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novembro 19, 2007
FRIDAY & SATURDAY NIGHT FEVER

Steve Hanks
Três dias, duas noites – a de domingo não conta pela retoma dos hábitos. Ir além do costumado nas consecutivas vigílias. Esquecer da biologia o ritmo. Falsear pistas às engrenagens celulares. Adiado o acordar, apagada a manhã de domingo que, seja parda ou soalheira, me importa. O segundo café, rente aos verdes do parque, pontapeando o almoço para a tarde. Que no saco humano não cabem as ubiquidades dos divinos, vogando por aí noite e dia, em todo o lado ao mesmo tempo. As escolhas definem-nos.
Nas miudezas diárias há “a ironia da escolha” como escreveu Pavese. Ir ou ficar. Gozar, de forma ávida e pagã, o ontem e o anteontem para, subitamente e ao arrepio da noite, sentir precisão do xaile do recolhimento. Meia hora para o escrutínio do quero e dispenso. E dispenso o querer insensato do poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu ou o da mulher apaixonada pelo amor e desatenta ao respirar do homem que, perto dela, dorme na cama. Quero o crer. Tenho momentos esparsos - ontem, há pouco, de manhã – em que lhe sinto a falta. Mas volve a alegria da confiança que tudo apaga ou põe entre parêntesis.
Depois, há a alienação - sair do próprio e aspergir noutros ou em coisas um «eu» insatisfeito que joga à cabra-cega com a consciência. Existe a arrogância das grandiosas expectativas sobre o futuro e a arrogância comezinha dos convencidos. Aqueles que O’Neill descrevia como crentes na sua excelência e na excelência das obras e manobras que praticam (as obras justificam as manobras). Vale os convencidos cometerem gaffes como quem respira. “A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.” E quando fazem plof e se afundam, nada aprendem - vencer, convencer vencendo provam-nos intactos. Pois que vençam à vontade! Sobretudo longe.
Publicado por Teresa C. às novembro 19, 2007 06:23 AM
Comentários
"Nas miudezas diárias há “a ironia da escolha” como escreveu Pavese. Ir ou ficar. Gozar, de forma ávida e pagã, o ontem e o anteontem para, subitamente e ao arrepio da noite, sentir precisão do xaile do recolhimento."
Estar é tão presente que ir daqui para aqui não é ir. É ficar.
Por vezes dá para sentir a água contida no ar, suavemente pousando na pele...
Exceto, como diz, para os manipuladores...
Bom estar aqui Teresa.
Obrigado.
Publicado por: Justo às novembro 19, 2007 11:00 AM
Porque é que entende que deve ser um eu insatisfeito a jogar à cabra-cega c'a consciência?
Eu declaro o sentido da pergunta (à cause des mouches):
é que, a cabra-cega, como qualquer jogo d'intuição pode ser entendido como um atractivo maior e, além disso, o jogo, sobretudo o d'azar ou o apenas perigoso, é empolgante quando se tem tudo ou nada a perder - no primeiro caso é ambição e/ou arrogância; no segundo, desportivismo leviano.
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 19, 2007 02:29 PM
...et
pectus mihi confer mundum, ardens, et pium, volutatem abnegatam tibi semper conformatum juncta virtutum copia!
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 19, 2007 03:16 PM
...leviano ou diletante! O desportivismo.
(desculp'a insistência)
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 19, 2007 03:19 PM
Justo - os arrogantes nem sensibilidade têm para atentar no que os sentidos lêem. Empinam o nariz e das manobras não desistem, calcando quem lhes atravesse o caminho. Sabe como a sua serenidade me encanta? Humm... Julgo que não!
Pirata-Vermelho - não pretendi dizer o que me parece ter entendido e julguei compreensível o escrito - "aspergir noutros ou em coisas um «eu» insatisfeito que joga à cabra-cega com a consciência". Estou apenas a qualificar o «eu» insatisfeito a que me refiro, não a reduzir as insatisfações pessoais aos jogos de esconde-esconde. E sim, concordo, o jogo da cabra cega é aliciante, olha a quem o diz!, porém atitude menor quando o indivíduo foge de si próprio.
Publicado por: Teresa C. às novembro 19, 2007 04:36 PM
Muito agradecido (e honrado) pela "publicidade", Teresa.
Dizer que retribuo a recomendação parece-me pouco. O que aconselho a quem me pede sugestões por onde ler umas boas "postas" virtuais é: "vais ao sempenisneminveja mas não lês nada, contempla só as belas senhoras semi-desnudas. Depois: Imprime! Deixa a fase da leitura para quando tiveres disponibilidade mental (e física) para digerires o que estás a ler. É a única forma possível de não desperdiçares tanto talento".
Não, o meu poiso nem tem calibre suficiente para ter a ousadia de isto pretender ser uma troca de galhardetes. Lamber botas? Também não faz parte das minhas mais recônditas fantasias. Nem das sexuais.
Publicado por: agent às novembro 19, 2007 07:34 PM
«Pectus mihi confer mundum, /
ardens, pium, gemebundum, /
voluntatem abnegatam, /
tibi semper conformatam, /
juncta virtutum copia.»
- Ai o rigor, Sr. Pirata.
Publicado por: D. às novembro 20, 2007 12:56 PM
Ai...
e a necessidade de adaptar, Sr. D. !?
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 20, 2007 02:54 PM
(Em todo o caso, tem razão... obrigado. Que se me desculpass'a ausência de rigor e de aspas)
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 20, 2007 02:55 PM
Agent - O mérito é da sua escrita espontânea e da coragem de avançar para temas que abordam as relações entre as pessoas, sem falsos pudores, evitando palavras-choque e com naturalidade. E isso falta nalguns blogues masculinos. Por isso revelei um gosto que descobri.
Publicado por: Teresa C. às novembro 20, 2007 07:19 PM