« TURISMO INFINITO | Entrada | SONHO DE HOMENS ACORDADOS »

dezembro 11, 2007

NOSTALGIAS DE SATURNO

Carlos Diez.jpg Carlos Diez

Não quero saber de jornais, dos quid pro quo económicos e políticos, da notícia do acidente na A4 ou da viatura empanada no Eixo Norte-Sul. Dispenso desgraças e graças. Não quero saber do mundo que vai para aí. Legitimei o egoísmo de centrar nos afectos os dias. Do meu infinito amor por ti e por ti e por ti e por ti e por aqueles que, embora tratando pela minha atávica segunda pessoa do singular, não menos quero ou pertenço - o sentimento de pertença é um bom sentimento quando a liberdade e o respeito convivem irmamente. E não receio pertencer. Fazer parte de quem me dá a mão no caminho. Ser merecida por quem desejo merecer. Credora de gestos e gosto que devolvo sem contabilizar juros, ganhos ou perdas inerentes ao leque dos afectos que não escuso abrir.

Cansada, atropelada pelos afazeres, olho os ícones do Natal que nas ruas e na casa são meta e partida. Todos os presentes comprados. Embrulhos cuidados despontando do saco fúcsia, à beira dos luziratos que o cone de finos ramos filtra. A ráfia, a renda do cânhamo, as vides entrelaçadas. Os laços e as agulhas do pinheiro nórdico gritando “estou vivo e aqui”, ou então “rega-me e ama como a única seiva que verdadeiramente te alimenta e faz sorrir”.

Adeus nostalgias de Saturno pelo entardecer. Gasoso Saturno que, dizem, congrega os maus fluidos, por isso de chumbo, lento e pesado, contradizendo a pouca gravidade. Caindo a tarde, usava embrulhar-me em manta introspectiva. Pender para a falta e desvalorizar o haver. Esquecido o planeta sem superfície cuja atmosfera volúvel inquieta o estar, exalto o tenho que alarguei. Na forma de uma tisana fora de horas. No meigo ofício da fala. Na íntima certeza de que “Santa Claus Is Coming to Town”. E disto quero saber.

Publicado por Teresa C. às dezembro 11, 2007 11:37 PM

Comentários

"
Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon cœur
D’une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure ;

Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
"
(Paul Verlaine - Poemes Saturniens)

Estou consigo, Amiga querida: abaixo Saturno!
Mas não resisti a dedicar-lhe um dos belíssimos poemas de Paul Verlaine (por mero acaso, este serviu de senha a um dos mais conseguidos ataques da resistência francesa, nos tempos em que ainda se vivia e se morria pela honra das pátrias...).
Embora não muito "devoto" das "praxes" da estação, não deixo de sorrir, enternecido, pela emoção criada pelo seu escrito.
Feliz Natal, antecipado pelas pequenas coisas que no-lo fazem viver.
Por mim, prefiro procurar míscaros!!!

Publicado por: j às dezembro 12, 2007 10:00 AM

Lembra-se do Maiakovsky e do Brecht a proclamarem que a desgraça bate inexoravelmente á porta de quem não se quer opor a ela. Também bate à porta de quem se opõe, claro mas! talvez esses disponham então de mecanismos de resistência mais robustos...
Os princípios da lealdade e da honra, herdados da Idade Média são... ou eram! o sustentáculo; desvaneceram-se. Resta a panaceia, o hedonismo cego e lerdo.

Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 12, 2007 12:25 PM

Verlaine e Brecht... eu sei que é difícil, la vie d'artiste!

Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 12, 2007 12:27 PM

J - não creio tão tão despprendido da, por excelência, saison dos afectos e da partilha solidária, nos lábios o desejo de pousarem na face daqueles que estão, ou se sentem sós. Belíssimo poema que eu não conhecia. Merci mon cher. Un baiser.

Pirata-Vermelho - Entendi o recado e subscrevo-o. Porém, permita-me que lhe diga, que de epicurista e de hedonista tenho a dose que julgo saudável. Direi então que entrei num período de interioridade - restrinjo os estímulos sonoros e visuais, recolho-me na concha dos que amo e me amam, e onde prioritariamente, sou.

La vie d'artiste est un mystère...

Publicado por: Teresa C. às dezembro 12, 2007 05:30 PM

Deveria ter acabado a minha divagação com pont'd'interrogação ?
Devia...
Restam, panaceias?

Dure,
c'est dure, dans la vie d'artiste!

Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 12, 2007 06:25 PM

Brilha neste texto um humanismo muito bonito, que se conjuga muito, muito bem, com o momento que escolheu para falar de afectos e de alegria. O Natal também é essa magia de olhar de criança sábia que se espanta, que se maravilha. E isso é tão belo!

Publicado por: Alba às dezembro 13, 2007 01:48 AM

Alba - Por essa beleza nunca perdida, persigo o que no olhar dos outros leio. Anónimos ou não. Apaixonei-me pela ciência, pela arte, mas, os humanos virão sempre em primeiro lugar.

Publicado por: Teresa C. às dezembro 17, 2007 06:10 PM

Comente




Recordar-me?