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janeiro 18, 2008
ATÉ MAIS, E OBRIGADO PELOS PEIXES!

Nem lastimava o tempo que demorara a dizer "so long, and thanks for all the fish." Nem disso se lembraria não fora o diabo à solta que na véspera atordoara meia Lisboa. Enxofre composto deitado à rua. Cheiro a ovos podres. A Diabo. À crendice no ser antropomórfico com cascos fendidos, cauda e chifres. A Inferno. A ele. Àquele que lhe infernizara a vida e ao filho. Que nem saberia dizer se o corpo que durante anos a cobrira, até o nojo sobrevir, fora arrendado a Satã. Porque fora lago de fogo e enxofre a casa em que empenhara amor e ilusões a troco de uma paz podre. Lugar de tribulação e angústia. Lugar espiritual e geográfico, afiançava, desmentindo a concepção. O Inferno fora sítio e vida.
Consumira a parte melhor de si nas sucessivas traições dele. Adivinhadas antes do entulho das provas ser impossível de esconder sob o capacho da entrada. Onde ele limpava os pés, entrando em casa sujo de outras mulheres. A dor dos telefonemas anónimos. Detalhes que não pedira. E ouvia. O fogo queimando-lhe entranhas e a esperança numa redenção que tardava e ele prometia para a aquietar. Conhecendo a mentira da promessa. Esperança que nem o chegava a ser. Mas ia ficando. E explodia. Como na véspera, em Penamacor, pela velocidade transónica dos F16, assustando gente e coelhos. Também ela quebrara o vidro que, então, era. Fendera a parede que interpunha para proteger o filho. Sem conseguir.
Após o dia do basta, renasceu. Deixou o cabelo solto pelas costas. Despediu rancores. Inaugurou a Mulher. Ao volante, embalada nas palavras da telefonia, lembrava a véspera de enxofre e explosões. As dela, porque do mundo estivera alheada. A hora de almoço revolta nos lençóis do amor clandestino. A pressa da despedida. O amigo que de longe descia a Lisboa. O café combinado. O hotel dele ali ao lado. O manuscrito que trouxera e nem chegaram a ler. A vertigem. O proibido. Corpos cruzados. A casa, depois. O Pedro e ela chegando ao mesmo tempo. O beijo. O que não esperava e teve de ser. Sem que o Pedro desconfiasse do que fora o dia e dos punhos cerrados dela. Ou lhe dissesse, como os golfinhos ao abandonarem o semi-destruído planeta Terra: “Até mais, e Obrigado pelos Peixes!”.
CAFÉ DA MANHÃ
“Vem hoje a notícia, no Correio da Manhã: sobre a possibilidade de as brigadas anti-dopagem poderem entrar em qualquer ginásio (repito: qualquer) e poderem ter acesso aos cacifos dos seus utilizadores (repito: todo e qualquer cliente dos ginásios) e obrigá-los a fazerem exames mesmo contra a sua vontade.” Entrem no meu e duvido que sobrevivam sem uma apoplexia a dose tão bem servida de mulheres passarinhando nuas.
Publicado por Teresa C. às janeiro 18, 2008 01:13 PM
Comentários
Isto é lindo....
Isto dá uma imagem maravilhosa...
"Ou lhe dissesse, como os golfinhos ao abandonarem o semi-destruído planeta Terra: “Até mais, e Obrigado pelos Peixes!”."...
Golfinhos...Delfins...
Beijos.
Publicado por: Justo às janeiro 18, 2008 08:12 PM
Magnífico, Teresa!
Tanta força nestes gritos abafados, sufocados contra toda a vontade da pele, durante tanto tempo!
Lembrei-me da canção do Ivan Lins que a Simone cantou de forma tão mágica - "Começar de novo".
Porque é disso, e dessa força telúrica que lhe está implícita, que nos dá conta este post excepcional.
Publicado por: Alba às janeiro 19, 2008 01:57 AM
Justo - Sobre este texto já nos entemos lá mais cima. ;)
Alba - Sei que me repito, mas a sua opinião quanto aos meus textos é preciosa. Tal como ler o que escreve - aprendo sempre.
Publicado por: Teresa C. às janeiro 21, 2008 02:26 PM