007 11:16 AM
Comentários
Tu sempre me levas a pensar.
Assimov escreveu:
* 1ª lei: um robô não pode fazer mal a um ser humano e nem, por inacção, permitir que algum mal lhe aconteça.
* 2ª lei: um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, excepto quando estas contrariarem a primeira lei.
* 3ª lei: um robô deve proteger a sua integridade física, desde que com isto não contrarie as duas primeiras leis.
A 'Lei Zero': um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por inacção, permitir que ela sofra algum mal. Desse modo, o bem da humanidade é primordial ao dos indivíduos.
A chamada lei zero, porém, tem o sério problema de transferir ao robô o poder (possibilidade) de avaliar, diante das situações concretas, se o interesse da humanidade se sobrepõe ao interesse individual. Tal possibilidade abre uma perigosa brecha para a ditadura das máquinas, que elegeriam por si qual é o bem maior, sendo-lhe permitido, inclusive, fazer o mal a um ser humano (indivíduo), caso entendam que isso é melhor para a humanidade.
Nem mesmo para pensarmos em um ser melhor, conseguimos deixar de sermos estúpidos.
Mas veja esta cena. Sabemos que o amor é o que prevalece , pois não?
Mal qual amor?
http://www.youtube.com/watch?v=EjAoBKagWQA
Beijos...
Publicado por: justo às novembro 17, 2007 02:36 PM
Sem dúvida; com limites...
os da exclusão da postura por imitação, ie. da bandalheira feita ícone, como mostra aquele preto do Feijó que não sabe (nunca saberá!) qu'as calças largas e os sapatos grandes são... ou melhor, foram! uma imitação da pobreza desgraçada do Bronx, agora convertida em emblema de uma mundaneidade promovida pelas Fátimas L. de qualquer sistema. Massifiquem-se os macacos da gentalha qu'eles s'encarregarão de se 'controlar' unzaozoutros.
Par exemple...
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 17, 2007 03:23 PM
Beware! Há outras vertentes e estilos e encenações daquela 'bandalheira', por imitação.
(Estranha sensação de déjà vu, nisto que digo...
já teria dito o mesmo, aqui?)
(Às tantas, vem o diabo e espanta-as!)
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 17, 2007 03:27 PM
Justo - a motivação para exercitar o pensamento é recíproco. As suas reflexões e a excelente sugestão que nos deixou, trouxeram-me Brecht, de novo, à lembrança :
"(...)Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Líder? Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar. (...)"
Pirata-Vermelho - discordo de contenções salvo as que defini. Porque penso que com "aquele preto do Feijó que não sabe (nunca saberá!) qu'as calças largas e os sapatos grandes são... ou melhor, foram! uma imitação da pobreza desgraçada do Bronx" poderá ensinar-me qualquer coisa e saber bem demais da pobreza desgraçada aqui e no Bronx - que não achei pobre, conquanto no passado o que diz fosse facto. É que a tolerância é um dos valores a que procuro estar atenta, abortando o menor sinal de fuga na minha conduta. Não me atemoriza o caldo cultural a cada dia enriquecido. Havendo respeito e tolerância, qual é o problema? Temor de macular a nossa esplêndida e elitista cultura e ocidental? É que quando me falam em nódoas, lembro-me do tira-nódoas ariano, de má memória, com bigodinho negro e braço em frente esticado.
Nada me pareceu "déjà vu" no seu comentário.
Publicado por: Teresa C. às novembro 17, 2007 04:59 PM
Gosto de te ler, Tati. Beijo.
Publicado por: K. às novembro 17, 2007 05:12 PM
esplêndida
Publicado por: D. às novembro 17, 2007 06:27 PM
" Não me atemoriza o caldo cultural a cada dia enriquecido. Havendo respeito e tolerância, qual é o problema? Temor de macular a nossa esplêndida elitista cultura e ocidental? É que quando me falam em nódoas, lembro-me do tira-nódoas ariano, de má memória, com bigodinho negro e braço em frente esticado."
Brilhante: Tanto mais que o mau gosto imperava naquela arquitectura do tal de Bigodinho minorca - para não lembrar, também, aquelas horríveis fardas "casacas castanhas"! E o mau gosto de querer uniformizar os olhares de azul, e as cabeças (ocas) de loiro fanático - em contraste com a cor oleosa, escorrida e preta da cabeleira do "bigodista robot" de si próprio.
Teresa C. ... um bom Domingo para si e um cumprimento especial de admiração aos seus comentadores acima.
Vítor
Publicado por: Minderico às novembro 18, 2007 08:28 AM
Teresa, refere-se àquele aguarelista medíocre que pretendia demonstrar que também tinha sensibilidade? Ok, ok...
Publicado por: fallorca às novembro 18, 2007 04:36 PM
Ah...
então, eu repito
'uma imitação da pobreza desgraçada do Bronx, agora convertida em emblema de uma mundaneidade promovida pelas Fátimas L. de qualquer sistema. Massifiquem-se os macacos da gentalha qu'eles s'encarregarão de se 'controlar' unzaozoutros.'
E
passo a explicar,
a gentalha não é 'o preto do feijó'; não só...
e
a consistência dependeria do Bronx que você viu e do Bronx que eu quis que visse. Quer que mude para Harlem? (É mais comum... mas também ilustra a minha intenção.)
Em rigor, por Bronx, literalmente, teria que se entender uma enorme diversidade e vastidão e, desse modo, nenhum de nós teria exibido qualquer rigor no argumento ficando então feita a lavagem das indicações usadas, as usually...
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 18, 2007 05:58 PM
K. - mútuo prazer da leitura. Os teus dois últimos textos estão soberbos. Beijo grato pela palavra que tomo por mimo.
D. - obrigada pela correcção.
Minderico - sabe lá as cócegas que o meu espírito incomodam quando a censura social vai além do sensato (subjectiva classificação, sei!) e mais parece policiar os indivíduos?
Fallorca - Esse mesmo.Um asno armado em cavalo de raça.
Pirata - agradeço a explicação suplementar que mais me convenceu de ter entendido bem à primeira. Um detalhe - Bronx e Harlem surpreenderam-me pela positiva.
Publicado por: Teresa C. às novembro 19, 2007 11:10 AM