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fevereiro 26, 2008
CAPITÃO DA AREIA

Autor que não foi possível identificar
“O Capitão da Areia não tem "pedigree" e orgulha-se do seu passado de "puto" das ruas da beira-rio de Lisboa. Profundo conhecedor dos meandros da pulhice autêntica, amigo de outros putos de caras envelhecidas, com eles frequentador das casas de "meninas", onde, empertigados, se faziam passar por mais velhos frente à jurássica proxeneta, na esperança de uma espreitadela, quiçá de um favor a troco de outro favor.
Nas outras horas vagas, mergulhavam no rio e o seu sonho era emparceirar com uma "toninha", nem que fosse por breves segundos, para depois alimentar intermináveis tédios no café do bairro, cantando as suas prosápias. Outras vezes, entravam nos navios ancorados e sonhavam com viagens, aventuras, mulheres de beleza exótica fazendo questão de emparceirar nos trabalhos de bordo com os marujos autênticos, ainda que a troco de um maço de cigarros.
O Capitão da Areia possuía, no entanto, um dom que o distinguia - para a sua curiosidade natural de puto, procurava obter sempre respostas elucidativas, não se detendo nas meias-tintas. Era igualmente um observador do que se vê à vista desarmada e do que se não se vê nem com poderosas lupas, daquelas que eram iguais às que estavam na montra da "casa do prego" do Sr. Leitão, para os lados de Santo Amaro. Pressentia intuitivamente os anjos ou demónios que aureolavam as pessoas e as situações. E foi por aí que ele deu a volta. Com curiosidade sempre, observando, compreendendo.
Algumas dezenas de anos após, hei-lo afirmando viver no Bairro de Alcântara, escrevinhando para jornais, provocador umas vezes, ironicamente amargo outras, folgazão, meio louco, sempre a sério em todas estas facetas, mas recalcando algumas frustrações. Uma delas, sei eu de verdade verdadeira, é a de ter entrado na curva descendente da vida e não ter viajado ainda no seu saveiro (que desenhou e tudo), em direcção aos mares do sul para aí render a sua, pessoal, íntima, homenagem ao patrono inspirador que lhe mostrou e apresentou os putos de outras ruas, os capitães de outras cidades, de outros mundos e lhe abriu a porta de uma esperança desmesurada, quase concretizada, hoje, irremediavelmente utópica.
Sei que o Capitão da Areia se prepara para abandonar as dragonas, nunca oficialmente reconhecidas. Mas feliz porque sempre acreditou no seu papel. Não creio, eu que o conheço razoavelmente, que fique sarado da sua meia loucura e, paisano que seja, deixe de procurar as coisas que só ele julga vislumbrar nos locais mais recônditos da vida.”
Capitão da Areia
Num dia, noutro lugar.
Publicado por Teresa C. às fevereiro 26, 2008 07:24 AM
Comentários
{Com curiosidade sempre, observando, compreendendo}
Quem sabe se na sua utopia o Capitão da Areia, meio louco, não será mais feliz que nós, "os não loucos" ?
Vítor (Minderico)
Publicado por: Minderico às fevereiro 26, 2008 07:20 PM
Um personagem alter ego e arquitecto de ilusões. Saravá my Captain! Saravá Minderico!
Publicado por: Teresa C. às fevereiro 27, 2008 10:19 PM