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fevereiro 24, 2008
A LUZ QUE O VIDRO REFRACTA

Alberto Pancorbo
Dormes. Talvez não, pela cadência celular habituada ao ritmo do labor matutino. Mas insisto na tua nudez adormecida. No silêncio do espaço que testemunha o suave respirar. Na forma do corpo flectido que o edredão revela. No abandono sereno. Feliz. Por agora. Para sempre. Porque também pelas coisas menores robusteces a utopia. Porque sem ela não tens viver.
Sei da penumbra que te envolve o sono. Da luz na cozinha e na sala. Das folhagens vívidas, também elas apaixonadas pela existência. Alimentadas pelo teu cuidado e pela luz que a parede de vidro refracta. Sei como recebes o despertar. Sei da quentura, e dela o deleite que te motiva o ficar. Depois, o roupão. O destino dos passos. O agasalho caseiro em que te reconheces e és.
Escrevo. Dormes. À beira dos meus lábios o creme do nespresso. Dos teus, mais tarde, o café no Velasquez. O aroma, o entra-e-sai dos clientes, o aceno aos conhecidos dali ou doutros lugares. Talvez o sol se atreva e some luz ao ritual. Talvez corrobore a tua pertença ao lugar, à urbe e ao dia. Eu por perto. Talvez antes de abrires o jornal.
Publicado por Teresa C. às fevereiro 24, 2008 11:31 AM
Comentários
Este texto retrata maravilhosamente uma grande paixão, olaricas!
Estarei enganado?
Publicado por: minderico às fevereiro 24, 2008 03:57 PM
Estive uns dias sem vir a este blog e que bem sabe receber toda esta inspiração.
O penúltimo post é um portento de ironia e sofisticação.
Este, um clarão de de ternura, aconchego e intimidade feliz.
Dos provocações do(s) quase anónimo(s) que dizer?
Adoro ver a forma como a Teresa transforma uma observação mais ou menos ácida em crónicas que nos deleitam!
Publicado por: Alba às fevereiro 24, 2008 08:00 PM
Minderico - reza a tradição que os afectos, reais ou ficcionados, são recorrente fonte de inspiração, mais não seja pela abrangência do tema e por estar sempre à mão quando outro não vem à lembrança.
Alba - quando os desafios me empolgam, seja pelo importância ou pelo prazer expectável, não resisto. O texto de ontem teve como base a segunda situação e muito me diverti enquanto o escrevia... O de hoje foi retirado do baú onde guardo assuntos abrangentes e sempre á mão. Obrigada, Alba.
Publicado por: Teresa C. às fevereiro 25, 2008 10:28 AM