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novembro 01, 2007

MASCULINOS? RAROS!

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Liz Lemon Swindle

Já não anda em bandos a criançada pedindo de porta em porta bolinhos e bolinhós, não sejam vítimas de uma naifada ou da cobiça dos pedófilos. No dia de Todos-os-Santos, está arredada a noção de santidade. Nem remeto para o conceito e para os rituais católicos que nas Igrejas são celebrados. Santos há mortos e vivos pela dádiva da vida ao serviço dos outros. E que muito se devem amar a si primeiro, para desse amor sobrarem gestos servidos em bandeja aos precisados de um afecto, de uma palavra, de uma presença ao lado. Porque a santidade não se confina aos altares, nem a aros de ouro enfeitando a cabeça, nem a ramalhetes de flores aos pés de imagens postadas em toalhas de renda. A santidade é outra coisa. Não carece de certificados de garantia concedidos pelo Vaticano. Não obriga à condição de mártir. De frade ou freira. Ou padre. Ou qualquer outro degrau na hierarquia católica dos profissionais da causa divina. Ainda menos de eremita. O caminho da santidade é o caminho da paz interior, do bem estar com o próprio e com os outros. E santo pode ser qualquer um que de melhorar quem é não desista. Milagreiro, sim, ao transbordar amor para uma, várias, muitas vidas que rente à pele e ao espírito sentem ter passado a contar. Nunca mais um, mas alguém especial que mereceu inesperada oferenda.

Havendo dias para tudo, o de Todos-os-Santos é o da celebração dos afectos. Passados e presentes. Futuros por via dos filhos e das crianças deste mundo. E há dificuldade em falar deles. Circunscrevendo o objecto de análise, quantos blogues falam de afectos? Sem grinaldas floridas? Femininos, bastantes. Masculinos, raros. Eles preferem a política, as artes, as actualidades. Não sentem? Tanto como qualquer mulher. Verbalizar, ir além da frase de circunstância, frequentemente prenha de ironia, é ainda território movediço onde o masculino vacila. Arquétipos caquécticos e catequéticos que os constrangem e a todos confrangem. E são como bota de chumbo que a caminhada emperra. Descalçado fosse o par de botas e a santidade dos afectos iluminaria, vigorosa, as vidas de mais humanos.

Publicado por Teresa C. às novembro 1, 2007 06:14 AM

Comentários

Faça a fineza de ver o comentário a 28 de Outubro, que quando viermos da praia (de chinelas...) depois lerei com mais atenção essa das botas plúmbeas, sua marafada ;)

Publicado por: fallorca às novembro 1, 2007 10:13 AM

Continuamos a assistir a uma "fuga masculina" aos afectos. Há muito pouco tempo li um conto aos meus alunos, uma história de afectos, uma história bonita. Ouviram quietos. No fim, notei em segundos que estavam emocionados, não o demonstraram. Mexeram-se nas cadeiras e disfarçaram com uma tosse construida para o momento. As meninas deixaram sair palavras emocionadas e os rapazes soltaram um risinho disfarçando a emoção. Parece-me que ainda se pensa que afecto é coisa de mulher, parece que ainda se pensa que sentir é demonstrar vulnerabilidades - coisa pouco masculina! E aqueles que choram e riem, abraçam e beijam, "correm alguns riscos". Estarei eu a exagerar?

Publicado por: Ela às novembro 1, 2007 10:37 AM

Escreve com uma regularidade e qualidade invejáveis.
Tenho-me remetido ao silêncio porque tem havido comentadores de grande qualidade e igual regularidade fazendo as honras de quem a lê.
Hoje, contudo, não resisto ...
Há um perigo enorme na generalização!...aliás tão bom exemplo temos disso tido aqui prova (parabéns aos comentadores masculinos deste blog!)
Ninguém me encomendou o sermão mas julgo que há formas diferentes de manifestar/viver os afectos e tal não será coisa de género mas mais de personalidade e vivências...
Nenhum exemplo serve, somos todos diferentes e ainda bem!
Valendo o que vale , a minha opinião, exceptuando casos desviantes de comportamentos manifestamente passíveis de enquadramento médico e terapêutico, julgo que os afectos são vividos de forma única em função das pessoas e das circunstâncias e quantos e nós, apesar dos anos, não se continuam a surpreender?
Seja como for é sempre um prazer lê-la.


Publicado por: M às novembro 1, 2007 12:56 PM

(Obrigado, M! Poupou-m'o reparo)
Reparo todavia que não fora a escolha de pautar pela santidade e o tal § ficava em primeiro.

J'vuzembrasse.

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 1, 2007 04:26 PM

Primeiro, quem tiver medo dos afectos que ponha o dedo no ar, e depois passemos ao que interessa e toca a envenenar docemente o discurso. Então é assim: a Ela, depois de afirmar que «continuamos a assistir a uma "fuga masculina" aos afectos, conta a história da receptividade dos alunos/as a uma "história de afectos", mas conclui que «aqueles que choram e riem, abraçam e beijam, "correm alguns riscos".» Pessoalmente, adoro correr riscos, pelo simples prazer de não lhes dar mais continuidade que o despertado por um afecto momentâneo. Ah, esquecia-me: fiufiufiu... ;)

Publicado por: fallorca às novembro 1, 2007 06:41 PM

2.ª parte: quanto a mim, o "equívoco", o busílis reside nas manobras, sinuosidades (físicas/intelectuais), para contornar esta gritante evidência; é perfeitamente possível o sexo sem ternura/afecto, mas é impossível a ternura/afecto sem sexo. E se acham que esta não me correu bem, não faz mal, fico eu com ela.

Publicado por: fallorca às novembro 1, 2007 06:53 PM

Sinceramente, um dos grandes problemas do género masculino é o comportamento em grupo, a necessidade de competir, 'o meu pénis é maior, o meu telemóvel é mais pequeno, o meu clube é melhor..'. Isso impede-nos tanta vez de poder expressar sentimentos de afecto. Os quais tantas vezes procuramos a sós nas nossas companheiras, como ilustra tão bem a imagem que acompanha 'Púbis Logo Ali Em Baixo'.
Corrigindo-me, o que se procura(também, mas não só...) será mesmo ternura, meiguice.
E antes que alguém reclame assumo imediatamente que estou a generalizar, cada ser humano, nos quais me incluo tem as suas idiossincrasias, mas ai o comportamento grupal(tribal)...

Beijo meigo

Publicado por: apenas um gajo e nada mais às novembro 1, 2007 07:26 PM

Fallorca - li e trasncrevo: "a experiência permite-me dizer (pela parte que me toca) que só a compreensão e aceitação dos recíprocos defeitos anula o "defeito" de se estar sempre a apontar defeitos a com quem (con)vivemos."

O desencontro é este: no texto não era pretendida uma crítica mas uma constatação de um obstáculo sério - alguma dificuldade masculina em exprimir e lidar com os afectos - a uma mais
intensa rede de afectos entre as pessoas.

Já a sua ideia de ser "perfeitamente possível o sexo sem ternura/afecto, mas é impossível a ternura/afecto sem sexo." É possível a ternura sem sexo, sim, entre homens e mulheres. No mínimo não me arrogo ser a única a quem a ternura por um homem não desemboca em sexo. Nem a dele por mim. As pessoas são tão diversas, Fallorca, que o risco da generalização também aqui se põe.

Ela - Subscrevo e aplaudo. Não acho que estejas a exagerar em nadica de nada.

M - repare que eu afirmo no texto: "Não sentem? Tanto como qualquer mulher." O problema, e julgo que o meu discurso não foi claro, é o do homem afirmar publicamente que também se interpela e (res)sente e depende de uma vida afectiva equilibrada. Por que uma coisa é certa: a raridade dos blogues masculinos que tratam o tema sem ser de modo jocoso ou meramente analítico.

Pirata-Vermelho - qual era o parágrafo que ficava em primeiro? Nã percebi!

Apenas um Gajo e Nada Mais - as suas palavras adopto como minhas. E o quase final "que se procura(também, mas não só...) será mesmo ternura, meiguice." dou por certo. Acrescentaria tolerância e compreensão. Lealdade, outro ponto importante.

Publicado por: Teresa C. às novembro 1, 2007 09:19 PM

Liz Lemon Swindle esta fantástico especialmente aqui, neste encontro , não?
Seu texto (que em nada deixa a desejar se comparado à figura que lhe ilustra) faz pensar.
Quisera que minha mãe tivesse me educado mais sensível. Mas... Houve algumas ocasiões em que ser "menos sensível" me aproveram sobreviver.
Se bem que hoje não sei se faria da mesma forma.
E a medida certa? Ao terminar de ler "A arte da felicidade", do Dalai Lama fiz pausa em meu espirito. Sou feliz.
Beijos.
(PS:Lugar quente por vezes não?)

Publicado por: Justo às novembro 1, 2007 09:36 PM

Tati, é evidente que se está a generalizar. Acha-me com pachorra para me importar ou querer saber quem dorme (depois, e se dormir) com quem? Acha-me com o ar de quem faz "serviço de quartos"? Fiufiufiu....

Publicado por: fallorca às novembro 2, 2007 12:29 PM

O 'tal' § !

O último, oh indistraída.
Não é esse o motivo dos nossos re(e)ncontros?

Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 2, 2007 02:44 PM

Justo - que doce serenidade me chega do seu comentário. Obrigada.

Fallorca - Jamais tal me passou pela cabeça. Era lá capaz d'isso ocupado como anda com os galfarros?! Foi apenas um sublinhado, nada mais.

Pirata-Vermelho - Dos humanos é, sem dúvida. O «nosso» deixou-me naquela "ai qu'é desta que vou conhecer o Pirata!" A gente até podia combinar isso, discretamente como é nosso gosto - eu de burqa e o caríssimo de.... Pirata. Com venda no olho e tudo. Dispenso a perna-de-pau e o sabre. Esse tem sempre consigo quando afia os dedos nas teclas. :)

Publicado por: Teresa C. às novembro 2, 2007 06:29 PM

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