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dezembro 31, 2007

NA NOITE DE TODOS OS BRILHOS

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“É (...) agora. Tão tarde. O sono embala sonhos de lótus em alvo. Despem-se palcos com seus panos de colcha. Velas ardem num semi aceso plano de cantiga.”

Publicado por Teresa C. às 10:43 AM

dezembro 30, 2007

ACORDAR II

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Steve Hanks

“Mas (...) será sempre a água bailando nos olhos quando uma cega canta ópera lendo Braille. Uma orquestra de jazz junta-se a fotos a sépia num entardecer que será sempre amanhã.”


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“Europa antiga, mesas de resguardo, o tom grisalho de muitos versos.


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Publicado por Teresa C. às 10:37 AM

dezembro 29, 2007

ACORDAR I

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John Kacere

“Primeiro no engano de todas as rotas que se sumiram, grandes aviões também em branco, praças de expor pernas nuas que se conhecem. Noite dentro, quando os relógios contarem o que se soube dantes, a luz caindo em frota de dias num quarto de hotel.”


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Steve Rosendale

“Talvez (...) esteja em gelo, agora que regressa no som cristalino de outros olhos.
A ponte com seus sons de gesso (...), águas olhando espelhos de teatros grandes, frio nos dedos de amarrotar brochuras. (...) Na cidade, sombras e recantos, cafés e esplanadas.”

Publicado por Teresa C. às 09:37 AM

dezembro 28, 2007

DE MALAS AVIADAS

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Dave Nestler

A quatro de Dezembro, deram-me notícia de um A330-200 da TAP aterrar no Recife com uma tripulação exclusivamente feminina. No comando, cinco mulheres: comandante, co-piloto, supervisora, duas chefes de cabine e sete assistentes de bordo. Uma operadora do finger e uma responsável da Polícia Federal aguardavam em terra. Com a idade média de trinta anos, mais de duas mil mulheres (cerca de 37% do total de colaboradores) trabalham actualmente em todos os sectores da TAP.Ora ainda bem!, que isto de estar com as malas aviadas para fuga aérea, tem que se lhe diga.

Se é atávico o meu gosto pela gravidade diminuída que os voos simbolizam, a minha preferência vai, direitinha, para os comboios – quiçá reacção traumática e infantil à educação de antanho que impedia presentear meninas com pistas de comboios. Longe não estará o dia de balouçar ao ritmo do Expresso do Oriente, do "Viceroy of India", ou do Transandino, a tanto chegue a saúde do corpo e da mente. No entretanto, fico-me pelo Pendular.

Acontece haver notícia da desorientação aérea que afecta os pilotos de aviões, responsável pela maioria dos desastres que excluem causas técnicas. Dos pilotos que ainda não padeceram do mal, noventa por cento entre eles, garantem especialistas, serão afectados. Pouco tranquilizador para quem, como eu, sair desta ponta europeia é necessidade quase vital. Como agora, passados os Jingle Bells e chegado o virar de ano. Com frio, se possível. E neve. E gorros. E alvo casaco fofo com provas dadas desde há uma dúzia de anos.

Amanhã, a Autora deixa a Teresa C. e a Tati a tomarem conta do “Sem Pénis, Nem Inveja”. Pontualmente, na base diária costumada, uma delas por aqui deixará recado. Talvez “reportem” a viagem. Ou não. Que nem todo o vivido deve ser falado.~


CAFÉ DA MANHÃ

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A morte desceu à rua. O Manuel da Fonseca escreveu: “Benazir Bhutto, a primeira mulher a chefiar o governo de um estado islâmico, foi assassinada por um terrorista. Um atentado suicida repugnante em que morreram 16 pessoas. Por mais que achemos o acto cobarde, nenhuma indignação lhes devolverá a vida. A democracia, se era já uma hipótese remota, ficou agora ainda mais longe do Paquistão.”

Publicado por Teresa C. às 10:21 AM | Comentários (2)

dezembro 27, 2007

DEUSES QUE CHORAM

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Blake Flynn

Do ocorrido ano a ano enjeito classificar o melhor e o pior. À avaliação subjectiva que os opinion makers se encarregam de colectivizar, anteponho reflectir as ondulações sociais. O vaivém do pêndulo que nos envelhece e testemunha os nossos curtos passos na caminhada humana.

Num tempo de compita, o brilho, o património e as griffes são carimbo do sucesso. O enquadramento social é avaliado pela obediências a normas e convenções. Subvertê-las pela indiferença às lantejoulas que enfeitam os seres é tida como excentricidade encantadora, se o estatuto é superior, ou, sendo rasteiro, por mediocridade social. O continente abafando o conteúdo. Este remetido às franjas da consciência da maioria distraída do essencial das coisas e das pessoas.

Sociedade de códigos de barras. De frutos e peixes e legumes e ovos com tamanho único. De indivíduos com rótulos e prazo de validade. De crenças normalizadas - na eficácia, na eterna juventude, na tecnocracia. Na saúde que temos obrigação de preservar, fugindo como o Diabo da Cruz do que nem apetecível devia ser para sossego dos novos profetas. Dos cérebros Excel de alguns maestros da orquestra dirigente que nos espiolha e comanda.

Diariamente, a parte rica do mundo acresce omnipotência. Sofistica tecnologia que nos convence, a cada descoberta, do poder de adiar a morte. No deslumbramento sequente, iludimos a precariedade factual julgando rivalizar com Deus. Contudo, de todas as sofisticações e supremacias sobrarão apenas Pessoas e uma Terra que sofre. Frágeis os agressores e as vítimas. O planeta amanhecendo insensível à tristeza do acordar de milhões. Tornando de gelo o ar e as coisas. Arrefecidos os corações, sobrevem a paralisia emotiva com as brechas comuns perante o que a todos une: a morte e o nascer. Rente à dor, podemos ter um pouco de deuses, mas somos deuses que choram.

CAFÉ DA MANHÃ

PREVISÕES 2008 (III):

“Os homens vão passar a partilhar ( como se já não o fizessem...) a menstruação com as mulheres. Já não era possível suportar mais tempo uma discriminação absurda, vítima do desleixo sexista de uma ciência ainda enfeudada ao machismo e à moral judaico-cristã. Uma primatóloga norueguesa e uma antropóloga californiana desenvolveram uma pílula que permitirá aos homens sofrer pelo menos três dias de tensão pré-menstrual.”

Publicado por Teresa C. às 10:09 AM | Comentários (4)

dezembro 26, 2007

VESTI DE NEGRO A NOITE

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Vesti de negro a noite. Esconjurei a leitura de um falso luto com o verniz-camurça encarnado dos sapatos e a pedra maior do colar. Às paredes e à mesa reservei a cor. Cores nas telas e nas cerâmicas. Nos rostos. Meando os copos. Rubis e seus odores – que as cores têm cheiro pelo sustento químico e emotivo. Risos. Vozes. Registos do estar conhecido que o cérebro tem de memória e estranha a minima alteração no tom. E mãos. Mãos nossas, mãos outras que entre elas se entrelaçam. Beijos. Lábios cujos toques são outra forma de respirar.

Lisboa esteve morna. Omissa a faca do gelo beirão. Ora, Consoada e dia do Nascimento requerem frio, novelo de labaredas consumindo troncos de castanheiro ou de pinho velho. Camisolões e peúgas de lã em trama apertada porque ao frio Serrano pontos lassos são como redes de pescador que, no defeso, não coseu o descosido e por ali viu, depois, o peixe escapar. Por isso, cuido do dia que vivo e não interrogo o amanhã. “Mulher sem futuro”, digo àqueles a quem legitimo demora dos lábios ou das mãos. Um dia último para viver a cada novo acordar. Cheio. Bebido até à gota derradeira. Sem projecções no devir ou nostalgias suspiradas.

Havendo ritual a oficiar, não abdico dos instantes secretos em que aconchego no colo o silêncio e me encosto à memória. Coloco pão e vinho sobre a branca toalha da alma e assento à roda da mesa ontens que a morte não apagou. Com o hoje celebro as felicidades miúdas que à vida ousei surripiar.

Publicado por Teresa C. às 09:26 AM | Comentários (2)

dezembro 25, 2007

SEM PÉNIS, NEM INVEJA - FELIZ NATAL

Do outro lado do Atlântico, um Amigo muito querido fez chegar este maravilhoso presente. Recebo-o com infinita gratidão e afecto.

A "minha" blogosfera é isto - partilha, prazer, palavras, pluralidade e paz. Obrigada pelo acolhimento amável que tem reservado a este espaço.

Publicado por Teresa C. às 01:43 AM | Comentários (4)

dezembro 24, 2007

PRESENTES DE ÚLTIMA HORA

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Miriam Rosa

Porque aos leitores e à blogosfera tudo o de melhor desejo neste tempo de Natal, algumas sugestões avulsas para os presentes ainda em falta:

Para Elas

Um «nada» simbólico ou aqueles sapatos adoráveis que namoramos há semanas.

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Um abafo, um livro, umas meias belíssimas.

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Alberto Vargas e Sorayama

Livre trânsito para o ginásio, pérolas ou aquele caso branco

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Sonia Roji e Michael Mobius

Para Eles

Dois bilhetes para um espectáculo em que a outra somos nós e um globo terrestre – é pedagógico e dá uma ideia de quantas milhas os esperam nas inúmeras viagens com a nossa adorável companhia.

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Alain Aslan e Alberto Vargas

A gravata que dá lindamente com o nosso tailleur preto; um skate, caso os patins tenham esgotado.

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Raphael Rey e Keith Garv

Para todos

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Alberto Vargas

CAFÉ DA MANHÃ

JOGOS FLORAIS DE NATAL

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Catherine Sickafoose

Pela exiguidade de votantes - apenas três - não é eleito, entre os textos enviados, o melhor. Todos os contos são vencedores, como cumpre à excelência dos escritos.

Autores dos Contos de Natal, por ordem de publicação:

Conto I - "Sonho de homens Acordados - J.

Conto II - "Do «Ai» Sustenido" - Pirata-Vermelho

Conto III - "A Corda Esticada" - MCorreia

Conto IV - "Morro Acima, Morro Abaixo" - Justo

Conto V - "Só Para Adultos" - Alba

Publicado por Teresa C. às 10:55 AM | Comentários (8)

dezembro 23, 2007

A BELINHA NÃO RETRIBUIU

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Clement Clarke Moore

Cartões de Natal. Ditos de Boas Festas. Pingando regularmente na caixa do correio, passado o meio de Dezembro. Caligrafia apurada. O Excelentíssimo, o Doutor e a Senhora Dona correctamente abreviados. Endereço e remetente nos sítios certos, como na primária fora ensinado e o hábito da correspondência postal consolidara. Diariamente aumentado o pecúlio de família e amigos abertos no castanho velho que encimava a lareira. Antes, houvera a contabilidade dos envios. Lembradas as omissões dos natais anteriores. A escolha dos cartões de Boas Festas requeria ponderação: nível de aperto do laço afectivo e grau de importância do destinatário. Serão dedicado à escrita. No rol de nomes, os vistos assinalavam despachos. Pelo meio, os comentários – “Será desta que os nossos chegam primeiro?”, “no ano passado, a Belinha não retribuiu. Fica de lado até ver.” O da tia Judite, que enrugara azeda, em último, como (des)gosto mal resolvido. E com modestas variações em torno de um tema só, lá seguia a redacção: “Votos de Feliz Natal e próspero Ano Novo desejam...” Intrigante próspero, pensava. Tão sazonal como as filhoses, as rabanadas e as azevias. Pretensioso. Justificava-o a diferença festiva. Como fios de ovos no pão-de-ló.

CAFÉ DA MANHÃ

- “Só de pensar que daqui a pouco mais de 365 dias já é Natal outra vez até fico mal disposto. É isso e saber que o Sarkozy anda a comer a Carla Bruni. Depois venham falar-me de justiça no mundo.”

- Termina hoje a votação para o conto vencedor dos JOGOS FLORAIS DE NATAL. Até hoje, somente dois leitores classificaram os trabalhos publicados. Assim continuando, fica comprometida a selecção do melhor conto entre os cinco belíssimos textos.

Publicado por Teresa C. às 11:02 AM | Comentários (3)

dezembro 22, 2007

TEMPO DE RENEGAR O TEMPO

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Autor que não foi possível identificar

O nosso tempo é, acima de tudo, assimétrico. Contraditório. Extremo na miséria, doente por causa da barriga cheia. Tempo veloz. De medo e confiança. Medo de ausências – de saúde, de afectos, de liberdade, de objectos que inventámos como indispensáveis. De crédito na criatividade dos humanos e na sua própria redenção. Tempo disperso e tolerante. De esquecimento do que perturba a consciência.

Tive o tempo em que renegava o tempo em que era pela injusta repartição de bens e direitos. Foi o tempo da utopia. Algures, no meu caminho, deixei caída parte substantiva. A restante, entesourei. E confio. Em mim, na vida, na capacidade criativa de que os humanos dão provas.

É na arte, na ciência e na teimosia dos homens em resistirem aos maiores infortúnios que me detenho para beber a fluida esperança. Nos artistas, cientistas ou pensadores - que pelo génio elevam a nossa condição. Mais do que nas religiões, tantas vezes alimento de fanatismos e crimes. Este é também o tempo dos ídolos. Dos pés-de-barro. Consumidos no ter-e-haver. Somente conhecendo o existir. De todas, a pobreza maior.

Publicado por Teresa C. às 10:50 AM | Comentários (5)

dezembro 21, 2007

DOS VIKINGS AOS BECHAMEIS

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Thierry Beaudenon

O bacalhau está caro. Caro desde a primeira vez que me vi sentada em frente a uma televisão. Muito caro. Nas minhas memórias infanto-juvenis das Festas, Boas e Prósperas como é tradicional desejar, pontificam o Natal dos Hospitais e as sondagens de rua dos telejornais sobre a carestia do "fiel amigo" português. O povo entrevistado lamuria, conta da incompreensão do custo acrescido, mas compra. Peixe seco inteiro, ou à posta, ou em lombos congelados livres de espinhas e da maçada do demolho mais o consequente fedor – a nossa atávica pelintrice tem quê de requinte que nos confere o estatuto de pobretes snobes. Alegretes menos, apesar do talento colectivo para, no segundo imediato a uma tragédia, das lágrimas fazermos anedotas.

A crer na história da televisão natalícia, há décadas que o bacalhau devia ter sumido da mesa da Consoada. Mas não. E é contraditória a permanência. Hoje, abastardado por luxuosos molhos com natas, coentros e camarões; ontem, mais barato, somente proibitivo nos queixumes sazonais, vinha à mesa com couve tronchuda, batata, cebola e ovos cozidos. Legumes e tubérculos arrancados à horta de subsistência, ovos honestamente postos por galinhas alimentadas a farelo. Com a migração do interior para o litoral, ficaram ao Deus-dará as hortas e finados os pintos de galinheiro. Foi o tempo épico dos mini/supermercados e do deslumbre perante a iluminada, diversa e confortável oferta. As catedrais do exagero, vulgo hipermercados, transformaram em roteiro turístico o abastecimento doméstico. Também o bacalhau pagando a conta das luzes de feira.

Embora os vikings nos tenham levado a dianteira na descoberta da espécie, desde as grandes navegações portuguesas do século XV que nos amancebámos com o bacalhau. A cada ano, arrisco pela teima ancestral, sujeito à pública choradeira. O custa-os-olhos-da-cara incompatível com bechameis piratas - a esmo confundidos com molho-branco - e as procissões estagnadas de gentes que aguardam metades de horas para mãos, expressamente contratadas e presumidas geniais, executarem a dificílima(?) tarefa de atascarem os presentes com papel e fita-cola. Mãos e adereços que encarecem o bacalhau.

CAFÉ DA MANHÃ

- Mui honrada me sinto pela nomeação do "Sem Pénis, Nem Inveja" para “Melhor Blog de 2007”. A apresentação dos nomeados está fantástica! Parabéns.

- O H2O Tinto teve a gentileza de nomear este blogue para Melhor Blogue. Fico muito grata.

- Por favor, caríssimos leitores: participem na votação para o melhor conto integrado nos Jogos Florais de Natal. Obrigada.

Publicado por Teresa C. às 11:56 AM | Comentários (4)

dezembro 20, 2007

A CASA OU GRUTA OU VULVA

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Jennifer Janesko

Escreveu:

“Na chegada, o preto e rosa de toda a imagem, a boca brilho de doce no Oriente em favo. Era Lisboa na tarde que anoitecia rápida, o circo, faixas nas estrelas. Semanas são riscos que formatam calendários de fábula, essas, as tuas, desde a partida no metal e branco dum intercidades.

A casa, ou gruta ou vulva, porque de tudo se espraia, quando as pernas se desdobram ante os olhos da boca ou seu inverso. Aqui, dirias sem dizer, porque língua a dedo se permutam em salas com espaços. Cinza nas cores que esquadrias marcam. Lápis descrevem janelas e jardins. Na cidade grande, no frio intenso de outro continente, o calor de um quarto, o aqueduto ao fundo. Despindo tecido ou seu desenho, riso brotando no viscoso doce de frutos todos, cartões que se ostentam no sorriso dos antigos pecados, rainhas em seu trono. Presentes, folhas e laços, permutas de permutas de permutas. Nua, adereços e rosas, campinas e telhados.

Todos os manjares se dobram no redondo do copo. Taça ou renda, porque é assim que o frio se esconjura, vidro de fogo na areia limpa desses passos. No despertar, o ombro ou travesseiro, porque Lisboa gelava apenas nos largos espaços da geografia.

Até o rio, o braço da ponte, histórias que gozam, casais instituídos que se brincam. Passam barcos, recitam-se letras. Castanha a cigarrilha no metal da caixa. Guardo. Na sala que antecipa a hora, beijos de escrita desenham uma boca. E tudo se espera.”


CAFÉ DA MANHÃ

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Ernâni Oliveira

- Ernâni Oliveira é um dos melhores artistas plásticos portugueses da sua geração. Abrangente nos suportes e téncicas utilizadas: do vitral à pintura passando pela ilustração, a gravura, o design de comunicação e industrial, a cerâmica e o mobiliário. Obras espalhadas por colecções particulares e edifícios públicos, é possível desfrutar de algumas na exposição “Pessoa em Lisboa”, patente na Malaposta até 31 de Dezembro.

Aqui, no formato inicial - mais completo e que neste blogue não foi possível mostrar - o esplendoroso trabalho cuja beleza e infinita generosidade tanto me comove(u). Muito, muito obrigada.

- Cinco contos de Natal esperam a votação dos leitores. É difícil escolher o melhor, sei, mas é chegado o momento.

Publicado por Teresa C. às 09:53 AM | Comentários (11)

dezembro 19, 2007

DO QUE TAPA E DESTAPA

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Michel Gourdon

Início de uma melodia.
Entrega expurgada do vil sentimento do retorno.
O primeiro passo de esplêndida coreografia dum pas-de-deux.
Que tapa e destapa o corpo, os sentidos e a alma.
Aqui.
Inteira.

Corpo que se oferece e deseja ser tomado.
Ao jeito dos sentidos.
Ao jeito do tempo que passa.

Porque o amor não se programa ou é súbita luz que encandeia.
Porque o amor precisa de pele, de cheiro, do olhar.
Precisa de tudo e nada quando um ser encontra outro e sobe das entranhas o grito - "É este!".

Que pode ser um logro, precariedade outra, ou durar uma vida.

Nota: esta "coisa" não pretende ser um poema. Jamais me atreveria. É tão-só um texto alinhado à esquerda.

Publicado por Teresa C. às 02:56 PM | Comentários (7)

MORRO ACIMA, MORRO ABAIXO

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Jack Vettriano

CONTO V - Jogos Florais de Natal

Clara corria em direcção à estação. Havia de chegar a tempo. Olhou para o relógio novamente. Cinco minutos. Quem sabe atrasa a partida. Quase nunca a barca sai no horário mesmo. Duas escadas de vintes degraus, morro acima. Uma terceira, de quinze, morro abaixo.
Enquanto corria ofegante, clara pensava. Orava. Pedia. Suplicava. Que a barca se atrase! Na esquina da padaria do Sr. Carlos, ainda faltavam 3 minutos. Dará tempo.
Clara sabia agora que havia errado. Necessitava corrigir o erro. Não podia perder seu querido assim, por um erro banal. Não tão banal, corrigia. Afinal havia uma acusação séria contra ele. Dois minutos e ainda tinha três quadras pela frente. Ofegava. Seus ouvidos passaram a ouvir o coração bombeando o sangue pelas artérias. E o ar parecia mais denso. Tinha que conseguir. Mário não podia ir sem saber que ela havia entendido afinal que ele era inocente. Dois minutos. Menos de uma quadra. Já podia ver a torre do relógio do cais por sobre os telhados dos sobrados antigos. E corre Clara em direcção ao mar.
Chega à praça. Estanca. Junta seus dois pés como um soldado e pára. Nem respira. Seus olhos se abrem a mais não poder. Sua boca teima em dar um gemido de dor. Engole seca. O cais esta vazio. Perdera sua grande chance de tentar ser feliz. Todo seu corpo desaba. Clara esta só na praça. Ofegante. Lentamente caminha para o banco e deixa seu corpo cair na madeira fria. Sem noção do tempo que passa. Clara tem a certeza da perda. O que não daríamos por uma segunda chance? E então, ao levantar o olhar para o outro lado da praça avista o Mário ainda a ajustar o paletó. Corre para seus braços. Aturdido Mário lhe indaga.
- Como correstes tanto assim?
E ela responde:
- Pensei perder-te para a barca.
Mas Clara! É Natal. Não há barcas hoje.

JOGOS FLORAIS DE NATAL

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Catherine Sickafoose

Este é o último conto de Natal integrado nos Jogos Florais. Foram publicados mais quatro contos nos dias 12, 13, 14 e 18 de Dezembro. Está aberta, até dia 23, a votação (de 1 a 5) para a escolha do conto vencedor.

Publicado por Teresa C. às 09:46 AM | Comentários (2)

dezembro 18, 2007

SÓ PARA ADULTOS

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Andre Wek

CONTO IV – Jogos Florais de Natal

24 Dezembro ao entardecer

Ela deambulava pela rua.
As mãos frias e o olhar inexpressivo. Sozinha. Na mão, um livro, muitas vezes manuseado.
Passava por grupos e por pessoas sozinhas que se preparavam para rematar aquela véspera, restos de frenesim e de cansaço, embrulhos coloridos nas mãos.

Ela murmurava a frase de uma canção: "Meu amor, meu amor nunca te ausentes de mim”.
E questiona-se: “que amor é este? Aquele que ainda me ama, de um amor tornado anémico? O quase desconhecido com quem troquei instantes de volúpia redescobrindo, nele, a respiração do meu corpo esquecido? O rapazinho que na adolescência me fez sonhar? Aquele amigo com quem embalo um afecto quentinho e muito fraterna, qual dois cachorros que crescem lado a lado?”
Nenhum deles.
Em quem pensava enquanto trauteava aquela canção?
Talvez fosse uma ideia, um conceito que acolhera na adolescência.
Um reflexo do seu imaginário, frases bossa nova, canção açucarada, mera criação artística.
Ela não sabia o que era o Amor, como cantava Joni Mitchel, “I've looked at love at both sides now/ still I don't know love by now.”
E nem sequer podia dizer que amava o filho, os filhos, já que nenhuma vida nascera daquele seu corpo.

E além disso estava farta de palavras, todas as palavras.
Apetecia-lhe aprender um idioma falado por alguma tribo perdida na Amazónia, em que os vocábulos reflectissem realidades altras que nada tivessem a ver com a sua.
Ou então moldar plasticina ou esculpir barro. As suas palavras, a sua linguagem, não!

Um leve cheiro a café, vindo de uma esquina igual a todas as outras, percorreu-a.

Sabia que estava perto de uma estação de metro, que as pessoas regressavam a casa, que o dia estava quase a terminar, que a noite quase a começar.
Sentiu o aroma ainda mais forte.
O que lhe diria este aroma encantado que a chamava docemente no calor que adivinhava?

Olhou em volta. Nunca ali vira o café.
Olhou com mais atenção. Viu o brilho.
Viu o letreiro em neon. Palavras mágicas, desconhecidas e tão iguais a si: Cafés e livros para colorir – só para adultos sonhadores. Abre apenas nos dias 24 e 25 de Dezembro.
Soube que estava prestes a chegar.
E quando lhe estenderam um café, seis folhas A4, um livro com desenhos enormes e uma caixa de lápis de cor, soube que estava em sua casa.

Publicado por Teresa C. às 07:59 PM | Comentários (2)

dezembro 17, 2007

PUTAS, PROSTÍBULOS E AMENDOINS

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Autor que não foi possível identificar

Frio de rachar a pele. De congelar o nariz. Mãos enfiadas nos bolsos. Tacões batendo o chão na vã tentativa de aquecerem os pés. Cintos largos como saias. Bainhas de onde sobram coxas ao léu. Novas, ou nem por isso, abrigadas nos vãos das portas. Escasseando a clientela, arriscam a beira do passeio. Putas de rua. Freelancers ou com chula de vigia. Bas fond às escâncaras - o discreto vende sexo online, nos anúncios dos jornais ou tem nome em trânsito de boca-em-boca endinheirada. Senhores atrás de mulheres e travestis. Ao volante de automóveis equivalendo, por unidade, a dúzia de anos de salário mínimo. No ar a música do Cazuza – “A burguesia fede”.

É falado tirar da rua as profissionais. Pretexto: condições sanitárias que as sociedades assépticas exigem. Omisso, até ao presente, o vergonhoso esquecimento institucional. Oculto o motivo (ainda) obrigado ao pundonor social – limpar as ruas de detritos humanos. Hoje as prostitutas, amanhã os mendigos, depois os diferentes do padrão físico comum. “Boas intenções” - legalizar prostíbulos, a primeira. Internamento compulsivo? Os corpos do negócio têm cérebro e voz - “pagar renda e coffret para fantasias, cumprir horário estabelecido, passar recibo? Não, obrigada. Antes a rua.” Diversas as pequenas e grandes ambições das veteranas e das miúdas-mulheres que trocaram secundárias ou países pela realidade crua do aluguer do corpo por múltiplos de quarto de hora.

Fosse a escolaridade além do básico e outro o povo, quem do sexo faz vida rejeitaria a inclemência dos elementos e optaria pela oferta online. Porém, salvo para as Belle de Jour, o negócio virtual não satisfaz. O português é avesso a marcações – “livra!, já basta o dentista e o Centro de Saúde.” No trabalho o maioral foi pesporrento? - “Vou dar uma para esquecer.” É hora de ponta e caótico o trânsito? - “Que se lixe! Vou dar uma.” “Perdemos” o desafio? – “Um copo para amainar e dou uma.” E, ou os corpos estão à mão de semear, ou “fosga-se! que são como a polícia – quando precisamos, nunca está por perto.” Passado o impulso consumista, bate ou dá em casa, após ver o fundo ao saco dos amendoins. Mastiga o donut no fim.


CAFÉ DA MANHÃ

Excelente sugestão para as crianças, disponível até dia 21.

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http://www.jasfarma.pt/noticia.php?id=1103

Publicado por Teresa C. às 11:19 PM | Comentários (4)

dezembro 16, 2007

PERDIDA A BÚSSOLA

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Perigoso tempo de Natal. Legitima nostalgias e alienações em torno do essencial – reencontro com a família amada num límpido projecto de união. A solidão absoluta ou acompanhada vivifica quando a liturgia do amor salta do calendário. E não é precisa a condição de sem-abrigo ou excluído da fortuna para sentir da pobreza a crueldade sob formas várias e complexas. No conforto ser pobre, paupérrimo em amor e carinho, é uma delas.

Cicatrizes, ou chagas abertas acordam quem delas padece para as dores alheias. Aguilhões enterrados na alma, ou o que por ela cada um entender. E ser solidário, requer gestos. Que aliviem sofrimentos e nos distraiam das próprias dores. A solidariedade feita dádiva e egoísmo. Dou um sorriso porque dele preciso. Estendo a mão por ser escasso o calor humano que sinto. Para aquecer e ser aquecido. E é difícil pedir auxílio quando em vez da «Cais» na mão estendida, estão luvas de fina pelica protegendo mãos de cetim.

Ouço estas mulheres cujo conforto parece garantido. Antes, foi o viço, subitamente perdido, a contar da mágoa íntima. Como causa, rareia a derrapagem nos negócios ou na profissão. Os afectos, sempre eles, são a comum prioridade da vida no feminino. Luto por um amor em lugar cimeiro. Havendo corpo, velório e féretro descido à terra, a sociedade legitima o tempo de sofrimento. Na vigência de um amor julgado vivo e de saúde, mulheres contam dos parceiros silêncios inopinados. Sem porquê que a razão descortine, cessam mensagens e fala. Delas o vazio. A espera dolorosa. O deserto. A bússola perdida. A travessia cega. Desgovernada a lógica. Sofrimento circular. Descrença no próprio valor. Mais não pedindo do que, numa frase, o tudo – “já não fazes parte da minha vida”. ou o que disto fizer a vez.

Ouvi-os. Confirmaram o recurso ao nada para estrangularem um afecto incómodo. Interessou-me o porquê. No começo, titubearam vontade de não magoar. Assumida a cobardia, no final. Perguntei se no feminino atitude semelhante é comum. Que não. Que verbalizam razões. A crer na modesta sondagem, para eles o enterro de um amor é como pano de cena caído, finda no palco a acção. Para elas é sinal de intervalo, talvez por inesperada afonia no personagem principal. E o pano não sobe, os dias correm e a asfixia no peito estrangula o viver.


CAFÉ DA MANHÃ

“O nosso cérebro é doido! De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.”

Publicado por Teresa C. às 11:04 PM | Comentários (11)

dezembro 15, 2007

MEL LOIRO

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Randall

Dia frio. Luz pálida. O sol, reclinado na abóbada onde é, chega morno e roubado da energia, obrigado pelas órbitas às estações do ano. Cisões e fusões nucleares indiferentes ao fluir do tempo. Renovadas a partir do alimento que na estrela encontram. E é deste tempo frio e seco que se faz o Natal que amo.

Peregrinar pelo comércio de bairro misturando olhares e risos com amigas de sempre. Uma paragem para aquecer o corpo por via de chá que nos acompanham as dores e a felicidade de ontem e no presente.

Mel loiro que escorre direito ao coração. Imersa na jovialidade que os anos não ousaram roubar, descobri presentes embrulhados em amor, acresci «nadas» de ilusão aos enfeites do espaço que me acolhe. Ri, brinquei, sussurrei naquele estado de graça que o frio de Dezembro faz nascer. O nariz e a face rosadas de frio, a alma aquecida pela amizade e ternura que o Natal sempre confirma. E sou feliz. Nem sempre. Ontem e hoje, sim.

Publicado por Teresa C. às 11:35 AM | Comentários (5)

A CORDA ESTICADA

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Jason Benjamin

CONTO III – Jogos Florais de Natal

A corda esticada entre paredes opostas. Seguram-na duas buchas. São elas que aguentam a tensão do pedaço de fio protegido por um azul plastificado. Sentada no poial da porta do quintal, olho o estendal de roupa. Azul no fundo branco da parede do vizinho.
(O vizinho é um velho simpático. Não vai entrar neste conto, mas que dava uma figura linda de contar que mais não fosse quando aparece, pelo fim da manhã, no quintal defronte, exercitando os músculos retesados nas peles engelhadas, secas, salpicadas de sardas num castanho mais intenso que o bronze que lhe ficou de outros sóis. Em camiseta de alças: um dois, hummm, hummm, respira ele fundo; acima, abaixo, hummm hummm, respira ele de novo. E para os lados, torcendo o dorso e soprando um airoso hummm, hummmm que não me surge onomatopeia que o conte).
Olho o pendural. Eu sem roupa para estender. O estendal azul na luz do fim do dia, corta a parede branca em duas. Esticada entre dois apoios, a corda azul onde eu estendo, de vez em quando, dois pares de meias, umas blusas, o meu pijama, umas cuecas.
Pouca coisa.
Um estendal demasiado. Olho-o espantada da sua demasia. Tão comprido!
No ladrilho amarelo faz-se sombra de ave. Fica o rasto do voo na parede branca que realça o azul vivo da corda esticada. Um estendal de roupa, mesmo quando está servindo de nada.
Uma gaivota grasna poisada no telhado da frente.
E eu grito de lembrada. Nem que eu grito. Eu já só penso que o faço. É um grito por dentro.
Um valha-me deus!
E ergo-me. Sacudo-me de pós do chão batendo no traseiro com as duas mãos.
Repito: credo! várias vezes. Deixo o poial e o ladrilho amarelo e o estendal contrastando no branco. Entro.
Ali está a agenda aberta numa página. Escrito na minha letra redonda e certa: Telefonar à Maria Ana.
No canto superior direito da agenda, posso ler em numeração estilizada: vinte e quatro. E ao centro, o nome do mês: Dezembro.
Marco um número. Sei de cor a posição que o compõe. Falo com um sorriso que envio até ao lado de lá de um oceano.
- Feliz Natal, Maria Ana. Beijinhos.
- Obrigada, mãe.
Caiu a ligação.
Um risco negro corta, de um a outro lado, a parede da frente. Escureceu.
Olho para fora. Estou esticada entre aqui e um para lá de um oceano. E nem me sou corda, nem me tenho apoios de buchas e nem plástico que me faça protecção.
É dia vinte e quatro de Dezembro.
Parece-me que é uma data importante. Não me lembro porquê.
No quintal, dantes, em outros tempos o estendal não era demasiado. Isso sei. Eu, esticada sobre um oceano.

CAFÉ DA MANHÃ

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Catherine Sickafoose

JOGOS FLORAIS DE NATAL

Tema – "Um Conto de Natal"

1 – Os trabalhos enviados devem ser originais e inéditos, com um máximo de 2.500 caracteres É aceite um único trabalho por participante.

2 - O Júri será composto por todos os leitores do “Sem Pénis Nem Inveja.

3 - Os textos devem ser enviados para o correio electrónico deste blogue com um título diferente do tema, sendo publicados pela ordem de recepção até ao dia 18 de Dezembro.

4 - A votação decorrerá de 18 a 23 de Dezembro.

5 – O conto vencedor será publicado no dia 25 de Dezembro.

6 - O envio dos trabalhos e a participação neste concurso obriga à aceitação destas bases.

Publicado por Teresa C. às 10:40 AM | Comentários (1)

dezembro 13, 2007

DO ‘AI’ SUSTENIDO

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Campbell

CONTO II - Jogos Florais de Natal

Excerto

(...)
Vou
aos jogos florais!
Vais...
quê!?
Não, já não vou!
Já é demais.
Porquê,
porque és dos tais?
Dos que lêem
os jornais?
Não,
dos que vêem a mais!

Durante este intervalo um contrabaixista meteu os dedos entre as pernas de uma das coralistas, por cima das calcinhas rendadas do figurino. A barafunda era tanta que ninguém se apercebeu do ‘ai’ sustenido, suspirado, que ela deixou escapar antes de se despir. A cena que se seguia exigia uma fatiota mais simples.
Vamos,
para trás do cenário do azevinho!
Quem...
tu!?
Não, tu.
E eu...
Nós!
Vamos?
Não, já não!
O padre....
Por isso mesmo.
É natal
ninguém lev’a mal.

(Ouvido e testemunhado por mim, no ambiente de euforia festiva de meados de Dezembro, durante o intervalo de um ensaio da 2ª cena do 2º Acto de ‘Natalena’ - ópera em três actos, com música e libretto de autor florentino morto em duelo por um sacerdote ofendido, disfarçado de capitão dos Hussardos da Crimeia)

CAFÉ DA MANHÃ

BudPlantXmas.jpg
Autor que não foi possível indetificar

- Vagas. Hipotéticas. Falhadas umas, outras não. Esta é fria - temperaturas negativas até segunda-feira. Se "cá chovesse, fazia-se cá ski", ou, no mínimo, seria interrompida a ritual compra de presentes e substituída por brincadeiras nevadas outdoor. Indoor, outras acaloradas e não menos criativas. Independentes das vagas, tão-só nascidas dos corpos e do amor.

- O Meu Blogue dá um Programa de Rádio – sábado às 21h e domingo às 13h. A excelência está garantida. Parabéns, Amiga.

Publicado por Teresa C. às 09:01 PM | Comentários (5)

dezembro 12, 2007

SONHO DE HOMENS ACORDADOS

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Alberto Pancorbo

CONTO I - Jogos Florais de Natal

"A esperança é um sonho de homens acordados" (Aristóteles)

- Ainda hei-de ser alguém, o sr. vai ver...

Naquele dia estava miserável!
Completamente pedrado, parecia dormir em pé.
Tanto tempo com um ar limpo, lavado, saudável, a ajudar as velhotas vizinhas a troco de umas moedas!... Parecia até que o flagelo nunca o tinha apanhado.

- Ainda vou ser alguém...

A esperança é também um sonho de homens adormecidos, mas que ainda guardam, à flor da consciência, uma centelha de vida, um pequeno fulgor que mantém acesa a luz que mal se avista no longínquo futuro.

- Vai ver, nem me vai conhecer!...

Pois é, amigo...
Mas não é a pequena moeda que se esconde na palma da tua mão que o vai conseguir...

PS. Este homem desapareceu da minha vida, tal como chegou. Isto é, de repente.
Soube que morreu ontem com sida.
Rejeitado por toda a rua e imediações, gostava de me dizer que “havia de haver
mais gente como o Sr.

Algumas pessoas tiveram muita pena! Foram estas que me inspiraram :

"É tão bom sermos irmãos !!!"
Os corações amolecem
Fingimos que damos as mãos...
E os sons que não se esquecem ???

Das vozes dos que nos chamam
Com os olhos abertos sem nos ver ?
Dos gritos dos que clamam
Paz e justiça para viver ?

Do choro silencioso e triste
Dos tristes que a vida criou ?
Dos que fazem o Natal dos outros
E que o Natal rejeitou ?

"É tão bom sermos irmãos..."

Lisboa, quase-Natal de 2007

Publicado por Teresa C. às 09:52 PM | Comentários (4)

dezembro 11, 2007

NOSTALGIAS DE SATURNO

Carlos Diez.jpg Carlos Diez

Não quero saber de jornais, dos quid pro quo económicos e políticos, da notícia do acidente na A4 ou da viatura empanada no Eixo Norte-Sul. Dispenso desgraças e graças. Não quero saber do mundo que vai para aí. Legitimei o egoísmo de centrar nos afectos os dias. Do meu infinito amor por ti e por ti e por ti e por ti e por aqueles que, embora tratando pela minha atávica segunda pessoa do singular, não menos quero ou pertenço - o sentimento de pertença é um bom sentimento quando a liberdade e o respeito convivem irmamente. E não receio pertencer. Fazer parte de quem me dá a mão no caminho. Ser merecida por quem desejo merecer. Credora de gestos e gosto que devolvo sem contabilizar juros, ganhos ou perdas inerentes ao leque dos afectos que não escuso abrir.

Cansada, atropelada pelos afazeres, olho os ícones do Natal que nas ruas e na casa são meta e partida. Todos os presentes comprados. Embrulhos cuidados despontando do saco fúcsia, à beira dos luziratos que o cone de finos ramos filtra. A ráfia, a renda do cânhamo, as vides entrelaçadas. Os laços e as agulhas do pinheiro nórdico gritando “estou vivo e aqui”, ou então “rega-me e ama como a única seiva que verdadeiramente te alimenta e faz sorrir”.

Adeus nostalgias de Saturno pelo entardecer. Gasoso Saturno que, dizem, congrega os maus fluidos, por isso de chumbo, lento e pesado, contradizendo a pouca gravidade. Caindo a tarde, usava embrulhar-me em manta introspectiva. Pender para a falta e desvalorizar o haver. Esquecido o planeta sem superfície cuja atmosfera volúvel inquieta o estar, exalto o tenho que alarguei. Na forma de uma tisana fora de horas. No meigo ofício da fala. Na íntima certeza de que “Santa Claus Is Coming to Town”. E disto quero saber.

Publicado por Teresa C. às 11:37 PM | Comentários (7)

TURISMO INFINITO

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No início, foi o rio. As pontes. Delas o ferro rendilhado dos arcos que unem as margens. Norte e Sul. Mouras e dragões. Nestes, o fogo, nelas o mistério. Ou o contrário, que os braseiros também a moirama ateia e aos dragões pertencem segredos mitológicos arredados ao comum. Quando a distância encurtou, foi anunciado o granito que a neblina espessa, feita morrinha, escurecia, sem que à mica apagasse o luzir. Pontes como abraços. O abraço, depois. Apertado como os rebites que o ferro sustentam. Ou o corpo. Ou o ser.

Havia fumo de castanhas em Santa Catarina. Bulício. Fachadas de outras eras, desta, com vidros a palmos do chão, escorrendo ilusões de dentro para fora e ao invés, que andantes há muitos e poucos os compradores. Passos das gentes convergindo no acaso do rumo, ou nem isso - o acaso não requer intenções. O granito dobrando as esquinas e no remate das calçadas enganosas nas ruelas de má-fama que da Batalha descem para subirem à esquerda do S. João.

“Turismo Infinito”, a peça. Uma viagem ao universo de Fernando Pessoa. Dele partem e chegam o histriónico e visionário Álvaro de Campos, o guarda-livros Bernardo Soares, o “Fernando Pessoa”, o bucólico Alberto Caeiro e também Ofélia – a única mulher que envolveu amorosamente o poeta. Uma encenação a cinza e negro de onde emergem, pelo meio, os corpos dos actores e a fala. Na fila atrás, a Catarina Furtado distraía ansiedades compondo riso da voz que o Nuno Baltazar partilhava. Em palco, o João Reis trovejou a voz futurista do Álvaro de Campos. Aplausos e encore passados, de volta à morrinha e ao granito e às luzes de ouro baço dos candeeiros. À exaltação fluida da mais doce intimidade.

Publicado por Teresa C. às 12:36 AM | Comentários (18)

dezembro 10, 2007

CIENTISTA E ATEU

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Jim Warren

É comum pensar os cientistas como seres absortos das interrogações comuns, centrados em congeminações arredadas da ideia de Deus pela ausência do sustento da prova. Todavia, quem pela ciência se apaixona e com ela faz vida, não raro alcança idear o divino, mais não seja pela bondade da natureza que ao animado e inanimado fornece existência, serventia e inteligência adequada à respectiva condição. Não custa subscrever a declaração de Martin Rees: “a possibilidade de vida como nós a conhecemos depende de umas constantes básicas, físicas e sensíveis a valores numéricos. A natureza exibe coincidências notáveis."

Estudos credíveis constatam a inexistência de diferenças substantivas entre os cientistas e o público em geral nas atitudes perante o religioso. A sociedade científica “Sigma Xi”, através de sondagem realizada num domingo, conclui que cerca de 46% dos cientistas doutorados estiveram numa igreja; 47%; da restante população fez o mesmo. Pós-de-pós-graduação em ciência pouco influencia as crenças sobre Deus.

A tentativa de entender a origem do universo, unicamente pela Física e Química, é baseada em três pressupostos: 1º - todo o fenómeno pode ser completamente explicado por leis naturais expressas na linguagem matemática; 2º - as leis físicas são aplicadas em todas as ocasiões e lugares, 3º - as leis fundamentais da natureza são simples. Charlie Townes, que descobriu o laser e mereceu o prémio Nobel, disse: "no meu ponto de vista, a questão da origem parece ficar sem respostas se a explorarmos exclusivamente de um ponto de vista científico. Creio haver necessidade de alguma explicação religiosa ou metafísica. Acredito no conceito de Deus e na Sua existência." A Bento XVI pertence a declaração: “a ciência explica as coisas pelas leis naturais. O acaso é uma medida da ignorância humana e não da inépcia das Física”

Alguns ateus concebem que o Universo e a vida humana foram criados por acaso. Grandioso acaso, certamente, que a complexidade inteligente do universo alcançou.

Publicado por Teresa C. às 11:42 PM | Comentários (9)

dezembro 09, 2007

ELITEGÂNCIA JÁ!

Alberto Vargas pic.jpg

Comentou o Adjudicium no texto “Champanhe até Barrigas-de-Cima”:

“pois é, é um começo...

as elites, mesmo sebastiânicas, fazem a sua falta

um preparado germinal disso, devidamente enlatado - bem, hoje seria em gel, em pastilha, em formato MP3 ou assim... - para distribuição geral seria de facto um bom começo

arrepiando (sim, elite não é tratar o cão por você nem atirar a cara em vez de trocar dois beijos) algum pedantismo ocioso e muito diletantismo dispensável mas incluídas instruções para escolha de gravata e condicentes acessórios, claro, mai-lo manuseamento de talheres, quando os há completos, a boa norma de dar primazia às Senhoras e guardar as devidas conveniências como esperar que todos estejam servidos em vez de se começar alarvemente, cumprimentar antes de falar ou, valham-nos as boas maneiras, saber escutar quando outrem usa a palavra

a bem dizer, essa elite ainda existe, só não está é tão à vista por decoro, precaução e algum egoísmo à beira de esgotar o compreensível

à vista, então, temos os que elegemos, há que fazer mea culpa, o aperfeiçoamento começa pela humildade de admitir o erro próprio

é bom lembrar que tem havido alternativas, municiadas de chá, charme e inteligência perfumada a poesia, de que Alegre e Guterres são apenas dois exemplos, preteridos quem sabe se exactamente por saberem dizer duas frases com princípio, meio e fim, correctamente articuladas em factos e raciocínios, gramaticalmente irrepreensíveis e - muito importante - da sua própria cabeça!

preferir sucessivos Durões, Santanas e Cavacos é no que dá, deixa como funda sensação uma espécie de saudade de elites inconfundíveis com citadores enciclopédicos ou professorais, talhados a poder de marketing pré-fabricado, a tender para os políticos de pacotilha com que nos presenteamos no governo, na oposição, nas autarquias

talvez por isso, dizia, o que resta de elites resguarda-se, primeiro para evitar o enxovalho, depois porque tem mais que fazer, por último porque urge precaver a sobrevivência do conceito, já agora em espécie

daí a achar abençoada a proposta de acções de formação, de grande utilidade não tanto para formar damas & cavalheiros em fornadas à la FSE, mas para a generalidade ir lidando com a noção, talvez daqui a uns tempos percebessem a diferença para ainda na nossa geração a aplicarem ao votar, ao namorar, ao comprar

vá, alento!

quem sabe ainda estamos a tempo ?"


CAFÉ DA MANHÃ

Aqui há um universo de beleza para o qual cada um pode contribuir até cinco fotografias por dia. Entrem, mirem e remirem. Serena o olhar.

Publicado por Teresa C. às 10:17 AM | Comentários (6)

dezembro 08, 2007

O ENGODO

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Chuck Law

Tiraste a gravata. Antes houvera o íntimo abraço dos amantes que o quotidiano afasta. Sôfrego. Tenso. Distendido, depois. A reunião dos corpos e rostos e olhares reveladores. Fala de luz nas pupilas. Escorregadia a tua. Transparente a minha. Ou parecia. O silêncio dos amores pode ser verdade ou mentira. Correndo a noite, reafirmaríamos a intensidade do enleio que o tempo burilou. E era a verdade de ambos. Mentira também. Dos dois.

Do afecto impertinente de início, vieram montes e vales. Temperámos as subidas, apressámos as descidas. Tudo ao contrário. E aventurámo-nos na invenção de um amor. Tão perfeito foi o cenário, a fotografia, o engodo, a banda sonora e a realização, que com orgulho nos revíamos no produto final. Corpos fundos e trocados. Fala líquida, então. Abraçados, sempre. A mentira verdadeira incendiando o desejo de fazer daquele amor o que não era. Ao afastarmo-nos, houve sinos a rebate assinalando o fim. Que não vinha.

Aconteceu ao tirares a gravata. Senti odor a violetas. Não dela, não de ti, não de mim. Era a invenção do amor que findava. De violetas a coroa funerária. Que não vias. Tivesses lido nos meus olhos, como quem ama sabe ler, e verias impresso o óbito. Estampado na porta do que antes fora a câmara de um desamor.

Nota: este texto foi escrito para a rubrica "Momentos dos Outros", nele publicado há largos meses, correspondendo a gentil convite desta mui querida Escritora.

CAFÉ DA MANHÃ

Aqui - http://82.102.14.131/isa/pnetfotos/index.html - há um universo de beleza para o qual cada um pode contribuir até cinco fotografias por dia. Entrem, mirem e remirem. Serena o olhar.

Publicado por Teresa C. às 12:38 PM | Comentários (6)

dezembro 07, 2007

A GLÓRIA DA BLOGA

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Daniel Green

A frase nem é minha – jamais me ocorreria tão expressiva fórmula, não fora a originalidade da Fernanda Câncio. Adquirido que o meteórico presente faz velho o novo de ontem, apetece retomar assunto antigo – com os “blogues”, poderá estar em jogo o fim da Palavra Comprada e vislumbrado o início da Era da Palavra Livre e Particular, o Reino da Palavra Gratuita?

Tempo atrás, um comentador cujo nome não recordo escreveu mais ou menos isto: nos blogues há fala diária de todos sobre tudo, isenção de obediência a sistemas, que não os da prevalência do Excelente sobre o Medíocre, do Livre sobre o Encomendado. Tarefa gratuita, seja pela consciência cívica, pelo desejo de estar no tempo e no momento ou tão-só pela amistosa gratidão da partilha. Talvez seja isto a comunicação global, também ela sujeita a fina peneira – é reconhecido quem, por via da palavra talentosa, melhor atentar no horizonte e na fracção do mundo à sua volta. Dispensadas, finalmente!, as tradicionais encomendas das almas.

É inútil negar a evidência que na “bloga”, como noutros veículos de comunicação social, também “existe e vegeta um colunista ambicioso ou desempregado ou um mero espírito ocioso e rancoroso”. Mas é refrescante saber que nela se escreve livremente sem a opressão hierárquica que ataca o assalariado. Isenta da vanidade do poder. Glória? De que serve, quando o prazer de “blogar” se equilibra na magia secreta do invisível?

Publicado por Teresa C. às 09:15 AM | Comentários (2)

dezembro 06, 2007

BOA COMÓ MILHO

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Armando Huerta

Dei por mim a escrever isto: “A sua amiga deve ser boa comó milho, garanto. Sabe que nada tenho contra estas e outras machices? Aliás, adoro! Sou uma falsa, uma vendida, só pode!” Cliquei e seguiu - ido é o tempo em que esquadrinhava as redondezas à cata de papelaria que vendesse selos; para dissolver a cola, em gaiata, lambia-os, hábito pouco asseado que findou ao ser apanhada no acto. Situação que odeio, por o verbo remeter para policiamento ou quadrilhice. Quem sabe não me ficou sequela? Apanharem-me com a boca na botija só pra alimento dalguns caprichos que nem vêm ao caso.

Verdade, verdadinha, é ter aprendido tarde o vernáculo. Com a gíria ajeitava-me – brasa pra moçoilo bom comó milho, pá sem vassoura à frente, giro pró agradável que não era redondo, ou era, mas, por essa altura, de tal somente concebia vestígios de ideia, mesmo esses tirados dos livros. Retardada, a pequena. Já crescida, ai que a confissão arrepia!, mulher, admito, é que boca amiga me desvendou os clássicos. Curei de alcançar o léxico em falta, conquanto persista na condição de aprendiz.

Por estas e outras, atento no que vejo e ouço. Desemborralhei. Das últimas aquisições dou conta: domino o código das, solitariamente hirtas em celofane flores-não-obrigada-já-fodi, bem como a eficácia da queca-cura-enxaqueca. Por gosto e à laia de redenção dalgumas machices cujo peso mal sinto, para avaliar condignamente o cair de um par de calças, ainda noutro dia me vi obrigada a solicitar ao utente que despisse o blusão comprido enquanto as via caminhar. Tudo a bem dum presente natalício.

CAFÉ DA MANHÃ

- O Francisco mudou de casa e teve a gentileza de estabelecer uma ligação para aqui. Nem de propósito, em vez de um texto respeitável saem brejeirices incontáveis. Um reparo: o talentoso e bem-apessoado autor é um habitué dos casacões. Uma pena!

- Também a Sofia renovou a casa. Está lindíssima, minha querida!

Publicado por Teresa C. às 06:34 AM | Comentários (6)

dezembro 05, 2007

LISBOA A TRÊS MÃOS


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Heffernan

Deu o mote a Teresa C - “(...) Sem dos Braganças esperar a benção – chega-me a do café na Brasileira e a do bife da Trindade.”

Pirata-Vermelho - “Você só me dá desgostos. Ou não se lembra da TRINDADE ou aguenta 'tudo'. Para poupar tempo e ajudar a sair do circuito turístico (oh santa incepiênsssia...!) não se mexa tanto! Junte o café e o bife no NICOLA. É mais bonito e não foi invadido p'os mninos em princípio de carreira que foram jantar c'a rapariguinha à boémia-que-já-morreu.
(...)
(santa inssepiência, oh senhores...)
O qu'a Trindade tinha de bom foi-se para todo o sempre.... era o ambiente e a gente e! os croquettes ao mei'dia e tal, ainda quentes!”

Volve à cena a Teresa C. – “Sou alface de menos memórias. Mas gosto do café na esplanada da Brasileira à mistura com turistas, nostálgicos da Lisboa de outrora, bando de indianos a rigor, eles tocando tablas e flautas, serpenteando elas o corpo, de todos o canto que sobe no ar como fumo e aroma da assadura de castanhas. E há o encanto do saxofonista cujo swing transporta para baixios de tantos lugares, dos passantes que marginalizam o sistema também pelo excêntrico estar, do mais que sei, é meu e não conto.

À Trindade - de meia em meia década, ou qualquer coisa à volta disso - torno. Parto dali pelas calçadas matreiras até Santa Catarina, o rio ali tão perto, árvores sumptuosas que negam o Outono, a linha do eléctrico, o regresso pelas subidas gastas. E o Jardim das Amoreiras que amortece os passos, coberto que está do ouro das folhas dos plátanos e das tílias, com pedaços do talento da Vieira da Silva testemunhando os desvairados desvarios que o vazio do sítio legitima?

Fallorca - “Trindade sem Herberto, António José Forte e Aldina, Vitor Silva Tavares, Virgílio Martinho, Lia Gama, e sem a esplanada interior onde nos entretínhamos a atirar tremoços aos pombos - e às vezes, às vezes, aos "borrachos" - baba-me de nostalgia. Passei a mirrar na esplanada do Nicola, quando vou a Lisboa, rodeado de "bifas e bifes", mas sem coragem para me desiludir com o bife à Nicola.

Subo até ao Bairro Alto e bato-me com uns grelhados na adega Tagarro, ou os filetes de peixe-galo no "Verde qq. coisa" da calçada do Combro, com a certeza de que o contínuo do "Diário de Lisboa" não me virá chatear para ir reportar uma vernissage, e não a poder concluir na "academia do Manel", esse "velho traidor" que decidiu ir dar à Lux pra Sta. Apolónia.

Vou mazé fumar um charro para não me esquecer do que acabo de escrever quando na 4ª. feira "desautocarrar" em Sete-Rios. Alfarrabistas, acautelem-se!”

Publicado por Teresa C. às 06:35 AM | Comentários (9)

dezembro 04, 2007

HOMENAGEM AO BLOGUE DA TATI

Nem me pergunto se mereço - antes da razão escolho o sentir. Intenso. Tangível. Meu.

Obrigada, não. Gratidão liberta pela beleza do gesto e do presen te.

Publicado por Teresa C. às 05:58 PM | Comentários (6)

JÁ TE CONTEI?

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Autor que não foi possível identificar

Já te contei de uma menina de olhos e cabelo cor de terra cujo brinquedo maior era a evasão para o mundo inventado? De como se aninhava no cadeirão de verga do jardim ou no sofá do quarto e adormeciam as tardes enquanto lia? E como lia tudo a que as mãos e os pés esticados chegassem? Das fugas solitárias para o areal molhado pela maré-cheia?

Dessa menina veio a mulher. Feita para amar e voar. Amar pessoas e voar para o mundo de faz-de-conta que nunca quis perder. Porque no regresso sempre trouxe reservas de ideal e vontade para lhe oxigenarem as horas. Que orientam carícias, que fazem esvoaçar os lábios na pele dos que ama. Gostar, dar, receber são verbos de que não abre mão. Em fatias iguais.

À jovem que antecedeu a mulher não poderias ter amado. A ilusão arrebatava-a, o quotidiano comprimia-a até ao insuportável. Ela não quadrava nas posturas recomendadas; era rebelde, insubmissa e vivia no contraditório. Obrigava-se a exibir o molde certo, para que o «eu», dela apenas conhecido, permanecesse como água e silêncio. Até um dia.

No primeiro dia da vida dela, já muitos haviam passado. Ao identificar a fartura de encenação e a míngua de coerência, abanou o seu pequeno mundo. E tudo tremeu. Ela também. Teve medo, foi forte, fraca, chorou e riu. Aos poucos, da crisálida surgiu a mulher que sente, e como sente!, amares. Dizem-na forte, segura, de queixo erguido desafiando o mundo. Mas não, tão somente desafia quem julga ser. Rejeita a obediência a normas patéticas. E ri, sofre, é insegura e forte. Até ao sempre num qualquer dia.

Publicado por Teresa C. às 06:26 AM | Comentários (3)

dezembro 03, 2007

CHAMPANHE ATÉ BARRIGAS-DE-CIMA

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Mati Klarwein

O verdadeiro problema de Portugal não é o défice, o “pro-lixo” do funcionalismo público, os amiguismos, a escassez de recursos ou a má distribuição de riqueza. O problema está na ausência de uma elite qualificada para gerir o país. Sendo os governantes filhos do povo, falta gente que saiba usar um smoking sem parecer chefe de sala, que ouça ópera, vá ao teatro e compre quadros. Faltam letrados a sério.

Urge campanha tendo em vista a formação de uma elite. A designação bem podia ser “Elite Agora”. Arrebatando vontades endinheiradas, seriam disseminadas pelo país acções de formação em boas maneiras, divididas em dois módulos – o básico trataria do uso do guardanapo, unhas bem aparadas (somente seriam admitidos candidatos aprovados no Exame dos Mínimos, por isso desremelados com mãos limpas) e do falar com a boca cheia; o nível avançado instruiria sobre os talheres e respectiva função, destrinça e utilização dos copos.

Projecto complementar, ainda que ambicioso, seria o de equipar carrinhas com o necessário para degustações de vinhos, abrangendo as populações desde Lisboa até Barrigas-de-Cima, que é o mesmo que dizer de todo o lado. As mesmas carrinhas fariam distribuição de cabazes comportando dois livros de poesia, dois CDs de música clássica escolhida a dedo, duas garrafas de espumante (para treino de bebericagem elegante), três latas de patê de fígado de pato, meia arroba de batatas, dois quilos de feijão encarnado, outros tantos de arroz, de sal e de acúcar, uma embalagem de risotto pré-preparado e duas de salmão-fumado, muesli, uma garrafa de Porto Tawny 10 anos, frutas várias, duas courgettes, uma endívia, duas couves-tronchudas e uma dúzia de garrafas de água Perrier. Cabazes custeados pela abastada classe dominante (dominadora?), podendo constituir multa em géneros aos culpados de escandalosas fraudes fiscais.

A iniciativa pode não resolver tudo, mas é um começo.


CAFÉ DA MANHÃ

- Este magnífico espaço completou quatro anos de continuado prazer. Para si, minha querida, dois vezes dois beijinhos de parabéns.

- Recebi um mimo adorável deste caríssimo cúmplice do “Sem Pénis, Nem Inveja”. Digo adorável, pela intenção e pelo gesto – por motivos que ignoro, ainda não consegui ver nadica de nada. Aliás, para poder desembrulhar o presente e publicá-lo aqui, imploro socorro aos habilitados nestas andanças. Help! Please...

Publicado por Teresa C. às 06:48 AM | Comentários (3)

dezembro 02, 2007

FISGAS DE ARROZ DE PATO

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Jack Vettriano

Fim. Finitto. Fin. The end. Acabou a eficácia das fisgadas culinárias aos solteiros com casa própria, solteirões (à beira dos quarenta e daí em diante), aos viúvos e divorciados - já não vendem a liberdade por um prato de lentilhas, desde que bem temperadas, claro.
Na secção dos congelados de qualquer (super)minimercado a oferta é diversificada: esparregado, favas com entrecosto, morcela e chouriço de vinho, carbonaras e feijoadas. Juntando as sopas “caseiras” em lata ou liofilizadas, mais a venda ao grama do bacalhau à Gomes de Sá, decorre concorrência (des)leal às (man)obras gastronómicas femininas.

À revelia da tradição, fisgam-nos alguns agora. Um arroz de pato à transmontana, dos mil bacalhaus uma dúzia, aletria, leite-creme preparados com mestria, após as primeiras dentadas, subvertem os propósitos de médio-prazo de mulher ajuramentada às delícias autonómicas. Pior: na generalidade percebendo mais de vinhos do que nós, regam-nos – real e metaforicamente – com requinte inigualável.

Sendo a conversa condizente, uma mulher vacila. Argumenta consigo que não pode ser tão perfeito assim – “vai-se ver e ouve canção diferente da minha, não gosta de ópera ou teatro, de bailado ou viagens com mais de dez horas de voo”. Ateia a esperança de pôr defeito. Mas não. Mas ouve. Mas gosta. Conhece de cor as árias que idolatramos. Foi ao cabo-do-mundo para conhecer uma sala de teatro mítica. E, desvalida, a mulher já está por tudo. O golpe de misericórdia chega quando o “tudo” confirma o arroz de pato.

Publicado por Teresa C. às 12:51 PM | Comentários (15)

dezembro 01, 2007

IDOS OS FILIPINOS , CHEGAM OS BRAGANÇAS

Razões doces como pastéis de Belém. Dia memorável. Patriótico. Liberto do peso de Sebastiões derrotados em Alcácer-Quibir. Com sucessões não-dinásticas. Filipinos idos, chegam os Braganças. Sem destes esperar a benção – chega-me a do café na Brasileira e a do bife da Trindade. A pintura dá uma ajuda e descreve o dia:

Parte I

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Gil Elvgren

Parte II

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Gil Elvgren

Parte III

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Gil Elvgren

Parte IV

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Vaughan Alden

Parte V

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Gil Elvgren

Publicado por Teresa C. às 09:17 AM | Comentários (10)