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janeiro 27, 2008
PASSADO O TEMPO DE “LOLITA”

Alain Dumas
Seria tão difícil assim? Só queria um homem divertido, que não se levasse demasiado a sério, que fosse terno e a inspirasse. Abominava o tipo de homem cujo propósito é entrar nos vestiários dos ginásios e revelar-se em toda a sua glória aos outros homens, e, de seguida, dominar a fêmea.
O António fora a doença de que ainda convalescia. Ela, que nunca fora de esperar sentada a concretização dos sonhos, não tinha, agora, vestígio de ânimo para encetar caminhada. Para quê, perguntava-se, se no final o resumo é desassossego e peúgas alinhadas na gaveta? Joana sabia passado o tempo de “Lolita” e não lhe apetecia reavê-lo. O rosto de trinta e oito anos perdera algum brilho, embaciado pelo naufrágio de sonhos e ilusões. Ganhara pragmatismo e concluira que o sexo só a perdia se contaminado com volatilidade amorosa. O sexo arquiva-se, o amor não.
As tardes de domingo sempre lhe haviam sido insuportáveis. Já em criança era assim. Os últimos trabalhos de casa, a farda do colégio à espera no cabide, a sombra parda da segunda-feira oprimindo-a. Por isso a segunda era cinzenta, a terça cor-de-rosa, a quarta azul, a quinta cor-de-laranja, a sexta esverdeada, o sábado castanho e o domingo amarelo. Como o sorriso da tia Rosinha, doce como limão. Hoje, girava no carrocel infernal das memórias do António. Aos domingos à tarde, não havia remedeio. As amigas casadas passeavam os filhos, bicicletas, bolas e resmunguices dos maridos. Afivelado o sorriso da felicidade burguesa. Desencantadas, mas normais. Não uma coitada como a Joana - “a menina sabe, aquilo é tempo a mais para ruminar no que não deve; faltam-lhe os filhos e que fazer, percebe?”
E percebia. Bem demais. A imagem inquieta que de si devolvia. A cada semana empalidecido o amarelo dos domingos. Sem querer.
CAFÉ DA MANHÃ
"O Governo e os Zecos". Leitura que importa pôr em dia.
Publicado por Teresa C. às janeiro 27, 2008 09:38 AM
Comentários
Simplesmente comevedor. A Teresa C. está a "afinar" a sensibilidade e a escrita para a PNETmulher?
Mindericus Vulgaris
Publicado por: Mindericus Vulgaris às janeiro 27, 2008 01:32 PM
Mindericus Vulgaris - o seu nick está bem melhor. Faz lembrar espécime esquecido correndo o risco de extinção. Que espero não ser o caso. Melhor - não é de todo o caso!
A escrita afina-se, como o traço, pelo exercício diário. E o PNet Mulheres estará bem servido de teclas afiadas e afinadas. Não apenas as minhas, mas as que mulheres atentas e talentosas dedilham como ninguém.
Publicado por: Teresa C. às janeiro 28, 2008 10:43 AM
"Afivelado o sorriso da felicidade burguesa. Desencantadas, mas normais."
Ao ler este texto lembrei-me do filme "Little Children", Pecados Íntimos. Está aqui escrito o que Todd Field filmou.
Muito lindo.
Publicado por: Artur às março 19, 2008 03:05 AM