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novembro 13, 2007

GAIATA SEM PRAZO

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Jennifer Janesko

Não sou mulher de muitas e grandiosas causas. Conto três: o respeito pela Terra, suavizar as injustiças, mais não seja pela denúncia e gestos, e amar as pessoas. Muito. Algumas, perdidamente. Gaiata sem prazo nos ideais e nalgumas atitudes: a espontaneidade, o riso e o contentamento fácil. Patéticas para muitos, sei. Sou então uma pateta-feliz como néscia que se preza. Por isso me exponho sem recear mal que me apoquente. Laivos de racionalidade insistem na sensatez que aceito. Abençoada ciência que nisto me enformou... A humildade também lha devo. E a disciplina. O gosto pelo rigor do pensamento. Pela coerência que busco e foge de mim à desfilada. Mas teimo. Terei três pernas – as duas de nascença mais a bengala – e, a mancar, continuarei a perseguir a malvada.

A tal gaiata, sempre pronta a chegar à tona, viu-se numa situação custosa: “escortiçar” o cabelo dando ao frontispício o sombreado de umas farripas desacertadas. Em código masculino, uns “longes” de franja. “Sem ao comprimento retirar mais que 2 milímetros”, recomendei angustiada. Para uma mulher, cortar o cabelo é questão existencial. De maior dificuldade que escolher traje íntimo e público para arrasar o amado – o gosto masculino é previsivelmente subserviente aos estereótipos. Arrebitada como sou, defino o esperado e escolho exactamente o oposto. Surpreendente. Isentando de beliscões a feminilidade. Mais digo: modificar o corte de cabelo vence em aperto algumas situações penosas no trabalho. Só assemelhada à mudança de um pneu. Ou a furar paredes com um berbequim. Ou mudar a borracha da máquina de lavar. Situações dramáticas que ladroagem associada resolve. Contudo, alterar a cabeleira leva de vencida as mencionadas – uma tesourada a mais e lá se vai a identidade que o espelho, quotidianamente, devolve. Sem apelo e com agravo.


CAFÉ DA MANHÃ

Para quem de si diz amar os humanos, perante isto, o texto acima é uma vergonha! Como outros que o antecedem e os que a seguir virão. A seu modo cada um reflectindo fracções da vida, quiçá suavizando-a. Sem pretender redimir-me, divulgo uma petição contra a mutilação genital feminina. Assinando-a ou não, importa a consciência dos mundos vítimas-e-causa dos mundos culpados.

Publicado por Teresa C. às novembro 13, 2007 06:18 AM

Comentários

Acha, querida Amiga, que "amar as pessoas", para mais "perdidamente" não é uma causa grandiosa?!
Nos tempos que correm, de tamanha insensibilidade e carência de afecto?!
Não sei se essa atitude é de uma "gaiata sem prazo" ou de alguém que nunca perdeu a inocência.
O que sei é que, para lá da beleza da forma destes belos escritos, existe uma alma luminosa que ilumina as minhas manhãs...

Publicado por: j às novembro 13, 2007 10:52 AM

Não vejo qualquer contradição entre «uma tesourada a mais e lá se vai a identidade que o espelho, quotidianamente, devolve» até se esquecer e se confrontar com a "tragédia" de novas tesouradas, e a inominável cena do video clip do Café da Manhã. Trata-se apenas - lamentavelmente, apenas - do confronto entre duas culturas: a 1ª pode ser acusada de supérflua, e antes isso; porque quanto à 2ª não há tradição cultural que a justique ou redima. Aquelas mãozinhas do curandeiro ou xamã, deviam pura e simplesmente ser amputadas.
Mas o que mais me revolta, é a criminosa passividade/cumplicidade da equipa de reportagem que, em vez de impedir a ablação, preferiu gravá-la e consolar a consciência servida na habitual gamela da solidariedade. Quantas mãos são necessárias para segurar uma criança que teve o azar de nascer com uma vagina?

Publicado por: fallorca às novembro 13, 2007 11:34 AM

Fallorca, você nunca assistiu a um 'fanado'!
Pensa que a equipa de reporttagem podia fazer outra coisa que não fosse filmar conforme o que pagou?
Nem ver o deixavam... e depois, não é um 'video clip'; isso é coisa de rock com gajas de pernas boas ou ganzados à la palma; é documento-panfleto e serve para abominar uma certa África que não nos merece respeito nenhum; com preocupações de racismo ou sem elas; com petróleo e pretos vaidosos e miramarais fanhosos ou sem eles e sua prole dilecta.
Acorde, amigo Fallorca e saia do estereotipo.

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 13, 2007 11:42 AM

A gaiata é gira. Não tem prazo, en fait...


des bisous!

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 13, 2007 11:44 AM

pirata-vermelho, seja o que você quiser e você lá sabe se os video-clips são «coisa de rock com gajas de pernas boas ou ganzados à la palma».
Como não me conhece, deve ser por isso que me recomenda que «saia do estereotipo», que você pelos vistos tão bem conhece. E não, nunca assisti a um "fanado" nem faço ideia do que você entende como tal... embora, por vezes, me sinta bastante fanado com tudo isto.

Publicado por: fallorca às novembro 13, 2007 01:55 PM

Mais uma vez a sua escrita sensibiliza os corações mais destroçados e amargurados pela vida que levam. As suas palavras são como uma benção diária, pois fazem-nos acreditar que ainda vale a pena viver, e que o nosso Mundo ainda tem coisas belas, tais como a Amizade e o Amor pelo nosso semelhante. No entanto, infelizmente existem muitas pessoinhas que pensam que ficam para semente e que só os outros irão!
A amizade pura e o nosso Amor, nem que seja platónico perdura para todo o Sempre. A Paixão vale a pena ser vivida, nem que seja por 5 minutos!

Publicado por: Incógnita às novembro 13, 2007 01:59 PM

'estereótipo'.
Teresa, bem; pirata, mal.

Publicado por: D. às novembro 13, 2007 02:58 PM

O 'fanado' é a operação ritual de excisão do clitoris, dita em português. Não assistiu e não lhe conhece a regra mas! nem por isso deixou de julgar a equipa de reportagem, não foi, fallorca? Também reduziu o que viu a mero vulgarmente designado video-não-sei-quê, não foi? Pois bem, é esse o estereotipo - a dispensa de reflexão ou a redução ao já dito que não muda mas desculpa(biliza?).

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 13, 2007 05:29 PM

Nem 'clitoris' nem 'estereotipo' estão ditos em português.

Publicado por: D. às novembro 13, 2007 07:14 PM

J. - amar perdidamente. Entrega sem reservas. Com a fé e o corpo intactos. Esta, sim, é a causa primeira, por desta dádiva crescer a disponibilidade para as outras. Como gosto de si e dessa sua bondade de fazer sentir que as minhas palavras fazem parte dos seus dias... Obrigada, J.

Fallorca - entendo o seu sentir. Também eu me pergunto porque imagens destas não passam pelas televisões e "youtubes" do mundo. Tudo o que eu vi documentado em termos de reportagem sobre este assunto foi "light", "soft", como é comum e próprio dos dias "fast". E animou-me, sabe? Teve o condão, tal como o J., de me levantar o ânimo abaixado pela minha frivolidade em contraste com o que eu de mim dizia no texto. Que bom a sua palavra amiga quando dela pressente a falta!

Pirata-Vermelho - sei que está chocado, revoltado, olhando o mundo de viés. Tal como eu. Como o Fallorca, o J. e quem vir estas imagens. Sei que pretendeu chamar a atenção para as dificuldades que estas equipas de reportagem enfrentam. Mas sabe?, com um pouco de suavidade conseguimos dizer o mesmo. Vantagem: o nosso interlocutor fica receptivo às nossas razões e nós em paz.

Fiquei com os "bisous" todos! Tome um dos meus.

D. - Adorei os seus apontamentos, dando a isto o ar bem disposto que um desafio de futebol devia ter. :)

Publicado por: Teresa C. às novembro 13, 2007 09:10 PM

Gosto sempre é bom muito bom.

Publicado por: Rebecca às novembro 13, 2007 09:49 PM

A suavidade sonsa (com 'r'?) cansa e com ou sem ela pouco mais aqui foi dito, mnina Teresa.


Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 13, 2007 10:34 PM

Cabelos e amor me levam a Sansão e Dalila...
Ah...o Amor tem tantos caminhos e descaminhos e D'us nos escreve por tantas linhas tortas que é torto o amor...
Mas celebrar a vida é sim amar...
Seja amar a celebração da vida...
Beijos.

Publicado por: justo às novembro 14, 2007 12:14 AM

Será que é a norma para a humanidade enquanto grupo o exercer de crueldade sobre os próximos?
Quanto à questão da redenção, a verdade é que por muito nos choque determinadas acções é preciso uma enorme capacidade de auto-sacrifício para alterar essas mesmas acções in loco e abdicarmos da nossa confortável vida.
Mas também faz parte da norma e da necessidade de sobrevivência o não sermos mártires, mas claro que tal não nos isenta da obrigação de respeitar o próximo. Basicamente é a luta da nossa consciência!

Publicado por: apenas um gajo e nada mais às novembro 14, 2007 12:21 AM

Pirata-Vermelho - acha? Eu não! Um "bisou", vá lá, para lhe espevitar o humor.

Justo - por isso amo e sem amar não sei viver. Por isso pulo da cama com energia mal toca o despertador. Por isso sorrio ao dia mesmo quando ele parece fazer caretas. Por isso vivo com ilusão. E alegria. E optimismo. Beijos, caríssimo.

Apenas um Gajo e Nada Mais - e desse conflito, consciência/atitude, sofro bastas vezes. Por momentos, é certo, até a razão exercer o seu papel. Porque não sou ninguém neste mundo, por esperar de mim pouco mais do que trazer alegria aos que me rodeiam e a mim. Beijo.

Publicado por: Teresa C. às novembro 14, 2007 04:21 PM

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