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novembro 07, 2007
SEM BELEZA, CONVERSA OU CHAVO
Greg Horn
Noite descida – marcando dezanove o relógio, habituar-me à prematura deita do sol neste lado do mundo custa! -, arrojámos o IC19. Constas-tu-conta-ela-conto-eu foi entretém do ronceiro avanço. Entre alternativas às fechaduras de alta-segurança, abertas com elegância por qualquer radiografia, aos seguranças omissos quando mais são precisados, ela sugeriu os tremeliques cacofónicos dos espanta-espíritos, ele um pedaço de electrónica a pilhas capaz de berro maior do que qualquer goela. A do copo-quase-cheio-estando-meado, eu, ouvia e comentava com o sítio onde os botões deviam tapar o peito atrevido para noite de Outono (se fosse, que não é, sabemos!): “tantas cautelas que sem remediarem a precariedade da vida somente a complicam!” (em particular lembrava as inúmeras figuras tristes perante as câmaras do condomínio quando, num impulso, levanto a saia e puxo para dentro a camisa). Adiante. Contando contos, veio o primeiro.
Ele
“O Pedro é meu colega. Fez dezoito anos de casado no sábado. Jantar marcado, mulher enfeitada à espera. É pontual. Dela um sorriso esgalhado e pronto um beijo. Sem mais, informa que foi a casa buscar os pertences para com outra inaugurar um capítulo em liberdade do que à sorrelfa tinha há um ano. Assim fez. Ele com quarenta e três anos, a preferida com sessenta. Sem beleza, conversa ou chavo – apresentou-ma à saída da empresa. E lá anda, apatetado de felicidade.”
Ela
“Faz-me lembrar o João. Findo o dia, entra no prédio, abre a caixa de correio e vê-se com um molho de papel na mão. Durante a subida de elevador, separa o trigo do joio. Perplexo, olha para uma carta do tribunal. Chave à porta, família em casa, barulho da garotada, cheiro a comida. Poisa a tralha, beijos, mimos e abre a interrogação. Convocatória para a primeira conferência do pedido de divórcio efectuado pela voluntária dona-de-casa a tempo inteiro e exclusiva mãe de família. Incrédulo, presume um engano. Indaga a respectiva. Confirma e mais não diz. Há um ano que anda nisto: ele não sai, ela persiste na pensão de três mil euros. Inconformado, procurou o ex-marido da mulher que, contendo o riso, lhe disse: pá!, conforme-se. Fez-me o mesmo. Você foi a minha lotaria. Durante dois anos sacou-me mil euros ao mês. Com a inflação, o meu e o seu miúdo, que idade tem ele?, nove?, está na média dela.
Eu
“Que desafortunados! Nós, o João e a mulher do Pedro. Ele por ser trocado por renda, ela pela inexistência de rival à altura. Com a despesa e o medo de repor a comédia, o João é menos um no mercado do mulherio com tudo o que isso acarreta: jantares, hotéis, viagens, flores, jóias. A ex-Pedro não tem o conforto da rivalidade para desaguar mágoas em oceanos de lojas. Dois atentados à nossa economia. Mais destes e ficamos a ver por canudo comprido a acenada descida do IVA para 2009 e a subida para trezentos e oitenta euros do subsídio ao limiar da pobreza. Uma seca, meus queridos!"
CAFÉ DA MANHÃ
Alguém me explica porque é tão louvável a Coreia do Norte desmantelar um reactor nuclear quando tantos há por esse mundo fora?
Publicado por Teresa C. às novembro 7, 2007 06:56 AM
Comentários
A menina continua a escrever divinalmente! Retrata as situações do nosso dia a dia com uma clareza e destreza invejável. Como é que as pessoas conseguem ser tão egoístas e cínicas umas para as outras? Será que andam neste mundo só para "lixar" o parceiro? Será que a sinceridade é coisa perdida do passado e que somos tão egocentristas que só pensamos no nosso EU?
Espero nunca me vir a encontrar numa situação similar e que Deus me guarde de tal coisa!
Obrigado pelos seus escritos.
Publicado por: Incógnita às novembro 7, 2007 12:36 PM
À pergunta do café da manhã encolho os ombros de concordância e lembro (cito!) que 'a História é de quem s'apodera dela'.
Agora...
seguidamente,
ou o tal § foi escrito com sorriso sardónico ou teria que ser mutio bem esmiuçado para não ser visto como elogio da futilidade volúvel; senão veja-se, 'no mercado do mulherio com tudo o que isso acarreta: jantares, hotéis, viagens, flores, jóias' !
O qu'é qu'isto pressupõe?
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 7, 2007 01:51 PM
pirata-vermelho, não é o que pressupõe... a Tati diz que é o que Isso "acarreta".... fiufiufiu
Publicado por: fallorca às novembro 7, 2007 03:05 PM
Que é feito do nosso confrade Minderico? Amuou ou anda a ver se me trama a vida com um Serra d'Aires?
Publicado por: fallorca às novembro 7, 2007 03:10 PM
O que pressupõe aquilo que 'a Tati diz',
por supuesto.
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 7, 2007 03:17 PM
Aguardemos serenamente as suas incontestáveis razões
Publicado por: fallorca às novembro 7, 2007 05:24 PM
também acho as histórias tristes, porque se fala da traição, por outra ou por dinheiro.
Mas, dizer que a mulher do Pedro não tem rival, isso não.
Tem a rival mais difícil de vencer, se é que se pode alguma vez vencer uma rival, que até ali só passou tudo o que é bom, e deixou o pior para a legítima.
Publicado por: marta às novembro 7, 2007 07:36 PM
A mnina marta é escreve guiões para a tvi, lê páginas de consulta sentimental ou! vê muitas novelas 'daquelas'?
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 7, 2007 09:43 PM
Não leia o´'é-gralha', por favor.
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 7, 2007 09:44 PM
Fallorca
Nem amuei nem deixei de vir aqui todos os dias, embora fazendo sempre leituras em diagonal (ando bué ocupadíssimo). E como em diagonal são, no receio de interpretar mal o que escassamente leio, calo-me. É que se já tenho dificuldade em entender certos escritos, pior a interpretação será diagonalizando a leitura ;-)
Quanto ao Serra d'Aires não está esquecido ;-)
Adeus e até ao meu regresso e muitas "propriedades"
Vítor
Publicado por: Minderico às novembro 8, 2007 08:35 AM
Incógnita - julgo ter a sociedade contemporânea aproveitado a libertação de muitos tabus e preconceitos para vazar nos comportamentos o recalcado de ontem. Não somos nem melhores nem piores que os que nos precederam. As fragilidades humanas são, no essencial, idênticas. E livrarmo-nos dos logros não está nem na mão da fortuna nem na nossa, salvo se a emotividade trouxermos aperreada, o que para os libertos e vivos de espírito é impossível. É também pelo jogo-do-gato-e-do-rato com os acontecimentos que renasce a cada dia o gosto pelo ignorado nas horas seguintes ao acordar. E quem não sofre, não aprende, nem cresce, nem estímulo para repensar o passado e presente, quiçá inflectir o caminho. Porque nisto é como em tudo - as vítimas não existem, salvo em acidentes. Há, isso sim, actores no palco da vida com um papel a desempenhar e a capacidade de receber do público pateada.
Pirata-Vermelho - não reconheço no parágrafo nada de fútil ou volúvel. Constato as actuações comuns. Os estereótipos dominantes. Apenas. E com eles faço ironia que tinha no referido por mais evidente do que, pelo que vejo, é.
Fallorca - pois foi um bom reparo, que também eu sinto saudades dos parceiros de tertúlia. Muita. Por que a gente habitua-se ao bom e a ausência é sentida com afecto.
Marta - tenho para mim que não há rivais. Há passado, presente e futuro. Amores e desamores. E quantas vezes consideramos benção dos deuses alguém que nos retire o que enfastia sem que de tal tenhamos consciência efectiva até ao «adeus». Depois fica o alívio. Ou não, se o laço afectivo era intenso. Aí há um luto para fazer e amanheceres diferentes para experimentar. Dizem doer. Mas não queremos somente junto a nós quem, com verdade, o deseja intensamente?
Minderico - Que desgosto! Conformar-me-ei na esperança dum regresso já com o Amigo disponível. Grata pelas "propriedades" e receba um beijinho.
Publicado por: Teresa C. às novembro 8, 2007 04:13 PM
Terá então sido escrito de sorriso sardónico afivelado, numa peculiar antevisão do efeito causado nas dezenas de negociantes visadas.
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 8, 2007 06:47 PM
Pirata-Vermelho - cínica não sou. Jamais escrevo uma linha pensando no que outrem espera. Reflicto sobre o que me apetece, como me apetece e com gozo ou sofrimento conforme aos temas escolhidos. Não me tenha em tão má-conta por ser farpa tanto mais aguçada quando vem do Pirata que admiro.
Publicado por: Teresa C. às novembro 8, 2007 10:27 PM