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janeiro 31, 2008
O SOFISMA DO AQUI-D’EL-REI

Foram desenganados os «simples» que julgaram apaziguados críticos e utentes do Serviço Nacional de Saúde por via da mudança na tutela do respectivo Ministério. Aqui-d’el-rei que o Correia de Campos até estava no bom caminho! A volatilidade das opiniões críticas desculpando-se pela conjuntura ou por sofismas equivalentes. Afinal, o ex-Ministro é um sabedor cujo pecado se resumiu à pressa reformativa e a gerar insegurança na maioria portuguesa privada do conforto dos seguros de saúde. Seguros de pouca serventia para beneficiários que habitem longe das urbes centrais – à mesma sujeitos às ambulâncias dos bombeiros ou do INEM nas emergências médicas pré-hospitalares.
Pessoa que muito prezo, ambiciona uma pasta governamental – preferencialmente a de ministro pelas exclusivas viagens e para segurar o báculo do poder. Orientar e corrigir políticas. Aceder a mordomias que o pagante nem configura. A pasta de secretário de estado seria remedeio, de pronto aceite, pelas mesmas razões. Na Cultura sentir-se-ia peixe na água. Ganharia aqui propriedade o termo caldo - de interesses, pressões, despiques e invejas. Comuns nos governados em qualquer área da governação. Por que ser português inclui boa dose de espírito poucochinho.
CAFÉ DA MANHÃ
“Mas a vida em sociedade é mesmo isto, procurar a revolução para quebrar os interditos e acomodar-se a criar os novos interditos.”
Apenas um gajo e nada mais
Publicado por Teresa C. às 08:36 AM | Comentários (5)
janeiro 30, 2008
UMA RELAÇÃO TENTE-NÃO-CAIA

Tinham uma relação tente-não-caia. Ele dizia-a o sonho maior. Ela ruminava que aquilo não era homem, mas bacilo alojado em parte incerta. De tão dorida, não fora sofrível a classificação nos jogos de amor ou do que lhe faça a vez, chegara a julgá-lo vício. Coisa pior – objecto de redenção. Isso fora pelo meio do que ela chamara saison turbulenta – quando uma “esposa”, fartinha de enfeites na testa, põe à porta os tarecos do homem de duas décadas, ele entra em histeria, depois tem espasmos de homem-bom-infeliz, para continuar, ressabiado, a carreira de amante-intrujão.
Esgotada pela coisa ruim que lhe esvaía o equilíbrio emocional, congeminou antibiótico eficaz. Quando a ideia lhe rasgou o espírito, o primeiro impulso havia sido de rejeição. Fosse pela urgência de cura, ou pelo adianto da insanidade, mirou a ideia, escrutinou a valentia e decidiu. Por sms seguiu o convite para um half blind date (o que passa pela cabeça de uma doente!). Informou-o do ponto de encontro - o mesmo do regresso. Da hora de um e do outro. Do objectivo – a despedida. O convite foi aceite.
Tudo correu como o aprazado. Ele romântico. Ela deslumbrante. Ele sequioso. Ela controlada. Explosiva quando quis. Referida a impossibilidade de uma despedida. Por ele. No limite do check-out, cumpridas as formalidades, ela sugeriu um café na placidez da esplanada da praça central. O sol descaído no zénite por um Outono recém-chegado. Com um sorriso magnífico, disse: “foste o único ser humano de cuja existência preferia não ter sabido. Mas soube. E sei do nojo que senti. Que sinto por ti. Da certeza do teu zero na escala dos homens sãos. Não brinque o acaso, e nunca mais me verás. Ou eu a ti. Vai e tenta ser feliz.”
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 06:06 AM | Comentários (3)
janeiro 29, 2008
DA BLOGOSFERA QUE CONHEÇO, A GRÁVIDA MAIS LINDA

Hilly
"VIDA DE PRENHA - A SÉRIE INEVITÁVEL"
Publicado por Teresa C. às 04:46 PM
OS NOVOS 7 PECADOS MORTAIS

Marta Dahlig
Esquecidas sejam a avareza, a luxúria, a inveja, a gula, a preguiça, a ira e a soberba. Mudaram os tempos, mudaram os interditos.
Autopromoção
Os quinze minutos de fama, que mencionava o visionário Warhol, bastam para os olhares se voltarem na nossa direcção. Julgarmo-nos únicos, especiais, distintos. Incharmos o ego. Quando os holofotes se apagam na precária ribalta, mergulham na obscuridade os seres que nenhum talento especial distingue.
Hiperactividade
Poucos sabem «preguiçar». A preguiça foi proscrita dos centros urbanos. É ido o tempo em que havia tempo para escutar as cigarras. Que teimo em ouvir. Nos dias que correm, inactividade é o mesmo que morte social. Sofrer por uma carreira, transpirar no ginásio, ver o filme de que todos falam, ler o que acabou de sair, não ter tempo para amar. Tudo para não esquecermos o mundo. Implacável, o mundo, esquece quem somos.
Ironia forçada
O humor é de bom tom. Obrigatório o segundo sentido; agudo e fino. «O sexo e a cidade» e «Seinfeld» tiveram êxito por serem espirituosos. Como os Gatos Fedorentos. Têm graça. E a graça deles preenche o vazio da nossa.
Falsa humildade
Ser e afirmar-se ambicioso (hoje, chamam-lhe profissonalismo ou competitividade). Alguns monarcas deste milénio dizem-se adeptos de ocasional fast-food (trincarão mesmo um naco de minhocas temperado com molho de tomate e maionese hiper-calórica?). Onde reside o mal do gosto pelas coisas boas, de apreciar o fausto, ser um connaisseur e não o esconder?
Eterna juventude
Ninguém quer ser cota, ter meia-idade, ser identificado como velho. E infelizmente, como dizia a Agustina Bessa-Luís, não é por a um velho lhe faltar o desejo que renuncia ao milagre. Tememos não concretizar todos os sonhos que anos a fio preservámos - ser jovem é possuir o mundo na concha da mão. E julgamos, ao apagar os vestígios do tempo, ludibriar a genética.
Snobeira popular
Parecer snobe é pretensão dos que não têm entrada na casa dos deuses; os verdadeiros snobes, porque a têm garantida, não carecem de exibições. O espírito snobe-popularucho é milho que a “gentinha” debica (expressão à boa maneira dos snobes emergentes).
Voyeurismo
As vidas dos concorrentes das novelas da vida real são banais: acordam, lavam os dentes, discutem, amam. E vemo-los testar os limites. Assistimos porque nos toca. Por exiberem uma parte de nós. James Stewart tinha a janela indiscreta de onde acedia ao mundo que o excluía pela sua imobilidade. Dali espiava os vizinhos. Via-os despidos da polidez social. Acabaria, ainda assim, por ver a sua vida misturada com a deles, de se ver integrado como personagem e não como mero espectador. Não se passa o mesmo connosco?
Publicado por Teresa C. às 06:31 AM | Comentários (6)
janeiro 28, 2008
O “CAFÉ”, “ESPLANADA DA LUZ” OU O PORTO QUE LISBOA IGNORA

Mary Minifie
A parte fácil é a Foz. O odor a maresia nascida das ondas impetuosas. As rochas que terminam os curtos areais. Na esplanada da Luz, os assentos de lona e madeira debruçados sobre o mar. A um metro? Menos de dois, certamente. O sol que o fim da tarde deita. A tepidez que do Inverno anuncia o fim. Do frio e da morrinha. Do verde-negro das folhagens perenes. Dos troncos esquálidos e desarrumados a implorarem poda e renascer. As luzes na marginal. A Haity. Lojas de peles italianas. Diferentes. Acessíveis. Que a Lisboa rival não possui. Lugar de perdição de mouras. Desde há muito, eu.
O outro Porto é feito de teatro e concertos. A Casa da Música deslustrada pela impossibilidade de servir ópera. O São João, sala pequena e digna. Mármores e dourados. O rosa português escurecido. Os assistentes das entradas em veludo grenat. O piano no café. O cocktail do após, abobado por casca-de-ovo e ouro. "O Café" (La bottega del caffè, 1750). A Comédia Dell’arte servida por uma trupe de actores maioritariamente jovens. Revista e desestabilizada por Corsetti, o encenador, "apostado em desocultar as suas pulsões mais secretas, situando-o numa abstracção que dá pelo nome de Veneza, lugar intranquilo agitado por águas que escondem profundidades insondáveis.” E a água espirra sob os pés do oportunista e batoteiro Pandolfo, do indiscreto Don Márcio, o linguarudo local, do Trapaça, que ao nome faz jus, do falso conde Leandro, do impoluto e bem-intencionado Ridolfo, do viciado e trágico Eugénio.
As mulheres são a coragem peregrina, a esposa amante e a bailarina ambiciosa. Mulheres que numa hora e meia são figuras menores. A última hora construindo-as figuras determinantes no desenrolar da acção. Humorada. Amorável. Moralista. Mulheres impondo ao desequilibrado universo masculino valores que o bondoso Rifolfo sustenta.
Na noite mansa, houve o regresso. À intimidade. À benquista doçura. À libertina madrugada.
Publicado por Teresa C. às 06:06 AM | Comentários (2)
janeiro 27, 2008
PASSADO O TEMPO DE “LOLITA”

Alain Dumas
Seria tão difícil assim? Só queria um homem divertido, que não se levasse demasiado a sério, que fosse terno e a inspirasse. Abominava o tipo de homem cujo propósito é entrar nos vestiários dos ginásios e revelar-se em toda a sua glória aos outros homens, e, de seguida, dominar a fêmea.
O António fora a doença de que ainda convalescia. Ela, que nunca fora de esperar sentada a concretização dos sonhos, não tinha, agora, vestígio de ânimo para encetar caminhada. Para quê, perguntava-se, se no final o resumo é desassossego e peúgas alinhadas na gaveta? Joana sabia passado o tempo de “Lolita” e não lhe apetecia reavê-lo. O rosto de trinta e oito anos perdera algum brilho, embaciado pelo naufrágio de sonhos e ilusões. Ganhara pragmatismo e concluira que o sexo só a perdia se contaminado com volatilidade amorosa. O sexo arquiva-se, o amor não.
As tardes de domingo sempre lhe haviam sido insuportáveis. Já em criança era assim. Os últimos trabalhos de casa, a farda do colégio à espera no cabide, a sombra parda da segunda-feira oprimindo-a. Por isso a segunda era cinzenta, a terça cor-de-rosa, a quarta azul, a quinta cor-de-laranja, a sexta esverdeada, o sábado castanho e o domingo amarelo. Como o sorriso da tia Rosinha, doce como limão. Hoje, girava no carrocel infernal das memórias do António. Aos domingos à tarde, não havia remedeio. As amigas casadas passeavam os filhos, bicicletas, bolas e resmunguices dos maridos. Afivelado o sorriso da felicidade burguesa. Desencantadas, mas normais. Não uma coitada como a Joana - “a menina sabe, aquilo é tempo a mais para ruminar no que não deve; faltam-lhe os filhos e que fazer, percebe?”
E percebia. Bem demais. A imagem inquieta que de si devolvia. A cada semana empalidecido o amarelo dos domingos. Sem querer.
CAFÉ DA MANHÃ
"O Governo e os Zecos". Leitura que importa pôr em dia.
Publicado por Teresa C. às 09:38 AM | Comentários (3)
janeiro 26, 2008
GRANDES GESTOS E PEQUENAS COISAS

Autor que não foi possível identificar
Li existirem dois tipos de pais: os dos grandes gestos e os das pequenas coisas. Os primeiros são protectores sempre que o perigo espreita. Preocupam-se. Adiantam soluções. Os outros somam à generosidade a interpelação dos nossos silêncios E lêem as hesitações mais subtis. Não têm a solução para os nossos problemas, mas vivem-nos connosco. Sem grandes gestos, a família pouco é. Mas são as pequenas coisas que permitem aos pais tornarem-se a cada dia melhores.
Quando não desistimos de procurar ao longo da vida grandes gestos que nos protejam, a família será sempre um «presépio». Podemos ser o marido ou a mulher, mas não prescindimos da condição de Menino Jesus. Se buscamos as pequenas coisas, retocamos a vida toda o mesmo «presépio». O marido ou a mulher que escolhemos são fantasiados como substitutos dos pais. Mesmo gerando outras vidas, faremos sempre de filhos. Idealizando um parceiro que nos leve pela mão e adivinhe. Um erro - quem nos ama espera amor adulto e livre. Diferente do amor filial. Libertador. Finalmente, protagonistas das pequenas coisas e dos grandes gestos.
CAFÉ DA MANHÃ

Hoje, aqui no Porto, o SOS RACISMO - Porto realiza, "a partir das 22h, uma tertúlia no Pinguim Café com a projecção de um episódio (fantástico!) da Cidade do Homens (do mesmo realizador e equipa da Cidade de Deus).
Entre copos, sorrisos e algum fumo (sim pode-se fumar!) vamos conversar e brincar à volta da interculturalidade.
A noite promete ainda com a presença dos djs Sreamin Zenhas e Cabrot que nos vão dar música na onda blues & rock and roll."
Publicado por Teresa C. às 09:36 AM | Comentários (7)
janeiro 25, 2008
NADEGUEIROS FUMADORES

Michael Zavros
Afinal, há muitos homens bonitos em Lisboa. Penitencio-me das vezes que lhes sublinhei a falta. Da desilusão dos olhares que passeei, no tédios das filas do trânsito, pelos condutores laterais e pelos peões masculinos. Mulheres bonitas são fáceis de encontrar. Mas eles... Quanta penúria, dizia eu! E dizia mal. E provei que o empirismo não arrecada conclusões atinadas. Que sendo reduzida a amostra em ensaio, a tese não sai legitimada. Porque os há, embora fardados de aspirantes a executivos lambe-botas e com chip yes-man integrado. A surpresa é tamanha que dou por mim a perdoar-lhes a ocupação do espaço no passeio que tinha em vista para estacionamento piscado a quatro num vou-ali-volto-já.
E porque só agora me dou conta desta benesse visual? Pela recente aplicação da lei antitabágica. No pós-pandrial, apinham-se, fumando nos passeios. Esgotando o ócio precário que os anime para o regresso às alturas dos open spaces assépticos e cinzentos. Aos novelos de cabos e monitores. Enquanto não “bazam” e continua omisso o lugar para enfiar a viatura, configuro-os embalados num polo e nuns jeans – teste rigoroso e de conclusões fiáveis acerca da altura das pernas e do nadegueiro. Em número aceitável alcançam pontuação satisfatória.
A estrangeiro que nos visite pender-lhe-á de pasmo a queixada perante os ajuntamentos de fumadores na soleira dos edifícios e passantes fumando. Fumando sempre. Dos portugueses dirão que “fumam com uns turcos”. Para já, e como consequência primeira, baixou o consumo na restauração. Um café já não pede assento e um queque a meio da leitura do jornal. O “na tua, na minha ou na vossa?” ganha expressão face ao “onde?” costumado. Que até nem acho mal – sou daquelas que sempre preferiu o convívio doméstico ao dos lugares vezeiros. Bares e “sítios da noite” estão às moscas, das que voam entenda-se, que as outras nem o vinagre as afugenta. Na Irlanda, no primeiro ano pós-lei, encerraram mais de doze mil estabelecimentos de restauração e lazer nocturno. Por aqui, palpita-me, ainda a procissão não saiu do adro. Quando sair, quero ver o desfile dos andores.
Publicado por Teresa C. às 09:30 AM | Comentários (2)
janeiro 24, 2008
O ACASO DOS AMANTES

Ricardo Casal
Falas de adereços. Do flash. Dos movimentos em câmara lenta. Das sombras talhadas na parede. Do foco e do corpo e das mãos que as talharam. Instantâneos os registos. Perenes nos arquivos da memória. No refúgio onde as sabemos. Ao lado, a vida igual. Dos outros. Por momentos cruzados no patamar. Connosco. O acaso dos amantes. No elevador descompondo o que à saída é perfeito. Como em qualquer dobra do tempo e do espaço onde o desejo ferva. E não cuidamos de esconderijos por não existirem novelos. Há o laço que nos une compondo melodia a dois. Ouvida em silêncio enquanto a das mãos e dos lábios e da pele coreografa um blues ou um fado. A música forrando de cetim as paredes. Aveludando o azul.
De pouco servem históricos partilhados quando leituras divergentes os embaciam. Também a cedência à unanimidade é nota fora de tom que desmente a harmonia. Melopeia tediosa. Esboços de fugas. Fugas (pre)meditadas. Sorrisos e alegria e prazeres abortados no dois-uno que um dia pareceu fazer o pleno na mesa dos jogos por conhecer. Mas não há vidas-uma sem música comum. Sem tempo ou desejo ou engenho que a componha e ensaie. Porque as vidas-uma são felizes. Inventam lugares e gestos. Sabores. Dias úteis que legitimem a fruição dos ócios. Que à fadiga da cidade contraponham o vagar. A ternura. As incontáveis minúcias de quem não se acomoda ao avesso de um blues.
CAFÉ DA MANHÃ
Minha querida, quanto me honra a sua escolha para este prémio! Muito obrigada.
Publicado por Teresa C. às 12:09 AM | Comentários (3)
janeiro 23, 2008
QUANDO A MORTE DESCE À RUA
Autor que não foi possível identificar
O “Síndroma da Morte Súbita” mata bebés entre os 0 e os 12 meses de vida e não tem explicação cabal. Supõem os investigadores estar associado à postura da criança durante o sono e/ou a um deficiente funcionamento do tronco cerebral. Normalmente, a morte sobrevem em poucos minutos. Os dois recentes falecimentos de crianças, uma delas presumivelmente devida ao SMS, infectou a chaga aberta pelo encerramento de alguns hospitais e centros de saúde. Os populares das localidades de Anadia e Carregal do Sal entraram numa espiral de irracionalidade compatível com a exacerbação emotiva das multidões.
Não conhecendo em detalhe a realidade de ambas as localidades, sei bastante da cidade beirã que regularmente me acolhe. Possui Centro de Saúde e Hospital. No fora-de-horas-úteis do Centro de Saúde, quem recorre ao hospital, sendo grave o estado clínico, reconhece-lhe a função de empata – no mínimo, uma hora de espera até que o único médico disponível avalie a situação; outro tanto para chegar a única ambulância local, frequentemente ocupada no transporte de doentes para a Guarda.
Pela falta de clínicos especialistas dispostos a fixarem-se no local, decorre, também, a ausência de recursos técnicos. É um logro manter aquele hospital em funcionamento. Fosse a situação convenientemente pensada, testada e explicada, configuro razoável a aceitação popular da substituição dos limitados socorros por outros mais eficazes, conquanto afastados curtas dezenas de quilómetros. A deslocação garantida por ambulâncias em número suficiente, bem equipados humana e tecnicamente. Tudo possível num cenário do qual estivessem arredadas rixas de baixa política, tortuosas e incendiárias dos ânimos mais primários.
CAFÉ DA MANHÃ
No actual plano de formação dos clínicos especialistas, somente alguns, poucos, hospitais garantem especialização condigna dos licenciados em Medicina. Um médico tem, aproximadamente, trinta e um anos no final da formação complementar. Entretanto, constituiu família, comprou habitação e o cônjuge adquiriu a estabilidade profissional possível na região da residência. A deslocação dos especialistas, neste contexto, obriga a estímulos por via da contratação, ou outros (desde há dois anos, alguns foram contemplados), que viabilizem a transferência para regiões carenciadas. Aspecto decisivo a ter conta: ao afastarem-se dos hospitais centrais, os médicos perdem contacto com patologias e técnicas de ponta que, por si só, garantem fatia importante da indispensável e contínua aprendizagem. Muito tem que mudar - uma legislatura não chega e as anteriores pouco ou nada fizeram como prova o estado avançado do cancro na Saúde - para ficarem sarados os profundos males da actual rede de serviços públicos nesta área.
Publicado por Teresa C. às 06:35 AM | Comentários (4)
janeiro 22, 2008
CRENTE. APOSTÓLICA. ROMANA?

Jim Warren
Sou crente. Católica. Apostólica. Romana muito pouco, malgré o meu gosto por Roma, cidade de muitos retornos. Este detalhe, para muitos essencial, faz de mim uma católica desnaturada, incoerente ou dúbia? No meu entendimento a questão nem se põe. Nada e criada numa família tradicional pouco frutuosa em rebentos por via dos “consagrados” à vida religiosa – sou espécime único em três gerações –, tive a fortuna de um crescimento assistido por uma tia freira. Menina e adolescente lindíssima, foi completar os estudos secundários no Colégio do Sagrado Coração de Maria na Guarda. Afastada da família, namorico adolescente para trás, já da Ordem não saiu. Mulher belíssima, dona de um espírito profundo e vivaz, culta e viajada, enternecia-a a sobrinha curiosa. Devo-lhe a abertura precoce de horizontes intelectuais. Não lhe toldava a fé o espírito crítico que também contemplava a hierarquia católica. Então, como hoje. Numa comunidade religiosa francesa e em França, continua o que entende ser a respectiva missão no meio operário. Com alegria e sem desfalecimento. Esta resenha tem por fim explicitar o meu entendimento liberal do que é “ser Igreja”.
Ser ateu – descrer de qualquer deus ou entidade divina. Aceito. Não é questionável o meu respeito por aqueles que se afirmam ateus. Divirjo quando acusam as religiões de originarem guerras e terrorismos. Aceitaria a afirmação das crenças espirituais terem constituído a desculpa perfeita para adquirir, consolidar ou alargar poderes recorrendo às armas. Divirjo quando fundamentam o ateísmo na incoerência ou na ditadura das cúpulas hierárquicas religiosas. Quando olham, sobranceiros, para os crentes como intelectos débeis apoiados numa bengala divina. Quando afirmam, como se deles fosse exclusiva pertença, a fé nos humanos. Que partilho, não sendo ateia.
Os agnósticos não entendo. Defino um agnóstico como alguém que não acredita ser possível a prova da existência de um poder superior – Deus. Provem e acredito; não provando, espero para ver. A altivez dos agnósticos é servida em dose dupla – ateus e crentes uns pobres de espírito por julgarem ter resolvido o problema da existência de Deus. Como se um sim-ou-sopas respondesse a inquietação tão profunda nos humanos, dirão eles. Este é, a meu ver, o erro maior do agnosticismo - o sim ou a recusa do divino não se explicam, sentem-se. Os argumentos lógicos são habilidades. Científicas também. Mas a fé não é, nem será nunca, o símbolo químico do Ferro, como afirma Onofre Varela.
CAFÉ DA MANHÃ
- A celebração do Dia Mundial da Religião teve início nos Estados Unidos há 53 anos por iniciativa da Assembleia Espiritual Nacional. Inicialmente estabelecido para o terceiro domingo de Janeiro, foi ontem comemorado.
- “As religiões surgiram para tentar responder a uma série de perguntas que sempre estiveram presentes:
- de onde vim?
- para onde vou depois que morrer?
- viverei mais de uma vez?
- como foi gerado o Universo?
Publicado por Teresa C. às 06:42 AM | Comentários (4)
janeiro 21, 2008
EVENTUAL FRANCHISING TERRORISTA

Carol D. Adams
Não gostei da notícia sobre um eventual atentado em Portugal, perpetrado por dois eventuais paquistaneses, eventualmente disponíveis para escaqueirar um bem luso e os eventuais passantes no lugar. Assim, à primeira, não me ocorre nada que possam ter debaixo de olho, salvo o óbvio mote do anedotário nacional – a Assembleia da República. Chistes, aliás, de mau gosto como prova este que corre de boca-em-boca: "Que bom seria se um deputado tivesse febre aftosa; peste suína; ou gripe das aves. Aí... seríamos obrigados a sacrificar todo o rebanho." Quem assim fala ignora a importância de um rebanho na economia de subsistência de muitas famílias rurais. Mais: desconhecem que são contaminados pela doença viral apenas os animais com cascos fendidos. Que os deputados não têm. Que eu saiba. Quero dizer, cascos. Fendidos é pormenor irrelevante. Podem ser casca-grossa, mas que outros poderia gerar o nosso povo?
É deselegante menosprezar assim o extremo ocidental da Europa. Ainda se o Bin Laden nos tivesse levado em conta... Mas não! Enviar dois eventuais funcionários de um eventual franchising terrorista sito num lugar ignoto, mostra insuportável desdém. Vale-nos a eficaz segurança nacional em alerta. Mesmo quando não está, é como se estivesse. Não reparam nos detalhes, e depois afligem-se com bombas noticiosas como esta! Algum forasteiro numa das nossas cidades consegue dar, à primeira, com a rua que procura? Não, claro que não! A sinalização urbana é má ou inexistente para nos proteger. Terrorista que chegue, vê-se à nora para dar com o alvo e não há mapa que lhe valha. Um sentido único de hoje, é duplo amanhã ou proibido anteontem. Teriam que pedir informações. Só que estamos à coca e na esparrela não caímos. Podem tentar confundir-nos com a infelicidade duma rosa em celofane. Sem resultado. Somos argutos. Tão argutos que para testar se é explosiva a mochila que um suspeito traz às costas, não se nos dá aplicar uma valente palmada em jeito de boas-vindas. Como quem não quer a coisa, claro!...
CAFÉ DA MANHÃ
"Os primeiros quarenta anos de vida dão-nos o texto, os trinta seguintes o comentário"(Shopenhauer)
Publicado por Teresa C. às 06:23 AM | Comentários (3)
janeiro 20, 2008
BUSCA: "ANA MALHOA"

Keith Garv
Nos motores de busca nacionais, o nome da Ana Malhoa ocupa o lugar cimeiro e deixa recuado o do Ronaldo. Admito o pasmo quando ouvi a notícia. Na diagnosticada condição depressiva, a tender para o crónico, dos portugueses e que merece unanimidade do povo e dos opinion makers, esperava resultados diferentes. Alguns deles: “défice”, “taxa de endividamento”, Prozac, “(des)emprego”, “política para a saúde”, Xanax, “atraso nos processos judiciais”, "evolução prevista no preço do barril de petróleo”, “combater o stress”, “insucesso escolar” ou mesmo “venenos que não deixem vestígios” já a pensar nos desesperados que esperam anos a fio por um divórcio que expulse os biltres violentos que têm em casa. Mas não. Nada disto. Ana Malhoa foi a curiosidade maior dos portugueses.
Reavaliando a questão, e após o assombro inicial, iniciei um período de reflexão especulativa, recusando embora, enfiar no Google o nome da dita senhora. Pelas imagens servidas por um canal noticioso fiquei vagamente elucidada do tipo e tamanho dos atributos que a recomendam. Digamos que, neste particular, ao esquecer a experimentação, transgredi as normas de qualquer procedimento científico que pretende provar uma teoria.
O raciocínio que fui amanhando entre um café e o arrumo do “despenseiro” da cozinha, deve servir à maioria dos portugueses. Quiçá explicar o fenómeno. Segue junto:
1 – “a minha vida é uma merda”;
2 – “não foi para isto que os meus pais me fizeram”;
3 – “o que faço não é reconhecido”;
4 – “quem manda está-se cagando para mim”;
5 – “em casa só engordo eu e a patroa; o dinheiro mingua a olhos vistos”;
6 – “jogo no Euromilhões todas as semanas”;
7 – “mereço melhor”;
8 – “a Ana Malhoa não manda e é boa”;
9 – “quero a Ana Malhoa”.
CAFÉ DA MANHÃ
O Kitsch em alta
Já um Ministro da Economia como este é coisa fina. Olá se é!
Publicado por Teresa C. às 11:53 AM | Comentários (2)
janeiro 19, 2008
WHO KNEW IT WAS SO FUN TO BE A HOOKER?

“Who knew it was so much fun to be a hooker?” é a pergunta associada à inesquecível cinderela do século XX – Julia Roberts. É indiscutível o paralelismo entre a versão contada por Charles Perraut no final do século dezassete, e o guião escrito por J.F. Lawton que Garry Marshall traduziu no filme "Pretty Woman". Neste há um noivo que intimida a jovem prostituta Vivian, na história da "Gata Borralheira" existe a omnipresente e cruel madrasta. Ambas, Vivian e a Cinderela, conhecem os respectivos príncipes num baile, pois mais não é do que pas de deux na coreografia da vida o encontro da prostituta com o bem sucedido homem de negócios que a contrata como acompanhante. Cinderela e Vivian com os percusos alterados pelo amor e pelo poder.
Na película, o vestuário da responsabilidade de Marylin Vance-Straker é o aspecto mais visível da progressiva mudança da jovem acompanhante. A caracterização de mulher-da-rua feita pelas mini-saias,licras, tops acima da cintura, decotes generosos, cabeleiras postiças e botas provocadoras. Uma aparência de ostensivo descaro. A transformação visual e de atitudes inicia-se quando Vivian percorre "Rodeo Drive" e compra na YSL, Dior, Bulgari ou Versace, esquecendo a humilhante rejeição da vendedora de uma prestigiada casa de moda francesa.
A minha cena favorita, e tenho-a vagamente de memória, é a do Richard Gere abrindo uma caixa com um colar destinado a Julia, para a fechar num repente. Encantador, naquele momento como noutros, o riso solto e natural da actriz que, não possuindo a perfeição corporal exigida, apenas deu ao ecrã o talento e o rosto - o corpo pertenceu à body double Shelley Michelle. A banda sonora de Roy Orbison completou a magia deste conto de fadas dos tempos modernos.
CAFÉ DA MANHÃ
Agradeço a generosidade deste querido senhor e deste outro, ambos estimados comentadores deste espaço, pelo destaque que alguns textos da Teresa C. lhes têm merecido.
Publicado por Teresa C. às 09:35 AM | Comentários (6)
janeiro 18, 2008
ATÉ MAIS, E OBRIGADO PELOS PEIXES!

Nem lastimava o tempo que demorara a dizer "so long, and thanks for all the fish." Nem disso se lembraria não fora o diabo à solta que na véspera atordoara meia Lisboa. Enxofre composto deitado à rua. Cheiro a ovos podres. A Diabo. À crendice no ser antropomórfico com cascos fendidos, cauda e chifres. A Inferno. A ele. Àquele que lhe infernizara a vida e ao filho. Que nem saberia dizer se o corpo que durante anos a cobrira, até o nojo sobrevir, fora arrendado a Satã. Porque fora lago de fogo e enxofre a casa em que empenhara amor e ilusões a troco de uma paz podre. Lugar de tribulação e angústia. Lugar espiritual e geográfico, afiançava, desmentindo a concepção. O Inferno fora sítio e vida.
Consumira a parte melhor de si nas sucessivas traições dele. Adivinhadas antes do entulho das provas ser impossível de esconder sob o capacho da entrada. Onde ele limpava os pés, entrando em casa sujo de outras mulheres. A dor dos telefonemas anónimos. Detalhes que não pedira. E ouvia. O fogo queimando-lhe entranhas e a esperança numa redenção que tardava e ele prometia para a aquietar. Conhecendo a mentira da promessa. Esperança que nem o chegava a ser. Mas ia ficando. E explodia. Como na véspera, em Penamacor, pela velocidade transónica dos F16, assustando gente e coelhos. Também ela quebrara o vidro que, então, era. Fendera a parede que interpunha para proteger o filho. Sem conseguir.
Após o dia do basta, renasceu. Deixou o cabelo solto pelas costas. Despediu rancores. Inaugurou a Mulher. Ao volante, embalada nas palavras da telefonia, lembrava a véspera de enxofre e explosões. As dela, porque do mundo estivera alheada. A hora de almoço revolta nos lençóis do amor clandestino. A pressa da despedida. O amigo que de longe descia a Lisboa. O café combinado. O hotel dele ali ao lado. O manuscrito que trouxera e nem chegaram a ler. A vertigem. O proibido. Corpos cruzados. A casa, depois. O Pedro e ela chegando ao mesmo tempo. O beijo. O que não esperava e teve de ser. Sem que o Pedro desconfiasse do que fora o dia e dos punhos cerrados dela. Ou lhe dissesse, como os golfinhos ao abandonarem o semi-destruído planeta Terra: “Até mais, e Obrigado pelos Peixes!”.
CAFÉ DA MANHÃ
“Vem hoje a notícia, no Correio da Manhã: sobre a possibilidade de as brigadas anti-dopagem poderem entrar em qualquer ginásio (repito: qualquer) e poderem ter acesso aos cacifos dos seus utilizadores (repito: todo e qualquer cliente dos ginásios) e obrigá-los a fazerem exames mesmo contra a sua vontade.” Entrem no meu e duvido que sobrevivam sem uma apoplexia a dose tão bem servida de mulheres passarinhando nuas.
Publicado por Teresa C. às 01:13 PM | Comentários (3)
janeiro 17, 2008
OU O INEVITÁVEL DUNHILL

Luciano
“Bucareste. A neve como o lençol contínuo que tudo apaga. Árvores, talvez bétulas, carcaças de carros em carroças, vultos de capotes em parques vazios, a semi claridade de crepúsculo, os mastodônticos edifícios do homem novo muito velho. Enormes avenidas de cenário, bolas luzindo em candeeiros geométricos. Frio no fundo dos ossos, na capa das luvas, no cachecol. Bucareste, repetindo; ou talvez Bremenhaven, ou Dresden, ou talvez Praga. Porque os aeroportos se sucedem, como as reuniões, as entrevistas e os hotéis. Sem chama nem crianças em crónicas post Gil ou Quitério, nas mesma circunvalações por templos e jardins.
Aterrar. O branco ainda branco da borda das pistas, malev, balkan, finnair... Círculos acastanhados nos controles nostálgicos de há alguns anos.
Um rosto. O rosto. Também no gelo de que se fala em mensagens, em mms, em gorros de marta ou de vison, de raposa ou coelho. Teve de ser. A mala feita num repente de um voo que quase se perdia. Sem conversa no banco do lado na passageira antiga que colige relatórios. Em silêncio. Tão urgente como um trapo que se descarta no fumo de um charuto dito sem espaço próprio. LM na mala. Ou o inevitável Dunhill.
Uma sanduíche em formato cano, a imitação de um sumo, agora que no calor do bar, o uísque se cola a todos dos uísques de todos os bares de todos os hotéis.
É Bucareste, confirma o cartão, enquanto putas jovens oscilam pernas longas em equilíbrios de refresco.
Dizer a palavra para ti como um sussurro, tão na face de uma maçã escura e doce, no redondo de uma gamba, no amargo amarelado da cerveja. Em casa, tu. A tua, o verde do limão e o laranja da cama, o lento lençol do Sana, o despertar e o pequeno almoço. Subindo e olhando do vértice da janela, o gelo que vai pingando de cabos pretos onde pousam pombos.”
Publicado por Teresa C. às 07:26 AM | Comentários (5)
janeiro 16, 2008
NÃO URINES DE PÉ

O tal de Hesíodo, que até ao lido não conhecia de parte alguma – também para educar o povão iletrado, como eu, serve a blogosfera -, era um cromo; que em todos os tempos os houve e nos vindouros também. Quis saber mais da biografia do grego, mas pouco logrei. Considerando-se injustiçado (de facto, ressabiado) com a distribuição da parca herança paterna entre ele e o irmão, encantou-se com musas que o inspiraram na feitura de poesia popular. O António Aleixo lá do sítio, mas com subjectividade elevada à enésima potência.
Do excerto acima transcrito da sua obra maior, “Os Trabalhos e os Dias” – Wikipédia dixit -, perpassa um profundo respeito pela natureza, traduzido numa cidadania polida e ecológica, a deixar longe muitos dos machos-humanos actuais. “Não urinar na via ou ao lado dela”, “na foz dos rios (...), nem nas pontes (...), nem defecar nunca” são louváveis normas de conduta. Contradição perturbadora é a validade de todas estar circunscrita ao período nocturno. De dia um regabofe, à noite civismo. E o que subjazeria ao princípio de não urinar frente ao sol? Não havia buraco de ozono e os ultravioletas eram desconhecidos. Modéstia perante o astro-rei? Fazia ele parte do Olimpo?
Parece-me contranatural a recomendação de um homem urinar sentado. Sendo piedoso, sublinha. Tão horríveis eram consideradas as partes pudendas, ou era a modéstia a razão? Bem basta o sexo feminino necessitar de assento para levar a cabo a função. Décadas atrás, e não vão muitas, as mulheres rurais erguiam um pouco as saias e a alva camisa-de-baixo, e, afastadas as pernas, soltavam águas. Giestais, hortas e penedos foram testemunhas silenciosas dos idos femininos de urinar em pé. E eram muitas as saias... Que tente mulher de hoje fazer o mesmo – até tirar os atavios em vez do “vou fazer”, concluiria “já fiz!”.
Publicado por Teresa C. às 06:27 AM | Comentários (5)
janeiro 15, 2008
SE DESFILASSE NUMA MANIFESTAÇÃO...
... seria para demonstrar a total discordância da sociedade manicaísta em que somos. Não sendo «piquena» de deixar os empreendimentos pela metade, a minha farda manifestante acercar-se-ia disto:

Luis Royo
Publicado por Teresa C. às 03:15 PM
GULAG, GUANTANAMO E BEVERLY HILLS

Deborah Poynton
Tive pena do homem. A responsabilidade de trinta e seis assaltos e três homicídios não impede El Solitário de rebelião contra o que chama a Guantanamo portuguesa - a prisão de Alta Segurança de Monsanto. O homem é de extremos geográficos, porque logo a seguir denomina-a um Gulag. Um oito-ou-oitenta que guinda a prisão de Monsanto a cárcere com pergaminhos firmados e, simultaneamente a campo de trabalho gelado e mortal. Faz mais: acusa o estabelecimento prisional de desrespeito pelos direitos humanos, entre os quais sequestro (não era suposto?) e “incomunicação”. Afirma: “Quando querem anular-nos psicologicamente obrigam-nos a despir e chegam, inclusivamente, a tocar-nos nas partes nobres”. Sem desprimor para as áreas recreativas e reprodutivas da anatomia humana, tinha por nobres o cérebro e o coração. Teve de vir um hermano baralhar-me tão básicas convicções.
Outro desgosto: andam os paparazzi, costureiros e gente comum como eu um ano inteiro à espera do glamour de Hollywood numa das suas noites maiores – a entrega dos Globos de Ouro – e sai a pepineira duma conferência de imprensa num hotel de Beverly Hills. Meia hora bastou para o anúnico dos vencedores. Os Globos seguiram pelo correio. Adeus números fantásticos das passadeiras encarnadas, dos flashes das lágrimas e dos agradecimentos e dos olhares viperinos dos perdedores. Tudo á conta de uma greve. A dos guionistas, no caso. Lá como cá, as greves são uma maçada - não adiantam nem atrasam os direitos dos trabalhadores, e furam planos de muita boa gente. Não fora abrirem os pulmões dos manifestantes que com elas coincidem em marcha lenta pelas ruas, e a chacota da guerra de números entre serviços e sindicatos, arriscaria chamar empatas às actuais greves. Ainda se calhassem numa “ponte” ou alongassem um fim-de-semana... Mas não!, nem este serviço me prestam enquanto assalariada.
CAFÉ DA MANHÃ
“De repente descobriram que a inflação está descontrolada, que não há dinheiro para pagar as contas e que as diversões populares como autoflagelar-se em público, execuções de adúlteras e queimar bandeiras americanas, nada disso está a dar. Acabou-se a ameaça nuclear que mexeu com todos os demónios ocidentais e a festa acabou. É um pouco a versão jihad daquela história do "se não tens dinheiro, não tens vícios". A lição que devemos tirar deste caso é que cada vez que um país se armar em bom, do tipo vou ter a bomba atómica, tenho suicidas que me farto e coisas assim, devemos ignorá-los e deixar que chegue o fim de mês. Mais nada. Eles lá se arranjam sozinhos. As casas, as tendas, os camelos, os desertos, a fusão nuclear... os bancos, esses impolutos defensores da paz, ficam com tudo.”
Publicado por Teresa C. às 06:46 AM | Comentários (9)
janeiro 14, 2008
OS BANHOS DAS MINHAS "AMIGAS"
Dispensam recomendações deselegantes. Almas lavadas, as comentadoras habituais deste blogue, cuidam do corpo assim:


Donald Rust e Earl Moran
Ela e Dobra


Elvgren e Joyce Ballantyne
Alba e MCorreia
OS BANHOS DOS MEUS COMENTADORES


Trajan Venn
A e B


Jeff Cohen e Trajan Venn
C e D
O J., o Minderico, o Fallorca, o Justo, o Nilson Barcelli e Apenas um Gajo que decidam quem é A, B, C ou D.
Que não me levem a mal - uma inocente gracinha de fim de dia só faz bem.
Publicado por Teresa C. às 05:39 PM | Comentários (10)
PERDOAI-LHES SENHOR! SÃO UNS TRISTES!

Michael Bohbot
“Tantas palermices... tantas...! Perdoai-lhes Senhor! São uns tristes...!” Escreveu um Viajante que não há meio de desandar para paragens que tenha por mais amenas. A bem dizer, estamos na presença de um espírito sofredor com tendências masoquistas. Não gosta, não aprova, não se revê no que escreve a Teresa C., mas fica. Mói. Presumo que doendo-lhe um dente, adie a consulta ao dentista que o mal lhe extirparia pela raiz, e prefira lamuriar, qual Calimero adulto com retardado desenvolvimento emocional. Aliás, os queixumes podem ser adição mais ruim que o tabagismo. Pondero mesmo sugerir que nos lugares públicos, a par do símbolo da proibição de fumar, surja um outro assinalando ser interdito lamuriar. É certo que ao começo, funcionários e utentes emudeceriam por falta de assunto – o essencial diz-se numa penada e repartição que se preze, leitaria de bairro, encontro de amigos ou espera no Centro de Saúde pouco ficariam a dever ao recolhimento numa igreja. As operadoras telefónicas entrariam em depressão lucrativa. As filas de atendimento diminuiriam nos serviços públicos e a eficiência seria ruptura insuportável com a tradição portuguesa. O eu-sofro-mais-que-tu não teria oportunidade de expressão. Perdida a troca de lástimas que tanto nos conforta – "porra!, há quem esteja pior que eu..." - ficaremos a braços com as próprias desditas que adoramos inventar(iar). Impingir aos incautos que apanhamos a jeito. Pela verbalização, exorcizar.
Há mais: não nos caracteriza o espírito cartesiano. Prezamos divagações. Subjectivar uma constatação. Na falta de argumentos lógicos, a condescendência é recurso que tenta esconder a preguiça, menoridade ou vazio intelectual. Apelar à infinita paciência de Deus é pecha comum dos espíritos indolentes. Como o “Deus te perdoe”, o “Deus te ilumine” ou o “Deus te valha”. Arrogando-se quem assim fala do privilégio de entendimento preferencial com o divino. Com acesso ao número verde que o liga ao Olimpo. Sem operadora de permeio e música de xilofone entretendo a espera. E, ao recambiar alguém para a celestial compaixão, fica o expedidor sobranceiramente convicto da superioridade do próprio estatuto. Que tem. Afinal, não haveria Correios sem mangas de alpaca que, como autómatos, depositam em tabuleiros de plástico a correspondência.
Publicado por Teresa C. às 06:02 AM | Comentários (0)
janeiro 13, 2008
TERESA: FIQUEI TRISTE CONSIGO.

Dorian Cleavenger
“Teresa:
Fiquei triste consigo. Um é incompetente, o outro não passa de agente técnico. Não deve avaliar as pessoas pelo que vestem mas sim pelas verdades que não mostram. Estou admirada como se identifica com esta "GENTE". Não gosto de "tias" nem de "tios". Sou de esquerda mas não da "mentirosa".
(Diatribe de uma comentadora ao texto Alcochete, Armani, Prada e Paris-Dakar)
Décadas passadas sobre a implantação da democracia em Portugal, é lastimoso constatar como os cinquenta anos anteriores ainda hoje expõem consequências profundas no pensar e estar de muitos de nós. A necessidade de antanho de arrumar no bom e no mau as opções dos intelectos, identificar na paleta das cores somente o preto e o branco, na vida em sociedade o sensato e o danado é trágica. Assim espartilhados os pensares, são excluídas as mudanças que entretanto vieram e deveriam traduzir-se pela abertura do leque mental. Exército de preconceitos impede o exercício duma cidadania livre e crítica, interventiva como é suposto, tolerante na sua essência. Mas não. Porque é mais fácil o rótular que reflectir, apaziguam-se as almas com os básicos quadros conceptuais.
Faz ainda sentido falar de esquerda e direita? Salvo nos extremos da bamba corda política, considero ociosa a classificação. Nos momentos eleitorais, são cada vez mais aqueles que optam de acordo com a consciência das suas expectativas e avaliação do até então alcançado. Mostram-se indiferentes às gaiolas partidárias, não se revendo em nenhuma delas. Porém, atentos à conjuntura nacional, não desistem da intervenção cívica através da independência do voto. A maioria silenciosa que a cada eleição ganha mais peso, é, também ela, fonte de ensinamentos que não convém descuidar.
Abandonemos de vez os estereótipos que cada um e todos empobrecem. Por esquerda e direita entendo a lateralidade que de pequeninos nos ensinaram bem como o código fácil do discurso político. Que os espíritos cresçam e adquiram a maioridade de que tanto precisamos.
Publicado por Teresa C. às 09:40 AM | Comentários (0)
janeiro 12, 2008
DEBATES E BITAITES QUE ABUTRES LAMBEM

Carlos Diez
Das mulheres é referida alguma leviandade na escrita. Distracção das preocupações cimeiras da sociedade portuguesa. Tendência para o auto-retrato. Para o diário de bordo. Para a frivolidade no pensar. Ou para o diário. Tout court. Como se fosse um mal. Depois há as outras. As incontestadas, citadas e reconhecidas. Clara Ferreira Alves uma delas, á qual, de resto, devo o “no penis, no envy” que, traduzido, viria a baptizar este blogue. A Clara F. A., como a Inês Pedrosa ou a Maria Filomena Mónica. Mais existem. De quando em vez, metendo os pés pelas mãos como soe acontecer a quem possui convicções e não teme olhares ou pensares alheios. A muitas mulheres cronistas é passado atestado de menoridade crítica (intelectual?) e são comparadas, por baixo, com os seus pares.
Ponhamos as pintas nos is. O pensar crítico não tem sexo. O valor dos intelectos também não. Deste decorre o apuro na forma e a substância do discurso escrito, igualmente distribuído entre homens e mulheres. A diferença constatada é a de alguns serem propensos a levarem-se demasiado a sério. Elas, no quotidiano tocando dezenas de dó-ré-mi, têm alinhamento de prioridades consentâneos com a profissão, gravidez, amamentação, compras no supermercado, consulta da Laurinha no dentista, apoio aos pais idosos. Comparados com o empenho profissional, o mundo dos afectos e a saúde dos amados, as inúmeras frivolidades políticas – o trágico de hoje é omisso amanhã - são nadas que, lucidamente, incluem no rol do ocioso. E fazem bem. E vêm longe. E reservam a intervenção para os grandes momentos da vida portuguesa. Não tantos quanto respeitados opinion makers fazem crer.
O ontem acontecido neste blogue, em que não me escusei a tomada de posição quanto às últimas decisões do Executivo, foi paradigmático. A Teresa C. pode falar de (des)amores ou generalidades sociais, mas dizer o que pensa quando a controvérsia impera, as paixonetas partidárias estão ao rubro e os bem-pensantes abundam, não. E foi tomada à letra a irónica provocação da vestimenta Armani e calcantes Prada. Aconselhada a autora a não botar discurso sobre questões essenciais da política nacional, como se a gestão do bem-estar económico e afectivo das famílias não fosse mais decisivo para o sucesso do povo que a localização de um aeroporto. Do que debates e bitaites sobre o desemprego, a saúde, a justiça e outras feridas, tragicamente ainda expostas e que os abutres lambem.
Reitero o meu apoio a muitas das mudanças destes dois últimos dois anos. É fácil botar faladura crítica. Difícil é ser consequente. Mas, até agora, entre erros e avanços não me lembro desta coragem política de cortar a direito. Ou tentar, o que, por si só, é refrescante. A liderança do presente Executivo tem sido inesperado vento de mudança. Que o sopro arrojado não passe a assobio pré-eleitoral, é o que de melhor os portugueses podem esperar. Eu entre eles.
CAFÉ DA MANHÃ
- Agradeço todas as intervenções relativas ao texto de ontem. Esclareço que qualquer comentário que colida com o espírito tolerante deste blogue é apagado - como anfitriã do espaço, é direito que me reservo. A quem não aprovar a orientação do “Sem Pénis, Nem Inveja” solicito a fineza do não-regresso. Uma coisa não faço – lavar as mãos como Pilatos.
- Esquerda/Direita. Que dicotomia é esta, afinal? Tratarei do tema amanhã.
Publicado por Teresa C. às 08:49 AM | Comentários (11)
janeiro 11, 2008
ALCOCHETE, ARMANI, PRADA E PARIS-DAKAR

H. Sorayama
Gosto do Engenheiro Mário Lino. É simples – não confundir com simplório – e mantém simpatia nos contactos pessoais. Entendo-lhe a espontaneidade. O discurso informal. As argoladas institucionais. Perdoo o “jamais, jamais!”, o “deserto” que começa no final da Ponte 25 de Abril e que, de acordo com a famosa boutade, bem podia ter servido para o Paris-Dakar. Com vantagem – os alentejanos são pacífica e hospitaleira gente, pouco dados a guerrilha, raptos, assassínios ou explosões. Aliás, com o “deserto” aqui tão perto, nem sei porque a organização do rally desistiu da edição deste ano. Mudava de sítio e pronto! Sericaias e encharcadas, mais sopa de cação e ensopado de borrego esperariam os estafados pilotos e respectivas equipas técnicas no final de cada etapa. Animavam-se os lugarejos que apenas reconhecem pertença à Europa porque os mapas o confirmam. Viria à rua o povo, os troços da competição teriam arcos com flores de papel e luzes e dizeres de encorajamento. Encimando os chaparros, focos laser cruzariam o céu. Um must inesquecível na história do Paris-Dakar.
Gostei de ver o engenheiro Sócrates – um engenheiro-primeiro-ministro que arrebenta com a tradição do nosso atávico deixa-andar, veste Armani e calça Prada honra qualquer país – anunciando a localização “quase” definitiva do novo aeroporto. De uma cajadada matou três coelhos – escreveu “The End” no guião da novela que há mais de uma década se arrastava penosamente e, en passsant, distraiu o povo do referendo-sim-ou-não, bem como dos cêntimos pagos aos pensionistas em suaves prestações.
O deserto a sul do Tejo está, portanto, em vias de extinção. O futuro aeroporto sito em Alcochete, mais a nova travessia Chelas-Barreiro facilitam a demanda pelas paragens alentejanas. Afiam os dentes as construtoras, as imobiliárias, a Luso Ponte, empresas de hotelaria e serviços. Depois, há o previsto shuttle - uma espécie de foguetão em monocarril seria ideal. Deixaria roídos de inveja os franceses – o que liga Paris a Orly, comparado com o nosso, será peça de museu. Três vivas: dois para os engenheiros Sócrates e Lino, um para o bom senso português. Avante Portugal!
CAFÉ DA TARDE
Há quem tenha a supina e deselegante lata de afirmar menor a escrita das mulheres ao pensarem a sociedade e o tempo em que são. Três exemplos que contrariam o sofisma da senhora com um reizinho ressabiado no umbigo:
- Há qualquer coisa no Obama que, francamente, não, obrigada.
Também conta que nem o blogue ou a sua autora possam com esse discurso zapatero (a política é feita por gente muito má que invade países e mente à fartazana, menos por mim que sou super bonzinho e só quero mudar, mudar, mudar) do Obama. Too much Oprah, que queres que eu te diga...
Publicado por Teresa C. às 02:02 PM | Comentários (23)
janeiro 10, 2008
VERBO-DE-ENCHER

Autor que não foi possível identificar
Não há paciência para tanto verbo-de-encher - porque o Executivo recua nos cêntimos retroactivos, ou falha promessa eleitoral e não referenda o que está na cara ser ocioso referendar. Mal comparado, mais parece conversa de vizinhas costurando má-língua enquanto penduram peúgas e cuecas no estendal. Faz lá sentido discutir o luso estatuto de pau-mandado europeu, quando nem em bicos-de-pés chegamos ao calcanhar económico e cultural da maioria dos ex-países de Leste? Há duas décadas, eram ditos os últimos dos últimos na Europa; hoje, têm muito para ensinar. O sumário da primeira lição poderia ser: “Concretizar uma economia de sucesso apenas em vinte anos.”
Se o pretendido for gastar uma dinheirama, os mesmos de sempre a discutir o que o povo não conhece e nem por isso ficará a conhecer, de sua graça Tratado de Lisboa, entendo. Pretexto para desancar o statu quo governamental, também. Mas haja pudor! Falar em exigências democráticas é utopia sem cabimento no que à população concerne, artifício mal enjorcado se a recolha de dividendos políticos for a mais que provável razão. Só de pensar em tempos de antena partidários e carripanas debitando slogans trombetados, bandeiras bailarinas nas mãos e comícios e secções de voto para contar espingardas eleitorais, tremo. Pelo disparate. Pelo uso cínico da oportunidade plebiscitária. Pelo dinheirão constante na pesada factura de qualquer máquina eleitoral. Inevitavelmente emperrada na ignorância dos fracos-de-espírito, ou na má fé dos astutos. Hipócritas, certamente.
Publicado por Teresa C. às 08:04 AM | Comentários (2)
janeiro 09, 2008
DE LAÇO E AVENTAL. SÓ.


H. Sorayama
Lá fora, morrinhava. Dentro, escaldava. O magnífico lombo de bacalhau, as batatas e a couve tronchuda. Mais tarde, roupa-velha nova. Entretanto, fumegava a cozedura. Eu. Nós. Tu de avental e laço de seda pintado à mão. Só. As vidraças do solo ao tecto condensando vapores. Da tensão erótica latente. Do cocktail que um Porto vintage fundamentara. Das saudades por mitigar. Antes, fora o encarnado em tiras acetinadas, a costura da mesma cor dividindo as meias, os sapatos de verniz. Encarnados. De salto fino. O casaco de pêlo aveludado. Pelo joelho. O cabelo despenteado. Louco. Como nós. E tu de laço. Depois, de laço e avental. Só.
Quando da gaveta saiu a colher de pau, senti um baque. Uma fífia na perfeição travessa. E não vinha da Ella Fitzgerarld, tão pouco da magnificência do som cujas minudências técnicas dominas e delas exiges o melhor. A dissonância estava na colher de pau. Não que um “asae” tivesse deslizado sob a porta, mas pela insidiosa culpa que a propalada e normativa assepsia instala no (in)consciente das gentes.
Hoje, deram à costa noticiosa as lâmpadas de baixo consumo. Da Grã-Bretanha chegou nova do risco que representam para a saúde. Por terem mercúrio e outros metais pesados, quem delas contar portas-adentro mais que seis (esta não entendi, mas vendo pelo mesmo que me custou), agrava a probabilidade dos danos. Por essa altura, ruminei – demorou um ror de tempo convencer o povo a juntar uns dinheiros para investir em iluminação poupada na conta da luz e no ambiente; eis que logo a diabolizam! Tenham dó! A questão é simples: se as lâmpadas tidas por amigas da carteira partirem, o pó metálico obriga a ventilar durante quinze minutos a divisão, pegar nos pedaços com luvas de borracha e depositá-las nos adequados serviços camarários. O mesmo com as fosforescentes.
Tanto perigo, tanto controlo, tanta dispersão do que conta... Tamanho distanciamento do conceito de liberdade do Luiz Pacheco – ser livre até à libertinagem (distinta de devassidão). Como o encarnado das fitas acetinadas e dos sapatos de verniz. Como tu de laço e avental. Só.
Publicado por Teresa C. às 06:30 AM | Comentários (4)
janeiro 08, 2008
JÁ NÃO HÁ GALDÉRIAS

Autor que não foi possível identificar
Falta situacionismo em Portugal. Falta aroma levemente anarquista na vanguarda artística e política, apoiada em teorias críticas à sociedade de consumo e à cultura mercantilizada. Falta a crença (utópica?) dos indivíduos construírem as situações das próprias vidas no quotidiano, cada um explorando o seu potencial de modo a, prazenteiramente, romper com a alienação dominante. Sem comunismos a prazo. Recusando o autoritarismo do Estado e a gaiola burocrata.
Um par de jornais e noticiários, outros tantos debitados pelas televisões, e confirmo que a vidinha nacional é como novela cujo fio da meada se agarra num piscar de olhos - o BCP, o Joe, a CGD, as interpelações parlamentares pelo tem-que-ser, leões e águias em crise – olha a novidade! –, os aumentos ridículos dos pensionistas. Lá por fora a coisa não melhora. Nos States, a Clinton e o John Mccain continuam a perder pontos a favor dos respectivos competidores, Barack Obama e Ron Paul. Estes delinearam estratégias online, autênticas máquinas de guerra “hi tech”. Parecem resultar.
A bomba noticiosa não vem da velha Albion, mas de França – o Sarkozy pediu em casamento a Carla Bruni. Segundo dizem, para evitar confusões. Estando prevista visita oficial à Arábia Saudita, um alto diplomata saudita pediu ao presidente francês que não leve a namorada. Alegou “motivos religiosos”. De facto, a estrita interpretação da lei islâmica proíbe ficarem sozinhos um homem e uma mulher que não sejam legalmente casados. Vários hotéis negam-lhes mesmo hospedagem. Ora, fosse a Bruni uma galdéria com respeito pela casta e tradição, mandava os sauditas às malvas, não casava e fruía da divina condição de amante sorridente e divertida entre lençóis. Ou fora deles, por que a galdeirice não escolhe ocasiões. Mas não. Vai casar. Após um matrimónio e vinda a prole, repetir a dose. Tornar-se, oficialmente, uma mulher honesta. Perder lugar na história francesa pelos bons ofícios de galdéria. Comme il faut.
Publicado por Teresa C. às 06:21 AM | Comentários (6)
janeiro 07, 2008
ANOITECI...


Amanda Wachob e Alan Stevens
... Mais para a esquerda do que para a direita, com vestígios de pinheiro no cabelo, purpurinas pelo chão e encaixotados os despojos das Festas. Agora, sim, começou o ano. Bem-vinda seja a rotina!
Publicado por Teresa C. às 08:24 PM
DE MINI-SAIA E DECOTE NÃO SENDO PROFISSIONAIS

Ken Martin
Numa tirada do Pirata-Vermelho fui desafiada a escrever “sobre as mninas que com o tal frio do carasssas também andam de mini-saia e decote... não sendo profissionais.” Se há pico que me incomode é deixar sem resposta um desafio. Estando virgem em desistências a picardias gostosas, derramarei a atávica modéstia do meu pensar sobre tema que me formiga.
A mulher queriam casta e modesta. Conformadas à condição de parideiras, a ocasionais desfastios no leito conjugal e à cega obediência às normas instituídas. A hipocrisia colectiva cedo preveniu condimentadas ousadias nas atitudes e no trajar como indícios tresandando a devassidão. Daí à putice física era um passo, ou, menos do que isso, à delicodoce transgressão que as portas dos fundos e os véus e a filha-da-putice-d’alma absolviam. Como agora.
Persistem as matronas d’antanho. O zelo censório, também. Soberbo vale de mamas semi-exposto, à domesticidade conformada merece oblíqua, rancorosa e frustrada condenação por muitas elas e eles. Uns e outros armados armados em impolutos e bem mandados paus sociais.
Vinda dum “frio do carasssas”, enchi a alma de belezas várias, entre elas a esplendorosa visão de mulheres lindas e decotadas com imaculada elegância, mini-saias desdobradas em pernas esbeltas e saltos altos. “Profissionais”? Injusto o rótulo pelo excesso de oferta e preconceito. Antes vi mulheres seguras que da sensualidade retiram prazer. E, bem calçadas - com botas e botins arrojando himalaicas alturas, forrados a pêlo dos pés ao cano -, combinam conforto e graça. Imitei-as, comprando um par de botas-pantufas com tacão sobranceiro. Na rua, não quero outro caminhar. Pesa no meu coração o arrependimento de ter limitado às que uso a compra. Existem alturas em que a parcimónia é pecado sem absolvição.
CAFÉ DA MANHÃ
1 - Anda por aqui alguma alma caridosa que me ensine a colocar etiquetas no rodapé destes meus devaneios?
2 - Aconteceu no país alguma coisa de extraordinário entre o dia 29 de Dezembro e o de hoje? É que nem unzinho noticiário vi ou ouvi. Este bem-aventurado a leste do nacional termina hoje. Um briefing dava-me arranjo e prevenia algumas das minhas usuais leviandades.
Agradeço, antecipadamente, respostas pacientes.
3 - Last, but not least, transcrevo esta mensagem: "Pode ser quixotesco. Ridículo. Mas tamanha foi a minha irritação (e não só de fumador) - que descrevo em http://ma-schamba.blogspot.com/2008/01/fumador.html - que me meti a fazer uma moção (tem a forma padrão de "petição" mas não é uma petição: não pede nada, exige). Se atingir um número razoável (conceito nebuloso) de assinaturas enviá-la-ei a quem manda na legislação e na execução - a Assembleia da República, apesar deles.
A Moção por Salas de Fumo nos Aeroportos encontra-se em http://www.petitiononline.com/SalaFumo/petition.html.
Muito agradeço a quem a assine e/ou divulgue. Fumador ou não fumador.
Nem mais! Para escravatura já basta o que bastava.
Publicado por Teresa C. às 06:16 AM | Comentários (5)
janeiro 06, 2008
E OS HOMENS DO NORTE, CARAGO?

Greg Horn
Nota Económica
Os economistas avisam. Miguel Beleza concorda. Baixar, para breve, os impostos é insensato. Porém, 50% das mulheres do Norte e 40% dos homens sulistas afirmam, convictos, que urge a diminuição. E o que pensam as mulheres do Sul? E os homens do Norte, carago? Indiferentes, ou não contam para as estatísticas?
CAFÉ DA MANHÃ
"Violando o segredo dos deuses alguém transpirou: o Ministro das Finanças é candidato ao prémio Nobel da Física. Descobriu uma nova partícula subatómica, o pelintrão. Corpo sem massa que aguenta qualquer carga."
Publicado por Teresa C. às 12:57 PM | Comentários (0)
janeiro 05, 2008
NEM ODE, NEM SAI DE CIMA

Barn Dog
Continuam magras as vacas. Pela seca dos pastos, pela atávica pelintrice nacional em recursos humanos e materiais, pela miopia politiqueira, pelo ramerrão social. Mudanças auguradas, desconfiança dobrada – assim fomos, somos e seremos. Depois, há a rija como um pêro, tradição do “nem ata, nem desata” que a riqueza vernácula traduz pelo magnífico “nem fode, nem sai de cima”. Isto para quem copula com vagar, porque demoras no coito dos arrumados por contrato ou instalação habituada, é celebração anual. Quando é.
O zelo fiscalizador dos novos polícias de costumes, os técnicos da ASAE, está em alta. Olhando de baixo para cima a quase totalidade da Comunidade Europeia no que é recomendável, para trás têm ficado medidas coerentemente estruturantes. E, bem à moda do galo de Barcelos, agigantamos a crista para distrair da lama patilhada. Na fúria da normalização para o faz-de-conta que somos o que não somos, vão à lamela e medem-se com craveira e palmer as castanhas dos vendedores de rua, os próprios vendedores, os enchidos e mais o tudo que seja artesanal. Não tarda, serão catalogadas as desobediências ao tamanho médio europeu das mamas, rabos e pendentes-entre-pernas dos cidadãos. E mais o que vier a seguir, por que dou por certo só parar esta tendência padronizadora quando, por pessoas, forem entendidos uns humanóides rigidamente iguais, saídos das linhas de produção industrial.
Escreveu um comentador: “E que tal padronizar a escrita de modo a que, p'a próxima, eu possa ler o que o distribuidor de correio me deixa grafolhojado no aviso de correio registado? Chamava-se caligrafia, permitia que todos escrevessem de modo a serem lidos - excepto o médico, o d'antigamente...- e está completamente abandonada porque é trabalhoso e também porque, tal como na Idade Média, estamos a assistir à (re)condução das pessoas comuns a um estado de iliteracia e de analfabetismo –homólogos - que as afastará dos privilegiados dominantes? ó rait... yá!”
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 12:19 PM | Comentários (4)
janeiro 04, 2008
NEM SEI SE RIA, OU SE CHORE

Alain Aslan
Regresso ao quotidiano. Às notícias que o não são. Ao parado, paradinho, sempre atrás e macambúzio Portugal. Que amo ainda assim. Ou por ser assim, que nem me entendo neste gostar desvalido. Penam as gentes e encarquilham o escasso sorriso. Regresso ao trabalho. Presumo normalidade. Presumi mal – os funcionários aprumados descompuseram o estar. Pelo início da manhã, já a privação da nicotina estendia braços e debruçava corpos nas janelas. “Não estou a fumar dentro do edifício, pois não?” - Pois não, mas sim, levando à risca o cumprimento do rol de interditos que inaugurou 2008.
Pelas bátegas de chuva e por admoestação zelosa houve fragor no fechar das janelas. E queixas. E fúria incontida. Entram em cena os desenrascas – “Somos uns parvos subservientes que tudo aceitamos sem rebelião!”, “Abaixo a saúde forçada! Qual saúde? Ainda nem é meio-dia e abeiro-me dum colapso.”, “Ou depressão, que se deprimido era o povo, agora ensandece de vez.”, “Cai a pique a produtividade sem a dose de adrenalina mortalhada que emprestava algum alento...”, “Bora lá fazer peditório para construção de um telheiro sobre a porta principal?” E eu pasma. Gente tranquila perdia o nacional-porreirismo à conta de meia dúzia de fumaças. Eu naquela – nem sei se ria, ou se chore pelos idos galhofeiros da malta reunida. Dei por mim apoiando o alevantamento contra a imposição. Quero lá saber da saúde, do novo sinal de adianto cívico! Por quantos diabos havemos de imitar dos maiorais o fácil? Ainda nem sequer convalesço de uns dias de economia pujante - Hermès, Fendi, Balenciaga, Dior, Gucci, Yves Saint Laurent, Valentino, Chanel, mais o resto da tropa fandanga que me revira os olhos servida por cultura e alegria nas ruas -, e tiram-me à má fila a bonomia no local do trabalho? Ora bolas!
Publicado por Teresa C. às 08:09 AM | Comentários (0)
janeiro 03, 2008
A MULHER DOS MIL REGRESSOS

Noite. O avião pousou-me na terra que amo: Lisboa. Não mais que outra, a minha Beira, ou outra, o Porto das paragens nas férias de Verão, das raízes que também por menos de vinte e sete quilómetros por ali viram crescer a menina deslumbrada com os cheiros das bouças, a rapariga apaixonada pelo descobrir do mundo, mais tarde a mulher dos mil regressos e das íntimas transgressões. Inocentes, as mais das vezes. Cumulando pela ousadia saberes e modos de estar. Que preserva. E inova. E legitima. Ínfima fracção do aprendido. Parte integrante do ser.
Regresso de uma cidade mágica. Enfeitiçou-me ao primeiro respirar. Sítio de fadas e castelos e palácios como os das estórias que a mãe lia para eu adormecer. Botas de neve rasando o chão e as memórias e o antigo-novo que descobri. Cinco dias de sortilégios. Magos descendo, do lugar, as encostas. Árias de ópera e concertos e violinos e jazz. Ruas. Bairros. Pontes. Praças. O rio cortando ao meio a cidade. No cemitério judeu fui concha recolhida. Sem lágrimas, por que a tragédia humana é ensinamento e no coração torno solidário pelo que não vi, mas sei e agora testemunho nas incertas doze mil lápides que escondem para cima de cem mil restos onde outras tantas almas habitaram.
Não estou cansada – tenho o corpo feito às caminhadas. Não sinto nostalgia pelo vivido. Não lamento o regresso – tanto dele preciso como da partida. Fui, sou feliz. Perdoada seja a subjectividade da mulher que escreve e esta denúncia da sua felicidade ingénua.
CAFÉ DA MANHÃ
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Publicado por Teresa C. às 07:45 AM | Comentários (10)
janeiro 02, 2008
ACORDAR V

Autor que não foi possível identificar
“Descansa agora. Todas as asas batem em cadência de espuma. Sorve. Dorme essa espera que adorna na manhã. Como a origem, a saudade esconde-se no cálice. Bebe. Afasta e desenha a cor escura que aparece. É assim, ou direi, foi...”
Publicado por Teresa C. às 09:56 AM
janeiro 01, 2008
ACORDAR IV

Steve Hanks
“Era em (...), mas todos os orientes tem um lado duplo que se aguarda. Em texto, na escama de signos que caem como peças, quando mais uma voz se escuta na baía. Hong Kong também nessa partida para lá.”

“Eléctricos vermelhos e creme percorrem a cidade. Paro no Diavolo, amigo velho dos livros de ópera. Passo também onde Mozart estreeou D. Giovanni. (...) “Junto ao rio, parado nos degraus, olhando a sala Smetana.”

Autor que não foi possível identificar
“Talvez aqui não volte. Kafka continua efabulando em janelas pequenas de esquadria escura. Um castelo pardo tolda-nos os olhos em vertentes de água”
Publicado por Teresa C. às 11:58 AM