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novembro 27, 2007
NO MOSAICO, “POSSO?”

Alberto Pancorbo
Apagou, como quem limpa os pés antes de entrar em casa, a última mensagem recebida: “Posso?”. Código e ritual quando nele ardia o desejo de a ouvir. Ela precipitava o “Claro!”, estando só ou protegida de quem lhe adivinhasse os murmúrios. A inevitabilidade da paixão impusera desafios e riscos. Dispunham-se a corrê-los. Ambos viviam amores domésticos, cálidos e sensatos, conformados à lisura das emoções. Aparentemente invulneráveis a sentimentos ferventes e aos aventureiros jogos do amor.
No começo, houvera a formalidade que a cautela impõe. Por esse tempo, decantavam a emoção do discurso e como depósito ficavam subtis carreiros que o coração percorria a toda a brida. Sendo certo que desperdício é nunca dar o suficiente de nós mesmos, ela hesitava ainda em ouvir, acima de todas as outras, a voz passiva e cobarde que avalia os custos e põe a cautela à frente de tudo. Entre o caminho esperado e o atalho marginal, habituara-se a preferir o primeiro, sabendo-o, de antemão, uma inverdade a si própria. Todos os atalhos silenciados lhe giravam agora no cérebro como carrocel infernal ou baile sombrio de profecias antigas.
A escrita urdira a teia que os havia de enredar. Alimento do braseiro em que se consumiam. Palavras como carícias. Mails de fogo, queimando a alma e, por causa dela, a pele, marcavam o ritmo dos dias. Impressos e(re)lidos na descrição silenciosa da noite. A necessidade de dar corpo e rosto à escrita progrediu inexoravelmente. – “Pchiu... Um segredo! Este é o meu número de telemóvel. Segunda-feira, entes as treze e as dezassete, espero o seu telefonema.” Às dezasseis e cinquenta e cinco, revelando o seu número, ela tremeu a mensagem – “Porquê eu? Tem meia hora para me ligar!”. Ele ligou. Trocaram as vozes, naquele e todos os dias depois. Telefonemas breves - assim os sentiam, mesmo quando o ponteiro das horas saltava de uma para outra – , desmedida a paixão e a urgência de consumarem a voracidade dos corpos e dos sentidos. O primeiro encontro marcou-lhes o caminho como fatalidade desenhada no mosaico de que se fazem as vidas.
CAFÉ DA MANHÃ
De Miguel Torga, Diário X
Gerês, 6 de Agosto de 1966
A felicidade dos suficientes!
- Eu nunca falhei!
E só pude responder alanceado, como num gemido:
- Pois eu falhei sempre.
Publicado por Teresa C. às novembro 27, 2007 06:34 AM
Comentários
Só o nome do blogue já vale a visita, então, para que posts?
Abraços.
Publicado por: well às novembro 27, 2007 04:00 PM
Não há nada que me fortaleça mais que o saber que sou fraco.
:o)
Publicado por: Justo às novembro 27, 2007 08:20 PM
É uma estória bonita. Um amor que nasce das palavras escritas e cresce nas palavras faladas até não ser já possível prescindir do olhar sobre o outro. O rosto e o corpo que se imaginam bem para além das teclas. E a coragem de serem verdade perante si próprios. E o talento da Teresa a envolver-nos em toda esta atmosfera de afectos marginais!
Publicado por: Alba às novembro 28, 2007 12:44 AM
Well - acha?
Justo - a força dos humildes. Julgo partilharmos este sentimento.
Alba - a banalidade quotidiana, os afectos ilusionados, o contra-poder da realidade. Obrigada, Alba.
Publicado por: Teresa C. às novembro 28, 2007 09:30 AM