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fevereiro 11, 2008
DE BISCATEIRO A ACTOR PRINCIPAL

Autor que não foi possível identificar
O deputado Paulo Portas lembra-me o Indiana Jones. Como negativo de fotografia. Como reverso de uma medalha. Ao P.P. do CDS-PP faltando tudo o que sobra ao Indy de há vinte anos na “Última Cruzada”. Assemelha-os estarem de início destinados a filmes da série B – produtos menores de Hollywood, contudo rentáveis pratos de substância nas matinés. Histórias triviais, vivem de meia dúzia de recursos e enchem o olho a espectadores fáceis.
Vou mais longe na lembrança. De uma prosaica conversa na praia entre George Lucas e Spielberg nasce a ideia de um herói, logo ali baptizado como o nome do cão de Lucas – Indiana. A escolha do actor para o papel do aventureiro não foi fácil. Harrison Ford, por essa altura sustentando a família como carpinteiro, fazia uns biscates na casa de G. Lucas. De biscateiro a actor principal foi um passo. O segredo do seu sucesso está na expectativa criada no espectador de a qualquer momento poder tirar uma chicote do bolso de trás. O improviso do Harrison Ford, nauseado e com diarreia sob um sol escaldante, tornou de antologia a cena da pistola sacada contra o figurão vestido de negro que esgrimia com o sabre habilidades desérticas. Tal qual o Paulo Portas desfiando reivindicações sardentas sob os holofotes dos mídia.
Qualquer mortal tem razão uma vez por outra. O Indiana teve ao sacar da pistola para arrumar o bazófias. Paulo Portas também ao perfilar-se na procissão contra a insanidade dos prazos estipulados para a avaliação dos docentes. Neste ponto, a cronologia e o método ministeriais logram ser, em simultâneo, risíveis e trágicos. O atropelo das datas, a (des)organização (dis)funcional, alguns dos critérios do processo são dignos duma ópera bufa - “A Criada Patroa” por exemplo, que tanto sucesso teve no último quarto do século XVIII. Evitando fastio, um aspecto chega para o entendimento: na progressão na carreira docente é elemento decisivo o (in)sucesso dos alunos em cada período lectivo e no final do ano. Tem relevo, e esta é a parte sensata!, a discrepância entre as avaliações intermédias e as obtidas nos exames nacionais. E nos anos ou nas disciplinas curriculares em que não existem provas nacionais? Sendo de má colheita os rebentos inclusos nas turmas leccionadas – por que nem todos são anos para produzir um vintage - está à vista o dilema: a verdade pedagógica lesa a carreira, a inflação das notas avilta a consciência. Entre o dever e o querer, ressalvando alguns carolas, idealistas, dos restantes é evidente a opção. Fazem bem. Esta é uma sociedade de espertos que aniquila os inteligentes-burros. Entretanto, o “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” chega a 22 de Maio. Nem de propósito!...
Publicado por Teresa C. às fevereiro 11, 2008 12:03 AM
Comentários
querida teresa, só gostaria de lhe relembrar que mídia é uma palavra do português brasileiro influenciada pela forma como lêem o vocábulo medium (sing), media (plur.). assim, tanto mídia como média são erros ortográficos em português europeu.
Publicado por: edita estrelinha às fevereiro 12, 2008 09:07 PM
Satisfeito e encontrar tamanha claridade e lucidez no artigo "De biscateiro a actor principal"
Publicado por: james stuart às fevereiro 13, 2008 12:52 PM
adoro biscateiros, são do mais actual que há. o mundo laboral hoje exige mesmo que todos nós viremos biscateiros, tão flexíveis e versáteis quanto a nossa imaginação nos permitir. um biscateiro sabe fazer de tudo, começa do zero se necessário for e não se acomoda. já os fixos não revelam a mesma capacidade de adaptação e quando dão por ela são erros de casting fora do tempo, vivendo ainda na ilusão da solidez do seu ramo. só quando a árvore cai é que acordam para a vida.
Publicado por: jáfumega às fevereiro 13, 2008 06:23 PM
Edita Estelinha - Obrigadíssima!
James Stuart - Obrigada. Creia que vindas de si essas palavras são um elogio e tanto.
Jáfumega - Concordo: os biscateiros são uns queridos. Do melhor que há! Agora, a sério: tem razão quando diz que "o mundo laboral hoje exige mesmo que todos nós viremos biscateiros". Quem de tal não for capaz pode esperar vida pejada de rasteiras.
Publicado por: Teresa C. às fevereiro 13, 2008 11:46 PM
Teresa, talvez estejamos a dar uma conotação diferente a biscateiro. Eu estava em parte a brincar consigo, mas, em parte, a falar a sério. Para mim, um biscateiro é uma pessoa que tem versatilidade e talento para fazer várias coisas. por vezes, é mesmo "a necessidade que faz o engenho". Não me estou a referir aos ratones que não olham a meios para subir- a esses dou-lhes outro nome: vermes.
Publicado por: jáfumega às fevereiro 14, 2008 11:37 AM