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novembro 30, 2007

PRENSADA NA SANDOCHA

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Mel Ramos

Intriga-me a serventia de uma folha de alface semi-murcha e prensada sob(re) o recheio da sandocha, da naufragada no molho do lombo assado. Vitaminas são passado. Provável incubadora de bactérias? Alguma lei oculta deve haver para todos os botequins e tascas, das finas às populares, obedecerem a padrão único. Tirar a mostra vegetal, com aspecto doentio e pingona de gordura, é tarefa penosa – eliminar o detrito, deplorável à vista, requer caixote do lixo por perto ou incómodo do funcionário inocente.

Fosse eu mandante e pensaria legislação que proibisse o entulho decorativo das folhas de alface e punisse os infractores particulares ou aqueles com estabelecimento de porta-aberta. Do mesmo modo, mereceria castigo funcionário de mesa que escarrapachasse rodela de limão por cima das pedras de gelo de uma tónica-com-gelo-e-limão. Como mini-icebergue, o gelo flutua e com ele o limão que fica às avessas – faz coceira resfriada no nariz em vez de se afundar na tónica. Um crime hediondo.

Sugestões para novos itens do Código Penal

Decorar com folhas de alface um acepipe.
Pena – Inspecção da ASAE e multa

Restaurantes que sirvam rodízio.
Pena – encerramento por período nunca inferior a três anos.
Parágrafo único: sendo hipótese de escolha pizza, a pena sofrerá aumento de 1/4 a 3/4.

Prato de résistance acompanhado de uma “saladinha”.
Pena – ASAE portas dentro e serviço cívico do chefe culinário nas hortas e estufas agrícolas durante um período nunca inferior a doze meses.

Pedir carne vermelha “muito bem” passada.
Pena – trabalho ao braseiro de uma churrascaria durante três a seis meses.

Guardanapos de papel na mesa de restaurante acima do tascoso.
Pena – inspecção das Finanças e multa.

Embalagens de patês como couvert ou qualquer outra modalidade de antepasto.
Pena – inspecção das Finanças e obrigação de numa indústria do ramo cortar fígados dos bichos durante um ano.
Parágrafo único. Se o pão for molengo, aumento da pena de metade a 3/5.


CAFÉ DA MANHÃ

Querida A.,

Entre milhares de leitores, também eu não perco um escrito seu. A beleza formal, o conteúdo e o enorme talento que a sua escrita prova há muito mereciam mais do que um blogue. Pelo prazer dos seus textos, doravante a Rádio Comercial terá mais uma ouvinte. Muitos parabéns e uma certeza: fez-se justiça.

Publicado por Teresa C. às 10:54 AM | Comentários (16)

novembro 29, 2007

CHAMA-LHES “VACAS”

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Mark Harrison

Choca-me que chames vacas às mulheres que te oferecem afectos como flores. Troces dos cuidados com os filhos. Delas. Rias dos olhos azuis e da loira com dinheiro que to coloca aos pés (bazófia tua como, de imediato, comentei); da baixinha - pés roliços, sutiã branco e cuecas desirmanadas (palavras tuas), corpo de deusa e cujo marido te encalacra; da funcionária da saúde que usas em part-time; das que “só não emprenham para me prender por escolhê-las com a menopausa a caminho ou passada.”

Choca-me o teu arquivo das fotografias íntimas. Que as exibas com sarcasmo. Mulheres desprevenidas. Crédulas por em ti verem o amor. Que contes da náusea ao sabê-las, de manhã, ao teu lado na cama, enquanto delineias a fuga ou lhes deixas passar uma camisa, iludindo-as com a partilha das vidas. Que as deixes em suspenso por afazeres que não tens, com as tuas fugas mentirosas de caixeiro viajante. Com a que te espera numa cama do mundo abaixo do Equador. Que digas respeitar todas por, na presença de cada uma, silenciares o telefone.

Chocas-me. Por violentar a minha natural tolerância ao impor-te não mais fazeres de mim tua confidente e, por isso, cúmplice do sofrimento que adivinho nas tuas mulheres. Por teres consciência e a negares. Pela infelicidade que te engelha o rosto. Entristece-me que te acobardes entre o verso e o reverso do teu ser. Despede o anjo vingador que te habita porque uma, duas mulheres te enganaram cruelmente, dizes, gelando para as outras a bondade e a ternura que a um cão espontaneamente ofereces. Sobe do inferno que te dói. Ganha a paz que desejas. Aceita as cãs e a queda do cabelo e o arredondar do abdómen que por ora te atormentam. Cala o demónio que te faz sentir inferior.


CAFÉ DA MANHÃ

Muito obrigada me sinto pela atenção que dispensa ao que escrevo.

Publicado por Teresa C. às 08:47 AM | Comentários (6)

novembro 28, 2007

BAZAR DE CARIDADE OU O PARADIGMA DO NEGREIRO

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Blake Flynn

Em África, a cada três segundos e meio morre um ser humano à fome. Na parte austral, (sub)vivem 10 milhões de adultos e crianças a que falta o mínimo do alimento. No Malawi, - segundo fontes do respectivo governo -, 70% da população de 11 milhões passa fome. Noventa por cento dos casos mundiais de malária ocorrem na África Subsariana. Setenta e um por cento dos portadores do vírus HIV no planeta vivem na região – no Zimbabwe, 1 em cada 4 adultos tem SIDA – e a esperança de vida dos africanos caiu para os 45 anos. Continente preso na armadilha dos conflitos armados, da insegurança alimentar, das epidemias, da instabilidade política e religiosa, do crescimento populacional, calamidades ambientais aceleradas pelas alterações climáticas.

Devastado por secas, cheias e guerras civis, o continente africano desespera. Findos os conflitos, o terror e a permanente ameaça à reconstrução das comunidades continua pelas minas e munições não explodidas. Perante isto, o Ocidente encolhe os ombros. O drama africano deixou de ser notícia na imprensa internacional – é mais cómodo responsabilizar o clima e a preguiça do pobre do que alterar a ordem social, contrariando os privilégios dos grupos dominantes e dos respectivos cúmplices: os impérios económicos/políticos ocidentais. Uns e outros, hipocritamente, pacificam a (má)consciência ao fazerem da África desconjuntada um bazar de caridade. Entre eles comentando, whisky velho no copo, que a vida(?) dos pobrezinhos continua a ser um mistério.


CAFÉ DA MANHÃ

Muitos habitantes deste planeta ainda pensam segundo o paradigma de antigos negreiros, o Outro só existe enquanto for útil, servir para alguma coisa. Não lhes reconhecem a dignidade de pessoas. As relações entre os povos são vistas em termos de exploração, saque, rapina. A solidariedade é uma palavra que não consta no seu léxico.

Os argumentos do negreiro, para não ajudar o Outro são quase sempre os mesmos. Alega frequentemente que não pode fazer porque ainda não tem todos os seus problemas domésticos resolvidos. Não tem a casa ou o automóvel dos seus sonhos, as férias que há muito deseja. A solidariedade do negreiro reduz-se em dar ao Outro (preto,pobre, etc) os sobejos, os desperdícios do festim. Os pobres não necessitam de mais, contentam-se com as sobras. A sua preocupação está centrada na ementa do festim, não nos restos.

Muitos pensam segundo o paradigma capitalista, o Outro é parte de um negócio a curto prazo (Toma Lá da Cá), a médio prazo ( Toma lá, e quando tiveres condições para isso retribui com juros) ou no longo prazo (Toma lá e diz a outros que foi eu que te dei). ara se pôr fim à fome no mundo.

Publicado por Teresa C. às 06:48 AM | Comentários (8)

novembro 27, 2007

NO MOSAICO, “POSSO?”

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Alberto Pancorbo

Apagou, como quem limpa os pés antes de entrar em casa, a última mensagem recebida: “Posso?”. Código e ritual quando nele ardia o desejo de a ouvir. Ela precipitava o “Claro!”, estando só ou protegida de quem lhe adivinhasse os murmúrios. A inevitabilidade da paixão impusera desafios e riscos. Dispunham-se a corrê-los. Ambos viviam amores domésticos, cálidos e sensatos, conformados à lisura das emoções. Aparentemente invulneráveis a sentimentos ferventes e aos aventureiros jogos do amor.

No começo, houvera a formalidade que a cautela impõe. Por esse tempo, decantavam a emoção do discurso e como depósito ficavam subtis carreiros que o coração percorria a toda a brida. Sendo certo que desperdício é nunca dar o suficiente de nós mesmos, ela hesitava ainda em ouvir, acima de todas as outras, a voz passiva e cobarde que avalia os custos e põe a cautela à frente de tudo. Entre o caminho esperado e o atalho marginal, habituara-se a preferir o primeiro, sabendo-o, de antemão, uma inverdade a si própria. Todos os atalhos silenciados lhe giravam agora no cérebro como carrocel infernal ou baile sombrio de profecias antigas.

A escrita urdira a teia que os havia de enredar. Alimento do braseiro em que se consumiam. Palavras como carícias. Mails de fogo, queimando a alma e, por causa dela, a pele, marcavam o ritmo dos dias. Impressos e(re)lidos na descrição silenciosa da noite. A necessidade de dar corpo e rosto à escrita progrediu inexoravelmente. – “Pchiu... Um segredo! Este é o meu número de telemóvel. Segunda-feira, entes as treze e as dezassete, espero o seu telefonema.” Às dezasseis e cinquenta e cinco, revelando o seu número, ela tremeu a mensagem – “Porquê eu? Tem meia hora para me ligar!”. Ele ligou. Trocaram as vozes, naquele e todos os dias depois. Telefonemas breves - assim os sentiam, mesmo quando o ponteiro das horas saltava de uma para outra – , desmedida a paixão e a urgência de consumarem a voracidade dos corpos e dos sentidos. O primeiro encontro marcou-lhes o caminho como fatalidade desenhada no mosaico de que se fazem as vidas.

CAFÉ DA MANHÃ

De Miguel Torga, Diário X

Gerês, 6 de Agosto de 1966

A felicidade dos suficientes!
- Eu nunca falhei!
E só pude responder alanceado, como num gemido:
- Pois eu falhei sempre.

Publicado por Teresa C. às 06:34 AM | Comentários (4)

novembro 26, 2007

AOS Y FALTA UMA PERNA

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Jack Vettriano

Aos Y falta uma perna. Por isso eles correm atrás das X, sempre adiantadas uns passos. Nos prenúncios dos amores, ainda os Y adivinham as mamas, já elas idealizam serões, mantas e no ecrã um filme visto a dois. Porque o espírito conta, mas o desejo no corpo se levanta, eles acedem, dizem que sim, as mãos calcorreando das X as curvas, chegando ao extremo - para dentro fazendo figas - de murmurarem a palavra temida: amor. Espécie de senha como limite excepcional que a gruta abra. E ela desdobra-se e recolhe e pulsa e liquefaz a ilusão do amor perfeito.

Recobrada a lucidez, seja pela falta da perna ou pela antecipação de cobranças, os Y retraem-se. Moderam a fala e o fogo, receando vir a lume insinuado compromisso através da pergunta fatal: “amando-nos, em que pé ficamos?” E eles, tendo um só pé e não o querendo empenhar, ficam evasivos, garantem a amizade, ensaiam a fuga com um “eu ligo-te” ou “vamo-nos vendo”. As X não estão de modas e avançam com mensagens e telefonemas, não fiquem os trôpegos - na retranca, sim, cobardolas e(ou) inseguros algumas vezes, mas, mancando ou não sabendo ao que aspiram - esquecidos do caminho do regresso.

O desatino tem contornos delirantes: elas, emancipadas, ganhando tanto ou mais do que eles, interiorizaram a confiança na supremacia das multíplas aptidões postas à prova em casa e fora dela. Eles, culturalmente padronizados pelo modelo tradicional, sarapintaram-no com as “piquinhices”(?) que as X, por ora, exigem: homem cuidado, sensível, meigo e possuidor de genes e meios que optimizem a qualidade da ninhada. De tão ocupadas, distraem-se do essencial: não acautelando o estar que em poucas décadas as elevou do oito submisso, aprestam-se ao oitenta guerrilheiro por via da invasão do território e cópia das atitudes que nos Y, fragorosamente, condenavam.

Publicado por Teresa C. às 06:15 AM | Comentários (10)

novembro 25, 2007

MÚSICA-AR-E-MAR

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Autor que não foi possível identificar

Pacificar a matéria que me embrulha. Desfazer o mal feito. Um treino comedido por ter julgado do Gulliver o meu braço ao calar o despertador. Desarrumados os tendões, troquei os pesos por escaladas na passadeira, vigor redobrado na wave e nas séries dos abdominais. Senti do corpo a resposta aos desafios que inventei, brincando ao posso-não-posso. A fluida noção do tempo no banho turco ao meu gosto – solitário. Vapor quente que o eucalipto perfumou e encharca a pele e os poros escancara a tépido respirar. Eu com eles. O espírito vazio. Momento a que bastam dois sentidos – o cheiro e o toque nu da água em pérolas.

No regresso, foi a obscuridade. A voz e a melodia como música-ar-e-mar – o vaivém das ondas, os piados das gaivotas e o assalto do vento à água. Aroma a maresia e o brilho do cristal acordado pelas chamas das velas. Mãos desbravando o ombro dorido, os nós dos nervos e a zanga dos músculos, do pescoço subindo e descendo fundo. Que alargaram o desenho em curvas alisadas até ao ventre. Pressões dispersas. Outras súbitas. Calculadas. A dor como alívio. E abandonei-me, corpo lasso de marioneta que espera o puxar dos fios.

A invenção da felicidade feita de trivialidades que a alma agiganta a contentamento excelso. Ideá-lo como efémero é um erro: varre do espírito poeiras, perdura no «ser» avigorando a determinação e a força e a alegria de transformar o existir em amena passagem da linha que separa o passado, que já não é, do futuro, que não é ainda.

Publicado por Teresa C. às 11:15 AM | Comentários (10)

novembro 24, 2007

QUAL A FUNÇÃO DO APÓSTROFO?

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Blake Flynn

Porque é fim-de-semana e no tempo são aumentados os graus do ângulo reservado à liberdade, também do pensamento, na sociedade que construímos há inquietações que pedem reflexão. A literacia e o seu contrário como exemplo. Segundo os altos desígnios ministeriais, a “«literacia» é o significante-mestre no Ministério da Educação, surgindo como vistosa obsessão de na escola ser alcançado o objectivo mínimo da literacia. Somando dois com dois – para os “antigos” cálculo mental, actualmente tarefa da máquina de calcular -, significa que o ensino desistiu da literacia clássica como aquisição de saberes e capacidades para uso das linguagens que garantam o exercício da cidadania e o inerente sentido crítico.

As famílias inocentes (indiferentes?) que à escola entregam os catraios e se julgam descansadas quanto às aprendizagens fundamentais, é aconselhada desconfiança e cautela. Que cumpram a sua parte e do ensino formal legitimamente esperem o complemento rigoroso. Que desde cedo - especialistas aconselham o ano de vida –, o livro seja brinquedo e a criança aprenda a manuseá-lo. Os pais cuidando de ensinar aos filhos a dele tirarem o proveito adequado ao respectivo desenvolvimento. E contar, lendo, estórias. Momento de intimidade que a criança inicia na fantasia e sossega para o sono. Atender a que entre os presentes um livro conste, depois explorado com o adulto. Gestos que somados constituam prevenção contra a iliteracia dominante. Desta, um exemplo:

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Há dias, li: “Se a Matemática não passa de uma formalidade exigente embora 'simples' a língua, pelo contrário, é um sistema complexo cuja manipulação constitui exercício superior e condição da qualificação do indivíduo - ambos devem ser entendidos como instrumentos estruturantes de uma civilização moderna, em conjunto com as artes e com outras vertentes da ciência.” Registo o meu acordo respeitoso.

Publicado por Teresa C. às 10:41 AM | Comentários (5)

novembro 23, 2007

SÓ A DENÚNCIA NOS SALVA

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Autor que não foi possível identificar

Pontes em estado grave. Doentes. Roídas pela idade, pelintrice dos materiais, ou pelo desprezo de quem, empertigado nos objectivos minorcas, olha a Europa e esquece o país. A tragédia de Entre-os-Rios atemorizando as gentes e os autarcas pela chatice que um acidente, e consequente ruptura na escalada política, lhes trazem, mais do que pelo custo em vidas. E bradam baixinho. Gritam as gentes do lugar e chegam aos (tele)jornais por via da notícia ululante. Quem governa baixa o olhar e ordena vistorias e cala queixas por votos.

Decretam à funcionária da Junta de Freguesia de Burrinhã-de-Cima que retome as funções. Imobilizada na cama pela degeneração dos órgãos, é chamada à presença do patrão-Estado. Como a professora que os cancros destroem. Um deles na boca. Pela metade a língua. Por um fio o estar. Como as crianças com deficiência espoliadas do ensino especial. O clamor indignado da família, dos amigos e da vizinhança. A delação a quem mexe os cordelinhos da comunicação social. E surge o burocrata maior - rabo entre as pernas, olhar pio, caridoso - a contrariar a ordem do serviço que rege e, por isso, deu. Sem apagar a devassa das vidas. Nova dor a somar.

Mais factos - a bomba de insulina, que a glicemia controla, comparticipada a alguns diabéticos (a todos não enxerga a vista-curta da lusa governação); a vacina gratuita contra o cancro no colo do útero (ainda que restrita à idade juvenil). Medidas avulsas. Caso-a-caso. Remedeios quando a gritaria social ensurdece os mandadores do baile. E o povo relembra lição antiga – “quem não chora, não mama”. Em versão revista e polida: só a denúncia nos salva.

CAFÉ DA MANHÃ

Escreveu o estimado A.R.: “Depois de ver o debate sobre o Orçamento do Estado, só me resta recorrer, mais uma vez a Shakespeare

Macbeth , Segundo Acto , Cena III

Macbeth -
... Tudo é futilidade: honra e renome
Estão mortos; o vinho da existência
Esgotou-se até à borra e só lhe resta
Borra a esta triste adega.”

Publicado por Teresa C. às 08:29 AM | Comentários (3)

novembro 22, 2007

O LADO DE DENTRO DO DECOTE

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Eric Drudwyn

Mulher que rejeita a facilidade, mas em si aprecia o feminino dos pés cuidados e do cabelo aventureiro, sabe dosear o decote. Com ele recortar o colo no justo sítio onde deseja entreabrir a fantasia. Nela e nos que a vêem, o sulco na pele macia docemente redonda desperta o apetite do toque. Dos lábios, aos aventurados. E, sejam os seios fartos ou caibam em mão e meia, o que à mulher agrada é sabê-los direitos e atrevidos os mamilos. Que mal se desnude, o arrepio de frio endureça os botões rosados. Que à fruição da nua e alegre intimidade a dois não se esquive pelo que no corpo julga defeito. Se for. Carimbo da individualidade. Impressão digital que a memória guarda.

Se os decotes brincalhões a mulher prefere quando a sensualidade é maré-cheia, antes dos outros a ela brinda primeiro, jogando com o sobe-e-desce da alça ou da falta dela. Suave é o gesto de compor o que a compostura desmente. E toda ela fala em silêncio. Conta do momento sentido, expõe o desejo sem particular endereço, fascina porque longe de quem a cerca e lhe bebe os movimentos. Consciente da sua embriaguez e ausente daquela que provoca. Pelo alheamento entornando volúpia depois de a servir a si própria.


CAFÉ DA MANHÃ

Curioso. Se pensarmos o descair do olhar como um momento de exercício do poder feminino (da mulher observada), damos por nós a expiar alguma da culpa que tantas vezes se adensa deste lado do decote. Faz sentido: o poder não cabe ao "olhar invasor", mas sim ao olhar que nos percebe ausentes, fatalmente caídos na antiquíssima armadilha do decote. Ainda assim, nada de facilitismos, digo eu; na presença de um decote mantêm-se válidos os sacros mandamentos : 1- Jamais ceder completamente 2- Procurar refúgio nos olhos da interlocutora. Nenhum poder nos respeita se não lhe oferecermos um tanto de resistência.

Publicado por Teresa C. às 06:25 AM | Comentários (8)

novembro 21, 2007

BAILE E PANTOMINA

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Detalhe de "Le Bal a Bougival" - Renoir

Lioz é o que se lobriga primeiro. Escadaria forrada a encarnado, dourados depois. Assentos dispostos em semi-luas até à pista modesta. Balcões para encherem copos e servirem de alívio às cruzes dos herdeiros marialvas que dardejam olhares carnívoros às peças femininas. Eles e elas podiam ser actores escolhidos a dedo pelo Ettore Scola para filmar “O Baile”. Também neste lugar escuso das noites de Lisboa são curtos os diálogos, palpável a tensão emocional, a dramaturgia sustentada pela coreografia dos gestos. Quem ali se aventura é melhor ir preparado para uma incursão no mundo da pantomima das relações humanas, urbanas, maganas.

A premissa do lugar é, como no “Baile”, imutável: diluir a solidão e encontrar um parceiro que aqueça noites e o momento no carrocel de uma pista de dança. O elenco permanece: a florista, o jovem do subúrbio, a manequim reformada, a alcoólatra, a dama-pipi, a refugiada (brasileira de facto), o sacristão à procura do ámen duma ela, a pernas-e-mamas, o homem-que-veio-de-longe e não é o Gabin, o pós-yuppie, o aluno de Apolo, o empresário, o herói da guerra, o aristocrata, o rufia com jaqueta de couro e topete, o mister-músculo lá do bairro. Elas esperam um convite para dançar daqueles que as negas não temem; os tímidos aguardam que alguma traduza os tiques para convite de enleio.

A mise-en-scène garante aos prováveis enredos a cola do conhecimento dos corpos à cause le pot pourri musical – o kitsch francês e iglesiano para os sussurros, salsa, rumbas e sambas denunciando meneios, rock’n roll e disco dance a combinarem com os papos e as rugas dançarinas. Naquele microcosmo de solidão enganada, a música sobe de detalhe técnico à condição de alcoviteira. E, tal como no filme do Scola, este baile é um panorama psicológico dos personagens que transcende as regras comuns nos lugares nocturnos de ajuntamento de homens e mulheres.

CAFÉ DA MANHÃ

- Este é o “Baile” a sério

- Leitura obrigatória: "Nua"

Publicado por Teresa C. às 06:13 AM | Comentários (9)

novembro 20, 2007

COLECTIVIZARAM O PECADO

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Terry Rodgers

O pecado está em vias de extinção. Finada a minha geração, será conceito fóssil armazenado em dicionários. Nem o facto traria à colação, não fosse a pena que me dá saber passado o arrepio na espinha e o aperto nas entranhas inerente ao pecado cometido em grande estilo. Pecar era acção, estimulava deliciosos desvios do recto caminho, preferencialmente em boa companhia. Fornecia dose extra de adrenalina aos actos clandestinos. Obrigava a joelhos dobrados e a pedido de absolvição. A rezar, cabeça baixa e ombros murchos, a penitência atribuída. Sair do genuflexório com o espírito limpo e passado a ferro, ocupado, desde logo, em venialidades pecaminosas. Isto era no tempo em que a masturbação, os beijos lascivos e os apalpões e fornicar fora do casamento eram pecado. A desonestidade, também. O catálogo dos pecados mortais era maquiavelicamente escasso – avareza, soberba, gula, ira, preguiça, luxúria e inveja – e abrangente (quem não cair, no mínimo, em seis que levante o braço!).

No hoje, em vez de pecados individuais há virtudes, desvios, distúrbios ou doenças. A avareza tornou-se sensatez, a ira é manifestação emotiva, a inveja passou a competitividade. A gula e a preguiça foram (des)promovidas a infracções sociais: a primeira pelos gastos que acarreta aos Estados no tratamento da diabetes e das doenças cardiovasculares, a segunda por atentar contra o esperado aumento dos índices de produtividade. As putas dividem-se em duas categorias: as simples prestadoras de serviços sexuais pagos em dinheiro vivo e as que à mesa são umas senhoras e os homens desejam na vida e na cama doméstica. Os putanheiros são dados como doentes psiquiátricos, a carecerem de tratamento ambulatório ou de internamento em clínicas de adictos que lhes moderem a tesão.

Colectivizaram o pecado, esvaziando-o de sentido e piada. Agora, há infracções sociais ou crimes contra a humanidade. Tudo vago. Podendo ser cometidos sem sair de casa ou fazer coisa alguma - não separar lixos, não fechar luzes e torneiras, não ter ambição, não poupar, não pagar os impostos do automóvel, da autarquia pela propriedade de quatro paredes, do trabalho, dos esgotos (sem que as Câmaras perfumem canos e sanitas), e, o pior de todos, não aceitar qualquer roubo legalizado.

Publicado por Teresa C. às 06:20 AM | Comentários (17)

novembro 19, 2007

FRIDAY & SATURDAY NIGHT FEVER

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Steve Hanks

Três dias, duas noites – a de domingo não conta pela retoma dos hábitos. Ir além do costumado nas consecutivas vigílias. Esquecer da biologia o ritmo. Falsear pistas às engrenagens celulares. Adiado o acordar, apagada a manhã de domingo que, seja parda ou soalheira, me importa. O segundo café, rente aos verdes do parque, pontapeando o almoço para a tarde. Que no saco humano não cabem as ubiquidades dos divinos, vogando por aí noite e dia, em todo o lado ao mesmo tempo. As escolhas definem-nos.

Nas miudezas diárias há “a ironia da escolha” como escreveu Pavese. Ir ou ficar. Gozar, de forma ávida e pagã, o ontem e o anteontem para, subitamente e ao arrepio da noite, sentir precisão do xaile do recolhimento. Meia hora para o escrutínio do quero e dispenso. E dispenso o querer insensato do poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu ou o da mulher apaixonada pelo amor e desatenta ao respirar do homem que, perto dela, dorme na cama. Quero o crer. Tenho momentos esparsos - ontem, há pouco, de manhã – em que lhe sinto a falta. Mas volve a alegria da confiança que tudo apaga ou põe entre parêntesis.

Depois, há a alienação - sair do próprio e aspergir noutros ou em coisas um «eu» insatisfeito que joga à cabra-cega com a consciência. Existe a arrogância das grandiosas expectativas sobre o futuro e a arrogância comezinha dos convencidos. Aqueles que O’Neill descrevia como crentes na sua excelência e na excelência das obras e manobras que praticam (as obras justificam as manobras). Vale os convencidos cometerem gaffes como quem respira. “A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.” E quando fazem plof e se afundam, nada aprendem - vencer, convencer vencendo provam-nos intactos. Pois que vençam à vontade! Sobretudo longe.

Publicado por Teresa C. às 06:23 AM | Comentários (10)

novembro 18, 2007

ADORÁVEIS MENTIROSOS!

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Al Moore

Erguer a pálpebra dormida e deparar com uma tarde tepidamente risonha, estando previsto domingo frio e zangado é renovada prova de que os meteorologistas, astrólogos e publicitários são uns mentirosos adoráveis. Os primeiros, pelo império do acaso, os segundos pela lei das probabilidades e os terceiros por necessidade. Se há coisa que me divirta é ler horóscopos atrasados, no mínimo, uma semana – a generalidade que tudo abarca, as previsões falhadas. E os anúncios? Como parodiou o Ricardo Araújo Pereira, a excelsa dama que sobrenada nos cetins amarelos em pose para o retratista, não desiste de comer Ferrero Rocher, sem que engorde um grama. O Ambrósio com setenta de idade há mais de quinze anos. Ela continuando a devorar bombons, o Ambrósio a servir-lhos numa pirâmide dourada, sem acrescentar uma injecção de insulina – a gula da dama pela doçura há muito devia ter dado em diabetes e gordura.

Os adoráveis profissionais do acaso e da mentira, bem vistas as coisas, alegram os dias. Não é por acaso que, desde miúda e no parco tempo televisivo que aguento, a publicidade continua a embasbacar-me. Acabado o interlúdio da venda de ideias e necessidades, há mais anos que a década e meia de Ambrósio e Dama, solto um “oh!” infantil de quem mais deseja e os pais não deixam.


CAFÉ DA TARDE

"Estes tempos de barragens são uma verdadeira era nova do mundo. Qualquer dia, na escola, o mestre aponta o mapa e diz:
- Antes do período albufeirozóico, aqui era o Barroso." A.R.

Publicado por Teresa C. às 01:47 PM | Comentários (7)

novembro 17, 2007

CONSTITUIÇÃO DO BOM GOSTO

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Amanda Besl

A “Constituição do Bom Gosto” devia resumir-se a um preceito – “A apresentação e o discurso dos cidadãos devem respeitar adultos e crianças de qualquer raça ou religião.” Numa penada, tudo resolvido: eliminada a censura social ao fato-de-treino usado em qualquer lugar durante o fim de semana ou nos lazeres. Ténis amortecendo o passo. O conforto dos algodões e das t-shirts, das sweats com fecho e capuz. Os rabos de cavalo apressados ou as molas no cabelo. O rosto por maquilhar. Corpos livres de estorvos. Por arrasto, os espíritos desprezando as imposições do in & out que constam das revistas e do Larousse das Boas Maneiras. Das “bobonnices” de escárnio e maldizer. Esquecida a falsa credibilidade conferida pelo fato-e-gravata ou tailleur impostos pelo empregador, seja o funcionário quadro elevado ou assistente de loja. Enfiado livremente para melhor parecer ou como sacola para acartar nos bolsos as bugigangas da era dos chips: o telemóvel e a carteira inchada de cartões - do clube de futebol, do clube de vídeo, do supermercado, cartões de crédito que a empresa oferece e vigia os gastos, ou pessoais que o consumo esgotou -, o telemóvel, as identificações.

O país, fosse a “Constituição do Bom Gosto” aprovada, saía a ganhar. Ao colorir, desmentia a fama, espalhada pelo mundo, de ter gentes a preto e cinzento. Aumentava a alegria e a produtividade pelo à-vontade de quem ao trabalho dá prioridade e se marimba para os sinais exteriores do estatuto social. E se no estrito circulo dos afortunados-cidadãos-do-mundo são valores a privacidade e a simplicidade, muitos de nós, gente comum, prezamos os mesmos. Despedido o ocioso. O fátuo. O precário. O duvidoso. O estabelecido por ninguém e pelo todo.

Publicado por Teresa C. às 11:16 AM | Comentários (10)

novembro 16, 2007

SEGREDOS ORVALHADOS

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Michael Mobius

Aconteceu. A humidade pingava no espelho. Imersa no vapor espesso, inebriada pelo silêncio, licenciei o pensamento. O corpo. Senti-lo. Ouvir o que me contava. Passear-me por ele como se outrem o descobrisse. Pela fronteira de cada centímetro. O vapor rondando a lentidão dos gestos. Macios. Os pingos da água mal fechada. A quentura. Íntima. Segredos mobilando o pensamento. Meus. Orvalhados.

A cascata da água peneirada escorria e redemoinhava na cabeça, arrastando do cabelo a touca de espuma. Naquele instante, decidi atraiçoar-te. Contar do amanhecer clandestino da véspera. Lembrar o que não houve – sono na noite feita madrugada. Brincavas com os caracóis que do liso nascem se os alaga humidade quando, pela fresta dos reposteiros pesados, se esgueirou a luz mudada. A custo, a água desfez a unidade dos corpos. Insististe em lavar o meu cabelo - “Tanto...” disseste, como outros antes de ti que eu não ouvira. E rindo, fugia como enguia do teu abraço forte.

Reavidas as roupas, a meia que faltava, pediste o meu sumo e dois cafés. O dia mal nascido atravessando, a medo, os vidros corridos da parede que não havia. Sem alargares o abraço, o fumo. De frente para o rio.


CAFÉ DA MANHÃ

- Vem aí o “ Mar de Casablanca”, o novo romance deste Senhor.

- "O grafitter iletrado e o falso amante estão muito perto"

Publicado por Teresa C. às 09:45 AM | Comentários (9)

novembro 15, 2007

DESGRAÇOU-A SER PRINCESA

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Alberto Vargas

“Male supremacy is all right, but I favor a different position”

Aquele Jaime estava a pedi-las. Determinei-lhe má-pinta assim que o «vi». Uma torre seca de carnes e costas abauladas, ar de cromo empertigado à conta do desmaiado azul sanguíneo, esgar por sorriso, não pode ser boa rês. Tenho faro para os safados, convenci-me!, e fico de pé-atrás. É o caso. Gastador, extravagante no bon chic, bon genre, condescendência afivelada, na mão o meio termo entre a bengala e o pingalim. E mulherengo. Vale a diversidade humana, que se me arribasse a ideia de o ter na frente em pelota ficava a “chamar pelo Gregório”*.

À Elena desgraçou-a ser princesa e anunciar borrasca mesmo ao rir; porque primogénita, condenada a escolher par com pedigree. Calhou o Jaime estar precisado do mesmo e foi combinado o casório. Às turras aguentaram doze anos. Entra a cronologia dos factos:

KORPATELEVISION. 11.09.2007 - 13:20h

- Los besos de los duques de Lugo: "Con esto ya nos podéis dejar tranquilos"
- “Tras los rumores de crisis, la pareja no se separa en los últimos días.”
- “El domingo acudieron juntos a un partido de baloncesto.”

Aqui, dois meses passados

- El 'annus horribilis' del Rey: de Mitrofán ,passando pelo bate-boca com o Chávez, a la separación de los duques de Lugo
- Cristina, sobre la separación de Elena: "Son cosas que pasan en los matrimonios"
- La Infanta Elena, muy sonriente, llevó hoy los niños al colegio
- La infanta fue la que tomó la decisión y el duque se encuentra muy afectado
- Un separado puede ser duque de Lugo?
- La Infanta Elena 'rompe la pana' con su melena planchada
- Lució nuevo look sin su habitual trenza

A última linha é a parte sumarenta. É princesa e não é parva. Reage como qualquer mulher que se livra de um empata - alegra o visual e do rosto expulsa a borrasca.

Nota: “chamar pelo Gregório” é expressão do linguajar beirão equivalente a “ter vómitos”

Publicado por Teresa C. às 06:27 AM | Comentários (9)

novembro 14, 2007

ADEUS DIVÓRCIOS, TRISTEZAS E DÍVIDAS

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Kenney Mencher

A nova ordem social tem preceito rígido: estar saudável. Impõe a ingestão de frutos e vegetais de cores garridas – os vermelhos mirtilos, tomates, amoras e framboesas, laranjas, tangerinas e cenouras, kiwis, espinafres e todos os verdes, couve e alface roxas. Quem ao abastecimento de vitaminas no supermercado, preferir pílulas da farmácia, infringiu a norma da dieta ideal. Traseiro, todo o santo dia, fincado em assento, já pecou. Que se mexa, que a trote vá para o trabalho, dispense o elevador e pela escada trepe ao décimo andar, que substitua o motor pela bicicleta, que aprenda a respirar, que mantenha a coluna direita, que não fume, não beba café ou mais de dois meios-copos de vinho por dia, que dispense bebidas destiladas - a cerveja incluída -, que se besunte com ecrã total para esconder a pele do Sol empinado, não abuse dos duches por surripiarem a indispensável gordura protectora (até agora chamada porcaria), que a água escorra sem mistelas de banho ácidas ou alcalinas, em qualquer caso danosas. E que durma. Muito. O que o relógio biológico ordenar lá do alto do quiasma no hipotálamo. Mas, atenção!, sem cair no vício da sesta, hábito nocivo à saúde das economias com prioridade sobre a das gentes. Daí almoços leves. Frugais: sopa, iogurte e fruta. Parcos em proteínas animais. Sem doçuras. Preferencialmente de pé.

O sucesso das economias necessita de funcionários (escravos?) fortes que não gastem dinheiros públicos em doenças, hospitais, farmácias e dias de baixa. A sociedade obriga a tensão arterial, colesterol, pulmões e demais órgãos afinados por bitolas economicamente viáveis. Depois, as úlceras, as depressões, as insónias denunciam um desgraçado – desgraçado?, qual quê?, um pecador por infringir os mandamentos da saúde, pois fosse obediente e estaria rijo como um pêro! Aguentaria a pesporrência do chefe e a torre de afazeres. Trabalharia sem horário por ter dormido bem. Correria de um lado para o outro porque ao trote ganhara hábito. Estando deprimido, mais teria que enfiar pílulas à sorrelfa sem, publicamente, enviar sinais de ruptura. Saúde traz felicidade. Adeus divórcios, tristezas – a saúde é o bem maior! – e dívidas - numa vida regrada, o indivíduo diminui o consumo. E quem disser abominável a nova ordem social ou é um extraviado ou um lorpa. Em qualquer caso, candidato a ser triturado pela máquina produtiva.

Publicado por Teresa C. às 06:25 AM | Comentários (11)

novembro 13, 2007

GAIATA SEM PRAZO

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Jennifer Janesko

Não sou mulher de muitas e grandiosas causas. Conto três: o respeito pela Terra, suavizar as injustiças, mais não seja pela denúncia e gestos, e amar as pessoas. Muito. Algumas, perdidamente. Gaiata sem prazo nos ideais e nalgumas atitudes: a espontaneidade, o riso e o contentamento fácil. Patéticas para muitos, sei. Sou então uma pateta-feliz como néscia que se preza. Por isso me exponho sem recear mal que me apoquente. Laivos de racionalidade insistem na sensatez que aceito. Abençoada ciência que nisto me enformou... A humildade também lha devo. E a disciplina. O gosto pelo rigor do pensamento. Pela coerência que busco e foge de mim à desfilada. Mas teimo. Terei três pernas – as duas de nascença mais a bengala – e, a mancar, continuarei a perseguir a malvada.

A tal gaiata, sempre pronta a chegar à tona, viu-se numa situação custosa: “escortiçar” o cabelo dando ao frontispício o sombreado de umas farripas desacertadas. Em código masculino, uns “longes” de franja. “Sem ao comprimento retirar mais que 2 milímetros”, recomendei angustiada. Para uma mulher, cortar o cabelo é questão existencial. De maior dificuldade que escolher traje íntimo e público para arrasar o amado – o gosto masculino é previsivelmente subserviente aos estereótipos. Arrebitada como sou, defino o esperado e escolho exactamente o oposto. Surpreendente. Isentando de beliscões a feminilidade. Mais digo: modificar o corte de cabelo vence em aperto algumas situações penosas no trabalho. Só assemelhada à mudança de um pneu. Ou a furar paredes com um berbequim. Ou mudar a borracha da máquina de lavar. Situações dramáticas que ladroagem associada resolve. Contudo, alterar a cabeleira leva de vencida as mencionadas – uma tesourada a mais e lá se vai a identidade que o espelho, quotidianamente, devolve. Sem apelo e com agravo.


CAFÉ DA MANHÃ

Para quem de si diz amar os humanos, perante isto, o texto acima é uma vergonha! Como outros que o antecedem e os que a seguir virão. A seu modo cada um reflectindo fracções da vida, quiçá suavizando-a. Sem pretender redimir-me, divulgo uma petição contra a mutilação genital feminina. Assinando-a ou não, importa a consciência dos mundos vítimas-e-causa dos mundos culpados.

Publicado por Teresa C. às 06:18 AM | Comentários (15)

novembro 12, 2007

BEIÇOS ENCARNADOS NO “CLUBE DA AMIZADE”

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Shubik D.

Onde medram os sacanas? Os biltres? Os patifes nas relações humanas? Os doutorados em manipular a seu contento quem, por acidente do acaso, lhes entra no covil? Em todo o lado. Na “rede” e fora dela. Em ninhos bem ou mal amanhados. No lugar onde a tradição do clã familiar me fez nascer, deles contam a “má raça”. E relembram antecedentes familiares, o tio ou o trisavô que também era assim. Nada havendo a apontar na herança genética, encolhem os ombros e debitam dito conformado: “num bom ninho pode nascer um mau passarinho.” Ou então: “estragaram-no as companhias quando abalou daqui!...” A vigilância censória dos povoados pequenos, desde cedo, torcendo pepinos arrevesados.

Era assim. Já não é. A globalização, ou o que entendo por ela, estendeu a rede de bits e pixels a cóios que nem constam dos mapas. E, no meio de afazeres ou vagares, gente afastada pela geografia relaciona-se com outra pelas teclas, webcams, depois pelo telefone. Contraria o ancestral dizer que os (des)encontros humanos dependem do acaso e muito da vizinhança dos lugares – mais perto, mais provável a junção.

Fui sabendo, por quem faz desta poda hábito, quais as pontes online que conectam pessoas - blogues, chats, clubes virtuais. De fácil acesso aos adolescentes que cultuam o isolamento no quarto. Alguns propiciando tráficos e masturbação assistida por webcam. Às mulheres a fantasia de se despirem para um anónimo, ou de, cedendo à devassa da intimidade, eles e elas entrarem na compita pela lascívia e pelo afecto. Foi recorrente ouvir o nome de um: “Clube da Amizade”. Coisa inofensiva, disseram-me, sem atingir a fasquia pesada. Quis saber. Preencheram-me o básico e por meia dúzia de vezes, a tanto chegou a minha curiosidade, esperei; no entretanto, escrevia ou peregrinava em busca de pintura. Minutos não eram passados, e no monitor arrebentavam beiços encarnados disparando “schuaks”. Flores. Mensagens. Convites para “bate-papos”. Aguentei três durante escassos minutos cada. Inevitável o pedido de passar ao MSN. Momento certo para me “raspar dali p’ra fora”. Deslizei a clientela por todo o mundo espalhada. Li perfis. Gente às compras no mercado da carne e das ilusões. Sítios adubados pelo anonimato, propícios a ervas daninhas. E o vicioso não está no lugar ou nos clientes. A diferença entre o que testemunhei e o real é simples – como fiz, ali as pessoas aguardam, escondidas, serem encontradas; no quotidiano os olhares fronteiros são cruzados pelo acaso.


CAFÉ DA MANHÃ

"Em linguagem SMS, xenofobismo é não goxtar de certax xenas."

Publicado por Teresa C. às 06:18 AM | Comentários (9)

novembro 11, 2007

VÊM À CATA DE MULHERES NUAS

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Surgem das ditas cinco partidas do mundo, que é como quem diz, de todo o lado. Muitos por dia. Se da estranja questiono o envio, lá está o remetente esperado. Da Rússia, anteontem, estavam três em simultâneo. Da Alemanha caem como tordos em tempo de caça. Que não abri. Ganhei o agrado de os saber por aqui. Fantasio-lhes a desilusão. Virem à cata de imagens perfeitas de mulheres nuas em posições acrobáticas e depararem com a Oyster Dancer do George Schmidt. O clique de fuga num ápice. E vêm outros que vão como os primeiros – para não mais voltar. Salve ficar incólume o préstimo(?) da escrita. Ler não podem – à primeira não é o objectivo, à segunda pela barreira da língua.

Por, reafirmo, ser o fim de semana boa ocasião para prazeres e arrumos, decidi desfazer enganos. Relembrar a pobreza dos contornos de quem ao “Sem Pénis (verdade!), nem Inveja (exactamente!)” subjaze. Se algumas das mulheres em pêlo que publico, saídas do talento de mestres da pintura, têm voluptuoso recorte, a Teresa C., com propriedade, afirma sobre a autora do blogue: acorda com cara-de-mete-nojo, adora pijamas bonitos no Inverno, chinelos fofos, mantas ao enroscar-se no sofá, luzes que não firam a leitura, flores carnudas, tons de fúcsia, cor-de-ameixa escura e verde-lima sobre a globalidade branca do espaço. Longe, muito longe das mulheres explosivas do M-69. Ao Marsu agradeço a mui variada clientela que para aqui remete.


CAFÉ DA MANHÃ

- “A morte de Dantom” de Georg Büchner

Cena V –A CONCIERGERIE

Camilo - ... As ideias fixas comuns, chamadas bom senso, são insuportavelmente enfadonhas.

- Às "Pessoas Interessantes", Ela dedicou a escrita que admiro.

Publicado por Teresa C. às 10:31 AM | Comentários (14)

novembro 10, 2007

UM RENÉ FRESNE PARA VARIAR

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Lindsay Goodwin

Ao fim de semana, muitos limpam a casa. Arredam móveis, sofás e quinquilharia. Enfiam o cabo do aspirador ou da vileda por tudo quanto é nesga, com o pano eliminam poeiras. Eu aproveito para limpar o espírito. Varrer da minha vida o que não presta. Hábitos e dúvidas sem sustento, pessoas. Há oito dias, eliminei um pires de Aveiro lascado pelo uso. Piparote racional por não lhe reconhecer vestígio de bondade. Porque a higiene mental obriga a deitar borda fora o que ou quem à vida traz maçadas. Ou enfados. A alma ganha leveza e tudo cintila como novo. Sem cotão debaixo do tapete. Limpeza séria.

Inaugurei ontem, pelo meio da tarde, o fim de semana. Deambulei na predilecta colina de Lisboa. Por mais uma de muitas vezes percorri as salas e jardins do Pestana Palace. Múltiplos propósitos. Fruir da doçura outonal com o Tejo em fundo. Subir a íngreme escada de caracol até ao terraço das cavalariças. Lá no alto, ver as dobras da cidade até ao Rio. A cascata de folhagens e casario. Sentir a liberdade do cabelo estonteado pela brisa do entardecer. E o perfume voando da roupa e da pele. E a cidade embaciando o dourado. A noite descendo com vagar.

Na sala azul, a que do palácio sempre escolho, flûtes de champanhe. Um René Fresne para variar. A beleza consistente. Do lugar, do diálogo, da suavidade do espírito, dos fios de seda entretecidos. O conforto do canapé que os corpos aconchega. A harmonia. A pele nua sob o casaco do tailleur cuja saia o chiffon finda. A frescura do Brut. A pessoa. A alma. A paz. A bondade da vida.

Publicado por Teresa C. às 09:45 AM | Comentários (4)

novembro 09, 2007

A NOSSA MARIA QU’ABAIXE A SAIA!

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George Schmidt

A newlywed pensioner has been arrested for having sex with his bride while driving away from their wedding reception. Traffic cops in Bergamo in northern Italy pulled the Fiat Punto over after watching it veer from side to side down a busy road. Inside they found a partially naked 70-year-old man behind the wheel and his 59-year-old bride sitting astride him. Ciampini was arrested for dangerous driving.

Notícia que foi notícia pelo avanço na idade dos intervenientes. E nem são velhos nos cânones actuais, confusa que está a fronteira entre o velho e novo. Idos houve em que era desgosto admitir o sexo entre os pais, os avós e entre quem, no mínimo, nascera vinte anos antes de nós. Esse era o tempo do sexo-prazer para o homem, sexo-obrigação para a mulher, fosse pela maternidade, ou pela norma da serviçal conjugalidade no feminino. E nada é mais desmotivador que o embrulhado em preceitos e pré-conceitos. Como esperar empolgamento numa regra estafada? Desde que o sexo guinou para actividade saudável, dizem fazer bem a quase tudo – é difícil esquecer amigo de um amigo, nos quarenta o primeiro, que, após sessão com a amante, sentindo-se mal, pede que ela o vista, segura o volante e durante a travessia da 25 de Abril implora “aqui não, Deus!, só perto de casa e passada a ponte, não desconfie de tudo a minha Maria”; Deus deve ter escorregado para ele o olhar por ter caído redondo, vítima de enfarte, em cima do capacho do lar. A moralidade da estória é a do sexo culpado ser factor de risco coronário. Uma maçada para corações propensos à auto-punição.

Quarenta e dois por cento dos nossos idosos sobrevivem sós. A estes falta tudo o que revigora os humanos – partilha, afecto amiudado, diálogo e, quantas vezes, dignidade elementar. O sexo é mais uma falta no rol que as prioridades desvalorizam. O enamoramento para os maiores de setenta e picos/oitenta, de preferência abandonados em lares e dando em casamento, tem direito a prime time nas televisões. No entanto, se aos inventores de notícias for perguntado se amar tem limite de idade, a resposta pronta e tida por correcta é um vigoroso “Claro que não!”. Ah que o hipócrita “olha para o que eu digo, esquece o que faço” não sai da ponta da língua e do recheio do pensamento! A mais me aventuro: quantos de nós têm repulsa pela visão de peles caídas, intervaladas por varizes, papos e gestos trôpegos na satisfação sexual? Muitos, asseguro, e desculpada me seja a arrogância de botar fala por multidão. Fantasiamos idosos castos, entretidos, eles, com cartas ou dominó, elas com o tricô e a converseta. Esquecemos que, com sorte, muita sorte, não venha por aí solipampa, para o mesmo caminhamos. E queremos acreditar mantermo-nos sempre inteiros nesta coisa de viver.

O sexo e o associado com dois pesos e duas medidas. Para os actores gozo legítimo, para os de fora, e afastado o espírito voyeur, por vezes nojento. E lembro a cena beirã duma família pobre, tão pobre como quase todas, em que o fedelho recusava a tigela de sopa. Diz-lhe a mãe: “Come o caldo António!”. Resposta dele: “Ou!... Se quer que coma o caldo diga à nossa Maria qu’abaixe a saia!”

Nota: "a nossa” é código carinhoso para irmã.

Publicado por Teresa C. às 10:21 AM | Comentários (21)

novembro 08, 2007

DOS ATRIBUTOS CONTAM-LHE OS HOMENS

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Luis Royo

Mulher atraente não precisa ser bonita. Ou esbelta. Ou angélica. Mulher atraente tem imperfeição que à perfeição acrescenta o “je ne sais pas quoi” que às outras falta. É feminina desde o peito do pé suavemente arqueado até ao progressivo enrolar da meia que da coxa desce lentamente. Quando se despe. Tem miolos laboriosos. Sustenta, activo, o intelecto. Não desdenha o humor. Solta gargalhada pronta. Ou sorri indefinida – complacência, gosto ou irónica leitura do que vê? Caminha com a coluna direita, conquanto se lhe adivinhe flexibilidade de junco. Ergue o queixo. Sem o apontar ao alto, mas de frente para o horizonte. Luzido o olhar. Ri e chora e hesita e nele reflecte o que vai dentro. Jamais estático. Porque da acuidade dos receptores sensoriais faz uso harmónico com a atitude. Nunca banal. A vida exalada por cada poro. Frágil ou decidida consoante o momento. Que não esconde. E porque silenciando revela, atrai. Também pela sensualidade de quem aos cinco sentidos costumados parece somar outro. Invisível. Como campo magnético que às leis da Física desobedece – são inexistentes forças repulsivas.

Mulher atraente não tem facilitado o caminho. Se acresce exigência e prioridades alinhadas, as dificuldades aumentam. Dos atributos que dizem pertencerem-lhe, contam-lhe os homens. Uns bajulam. Mentem, portanto. Outros aspiram ao bibelot que o dinheiro não compra. Presunçosos. Usam a mulher para aos demais crescerem na importância. Alguns querem-na pelo desafio. Pelo Evarest da escalada sedutora. Os restantes, e são estes que importam, vêem-na como pessoa. Amável. Arisca. Meiga. Maliciosa. Perspicaz. Plural. Generosa. Granítica.


CAFÉ DA MANHÃ

“À misteriosa Teresa C. do Sem Pénis nem Inveja” endereçou o Manuel S. Fonseca o desafio da página 161, parágrafo quinto. A jeito estavam os “Contos da Montanha” do Miguel Torga. Raro é o Outono em que o não releio. Pelas memórias que do escritor tenho por ter privado com ele, pelas raízes beirãs, mal os dias encurtam apetece-me prolongá-los na companhia dele.

Escreveu: “No ramerrão da Igreja, a gosma acabou por já nem causar impressão aos fiéis.” Palavras sem tempo no tempo. Por isso tanto preciso delas.

Se da primeira vez foram cinco mulheres as desafiadas, agora faço semelhante com o Bruno Sena Martins, o James Stuart, o Justo, o Rui Cerdeira Branco e o Shark. Se acaso os mencionados se dão ao trabalho de me lerem, sejam uns queridos e façam a fineza de não quebrar o elo. Obrigada.

Publicado por Teresa C. às 06:34 AM | Comentários (10)

novembro 07, 2007

SEM BELEZA, CONVERSA OU CHAVO

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Greg Horn

Noite descida – marcando dezanove o relógio, habituar-me à prematura deita do sol neste lado do mundo custa! -, arrojámos o IC19. Constas-tu-conta-ela-conto-eu foi entretém do ronceiro avanço. Entre alternativas às fechaduras de alta-segurança, abertas com elegância por qualquer radiografia, aos seguranças omissos quando mais são precisados, ela sugeriu os tremeliques cacofónicos dos espanta-espíritos, ele um pedaço de electrónica a pilhas capaz de berro maior do que qualquer goela. A do copo-quase-cheio-estando-meado, eu, ouvia e comentava com o sítio onde os botões deviam tapar o peito atrevido para noite de Outono (se fosse, que não é, sabemos!): “tantas cautelas que sem remediarem a precariedade da vida somente a complicam!” (em particular lembrava as inúmeras figuras tristes perante as câmaras do condomínio quando, num impulso, levanto a saia e puxo para dentro a camisa). Adiante. Contando contos, veio o primeiro.

Ele

“O Pedro é meu colega. Fez dezoito anos de casado no sábado. Jantar marcado, mulher enfeitada à espera. É pontual. Dela um sorriso esgalhado e pronto um beijo. Sem mais, informa que foi a casa buscar os pertences para com outra inaugurar um capítulo em liberdade do que à sorrelfa tinha há um ano. Assim fez. Ele com quarenta e três anos, a preferida com sessenta. Sem beleza, conversa ou chavo – apresentou-ma à saída da empresa. E lá anda, apatetado de felicidade.”

Ela

“Faz-me lembrar o João. Findo o dia, entra no prédio, abre a caixa de correio e vê-se com um molho de papel na mão. Durante a subida de elevador, separa o trigo do joio. Perplexo, olha para uma carta do tribunal. Chave à porta, família em casa, barulho da garotada, cheiro a comida. Poisa a tralha, beijos, mimos e abre a interrogação. Convocatória para a primeira conferência do pedido de divórcio efectuado pela voluntária dona-de-casa a tempo inteiro e exclusiva mãe de família. Incrédulo, presume um engano. Indaga a respectiva. Confirma e mais não diz. Há um ano que anda nisto: ele não sai, ela persiste na pensão de três mil euros. Inconformado, procurou o ex-marido da mulher que, contendo o riso, lhe disse: pá!, conforme-se. Fez-me o mesmo. Você foi a minha lotaria. Durante dois anos sacou-me mil euros ao mês. Com a inflação, o meu e o seu miúdo, que idade tem ele?, nove?, está na média dela.

Eu

“Que desafortunados! Nós, o João e a mulher do Pedro. Ele por ser trocado por renda, ela pela inexistência de rival à altura. Com a despesa e o medo de repor a comédia, o João é menos um no mercado do mulherio com tudo o que isso acarreta: jantares, hotéis, viagens, flores, jóias. A ex-Pedro não tem o conforto da rivalidade para desaguar mágoas em oceanos de lojas. Dois atentados à nossa economia. Mais destes e ficamos a ver por canudo comprido a acenada descida do IVA para 2009 e a subida para trezentos e oitenta euros do subsídio ao limiar da pobreza. Uma seca, meus queridos!"


CAFÉ DA MANHÃ

Alguém me explica porque é tão louvável a Coreia do Norte desmantelar um reactor nuclear quando tantos há por esse mundo fora?

Publicado por Teresa C. às 06:56 AM | Comentários (13)

novembro 06, 2007

JACTO DIVINO RUMO AO CÉU

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Durrow

Adiada a chuva neste Outono meado de estio, é altura para descobrir quais as cores que pintam a paisagem alentejana. E ver pedras. Ideia a que parece faltar apelo, mas se forem antas, monumentos funerários construídos séculos antes de Cristo, ele arrebenta num sopro.

Aumentar o pecúlio de conhecimentos sobre monumentos megalíticos que, teimosos, resistiram à erosão, à cobiça de alguns pesquisadores e à ignorância dos passantes. Especialistas cartografaram, relocalizaram-nos e estão disponíveis através de dois circuitos arqueológicos criados pelo IPPAR. Os percursos, feitos em jipes, salvaguardam percalços e divergem em dois: o circuito de Barbacena ou o do Guadiana. Mudança relativa de cenário, o Alentejo fundo como elo. Terrenos pobres que alimentam a pastorícia, grandes propriedades de cultura cerealífera, de olivais, hortas e de plantações de girassol, transportam o viajante para idos da vida rural, sob o olhar ora atento, ora indiferente de vacas, cavalos, lebres e perdizes vagueando no caminho.

E quando o entardecer manso cobre o horizonte, há poiso a sugerir prazeres interiores. Uma ceia que retome a tradição alentejana é manjar de deuses. A encharcada ou a sericaia, como pretexto para findar a garrafa de um bom vinho da região, são jacto divino rumo ao céu. Ao resto da noite cabe o derrame dos corpos na corpórea Terra.

Publicado por Teresa C. às 06:37 AM | Comentários (10)

novembro 05, 2007

EU-NÃO-SOU-MENOS-DO-QUE-ELE-MAS-SOU

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Barndog

Os portugueses têm falta de sexo ou disso estão convencidos. Invejam quem tem mais e melhor. Cobiça. Ciúme. A revolta íntima do “eu-não-sou-menos-do-que-ele-mas-sou” quando um jogador da bola desfila no descapotável ou uma lindona é capa de revista.
Eles em especial, que elas, ganhando o salário mínimo, seja pela sensação de vitória dos cortados 100g de fiambre, de trazerem para casa os precisos abaixo de vinte e cinco euros por semana, pela remoção da nódoa de refogado na camisa, são momentos de prazer superiores ao “tirano vem,/ tirano vai,/ no vai-e-vem sempre cai,/ não há tirano que não caia. /Vive no cai-que-não-cai.” E depois, cartesianas de nascença, habituaram-se a dividir o bolo da vida em partes e analisar o préstimo de uma por uma. Sendo o balanço positivo, que se lixem os cincos minuto de “com sua lei, sua laia,/ há o homem que vai, / e o homem que vem / e vaia.” Para requintes sexuais mulher precisa de vontade. De um parceiro que aprecie. Que a mime, seja gabando o estufado ou beliscando-a e dizendo-lhe ao ouvido “quero-te!”. De tempo. De aveludar o corpo e o desejo. De apuro. Trocar a confecção do bacalhau à Brás para o jantar por uma pizza sorridente que no congelador aguarda uma falta ou a preguiça. Receber do homem olhar cúmplice. Brindar com vinho de um euro como se fosse um vintage. Deitarem a dois os miúdos cobertos pela manta de afecto familiar. E depois eles. O casal. O desejo a crescer. Húmido. E o sofá, o tapete, a cama. E o brilho nos olhos na noite e na manhã seguinte. As dificuldades iguais. A penúria a mesma. Outra a força para as defrontar. Porque há riquezas que aos ricos não estão garantidas.

Publicado por Teresa C. às 06:10 AM | Comentários (5)

novembro 04, 2007

IDO O AMOR, A PELE MARCADA

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R. Young

Houve um tempo em que escrevi:

“ Sabes, tenho “terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo. Mal de te amar neste lugar de imperfeição onde tudo nos quebra e emudece, onde tudo nos mente e separa.

A receita do nosso amor foi simples: descobrimos a vontade de derrubar muros e a teimosia de não os deixar erguer contra nós. Sorrateiros, ao saberem-nos menos vigilantes, depositavam uma pedra aqui e outra além. Somavam depois outra.

Nos dias em que amar é hino – nem todos servem para viver o amor – o calor das minhas nas tuas mãos, o mergulho do teu olhar nos meus, limpa de escolhos o prado verde em que os nossos corpos se inventam no bailado da entrega.

Lembro-me de te dizer que tenho palavras proibidas – sempre e nunca. Que nos dias pobres em gosto pelo que sou, o amor que sinto esmorece. Porque olhei através do microscópio para dentro e para trás do presente. Foquei a objectiva para fracções ínfimas de vida e distraí-me do todo. Porém, foi com tinta invisível que tatuámos este amor. E ninguém soube ou viu a nossa pele marcada irreversivelmente.”

De ti já nada sei. Ou quero saber. E tu de mim. O acaso cruzou-nos há dias. Ido o amor. A pele marcada. Ainda.

Publicado por Teresa C. às 11:42 AM | Comentários (9)

novembro 03, 2007

DAS CAUDAS PARA OS DORSOS

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Joerg Warda

O blogue melhora a vida das pessoas? Digo: tem dias e pessoas. Quem escreve e quem do lido deixa registo, porque texto sem direito a réplica não me faz o estilo. Gosto da polémica, das picardias, do retorno, de ser desancada quando piso a linha ténue entre o discurso redutor e o objectivo. De saber o que sobre o ideado pensam os outros. Por via deles repensar o que pensei. Ficar incólume ou virar do avesso o raciocínio se a fundamentação da discórdia é logicamente impecável. Ou abrir o leque dos matizes dum conceito. Espevitar o intelecto ao ler blogues alheios. Outra forma de aprender, idêntica no infinito gosto. Maravilhar-me. Tudo recomeçado no dia seguinte. Sem dispensar as publicações tradicionais. Sem penalizar a profissão ou o privado.

Tomados sejam como exemplo o novo “Estatuto do Aluno” e as declarações do Procurador Geral da República sobre as escutas telefónicas. Houve prolixas intervenções. Até há dois pares de anos atrás, reservadas aos políticos, jornalistas e comentadores encartados. O povo confinado ao disse-que-disse e ao silêncio das respectivas convicções. As chaminés que debitam o fumo blogosférico mudaram, definitivamente, o statu quo. Hoje, qualquer anónimo com acesso doméstico, laboral ou público à internet pode dar voz à voz interior que o engasgava. Misturá-la com o fumo doutras chaminés. Transformá-la em bramido duma multidão.

Quem for aqui ou aqui e ler e ouvir o que nas sacrossantas acrópoles é divulgado sobre o novíssimo “Estatuto do Aluno”, conclui não passar de resolução burocrata de dois problemas intrincados: o abandono e o insucesso escolar. Enfeitado com princípio valorado na pedagogia actual: centrar (finalmente!) o ensino no conhecimento e menos no aluno considerado como tábua rasa de aprendizagens, atrás de si arrastando toda a sorte de demissões e desculpas docentes ou institucionais. Um logro o que tínhamos, outro o que o segue. O velho dito “se não os vences, junta-te a eles”. Uma vergonha, digo eu, com o descarado fim de fazer Portugal trepar das caudas para os dorsos dos cavalos de batalha europeus que não alcançamos montar com esforço denodado. Conto-do-vigário sem pingo de imaginação. O despudor oficial.

Publicado por Teresa C. às 09:16 AM | Comentários (3)

novembro 02, 2007

NA CAÇOILA, OS TRONCHOS

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Autor que não foi possível identificar

Caminhando do litoral para a Beira Alta, é crescida nos plátanos a beleza. Dos verdes amarelados fica aberta a estrada aos ocres e às folhas rubras. Dizem a diminuição das horas de sol responsável pela quebra de trabalho da clorofila que os pigmentos vermelhos aproveitam. Gulosos, precisam de açúcar. Como o tom laranja e o amarelo são subtis reacções à quantidade que ao plátano é concedida. Por isso é doce a subida até à Beira que amo. E rica a paleta. Inebriantes as fragrâncias. Quente o sol, frias as sombras que o ar da serra corta. Rubras as hortenses. Cheias. Folhas desfalecidas amontoadas nos canteiros. Húmus. Cama para o solo e os plátanos adormecerem suavemente.

Piquei o ponto no “Júlio”. A afabilidade abre a porta mal soa a campainha. Em sorriso. E serviço amigo – “aquela mesa é vossa e não interessa estarmos cheios daqui a pouco.” As placas de “Reservado” confirmando o dito. Passámos as entradas guiados pela sugestão do ensopado de cabrito com míscaros. E veio a água, o vinho e a caçoila de barro. O guisado no ponto, dos míscaros a copa laminada, o troncho cortado aos pedaços grossos. Celebrámos a reunião. O momento. Os sentimentos. Os lutos. A alegria do interlúdio da presença. Tantos amigos revistos em tão curto tempo! Dedicação de anos em beijos e abraços apertados. O ritual. O nome dos amados ausentes, porque o amor não se fina por desaparecer o corpo, referido pelos préstimos culturais em vida. Sempre a vida oficiando a morte. Sobrepondo-se a um fim sem fim no coração de quem fica. Dia feliz sem lágrimas. Rubro e doce contentamento.

Publicado por Teresa C. às 08:46 AM | Comentários (13)

novembro 01, 2007

MASCULINOS? RAROS!

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Liz Lemon Swindle

Já não anda em bandos a criançada pedindo de porta em porta bolinhos e bolinhós, não sejam vítimas de uma naifada ou da cobiça dos pedófilos. No dia de Todos-os-Santos, está arredada a noção de santidade. Nem remeto para o conceito e para os rituais católicos que nas Igrejas são celebrados. Santos há mortos e vivos pela dádiva da vida ao serviço dos outros. E que muito se devem amar a si primeiro, para desse amor sobrarem gestos servidos em bandeja aos precisados de um afecto, de uma palavra, de uma presença ao lado. Porque a santidade não se confina aos altares, nem a aros de ouro enfeitando a cabeça, nem a ramalhetes de flores aos pés de imagens postadas em toalhas de renda. A santidade é outra coisa. Não carece de certificados de garantia concedidos pelo Vaticano. Não obriga à condição de mártir. De frade ou freira. Ou padre. Ou qualquer outro degrau na hierarquia católica dos profissionais da causa divina. Ainda menos de eremita. O caminho da santidade é o caminho da paz interior, do bem estar com o próprio e com os outros. E santo pode ser qualquer um que de melhorar quem é não desista. Milagreiro, sim, ao transbordar amor para uma, várias, muitas vidas que rente à pele e ao espírito sentem ter passado a contar. Nunca mais um, mas alguém especial que mereceu inesperada oferenda.

Havendo dias para tudo, o de Todos-os-Santos é o da celebração dos afectos. Passados e presentes. Futuros por via dos filhos e das crianças deste mundo. E há dificuldade em falar deles. Circunscrevendo o objecto de análise, quantos blogues falam de afectos? Sem grinaldas floridas? Femininos, bastantes. Masculinos, raros. Eles preferem a política, as artes, as actualidades. Não sentem? Tanto como qualquer mulher. Verbalizar, ir além da frase de circunstância, frequentemente prenha de ironia, é ainda território movediço onde o masculino vacila. Arquétipos caquécticos e catequéticos que os constrangem e a todos confrangem. E são como bota de chumbo que a caminhada emperra. Descalçado fosse o par de botas e a santidade dos afectos iluminaria, vigorosa, as vidas de mais humanos.

Publicado por Teresa C. às 06:14 AM | Comentários (12)