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janeiro 25, 2008

NADEGUEIROS FUMADORES

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Michael Zavros

Afinal, há muitos homens bonitos em Lisboa. Penitencio-me das vezes que lhes sublinhei a falta. Da desilusão dos olhares que passeei, no tédios das filas do trânsito, pelos condutores laterais e pelos peões masculinos. Mulheres bonitas são fáceis de encontrar. Mas eles... Quanta penúria, dizia eu! E dizia mal. E provei que o empirismo não arrecada conclusões atinadas. Que sendo reduzida a amostra em ensaio, a tese não sai legitimada. Porque os há, embora fardados de aspirantes a executivos lambe-botas e com chip yes-man integrado. A surpresa é tamanha que dou por mim a perdoar-lhes a ocupação do espaço no passeio que tinha em vista para estacionamento piscado a quatro num vou-ali-volto-já.

E porque só agora me dou conta desta benesse visual? Pela recente aplicação da lei antitabágica. No pós-pandrial, apinham-se, fumando nos passeios. Esgotando o ócio precário que os anime para o regresso às alturas dos open spaces assépticos e cinzentos. Aos novelos de cabos e monitores. Enquanto não “bazam” e continua omisso o lugar para enfiar a viatura, configuro-os embalados num polo e nuns jeans – teste rigoroso e de conclusões fiáveis acerca da altura das pernas e do nadegueiro. Em número aceitável alcançam pontuação satisfatória.

A estrangeiro que nos visite pender-lhe-á de pasmo a queixada perante os ajuntamentos de fumadores na soleira dos edifícios e passantes fumando. Fumando sempre. Dos portugueses dirão que “fumam com uns turcos”. Para já, e como consequência primeira, baixou o consumo na restauração. Um café já não pede assento e um queque a meio da leitura do jornal. O “na tua, na minha ou na vossa?” ganha expressão face ao “onde?” costumado. Que até nem acho mal – sou daquelas que sempre preferiu o convívio doméstico ao dos lugares vezeiros. Bares e “sítios da noite” estão às moscas, das que voam entenda-se, que as outras nem o vinagre as afugenta. Na Irlanda, no primeiro ano pós-lei, encerraram mais de doze mil estabelecimentos de restauração e lazer nocturno. Por aqui, palpita-me, ainda a procissão não saiu do adro. Quando sair, quero ver o desfile dos andores.

Publicado por Teresa C. às janeiro 25, 2008 09:30 AM

Comentários

Ora..Ora..Aleluia portanto ao bem feito mal feito de proibir.
O que é melhor que do que o aconchego de uma casa?
A TV dividiu a família. Os cinemas às moscas, lotou os bares e afins. Eu não suporto a zoeira que se faz em um bar em que a dois centímetros um do outro, temos que gritar. Gosto de falar manso, no tom da minha voz. E de ouvir vozes e não algazarra. Deixei de fumar a mais de três anos. Mas o cigarro dos outros não me incomoda em nada. O que incomoda-me?
É ver que há, cada dia que passa, mais e mais desculpas para nos afastarmos uns dos outros.
Será que a palavra "vizinho(a)" ainda tem sentido?
Beijos Tati.

Publicado por: justo às janeiro 25, 2008 04:43 PM

Justo - o conceito de vizinho tem sentido para aqueles que resistem à individualidade-rainha. E que não seja o fumo ou a falta dele a acrescer lonjuras.

Publicado por: Teresa C. às janeiro 28, 2008 10:33 AM

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