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janeiro 24, 2008
O ACASO DOS AMANTES

Ricardo Casal
Falas de adereços. Do flash. Dos movimentos em câmara lenta. Das sombras talhadas na parede. Do foco e do corpo e das mãos que as talharam. Instantâneos os registos. Perenes nos arquivos da memória. No refúgio onde as sabemos. Ao lado, a vida igual. Dos outros. Por momentos cruzados no patamar. Connosco. O acaso dos amantes. No elevador descompondo o que à saída é perfeito. Como em qualquer dobra do tempo e do espaço onde o desejo ferva. E não cuidamos de esconderijos por não existirem novelos. Há o laço que nos une compondo melodia a dois. Ouvida em silêncio enquanto a das mãos e dos lábios e da pele coreografa um blues ou um fado. A música forrando de cetim as paredes. Aveludando o azul.
De pouco servem históricos partilhados quando leituras divergentes os embaciam. Também a cedência à unanimidade é nota fora de tom que desmente a harmonia. Melopeia tediosa. Esboços de fugas. Fugas (pre)meditadas. Sorrisos e alegria e prazeres abortados no dois-uno que um dia pareceu fazer o pleno na mesa dos jogos por conhecer. Mas não há vidas-uma sem música comum. Sem tempo ou desejo ou engenho que a componha e ensaie. Porque as vidas-uma são felizes. Inventam lugares e gestos. Sabores. Dias úteis que legitimem a fruição dos ócios. Que à fadiga da cidade contraponham o vagar. A ternura. As incontáveis minúcias de quem não se acomoda ao avesso de um blues.
CAFÉ DA MANHÃ
Minha querida, quanto me honra a sua escolha para este prémio! Muito obrigada.
Publicado por Teresa C. às janeiro 24, 2008 12:09 AM
Comentários
A "menina" hoje está inspiradíssima. Parabéns. Texto macio.
Publicado por: Dobra às janeiro 24, 2008 04:02 PM
A ternura. As incontáveis minúcias de quem não se acomoda ao avesso de um blues.
É como estar com a cabeça no travesseiro...
Publicado por: justo às janeiro 25, 2008 02:16 AM
Dobra - Obrigada. Foram macias as emoções que o escreveram.
Justo - se é, ainda mais quando o calor é paz e doce guerra.
Publicado por: Teresa C. às janeiro 25, 2008 12:45 PM