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janeiro 30, 2008

UMA RELAÇÃO TENTE-NÃO-CAIA

Kim Harlow.jpg

Tinham uma relação tente-não-caia. Ele dizia-a o sonho maior. Ela ruminava que aquilo não era homem, mas bacilo alojado em parte incerta. De tão dorida, não fora sofrível a classificação nos jogos de amor ou do que lhe faça a vez, chegara a julgá-lo vício. Coisa pior – objecto de redenção. Isso fora pelo meio do que ela chamara saison turbulenta – quando uma “esposa”, fartinha de enfeites na testa, põe à porta os tarecos do homem de duas décadas, ele entra em histeria, depois tem espasmos de homem-bom-infeliz, para continuar, ressabiado, a carreira de amante-intrujão.

Esgotada pela coisa ruim que lhe esvaía o equilíbrio emocional, congeminou antibiótico eficaz. Quando a ideia lhe rasgou o espírito, o primeiro impulso havia sido de rejeição. Fosse pela urgência de cura, ou pelo adianto da insanidade, mirou a ideia, escrutinou a valentia e decidiu. Por sms seguiu o convite para um half blind date (o que passa pela cabeça de uma doente!). Informou-o do ponto de encontro - o mesmo do regresso. Da hora de um e do outro. Do objectivo – a despedida. O convite foi aceite.

Tudo correu como o aprazado. Ele romântico. Ela deslumbrante. Ele sequioso. Ela controlada. Explosiva quando quis. Referida a impossibilidade de uma despedida. Por ele. No limite do check-out, cumpridas as formalidades, ela sugeriu um café na placidez da esplanada da praça central. O sol descaído no zénite por um Outono recém-chegado. Com um sorriso magnífico, disse: “foste o único ser humano de cuja existência preferia não ter sabido. Mas soube. E sei do nojo que senti. Que sinto por ti. Da certeza do teu zero na escala dos homens sãos. Não brinque o acaso, e nunca mais me verás. Ou eu a ti. Vai e tenta ser feliz.”

CAFÉ DA MANHÃ

A Conspiração dos Pintos!

Publicado por Teresa C. às janeiro 30, 2008 06:06 AM

Comentários

Teresa,

Não devemos deixar que as pedregulhos que vamos encontrando pelo caminho nos sujem o olhar, impedindo-nos de encontrar autênticos diamantes límpidos e brilhantes. É isso que distingue ingenuidade de inocência- a ingenuidade é uma característica dos imberbes, a inocência daqueles que caminharam sobre a lama mas não se sujaram. Há uns anos li já não sei aonde uma frase que dizia mais ou menos isto: "prefiro confiar sempre do que andar sempre desconfiado- de facto, no primeiro caso sofro apenas o momento da desilusão, no segundo, sofro constantemente."
E o maior dos males que nos podem fazer é destruir essa inocência primordial, essa capacidade para confiar.
Abraço.

Isabel

Publicado por: Isabel Metello às janeiro 30, 2008 05:54 PM

a vida prega-nos dessas partidas....e às vezes bem pregadas....

Publicado por: anónimo às janeiro 31, 2008 12:28 AM

Isabel - as ficções, não raras vezes, parecem vida. Vidas. Reais.

Um abraço, Isabel

Anónimo - partidas e chegadas. Felizmente!

Publicado por: Teresa C. às janeiro 31, 2008 10:45 PM

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