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janeiro 14, 2008

PERDOAI-LHES SENHOR! SÃO UNS TRISTES!

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Michael Bohbot

“Tantas palermices... tantas...! Perdoai-lhes Senhor! São uns tristes...!” Escreveu um Viajante que não há meio de desandar para paragens que tenha por mais amenas. A bem dizer, estamos na presença de um espírito sofredor com tendências masoquistas. Não gosta, não aprova, não se revê no que escreve a Teresa C., mas fica. Mói. Presumo que doendo-lhe um dente, adie a consulta ao dentista que o mal lhe extirparia pela raiz, e prefira lamuriar, qual Calimero adulto com retardado desenvolvimento emocional. Aliás, os queixumes podem ser adição mais ruim que o tabagismo. Pondero mesmo sugerir que nos lugares públicos, a par do símbolo da proibição de fumar, surja um outro assinalando ser interdito lamuriar. É certo que ao começo, funcionários e utentes emudeceriam por falta de assunto – o essencial diz-se numa penada e repartição que se preze, leitaria de bairro, encontro de amigos ou espera no Centro de Saúde pouco ficariam a dever ao recolhimento numa igreja. As operadoras telefónicas entrariam em depressão lucrativa. As filas de atendimento diminuiriam nos serviços públicos e a eficiência seria ruptura insuportável com a tradição portuguesa. O eu-sofro-mais-que-tu não teria oportunidade de expressão. Perdida a troca de lástimas que tanto nos conforta – "porra!, há quem esteja pior que eu..." - ficaremos a braços com as próprias desditas que adoramos inventar(iar). Impingir aos incautos que apanhamos a jeito. Pela verbalização, exorcizar.

Há mais: não nos caracteriza o espírito cartesiano. Prezamos divagações. Subjectivar uma constatação. Na falta de argumentos lógicos, a condescendência é recurso que tenta esconder a preguiça, menoridade ou vazio intelectual. Apelar à infinita paciência de Deus é pecha comum dos espíritos indolentes. Como o “Deus te perdoe”, o “Deus te ilumine” ou o “Deus te valha”. Arrogando-se quem assim fala do privilégio de entendimento preferencial com o divino. Com acesso ao número verde que o liga ao Olimpo. Sem operadora de permeio e música de xilofone entretendo a espera. E, ao recambiar alguém para a celestial compaixão, fica o expedidor sobranceiramente convicto da superioridade do próprio estatuto. Que tem. Afinal, não haveria Correios sem mangas de alpaca que, como autómatos, depositam em tabuleiros de plástico a correspondência.

Publicado por Teresa C. às janeiro 14, 2008 06:02 AM

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