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novembro 23, 2007
SÓ A DENÚNCIA NOS SALVA

Autor que não foi possível identificar
Pontes em estado grave. Doentes. Roídas pela idade, pelintrice dos materiais, ou pelo desprezo de quem, empertigado nos objectivos minorcas, olha a Europa e esquece o país. A tragédia de Entre-os-Rios atemorizando as gentes e os autarcas pela chatice que um acidente, e consequente ruptura na escalada política, lhes trazem, mais do que pelo custo em vidas. E bradam baixinho. Gritam as gentes do lugar e chegam aos (tele)jornais por via da notícia ululante. Quem governa baixa o olhar e ordena vistorias e cala queixas por votos.
Decretam à funcionária da Junta de Freguesia de Burrinhã-de-Cima que retome as funções. Imobilizada na cama pela degeneração dos órgãos, é chamada à presença do patrão-Estado. Como a professora que os cancros destroem. Um deles na boca. Pela metade a língua. Por um fio o estar. Como as crianças com deficiência espoliadas do ensino especial. O clamor indignado da família, dos amigos e da vizinhança. A delação a quem mexe os cordelinhos da comunicação social. E surge o burocrata maior - rabo entre as pernas, olhar pio, caridoso - a contrariar a ordem do serviço que rege e, por isso, deu. Sem apagar a devassa das vidas. Nova dor a somar.
Mais factos - a bomba de insulina, que a glicemia controla, comparticipada a alguns diabéticos (a todos não enxerga a vista-curta da lusa governação); a vacina gratuita contra o cancro no colo do útero (ainda que restrita à idade juvenil). Medidas avulsas. Caso-a-caso. Remedeios quando a gritaria social ensurdece os mandadores do baile. E o povo relembra lição antiga – “quem não chora, não mama”. Em versão revista e polida: só a denúncia nos salva.
CAFÉ DA MANHÃ
Escreveu o estimado A.R.: “Depois de ver o debate sobre o Orçamento do Estado, só me resta recorrer, mais uma vez a Shakespeare
Macbeth , Segundo Acto , Cena III
Macbeth -
... Tudo é futilidade: honra e renome
Estão mortos; o vinho da existência
Esgotou-se até à borra e só lhe resta
Borra a esta triste adega.”
Publicado por Teresa C. às novembro 23, 2007 08:29 AM
Comentários
Cheira-m'a revoltosa sem vergonha nem inveja! Mas olhe que o MacBeth foi noutra era e! não foi cá, 'Isto aqui' tem contornos e requebros únicos
1 somos o único Estado simultaneamente colonizado e colonizador, ad profundum sensu
2 somos o único povo envergonhado do seu capital principal - a sua própria bonomia
3 estamos institucional, funcional e tecnicamente falidos e sem vislumbre de poder de recuperação durante este ciclo histórico' (seja isso o que for...)
4 nesta conformidade o belo texto de Shakespeare não passaria de panaceia
5 nesta conformidade é mais útil a revolta activa...
Publicado por: -pirata-vermelho- às novembro 23, 2007 03:59 PM
Venho dizer-lhe do meu agrado pela música que se ouve neste blog.Tem um enorme cuidado e bom gosto e esta é mais um bom exemplo.
Relativamente ao texto, tem aqui pano para mangas...
Há um ponto em que toca que faço questão de subscrever e realçar, o nosso sistema de verificação de incapacidades permanentes é uma monstruosidade técnica e humana, descarada. Amplamente denunciada por profissionais de saúde e por cidadãos em geral, começa agora a ter maior visibilidade.
Uma sociedade que não respeita e resguarda os seus velhos(e digo-o com carinho não de forma depreciativa)os inaptos(doentes agudos ou crónicos, os diferentes(por alguns designados por deficientes)não é de facto e não será nunca uma sociedade dita desenvolvida.
Em matéria de saúde/doença e, nomeadamente, de estratégias orientadoras, nem a denúncia nos tem salvo, digo eu...
E o dito por não dito não me tranquiliza,o Ministro so não sabia disto se nem os jornais lesse, será?...e agora?O sistema mudará?Não é este caso que importa resolver, são todos!
E prevenir...porque há danos irreparáveis e não remíveis por nenhum dinheiro, óbviamente.
Acredito na força do debate político-ideologico e por isso acho importante o seu post´.
:)
Publicado por: MI às novembro 23, 2007 09:23 PM
Pirata-Vermelho e MI - Nada posso acrescentar que não seja ocioso perante reflexões tão assertivas. Mais digo: o texto acima, pobre, reconheço, ganha força e sentido com os vossos escritos. A ambos agradeço as generosas ofertas do vosso pensamento.
Publicado por: Teresa C. às novembro 24, 2007 12:56 PM