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dezembro 11, 2007
TURISMO INFINITO


No início, foi o rio. As pontes. Delas o ferro rendilhado dos arcos que unem as margens. Norte e Sul. Mouras e dragões. Nestes, o fogo, nelas o mistério. Ou o contrário, que os braseiros também a moirama ateia e aos dragões pertencem segredos mitológicos arredados ao comum. Quando a distância encurtou, foi anunciado o granito que a neblina espessa, feita morrinha, escurecia, sem que à mica apagasse o luzir. Pontes como abraços. O abraço, depois. Apertado como os rebites que o ferro sustentam. Ou o corpo. Ou o ser.
Havia fumo de castanhas em Santa Catarina. Bulício. Fachadas de outras eras, desta, com vidros a palmos do chão, escorrendo ilusões de dentro para fora e ao invés, que andantes há muitos e poucos os compradores. Passos das gentes convergindo no acaso do rumo, ou nem isso - o acaso não requer intenções. O granito dobrando as esquinas e no remate das calçadas enganosas nas ruelas de má-fama que da Batalha descem para subirem à esquerda do S. João.
“Turismo Infinito”, a peça. Uma viagem ao universo de Fernando Pessoa. Dele partem e chegam o histriónico e visionário Álvaro de Campos, o guarda-livros Bernardo Soares, o “Fernando Pessoa”, o bucólico Alberto Caeiro e também Ofélia – a única mulher que envolveu amorosamente o poeta. Uma encenação a cinza e negro de onde emergem, pelo meio, os corpos dos actores e a fala. Na fila atrás, a Catarina Furtado distraía ansiedades compondo riso da voz que o Nuno Baltazar partilhava. Em palco, o João Reis trovejou a voz futurista do Álvaro de Campos. Aplausos e encore passados, de volta à morrinha e ao granito e às luzes de ouro baço dos candeeiros. À exaltação fluida da mais doce intimidade.
Publicado por Teresa C. às dezembro 11, 2007 12:36 AM
Comentários
Finalmente!
Publicado por: j às dezembro 11, 2007 09:50 AM
Que bem dito passeio.
Puârto... claro;
vê-se logo!
Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 11, 2007 06:05 PM
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Publicado por: Minderico às dezembro 11, 2007 06:34 PM
Gireuse!
Quem é esta?
Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 11, 2007 07:26 PM
J. - Teve que ser. A Foz, a louca fruição do que o Porto que amo tem para dar. O Porto da minha infância, da jovem e da mulher. A cidade vetusta que o meu bem-amado Siza não logrou estragar, malgré o atentado na Avenida dos Aliados - O que lhe terá passado pela cabeça, Santo Deus?!...
Gosto tanto de o saber aqui...
Pirata-Vermelho - Puârto não. Porto que em vias de extinção devem estar os abrangidos pelo estereótipo.
A gireuse? Não faço a mínima ideia quem seja. A de lá cima identifico.
Minderico - Divulgar o excelente é preciso.
Publicado por: Teresa C. às dezembro 11, 2007 08:53 PM
"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro…"
[Mário de Sá Carneiro]
...E também das mouras para os dragões, do mistério para o fogo e dos "lampiões tristes e sós" do Rui Veloso à "Cidade Branca" de Tanner e de todos nós.
Como são reconfortantes estas travessias, sulcando as pontes que nos reconciliam com o nosso outro lado.
"Turismo Infinito?" Parece-me uma maravilha!
Publicado por: Alba às dezembro 11, 2007 09:09 PM
fiquei com uma inveja saudável!
Publicado por: anita às dezembro 11, 2007 11:58 PM
Estou pasmo como conseguiu fazer seu apartamento tão próximo do mar! Parece até estar grudado! No mínimo é prático para a muda.Lindo sorriso Tati.
:o)
Publicado por: justo às dezembro 12, 2007 12:10 AM
Perde-se o estereotipo, perde-se o Gráund'Puârto, canudo!
Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 12, 2007 12:19 AM
Alba - Adorável maneira de me lembrar o Mário Sá Carneiro! Essa qualquer coisa de intermédio que permanece mudando no tempo ou nos lugares.
Anita - É de momentos assim que é composta a felicidade. E destes ou de outros, estou certa muitos terá para contar. :)
Justo - não é o meu apartamento, antes o abrigo que no Porto me espera.
Pirata - vai-se um, outros vêm tão ou mais saborosos quanto aquele. Por exemplo, essa do c'um canudo já não ouvi.
Publicado por: Teresa C. às dezembro 12, 2007 07:21 AM
Mundernizou-se, o Porto...?
Uma perda insuportável.
A travestização, em Lesboua, engendrou
"Trapezistas, andróginos, papagaios alfabetos, palhaços pobres e ricos, tigres amestrados, magos e contorcionistas: há de tudo. [Já cá tinhamos alguns, um tanto provincianos mas agora] Vieram por três dias, a cidade ficou em quarentena e, ansioso, o mundo espera por resultados. A meio da semana, tudo recomeça, mas só com um grupo
selecto que vem assinar nos Jerónimos a inútil constituição europeia alcunhada de Tratado.
CIMEIRA, tratado, declaração e estratégia: todas de Lisboa, para engrandecimento da pátria! Ao lado do Presidente da União Europeia, português de lei, o Presidente da Comissão, outro português de gema. Portugal, Lisboa e Sócrates saem deste rodopio famosos, prestigiados e com uma nova projecção internacional. Parece que o papel de Portugal no mundo foi assim reforçado. Que muitas novas oportunidades serão criadas. E que se deu um passo essencial na construção da paz e da
segurança mundiais. SERÁ NECESSÁRIO, para obter segurança, dialogar com criminosos, apertar a mão a torturadores, tratar quaisquer déspotas de democratas, esquecer guerras e fomes, deixar entre parêntesis a corrupção, alimentar a cleptocracia e debitar, com ar confiante, longos discursos de lugares-comuns optimistas congratulatórios? Será que o preço que
tem de se pagar pela paz inclui a criação e a manutenção de uma Nomenclatura internacional imune, impune e "off shore"? Será que o
próprio desta casta é o hotel de cinco estrelas, o caviar, os vintages caríssimos, a trufa branca e os aviões transformados em lupanares de
luxo?
A CIDADE DE LISBOA, como qualquer outra nas mesmas circunstâncias, ficou em estado de sítio. Em qualquer canto da cidade, de repente, uns
nervosos polícias mandam parar carros e desviar transeuntes, ou atiram para as bermas tudo o que vive, a fim de dar lugar a luzidias
comitivas de topos de gama barulhentos e sirenes emproadas de importância. Estivéssemos nós sob ameaça nuclear e a diferença não seria grande: perímetros proibidos, áreas de segurança máxima, locais protegidos pela Armada e pela Força Aérea, centenas de gorilas mais ou menos disfarçados e milhares de soldados e polícias nas esquinas ou
pendurados nos telhados. Dezenas de carros blindados transportam estes senhores do pavilhão para o hotel, do centro de congressos para a sala
de jantar. A distância que os separa de pessoas normais mede-se em centenas ou milhares de metros. Têm medo de tudo, dos colegas, dos
terroristas, dos opositores, dos criminosos, dos acidentes e das pessoas em geral. É cada vez mais o retrato da vida política actual: longe de todos, com receio de tudo. Mas com infinita arrogância.
É TRISTE O ESTADO a que chegou o mundo! Triste e irreversível. Se mudança houver, será para ainda pior. Os políticos vivem, deslocam-se, governam, reúnem e decidem como se fossem perseguidos, como se estivessem permanentemente cercados. Políticos, estrelas de cinema, bilionários e chefes da Máfia vivem assim. Rodeados de guarda-costas e protegidos por exércitos, são acompanhados por enormes comitivas a que não faltam médicos, enfermeiros, ambulâncias, cozinheiros, provadores, jornalistas e "escort services". Alguns não dispensam astrólogos,
feiticeiros, psicólogos e "personal trainers". Os que, a exemplo de Sócrates, exigem correr ou fazer exercício mandaram reservar partes da
cidade para poderem queimar toxinas e ser filmados em privado. Os políticos e seus poderosos equiparados vivem num mundo à parte, têm a sua própria geografia e governam-se pelas suas leis. De vez em quando, para serem filmados, esbulham o espaço público. A democracia trocou o
Fórum e a Assembleia pela Nomenclatura e pela reserva de privilegiados. Os políticos olham para os povos como se estes fossem incómodos para as suas encenações. Mas os povos olham cada vez mais
para os políticos como usurpadores e parasitas.
EM PORTUGAL, os próximos dias, semanas e meses, vão ser de intensa propaganda. As glórias do governo e de Sócrates serão equiparadas aos
mais altos feitos da história. Tudo para o bem e a grandeza do país. A impecável organização dos festejos será elogiada por toda a gente. O
discurso do Primeiro-ministro será mostrado como jóia rara e dele se dirá que ascendeu ao estatuto de líder mundial. Repetir-nos-ão, centenas de vezes, que Portugal está na linha da frente. Da paz, do diálogo, da cooperação, dos direitos humanos, da democracia, da ajuda ao desenvolvimento e da humanidade em geral. Pobre país que jubila com os cenários de pechisbeque, mas persiste na linha de trás da justiça,
da produtividade, da educação e da desigualdade social!
DIZEM QUE OS CONFLITOS, quando atingem níveis insuportáveis, trazem a paz. Mas também dizem que as grandes festas de concórdia e espalhafato
anunciam o conflito, a violência e a miséria. São coisas que se dizem..."
(«Retrato da Semana» - «Público» de 9 de Dezembro de 2007)
Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 12, 2007 11:49 AM
Desculp'a transcrição mas! lembrou-me o princípio e o fim do prefácio de um livreco que fiz há mais de dez anos e que vem mesmo a calhar
(nem que seja para estragar alegrias vagas ou cumplicidades ociosas)
---
'Ando com um pensar transmontano!
Do tinto do Vale de Pradinhos e do aeródromo de Bragança. Pelo requinte de sabor do primeiro, pela empolgância da viagem ao segundo; pela singeleza de mentalidades, em terceiro.(...)
O Clube Grand Avenue, os que o enformam, encabeçados por políticos, manequins, futeboleiros, polichinelos de ventríloquo e outras estrelas de ocasião, perpetua assim o seu encanto na vacuidade folclórica, lasciva e violenta dos variados figurinos que nos impinge, indiscutivelmente aceites como suporte de um Estado-Feira-Popular.)
Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 12, 2007 11:55 AM
Pirata-Vermelho - "Ando com um pensar transmontano!
Do tinto do Vale de Pradinhos e do aeródromo de Bragança. Pelo requinte de sabor do primeiro e pela empolgância da viagem ao segundo. Pela singeleza de mentalidades, em terceiro.
Ando também com um pensar leviano.
De viagens ao mundo sem fim. Pela evasão simplista ou em procura do outro, mais fácil, que há em mim. Aparências que invariavelmente me repõem num lugar atípico de cidadão especulativo e apoquentado. Também apoucado; pelo desenrolar de impunidades a que nos sujeita a pública inversão dos papéis.
A governanta não era aquela senhora cheia de responsabilidade e muito consciente da sua missão e do seu lugar lá em casa? Era! Era escolhida para governar e governava. Nela se depositava grande confiança e dela se tinha, em contrapartida, o apreço merecido. Tornava-se frequentemente uma amiga, como se fosse da família.
Referências pouco um tanto provincianas e distanciadas…
Por cá, o desfile de modelos eróticos é mais feérico e deslumbrante. Dos propriamente ditos, na publicidade e na moda, aos galantes governantes, que parece terem esquecido a quem deveriam mostrar serviço competente. Acham-se porém com ‘cargos de chefia’; dignos de escolta…
Os governantes são o modelo picaresco da sua própria deturpação e de uma política, consolidada, oportunista e invertida, que se queria industriosa nos intuitos, equitativa nos preceitos e corajosa nos momentos. Nunca se tornam amigos! Nem de si próprios; atormentados por inúmeras tropelias arrivistas, pela sombra de impotências várias e auto-apunhalados nas costas, num acto de contorcionismo grotesco.
Ou seremos nós, senhorios, que não sabemos designar e vigiar a tarefa de quem escolhemos para governar a casa? De facto, deste lado, nem um vislumbre de consciência do abuso de confiança ou da usurpação de lugares; nem um resquício de reflexão e de inventividade. Tudo terra-a-terra, na alegria sintética e triunfalista de uma pequenez compulsivamente disfarçada de abundância!
E com que sacrifícios!… De gerir a vidinha suburbana, a ida semanal ao cinema, a mensalidade a pagar, a imagem a manter, o ginásio, o supermercado, o carro novo, a fatiota, a mota d’água! Como se por aí passassem as condições da salubridade mental…
Em resultado da implantação massiva de uma atitude íntima acrítica, não se discute hoje a consistência do modelo – nem a sua aplicação imediata – não se discute a estética da atitude pública – nem a sua função intrínseca – e não se discute a fachada das arquitecturas – nem a sua radiante mediocridade. Não se discute nada! Por falta de tempo. E de alento.
Nestas condições, a genérica imitação de modelos epistemológicos importados apressadamente só o pode ser ‘por baixo’. Tanto porque, sendo produzidos por delegação e em grande quantidade, são mais baratos, como porque, sendo de discurso imobilizado e repetitivo, são mais viáveis e frequentes.
O Clube Grand Avenue, os que o enformam, encabeçados por políticos, manequins, futeboleiros, polichinelos de ventríloquo e outras estrelas de ocasião, perpetua assim o seu encanto na vacuidade folclórica, lasciva e violenta dos variados figurinos que nos impinge, indiscutivelmente aceites como suporte de um estado-feira-popular."
Um texto divino que não podia ficar pelo sabor-a-pouco que nos deixou.
Publicado por: Teresa C. às dezembro 12, 2007 06:00 PM
(malvadesgraçada... eu te dou o sabor a deus!)
Publicado por: -pirata-vermelho- às dezembro 12, 2007 06:28 PM
Por aqui tão próxima, portanto. :)
Publicado por: angela às dezembro 12, 2007 09:25 PM
Este post tinha texto? :)
Não evitei reparar no ar feliz da moçoila! ;)
Beijos e bons passeios!
Publicado por: João Mãos de Tesoura às dezembro 12, 2007 11:09 PM
Angela - Próxima de...?
João Mãos de Tesoura - Está feliz, sim. É assim tão notório?
Beijos muitos e melhores passeios. ;)
Publicado por: Teresa C. às dezembro 13, 2007 08:58 PM
ó jójó não chateies.
Publicado por: cândida às julho 16, 2008 01:07 PM