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janeiro 09, 2008

DE LAÇO E AVENTAL. SÓ.

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H. Sorayama

Lá fora, morrinhava. Dentro, escaldava. O magnífico lombo de bacalhau, as batatas e a couve tronchuda. Mais tarde, roupa-velha nova. Entretanto, fumegava a cozedura. Eu. Nós. Tu de avental e laço de seda pintado à mão. Só. As vidraças do solo ao tecto condensando vapores. Da tensão erótica latente. Do cocktail que um Porto vintage fundamentara. Das saudades por mitigar. Antes, fora o encarnado em tiras acetinadas, a costura da mesma cor dividindo as meias, os sapatos de verniz. Encarnados. De salto fino. O casaco de pêlo aveludado. Pelo joelho. O cabelo despenteado. Louco. Como nós. E tu de laço. Depois, de laço e avental. Só.

Quando da gaveta saiu a colher de pau, senti um baque. Uma fífia na perfeição travessa. E não vinha da Ella Fitzgerarld, tão pouco da magnificência do som cujas minudências técnicas dominas e delas exiges o melhor. A dissonância estava na colher de pau. Não que um “asae” tivesse deslizado sob a porta, mas pela insidiosa culpa que a propalada e normativa assepsia instala no (in)consciente das gentes.

Hoje, deram à costa noticiosa as lâmpadas de baixo consumo. Da Grã-Bretanha chegou nova do risco que representam para a saúde. Por terem mercúrio e outros metais pesados, quem delas contar portas-adentro mais que seis (esta não entendi, mas vendo pelo mesmo que me custou), agrava a probabilidade dos danos. Por essa altura, ruminei – demorou um ror de tempo convencer o povo a juntar uns dinheiros para investir em iluminação poupada na conta da luz e no ambiente; eis que logo a diabolizam! Tenham dó! A questão é simples: se as lâmpadas tidas por amigas da carteira partirem, o pó metálico obriga a ventilar durante quinze minutos a divisão, pegar nos pedaços com luvas de borracha e depositá-las nos adequados serviços camarários. O mesmo com as fosforescentes.

Tanto perigo, tanto controlo, tanta dispersão do que conta... Tamanho distanciamento do conceito de liberdade do Luiz Pacheco – ser livre até à libertinagem (distinta de devassidão). Como o encarnado das fitas acetinadas e dos sapatos de verniz. Como tu de laço e avental. Só.

Publicado por Teresa C. às janeiro 9, 2008 06:30 AM

Comentários

"De laço e avental. Só". Que as lâmpadas sejam apenas o pretexto para que as luzes se apaguem. Por instantes de suprema e saborosa "refeição".

Publicado por: Dobra às janeiro 9, 2008 09:11 AM

pelo que de Luís Pacheco ainda vai sobrando em nós, Bom dia!

Publicado por: mcorreia às janeiro 9, 2008 09:36 AM

E é mau... fiufiufiu

Publicado por: fallorca às janeiro 9, 2008 07:42 PM

Dobra - e que refeição! Da roupa-velha às outras, iluminadas sempre, salvo as que interrompem o sono.

MCorreia - que muito sobre e permaneça e não seja esquecido o supremo valor da liberdade.

Fallorca - Se é, se é...

Publicado por: Teresa C. às janeiro 10, 2008 11:03 PM

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