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janeiro 17, 2008

OU O INEVITÁVEL DUNHILL

Luciano Img2112a_zemsofa.jpg
Luciano

“Bucareste. A neve como o lençol contínuo que tudo apaga. Árvores, talvez bétulas, carcaças de carros em carroças, vultos de capotes em parques vazios, a semi claridade de crepúsculo, os mastodônticos edifícios do homem novo muito velho. Enormes avenidas de cenário, bolas luzindo em candeeiros geométricos. Frio no fundo dos ossos, na capa das luvas, no cachecol. Bucareste, repetindo; ou talvez Bremenhaven, ou Dresden, ou talvez Praga. Porque os aeroportos se sucedem, como as reuniões, as entrevistas e os hotéis. Sem chama nem crianças em crónicas post Gil ou Quitério, nas mesma circunvalações por templos e jardins.

Aterrar. O branco ainda branco da borda das pistas, malev, balkan, finnair... Círculos acastanhados nos controles nostálgicos de há alguns anos.
Um rosto. O rosto. Também no gelo de que se fala em mensagens, em mms, em gorros de marta ou de vison, de raposa ou coelho. Teve de ser. A mala feita num repente de um voo que quase se perdia. Sem conversa no banco do lado na passageira antiga que colige relatórios. Em silêncio. Tão urgente como um trapo que se descarta no fumo de um charuto dito sem espaço próprio. LM na mala. Ou o inevitável Dunhill.
Uma sanduíche em formato cano, a imitação de um sumo, agora que no calor do bar, o uísque se cola a todos dos uísques de todos os bares de todos os hotéis.
É Bucareste, confirma o cartão, enquanto putas jovens oscilam pernas longas em equilíbrios de refresco.

Dizer a palavra para ti como um sussurro, tão na face de uma maçã escura e doce, no redondo de uma gamba, no amargo amarelado da cerveja. Em casa, tu. A tua, o verde do limão e o laranja da cama, o lento lençol do Sana, o despertar e o pequeno almoço. Subindo e olhando do vértice da janela, o gelo que vai pingando de cabos pretos onde pousam pombos.”

Publicado por Teresa C. às janeiro 17, 2008 07:26 AM

Comentários

De Bucareste só tenho uma boa recordação: as prostitutas.
Mas esta afirmação carece de explicação, porque foi a única vez que usei e abusei de uma prostituta...
Dois ou três dias antes de sair de Portugal, despachei por DHL uns 30 quilos de documentação que precisava de ter quando chegasse a Bucareste.
Chegado ao hotel, o recepcionista jurava a pés juntos que não tinham recebido nada para mim.
Desesperado, sem saber o que fazer à vida, fui para uma mesa do bar pensar numa estratégia qualquer...
Claro que surgiu logo uma prostituta, mas eu respondi-lhe tão torto que ela viu que eu estava com um grave problema.
Resumindo, passados 5 minutos a prostituta meteu-se num táxi e dali a cerca de 1 hora chegava com os 30 quilos de papel... tinha ido à sede do DHL da cidade e conseguiu interceptar a encomenda que já ia ser devolvida para Portugal por não ter sido encontrado o destinatário (no hotel tinham rejeitado a recepção porque não estava lá ninguém com o meu nome... quando estava escrito por baixo da direcção o dia e a hora a que chegaria ao hotel...).
Convidei-a para jantar e dei-lhe o equivalente a ter ido com ela para a cama, 100 ou 150 dólars. Mas tive que insistir bastante, porque ela não queria aceitar o dinheiro (só aceitava o do táxi...).
Com esta ajuda, a minha deslocação não foi pela água abaixo...
Nunca mais me esqueci daquela boa prostituta e já lá vão uns 15 anos. Ela é, sem sombra de dúvida, a melhor recordação que tenho de Bucareste.

Desculpe esta historinha, mas acho que nunca a contei na blogosfera (é um exclusivo seu... eheheheh...).

Bom resto de semana.

Publicado por: Nilson Barcelli às janeiro 17, 2008 06:32 PM

Ser prostituta não deve ser fácil. Ser uma "boa prostituta", como refere, não sei o que significa. Talvez ela o tivesse ajudado por ser uma alma disponível porque essa coisa do "boa" não é fácil de definir. Digo eu que não percebo nada de prostitutas!

Publicado por: Dobra às janeiro 17, 2008 07:03 PM

Por toda a minha vida só conheci mulheres.

Publicado por: Justo às janeiro 17, 2008 08:15 PM

Deliciosa esta "estória" do Nilson Barcelli. O encontro de duas boas "almas".
Prostituta? Não, mulher.

Vítor

Publicado por: Minderico às janeiro 18, 2008 11:22 AM

Nilson Barcelli - Tal como o Vítor sublinhou, uma história que confirma o que há muito penso - os rótulos sociais desprezam os espíritos e valorizam o vísivel. Como se na comédia de enganos em que, de uma maneira ou de outra, todos acabamos por viver, o íntimo de cada um, fosse ele atento ao essencial dos seres, não saiba distinguir o cereal de ouro das ervas daninhas. Mas quantos recusam ir além do exposto e ultrapassar preconceitos borolentos? Muitos de nós, certamente.

Obrigada pelo testemunho que aproveitei para complementar com o texto de hoje.

Dobra - compreendo a perplexidade. De facto, há pessoas que num, ou em muitos momentos das suas vidas são generosas e solidárias. A dita ralé humana é abstracção redutora.

Justo - Perfeito! Seja qual for o modo de vida. Pessoas, sempre.

Minderico - Subscrevo, como acima referi, o seu comentário. O texto de hoje retoma a questão da cisão dos valores, e, antes de mais, que valores carregamos e nos ditam as culpas e os passos.


Publicado por: Teresa C. às janeiro 18, 2008 02:23 PM

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