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dezembro 03, 2007
CHAMPANHE ATÉ BARRIGAS-DE-CIMA

Mati Klarwein
O verdadeiro problema de Portugal não é o défice, o “pro-lixo” do funcionalismo público, os amiguismos, a escassez de recursos ou a má distribuição de riqueza. O problema está na ausência de uma elite qualificada para gerir o país. Sendo os governantes filhos do povo, falta gente que saiba usar um smoking sem parecer chefe de sala, que ouça ópera, vá ao teatro e compre quadros. Faltam letrados a sério.
Urge campanha tendo em vista a formação de uma elite. A designação bem podia ser “Elite Agora”. Arrebatando vontades endinheiradas, seriam disseminadas pelo país acções de formação em boas maneiras, divididas em dois módulos – o básico trataria do uso do guardanapo, unhas bem aparadas (somente seriam admitidos candidatos aprovados no Exame dos Mínimos, por isso desremelados com mãos limpas) e do falar com a boca cheia; o nível avançado instruiria sobre os talheres e respectiva função, destrinça e utilização dos copos.
Projecto complementar, ainda que ambicioso, seria o de equipar carrinhas com o necessário para degustações de vinhos, abrangendo as populações desde Lisboa até Barrigas-de-Cima, que é o mesmo que dizer de todo o lado. As mesmas carrinhas fariam distribuição de cabazes comportando dois livros de poesia, dois CDs de música clássica escolhida a dedo, duas garrafas de espumante (para treino de bebericagem elegante), três latas de patê de fígado de pato, meia arroba de batatas, dois quilos de feijão encarnado, outros tantos de arroz, de sal e de acúcar, uma embalagem de risotto pré-preparado e duas de salmão-fumado, muesli, uma garrafa de Porto Tawny 10 anos, frutas várias, duas courgettes, uma endívia, duas couves-tronchudas e uma dúzia de garrafas de água Perrier. Cabazes custeados pela abastada classe dominante (dominadora?), podendo constituir multa em géneros aos culpados de escandalosas fraudes fiscais.
A iniciativa pode não resolver tudo, mas é um começo.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às dezembro 3, 2007 06:48 AM
Comentários
elitegância já!
pois é, é um começo...
as elites, mesmo sebastiânicas, fazem a sua falta
um preparado germinal disso, devidamente enlatado - bem, hoje seria em gel, em pastilha, em formato MP3 ou assim... - para distribuição geral seria de facto um bom começo
arrepiando (sim, elite não é tratar o cão por você nem atirar a cara em vez de trocar dois beijos) algum pedantismo ocioso e muito diletantismo dispensável mas incluídas instruções para escolha de gravata e condicentes acessórios, claro, mai-lo manuseamento de talheres, quando os há completos, a boa norma de dar primazia às Senhoras e guardar as devidas conveniências como esperar que todos estejam servidos em vez de se começar alarvemente, cumprimentar antes de falar ou, valham-nos as boas maneiras, saber escutar quando outrem usa a palavra
a bem dizer, essa elite ainda existe, só não está é tão à vista por decoro, precaução e algum egoísmo à beira de esgotar o compreensível
à vista, então, temos os que elegemos, eh eh ... há que fazer mea culpa, o aperfeiçoamento começa pela humildade de admitir o erro próprio
é bom lembrar que tem havido alternativas, municiadas de chá, charme e inteligência perfumada a poesia, de que Alegre e Guterres são apenas dois exemplos, preteridos quem sabe se exactamente por saberem dizer duas frases com princípio, meio e fim, correctamente articuladas em factos e raciocínios, gramaticalmente irrepreensíveis e - muito importante - da sua própria cabeça!
preferir sucessivos Durões, Santanas e Cavacos é no que dá, deixa como funda sensação uma espécie de saudade de elites inconfudíveis com citadores enciclopédicos ou professorais, talhados a poder de marketing pre-fabricado, a tender para os políticos de pacotilha com que nos presenteamos no governo, na oposição, nas autarquias
talvez por isso, dizia, o que resta de elites resguarda-se, primeiro para evitar o enxovalho, depois porque tem mais que fazer, por último porque urge precaver a sobrevivência do conceito, já agora em espécie
daí a achar abençoada a proposta de acções de formação, de grande utilidade não tanto para formar damas & cavalheiros em fornadas à la FSE, mas para a generalidade ir lidando com a noção, talvez daqui a uns tempos percebessem a diferença para ainda na nossa geração a aplicarem ao votar, ao namorar, ao comprar
vá, alento!
quem sabe ainda estamos a tempo ?
Publicado por: adjudicium às dezembro 3, 2007 10:30 AM
Aqui fica mais simples minha querida Tati?
http://olhoseternos.blogspot.com/2007/12/uma-homenagem-ao-blog-da-teresa.html
Desculpe ser um brutalhão.
:o(
Beijos.
Publicado por: Justo às dezembro 3, 2007 10:43 AM
Adjudicium - Estar, estamos, queira cada um e se empenhem todos em fazer por isso.
Perante comentário tão eloquente, importa-se que dele faça uso aqui no blogue?
Justo - é nada um brutalhão!, antes um querido que muito estimo. E depois, o problema ficou resolvido.
Publicado por: Teresa C. às dezembro 5, 2007 09:39 AM