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fevereiro 04, 2008

DE SENHORAS-DONAS A CABRAS

Baron Von Lind 5.jpg
Baron Van Lind

«_Mary, já me tinham dito que eras uma cabra.

Um insulto. Em 1941, as pessoas não usavam tanto os palavrões como usam hoje, quando já os banalizaram. Em 1941, um insulto era coisa grave. Contudo, ao longo da vida, fui aprendendo que a atracção sexual entre homens e mulheres é cheia de mistérios, e um deles é que os insultos entre seres que se desejam são por vezes naturais. Trata-se de actos drásticos, destinados a despertar o lado irracional das pessoas, o seu lado mais violento, apaixonado e animal.

_Ah! Ah, ah! Cabra? Chamaste-me cabra? (...)
Mary levantou o copo e disse:
_Brindemos a isso! À cabra! Vá lá, inglês, filho de mãe portuguesa, bebe um copo à saúde desta cabra maluca!»

in Enquanto Salazar Dormia, Domingos Amaral, Casa das Letras

Dos mistérios da atracção sexual sabemos pelo aproveitado nos corpos. Explicá-la é contrária ao volátil caldo dos suores. As mulheres da geração anterior a setenta refugiavam-se no amor quando o gosto era lascivo, por inerência cabra-cega dos sentidos, e tinham sede, muita sede de sorver. Ou beijar, eufemismo de um modo outro de beber. O esperado quando, e li bem, "os corpos apertavam". Ela estreitando nas coxas o desejo pelo seu homem, que o acaso podia substituir. Proibidos “cabra” e “puta”, não ficasse gravada nos botões erectos a verdade acontecida. Sem ruído de maior, não transpirassem as paredes, os vãos de escada ou os estofos dos automóveis (referes os de trás, mas permite-me o acrescento, habilidoso, dos dianteiros).

Insultam-se os amantes? Ultraje seria o vigor asséptico fluindo das bocas dos seres. Entre sussurros e vagidos, ruídos surdos arrebentam no expoente do prazer. Outrora, sexo era coisa de homens ou de mulheres-perdidas, pois as senhoras-donas, ao fornicarem, procriavam, despachavam o "serviço" ou concediam favores. Nos arquétipos sensuais, constam “cabras” e “sacanas” e outros jogos de línguas atrevidas. Reaprendidos, sublinhas, nos de hoje homens e mulheres, durando o cio e a refrega pelo gozo. Nela esquecido o amor, ao invés das anteriores gerações do sentimento-contrição. Apaziguada a fome, regressa a consciência da ternura e da paixão. E, na demora do sono, é da ceia o momento - um chá ou um copo de vinho branco. O amor na compota ou no pão.

CAFÉ DA MANHÃ

- "Está em casa com uma gripe das antigas!"
Para que é que as guardam?

- Um template lindíssmo!

- Texto magnífico!

Publicado por Teresa C. às fevereiro 4, 2008 12:07 AM

Comentários

contrição

Publicado por: D. às fevereiro 4, 2008 03:03 PM

Era um tempo em que o termo "trepar" ainda era usada somente para subir em escadas ou árvores.

Publicado por: Justo às fevereiro 6, 2008 10:06 AM

D - grata pela correcção. A ignorância e a distracção de uma "pobrezinha" de espírito como eu é um mistério...

Justo - por cá, "trepar" ainda é, normalmente, o "trepar" clássico. Até quando? Não sei!

Publicado por: Teresa C. às fevereiro 6, 2008 01:58 PM

Sendo assim seremos uns eternos cabrões porque fazemos o que nos apetece, na devida medida da audácia de cada um, e que não lhes faça doer o estômago da aflicção caso cometam algo crime (menor decerto, pudor?). Uma sexualidade plena não se vive nas descrições, ainda que suscitem algumas e espicacem a imaginação.

Obrigado pela visita, e pelo elogio (sabe sempre bem)!

Publicado por: Sandro Franco às fevereiro 9, 2008 06:57 PM

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