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janeiro 16, 2008

NÃO URINES DE PÉ

Stanislav Plutenko f.jpg

Não urines de pé, virado de frente para o sol:
desde que se ponha, recorda-o, e até que surja
não deves urinar na via ou ao lado dela, ao caminhar,
nem se estiveres nu. As noites pertencem aos Bem-Aventurados.
Sentado o faz um homem piedoso, que conhece a prudência,
ou encostado a um muro de um pátio recolhido.
(...)
Nunca urines na foz dos rios que deslizam para o mar,
nem nas fontes deves urinar, mas de todo evitar tal coisa;
nem deves defecar nunca; tal não é vantajoso para ti.


O tal de Hesíodo, que até ao lido não conhecia de parte alguma – também para educar o povão iletrado, como eu, serve a blogosfera -, era um cromo; que em todos os tempos os houve e nos vindouros também. Quis saber mais da biografia do grego, mas pouco logrei. Considerando-se injustiçado (de facto, ressabiado) com a distribuição da parca herança paterna entre ele e o irmão, encantou-se com musas que o inspiraram na feitura de poesia popular. O António Aleixo lá do sítio, mas com subjectividade elevada à enésima potência.

Do excerto acima transcrito da sua obra maior, “Os Trabalhos e os Dias” – Wikipédia dixit -, perpassa um profundo respeito pela natureza, traduzido numa cidadania polida e ecológica, a deixar longe muitos dos machos-humanos actuais. “Não urinar na via ou ao lado dela”, “na foz dos rios (...), nem nas pontes (...), nem defecar nunca” são louváveis normas de conduta. Contradição perturbadora é a validade de todas estar circunscrita ao período nocturno. De dia um regabofe, à noite civismo. E o que subjazeria ao princípio de não urinar frente ao sol? Não havia buraco de ozono e os ultravioletas eram desconhecidos. Modéstia perante o astro-rei? Fazia ele parte do Olimpo?

Parece-me contranatural a recomendação de um homem urinar sentado. Sendo piedoso, sublinha. Tão horríveis eram consideradas as partes pudendas, ou era a modéstia a razão? Bem basta o sexo feminino necessitar de assento para levar a cabo a função. Décadas atrás, e não vão muitas, as mulheres rurais erguiam um pouco as saias e a alva camisa-de-baixo, e, afastadas as pernas, soltavam águas. Giestais, hortas e penedos foram testemunhas silenciosas dos idos femininos de urinar em pé. E eram muitas as saias... Que tente mulher de hoje fazer o mesmo – até tirar os atavios em vez do “vou fazer”, concluiria “já fiz!”.

Publicado por Teresa C. às janeiro 16, 2008 06:27 AM

Comentários

Mulheres e homens, neste pormenor, são realmente muito distintos. Quando moleque eu era, escrevia nos muros em letras garrafais. Hoje (não o faço) mas no máximo escreveria uma manchete.Mas veja só, que o conselho é inverso ao homem."Sempre urines de pé.."
(Não no pé!)

PS:Que foi feito do cachorrinho mascote do teu blog?

Publicado por: Justo às janeiro 16, 2008 09:15 AM

a moça da pintura se parece a você, sim?! Imagino.

Obrigada pelos versos de Hesiodo. Que ótimo!

Publicado por: anita às janeiro 17, 2008 05:10 AM

Justo - Pois quanto à «Tati» nada sei dela. O nosso amigo Fallorca, quanto a isso, "fechou-se em copas" (conhece esta expressão?).

Anita - Hummm... Posso ser melhor ou pior que ela. Tenho dias, sabe?!...

Publicado por: Teresa C. às janeiro 17, 2008 10:24 PM

Sim sim...Fechou-se totalmente em copas.
\\:0)

(PS:Você também é mulher "Camaleoa"?)

Publicado por: Justo às janeiro 18, 2008 10:22 AM

Justo - mulher que é mulher é "camaleoa", sim. De manhã, afadigada e levando na mão a pasta. No regresso, qual cria perdida que só deseja a quentura conhecida. À noite, gata no cio, ronronando e miando e desejando mais e mais.

Publicado por: Teresa C. às janeiro 18, 2008 01:28 PM

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