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dezembro 18, 2007
SÓ PARA ADULTOS

Andre Wek
CONTO IV – Jogos Florais de Natal
24 Dezembro ao entardecer
Ela deambulava pela rua.
As mãos frias e o olhar inexpressivo. Sozinha. Na mão, um livro, muitas vezes manuseado.
Passava por grupos e por pessoas sozinhas que se preparavam para rematar aquela véspera, restos de frenesim e de cansaço, embrulhos coloridos nas mãos.
Ela murmurava a frase de uma canção: "Meu amor, meu amor nunca te ausentes de mim”.
E questiona-se: “que amor é este? Aquele que ainda me ama, de um amor tornado anémico? O quase desconhecido com quem troquei instantes de volúpia redescobrindo, nele, a respiração do meu corpo esquecido? O rapazinho que na adolescência me fez sonhar? Aquele amigo com quem embalo um afecto quentinho e muito fraterna, qual dois cachorros que crescem lado a lado?”
Nenhum deles.
Em quem pensava enquanto trauteava aquela canção?
Talvez fosse uma ideia, um conceito que acolhera na adolescência.
Um reflexo do seu imaginário, frases bossa nova, canção açucarada, mera criação artística.
Ela não sabia o que era o Amor, como cantava Joni Mitchel, “I've looked at love at both sides now/ still I don't know love by now.”
E nem sequer podia dizer que amava o filho, os filhos, já que nenhuma vida nascera daquele seu corpo.
E além disso estava farta de palavras, todas as palavras.
Apetecia-lhe aprender um idioma falado por alguma tribo perdida na Amazónia, em que os vocábulos reflectissem realidades altras que nada tivessem a ver com a sua.
Ou então moldar plasticina ou esculpir barro. As suas palavras, a sua linguagem, não!
Um leve cheiro a café, vindo de uma esquina igual a todas as outras, percorreu-a.
Sabia que estava perto de uma estação de metro, que as pessoas regressavam a casa, que o dia estava quase a terminar, que a noite quase a começar.
Sentiu o aroma ainda mais forte.
O que lhe diria este aroma encantado que a chamava docemente no calor que adivinhava?
Olhou em volta. Nunca ali vira o café.
Olhou com mais atenção. Viu o brilho.
Viu o letreiro em neon. Palavras mágicas, desconhecidas e tão iguais a si: Cafés e livros para colorir – só para adultos sonhadores. Abre apenas nos dias 24 e 25 de Dezembro.
Soube que estava prestes a chegar.
E quando lhe estenderam um café, seis folhas A4, um livro com desenhos enormes e uma caixa de lápis de cor, soube que estava em sua casa.
Publicado por Teresa C. às dezembro 18, 2007 07:59 PM
Comentários
Magnífico! Como sempre!
Venho só deixar um beijinho e votos de um Natal muito feliz.
Publicado por: June às dezembro 18, 2007 10:23 PM
June - Muito obrigada pela simpatia da sua presença e dos votos que deixa. Todos que aqui passam, dou por certo, estimam que as suas Festas sejam muito felizes. Biejinho.
Publicado por: Teresa C. às dezembro 19, 2007 11:15 PM