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fevereiro 29, 2008
A MENINA DA RÁDIO

Rolf Armstrong
Fui menina da rádio. Mas não do tempo da radiotelefonia que debitava vozes sedutoras e trinados canoros nos folhetins. Os ouvintes desfiavam-nos com maior crença que as contas de um rosário. Do escutado, fazia novos folhetins a imaginação de cada um que cultuava os artistas e locutores. Descontando as fugazes incursões na BBC, a Emissora Nacional era a única estação de rádio que em casa e, durante muitos anos, foi ouvida. Nas outras rádios, como já eram chamadas, os programas ligeiros de humor duvidoso eram constantemente entrecortados pela publicidade, toucinho com muito sebo e pouca carne.
A partir dos anos trinta, o bichinho da rádio uniu os portugueses. No cinema, "A Menina da rádio" e "O Pátio das Cantigas" narraram com graça e oportunidade a maneira como eram feitas as emissões. "A Menina da Rádio" é uma comédia tipicamente portuguesa; além da popularidade das emissões radiofónicas, espelha a luso-pelintrice, as ambições miúdas, as invejas de bairro e a estrutura familiar própria do tempo (de todos os tempos?). São inesquecíveis os diálogos entre Cipriano e Rosa - donos de dois pequenos comércios. O ódia entre eles contrasta com o amor romântico dos respectivos filhos, Geninha e Óscar. Cipriano(António Silva) toma a peito fundar um clube de rádio onde a sua filha interpretaria canções do namorado. A abespinhada oposição de Rosa (Maria Matos) complica a deliciosa e ingénua trama. Pelo meio, pontificam bilhetes de amor, o doce de ginja no casaco do cantor da moda, Fernando Verdial, o ciúme e por último a feliz inauguração do "Rádio Clube da Estrela".
Hoje, como mulher da rádio que a televisão dispensa, saúdo os vinte anos da TSF. Há muito lhe pertence a minha fidelidade de ouvinte. Não dispenso algumas rubricas que me acordam para o dia e, ao longo dele, me fazem nascer sorrisos ou me saciam a fome de informação e análise crítica. Porque é serviço público e de excelência, continuo habitada pelo bichinho-da rádio. Do sonho primordial, não nasceu o “Rádio Clube da Estrela” mas um projecto ambicioso na cave na Rua Ilha do Pico. Parabéns TSF! Obrigada.
Publicado por Teresa C. às 10:43 AM
fevereiro 28, 2008
ATREVIDOS PICANTES

H. Sorayama
Sou mulher de mercados. Extasiam-me enquanto redutos urbanos de cheiros e cores que fantasio rurais. Perco-me na ronda às bancas dos frutos da água, no brilho metálico dos peixes, nos corais ruivos e imperadores. O cheiro a berbigão. A memória do pré-almoço nas sextas-feiras da infância em que sugava das conchas o molusco e recebia, inteiro, o sabor a mar.
Nos mercados procuro a luz coada e os apelos vendedores. Relembro os pregões e as vozes roufenhas causticadas por amanheceres cruelmente andarilhos; as vendedeiras loiras cujas raízes corrigem mentiras e denunciam fafécias na ponta da língua. Recordo pavimentos húmidos, atrevidos picantes dependurados, as tranças das cebolas e dos alhos. Rememoro flores aos molhos com os pés afundados em baldes meios de água e as ramagens para conserto de sonhos perdidos ao emprestarem sentido ao arrumo das corolas numa jarra-testemunha de que nem tudo está perdido.
Mercados – altares da Terra ou meio próximo de abastecer famílias. Por cá, o de Coimbra, o de Loulé e o de Tavira. O mercado da Ribeira. O do Bolhão que sempre troquei pelo namoro de Santa Catarina, também na porta aberta para as madeiras que prometem estórias devassas ali p’ras bandas da Sá da Bandeira. Tenho saudade do Bolhão que não conheço. Sem traça digna de monta, mora ali o simbólico. Sacrossanto lugar do Porto à Porto.
Quatro novos Adoçantes de uma assentada. Homens e mulheres com o coração e o humor nas teclas; como eu gosto. Escritas diversas, uma certeza: boa leitura.
A Ilha de Vidro
Felizes Juntos
Sushileblon
Vodka7
Publicado por Teresa C. às 07:58 AM | Comentários (2)
fevereiro 27, 2008
A FATALIDADE DOS NÉSCIOS

Chris Meeks
Cretinos, cabotinos, criados-mudos roídos pelo bicho. A imbecilidade. Os seres comuns aturam-na como podem; para os caridosos é inevitável consequência do viver. Da imbecilidade trata a psiquiatria que caracteriza os sofredores (como noutras patologias, a maioria ignora a condição) por um desenvolvimento intelectual compatível com aprendizagens mínimas. Vai mais longe quando afirma não ser fácil distinguir um indivíduo normal de um imbecil. Pelo défice de inteligência, as vítimas da maleita necessitam de aprendizagens esforçadas para atingirem os rudimentos da escrita e da leitura, da urbanidade e da decência. Sujeitos vulneráveis, quando sugestionados podem constituir um perigo para quem deles se abeira pelos escassos freios morais e pela incapacidade de se questionarem. Podem afeiçoar-se aos animais, mas são incapazes de manterem laços familiares significantes.
A fatalidade dos néscios. Como a miséria, os buracos na calçada, as buzinadelas impantes de quem raciocina com os apêndices, a intolerância dos pedantes, a farsa social, a snobeira emergente, os pingos do dentífrico no espelho do lavatório, as vidas dos outros como remendos para o viver próprio, os sorrisos mentirosos, a falsidade das verdades absolutas, o atraso do autocarro,o tempo fugidio como enguia e rápido como um peixe, o cotão aninhado nos cantos, a estupidez militante, o lixo nas ruas, as moscas no lixo.
Imbecis. Débeis mentais. Idiotas. A trindade oligofrénica reconhecida pela psiquiatria e que a Wikipédia explica. Minha, a ausência de robusta memória capaz de debitar exemplares citações de leituras idas, que, com propriedade, semeassem humor e reforçassem o sentido deste escrito. Muito pouco aprendi com o mestre das crónicas, de seu nome Alçada Baptista.
Publicado por Teresa C. às 07:48 AM | Comentários (7)
fevereiro 26, 2008
CAPITÃO DA AREIA

Autor que não foi possível identificar
“O Capitão da Areia não tem "pedigree" e orgulha-se do seu passado de "puto" das ruas da beira-rio de Lisboa. Profundo conhecedor dos meandros da pulhice autêntica, amigo de outros putos de caras envelhecidas, com eles frequentador das casas de "meninas", onde, empertigados, se faziam passar por mais velhos frente à jurássica proxeneta, na esperança de uma espreitadela, quiçá de um favor a troco de outro favor.
Nas outras horas vagas, mergulhavam no rio e o seu sonho era emparceirar com uma "toninha", nem que fosse por breves segundos, para depois alimentar intermináveis tédios no café do bairro, cantando as suas prosápias. Outras vezes, entravam nos navios ancorados e sonhavam com viagens, aventuras, mulheres de beleza exótica fazendo questão de emparceirar nos trabalhos de bordo com os marujos autênticos, ainda que a troco de um maço de cigarros.
O Capitão da Areia possuía, no entanto, um dom que o distinguia - para a sua curiosidade natural de puto, procurava obter sempre respostas elucidativas, não se detendo nas meias-tintas. Era igualmente um observador do que se vê à vista desarmada e do que se não se vê nem com poderosas lupas, daquelas que eram iguais às que estavam na montra da "casa do prego" do Sr. Leitão, para os lados de Santo Amaro. Pressentia intuitivamente os anjos ou demónios que aureolavam as pessoas e as situações. E foi por aí que ele deu a volta. Com curiosidade sempre, observando, compreendendo.
Algumas dezenas de anos após, hei-lo afirmando viver no Bairro de Alcântara, escrevinhando para jornais, provocador umas vezes, ironicamente amargo outras, folgazão, meio louco, sempre a sério em todas estas facetas, mas recalcando algumas frustrações. Uma delas, sei eu de verdade verdadeira, é a de ter entrado na curva descendente da vida e não ter viajado ainda no seu saveiro (que desenhou e tudo), em direcção aos mares do sul para aí render a sua, pessoal, íntima, homenagem ao patrono inspirador que lhe mostrou e apresentou os putos de outras ruas, os capitães de outras cidades, de outros mundos e lhe abriu a porta de uma esperança desmesurada, quase concretizada, hoje, irremediavelmente utópica.
Sei que o Capitão da Areia se prepara para abandonar as dragonas, nunca oficialmente reconhecidas. Mas feliz porque sempre acreditou no seu papel. Não creio, eu que o conheço razoavelmente, que fique sarado da sua meia loucura e, paisano que seja, deixe de procurar as coisas que só ele julga vislumbrar nos locais mais recônditos da vida.”
Capitão da Areia
Num dia, noutro lugar.
Publicado por Teresa C. às 07:24 AM | Comentários (2)
fevereiro 25, 2008
TALVEZ UMA BELEZA MIGNONE

Marta Dahlig
Silhueta parada no cimo do Parque Eduardo VII. Pela benesse de inopinado lazer no trabalho, calcorreei o passeio da rua limitado pelos esqueletos dos jacarandás hibernados. Depois o Tejo e a outra margem das outras margens da cidade. A vislumbrada silhueta, cosida aos arbustos marginais, fez-se mulher. Mignone pela figura pequena e esguia; talvez bela na juventude que os sessenta e muitos anos deixaram para trás. Pelo frio do dia que ao sol limitava a quentura, vestia agasalho comprido e na cabeça usava um pequeno chapéu em tricô. Harmónico com o rosto miúdo de sulcos e poucas rugas. Retribuindo a brevidade do meu olhar, desenhou o sorriso bondoso duma avó que, pacientemente, aguarda o fim das cabriolices do neto vagueando no jardim. Cadenciando o passo, desfiei a infinita alegria pela doçura do Inverno português suavemente acenando o fim. À direita, o rio era rego líquido reflectindo o azul perfeito. Verdes rasteiros atapetavam a distância até à modesta arquitectura da praça que a majestade do Marquês vigia. Acelerei o passo que me entretinha o curto ócio.
No regresso do destino que não tinha, repeti a calçada. À minha esquerda, agora, o rio. O sol continuava a branquear Lisboa. Ao fundo, onde antes a vislumbrara, reconheci a silhueta franzina. Parada. Estranhei a presença, a demora da criança ou do marido talvez curvado no assento dum consultório da zona, aguardando a vez com a paciência dos sábios e dos humilhados. Parou um automóvel que fez mover a mulher. Dirigiu-se-lhe. Por essa altura, já os meus passos me haviam aproximado e tornado audível a fala estabelecida. A negociação, entendi. A cedência da intimidade. A venda do corpo. A atitude que explicava a espera. Não o sorriso benévolo, porque a vileza daquele mercado corrói o ser. Talvez avó, talvez uma beleza mignone na juventude, talvez com um neto brincando à solta num outro jardim.
"Porque hoje é segunda-feira, a semana começa com um grito, o de Oscar Wilde.
A questão prende-se com a mulher que tem a consciência entupida de ideias contrárias às que, intimamente, deseja que se materializem. A que se prende de braços e pernas aos ideais mal herdados, sem que possa, por uma vez na vida, ser o que sente. O rosto do politicamente correcto enche-lhe os sentidos, proporciona-lhe o vómito escondido e mudo que, sem pensar, transforma em moralidades que o corpo não aceita e a alma teima em defender, porque sim. É esta consciência inconsciente, a vontade plastificada do feminino mal vivido que ainda persiste. É preciso parecer bem comportada, ser o que as entranhas não pedem, assumir a postura da boazinha, para que não pareça indecoroso ser mulher, com tudo o que isso implica."
Publicado por Teresa C. às 07:32 AM | Comentários (11)
fevereiro 24, 2008
A LUZ QUE O VIDRO REFRACTA

Alberto Pancorbo
Dormes. Talvez não, pela cadência celular habituada ao ritmo do labor matutino. Mas insisto na tua nudez adormecida. No silêncio do espaço que testemunha o suave respirar. Na forma do corpo flectido que o edredão revela. No abandono sereno. Feliz. Por agora. Para sempre. Porque também pelas coisas menores robusteces a utopia. Porque sem ela não tens viver.
Sei da penumbra que te envolve o sono. Da luz na cozinha e na sala. Das folhagens vívidas, também elas apaixonadas pela existência. Alimentadas pelo teu cuidado e pela luz que a parede de vidro refracta. Sei como recebes o despertar. Sei da quentura, e dela o deleite que te motiva o ficar. Depois, o roupão. O destino dos passos. O agasalho caseiro em que te reconheces e és.
Escrevo. Dormes. À beira dos meus lábios o creme do nespresso. Dos teus, mais tarde, o café no Velasquez. O aroma, o entra-e-sai dos clientes, o aceno aos conhecidos dali ou doutros lugares. Talvez o sol se atreva e some luz ao ritual. Talvez corrobore a tua pertença ao lugar, à urbe e ao dia. Eu por perto. Talvez antes de abrires o jornal.
Publicado por Teresa C. às 11:31 AM | Comentários (3)
fevereiro 23, 2008
MINHA CARA SENHORA

H. Sorayama
“Minha cara Senhora:
Até escreve bem mas vai ás futilidades.Podia e devia no seu espaço publico chamar a si outros centro de interesse:
Sou engº,sem emprego vai para 3anos.Nos últimos 2 meses fiquei sem dois colegas que suicidaram.
Será que a solução que o pais dá ao seu Povo é o suicidio?Não sei que fazer á minha viva sem solução??
Escreva sobre isto minha Senhora.Estas sim com interesse!”
Saraiva
Ó Senhor Saraiva! Por quem é.... Que a minha futilidade não o distraia do suicídio. Ajuramentei jamais arredar alguém do caminho da elevação e o paraíso parece ficar lá bem em cima. Quem é esta humilde escriba para lhe interromper o trajecto? Compreendo o seu sofrimento. Ser mais um nos números do desemprego é triste sina. Mensalmente, há renda para pagar ao banco – o senhorio de carne e osso é entidade em desuso -, empréstimo para o chaço a que benignamente chamamos automóvel, prestação da tira de plástico do Continente e da Worten que nos faculta ilusório poder de consumo, mais as miudezas que vão das pedinchices dos miúdos às bicas ou cimbalinos – no que escrevo, aspiro abrangência. E quando a patroa lamuria que há um ror de tempo não vai a parte nenhuma e que o Senhor Saraiva, à conta da desocupação, forçada claro!, não mexe uma palha em casa? Que nem as peúgas da véspera põe no cesto da roupa suja? Sim, sei que argumenta estar à beira do suicídio e não ter cabeça para coisas menores. Mas ela entende as suas razões? Não! A futilidade feminina é uma pecha. Será contagiosa como a varicela, ou genética? Vá lá um homem tentar entender uma mulher?!... Que fazer quando ela sublinha, com todo o respeito devido a um honesto cidadão e bom chefe de família, que o senhor não há meio de atinar com o funcionamento das máquinas da roupa e da loiça? As tais cujas prestações o atormentam e comprou na Worten, mais o computador e a televisão king size duma promoção capaz de tentar o mais distraído amante da bola – não o senhor, adivinho, porque só não liga a futebol homem que não os tiver no sítio. E quando ela tem o dislate de sublinhar que nem foi capaz do gesto de se baixar para pôr na dita máquina o copo sujo da cerveja e o tupperware vazio dos amendoins que trincou enquanto me lia? Creia-me consciente do olhar assassino que lhe lançou. Então um homem, com a vida arruinada por não ter um emprego, pode lá dar-se ao luxo de trabalhos para os quais não foi nascido? Quando muito vai à net consumir umas pornochanchadas e, de caminho, ler o meu fútil arrazoado. Sempre lhe sai cada uma... Como se não bastasse o bastante para ponderar o suicídio! Francamente!... Aliás, e como a vida dos pobrezinhos é um mistério, não leve a mal a pergunta: o que fica por pagar à conta dos elevados préstimos da internet? Sim, sei da evidência de ter contratado o serviço para procurar emprego. Não que fique por aí a sua diária busca de uma fonte de rendimento - por volta do meio-dia, acordado e duche resolvido, anda dois quarteirões para tomar um café servido pelas mamas da Rosalina e catar no jornal os “precisa-se”.
Ó Senhor Saraiva! Engenheiro, ainda por cima. Não refere a sua idade, mas seja pouca ou muita, no mínimo, sim no mínimo!, devia ter um emprego, pois a falta de trabalho não parece fazer-lhe muita diferença.
Publicado por Teresa C. às 12:33 AM | Comentários (16)
fevereiro 22, 2008
PARA ATESOAR “COMME IL FAULT”

Michel Gourdon
O poder é afrodisíaco, dizem, porque eu, anónima criatura, limito a minha soberania a pouco mais do que à decisão na escolha da mercearia para abastecer a despensa. Os entendidos poderosos afirmam-no mais eficaz do que lamela de pílulas para atesoar comme il faut vítima de hesitação sexual. À conta da banalização do sexo – preenche tédios, é complemento duma noite de copos, equivale ao picante duma chamuça comida num breve ócio do dia -, das ondas electromagnéticas emanadas dos telemóveis que alguns transportam encostados às partes-baixas e do stress, a ciência investiga remédio para humanos sem tesão. O número crescendo a cada dia. E, a ser verdade que mais de oitenta por cento das mulheres são infiéis e estar em alta o swing entre casais, não fica desmentida a progressiva escassez e lentidão dos espermatozóides ou a diminuída influência de Afrodite nos homens e nas mulheres sóbrios. Calamidade cujas vítimas ignoram as doces e criativas subtilezas dos humildes amantes em tempo de paz e da prazenteira guerra dos corpos. Depois, há aquelas embustes geniais das pedras que do nada fazem surgir vontades libertinas e dos restaurantes que misturam bróculos ou modesto pito estufado com incenso e velas de aroma suspeito – não, não!... não cheiram àquilo para que remete a intenção. Além do poder a que poucos têm acesso, a obscuridade é a alcoviteira comum para o exercício de actos libidinosos.
Ontem, no Texas, Barack Obama enfureceu Mrs Clinton ao afirmar que “fará as coisas de outra maneira”. O assunto era a Cuba pós-Fidel. Hillary adiantou como condição para qualquer contacto diplomático a execução de reformas políticas. Ao invés, Obama declarou a intenção de “falar com Raul Castro sem condições prévias, mas com uma agenda firme. E que dessa agenda constariam a exigência da libertação de presos políticos e a liberdade de imprensa.” Surtiu efeito o arrojo de Obama ao classificar como um erro de cinquenta anos a política dos EUA relativamente a Cuba. Reforçando a posição de Obama, o presidente mexicano anunciou uma visita à ilha de todas as discórdias e o líder dos socialistas no Parlamento Europeu pediu o fim do embargo a Cuba. Chegou o tempo da minha escolha entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos. Barack Obama é, doravante, quem prefiro ver refastelado na Casa Branca.
Publicado por Teresa C. às 11:45 AM | Comentários (3)
fevereiro 21, 2008
TODA A INOCÊNCIA É IMPUDICA

Bruno Di Maio
Pudor – recato, pejo, discrição, pundonor; sentimento de vergonha ou mal-estar em relação à nudez ou à sexualidade. Definição que remete para a subjectividade do sentimento de vergonha. Nas tribos que habitam zonas húmidas e quentes, é dissimulado o estritamente sexual, mediante uma simples faixa. Querendo a mulher provocar um homem, cobre o peito. Intuitivamente, e pela diferença, respeita as leis da atracção - do que não é visto, mas imaginado e constituído objecto de desejo, decorre o perturbador. Nas sociedades «vestidas», o simbólico na nudez é comumente oposto - destaca "disponibilidade" para o sexo. Diversa a linha que separa a pessoa-alma-e-corpo do impudor que noutrem suscita a leitura de simples objecto sexual, por isso animal. Também na percepção do pudor e do impudor diferem os sexos. O homem reage de modo automático, perante os dotes físicos femininos. Habitualmente, a mulher não experimenta atracção imediata perante o corpo masculino.
"O pudor é uma provocação sexual. A verdadeira inocência é impudica".
F. Orestano
" O cinismo é a única forma sob a qual as almas vulgares se aproximam do que seja a honestidade; e o homem superior terá os ouvidos atentos para todo o cinismo grosseiro ou subtil e se felicitará toda vez que um bufão sem pudor ou sátiro da ciência prosear diante dele".
Friedrich Nietzsche
"A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensibilidade como o obstáculo para a energia."
Fernando Pessoa
Sobre o pudor e o seu contrário, evoquei Orestano, Nietzsche e Pessoa pela harmonia com a modéstia do meu pensar. Revejo-me no pudor dum corpo nu onde a alma verte exaltação que, com lealdade, à pessoa regozije ou dignifique.
Publicado por Teresa C. às 12:37 AM | Comentários (4)
fevereiro 20, 2008
MARIANA E TERESA

Autor que não foi possível identificar
Duas mulheres. Uma relação afável a prometer amizade. Porque raros os momentos de disponibilidade comum, uniu-as a vontade, a brisa de um café e a empatia (pres)sentida. Entre ambas, a fala sempre omitira circunstância, antes infinita procura de respostas. Formação académica divergente - Filosofia e Ciência. Mariana e Teresa. Quase pedindo desculpa, a Mariana liberta a pergunta adiada: “Sei que és crente e católica. Que a investigação e a especulação sustentada da Natureza te atrai. Como concilias o furo divino no teu raciocínio pragmático?”
Recolhida no que de si entendia, Teresa medita no que a interrompe no silêncio do laboratório: o voo dum pássaro ou a pincelada das nuvens na tela celeste. “Quando esmiuço átomos ou contabilizo registos de raios cósmicos, atento na organização perfeita da matéria. Especulo sobre a antimatéria da qual fantasio simetria do real conhecido. Reafirmo o convencimento de tudo se entretecer. Presumir aleatório o jogo das partículas, seria ofensivo ao entendimento médio - como roleta de um casino onde o croupier anuncia faites vos jeux!, e varre para alguém as fichas. Um «pleno» à escala universal. Definitivamente, não são quarks e positrões que me inspiram ou satisfazem a fome de explicação. E seja Deus, Alá, súmula de energia ou Buda, não importa o nome ou a fonte da crença, todos procuramos a unicidade no que é maior e nos ultrapassa.”
“ E os milagres, a infalibilidade papal, os santos, a ostentação do Vaticano, a guerra, o terrorismo?” – “Não me apego à poeira que a tradição acumulou. Quando improviso o murmúrio de uma prece na penumbra duma igreja, ou na catedral que invento, agradeço a maravilha da fé. Dela não faço tabique protector das enxurradas da vida, mas preenche o vazio organizado que constitui os seres.”
- "Como costuma dizer o Nuno Mota Pinto, somos um país muito pequeno onde toda a gente se conhece. Sem dúvida, mas não é necessário estar sempre a sublinhar essa fatalidade. Do cimo da sua árvore, o leopardo da parvónia, sempre com carne suficiente, observa divertido a luta entre os blogo-assessores e os seus inimigos figadais."
- "A TVI vai fazer 15 anos. Já tem idade para levar um bom par de tabefes."
Publicado por Teresa C. às 11:10 PM | Comentários (2)
fevereiro 19, 2008
O FACTOR SPAC NO KOSOVO

Autor que não foi possível identificar
SPAC – Salto Para A Cueca. Este foi o entendimento do Miguel Esteves Cardoso acerca dos amigos que fielmente acompanham a vida de algumas mulheres. Amigos do coração, que do peito não ficaria bem referir por remeter para substantivos atributos dispensáveis nas amizades. E temos, juramos que sim, homens que nada esperam de nós, salvo afecto e ombro disponíveis para momentos maus e bons. Irrepreensível o histórico da relação quanto a ousadias malqueridas – nunca meteram a mudança do automóvel alargando o ângulo do gesto, ou detiveram os lábios na nossa face mais do que a fracção mínima compatível com o beijo social. Abraços, sim!, mas comedidos e reservados a momentos de intensa comoção pela saudade, tragédia ou ventura inusitada. Gestos e fala imaculados de qualquer dúbia intenção. Isto (re)contamos nós. Palavras desacreditadas pelos homens exteriores a estes afectos “limpos”. Que não, que somos tontas, ou dissimuladas, o que é pior. Que um homem não põe entre parêntesis a tensão erótica somente por a mulher o integrar no círculo restrito das masculinas excelências infodíveis. Que se é ou parece inocente, a excelência amiga tenderá para o completo deboche ao nosso primeiro deslize. A inevitabilidade do SPAC que a cumplicidade entretecida favorece. Perante este discurso redutor, bradamos contra o machismo subjacente. Trazemos à colação o Pedro mais o Mário - incapazes, sim!, de mal entenderem a displicência de um gesto para outros equívoco.
Dum nicho luxuoso da Tanzânia – peles de animais em vias de extinção como tapetes, chifres pujantes sobrando de cabeças embalsamadas - George Bush apoiou a independência do Kosovo. A UE entra na jogada como penitente ao enviar, para garante dum Estado de direito, 2.000 especialistas, polícias, juízes e burocratas eficazes. Belgrado e a madrinha Rússia declararam a medida ilegal. Entre os 27, existem dissidências de peso na decisão - a Espanha, o Chipre, a Grécia, a Bulgária, a Eslováquia e a Roménia temem as divisões internas e a retoma guerrilheira no novo Estado. Se a história de um povo sofredor indubitavelmente merece mãos e ombros amigos, o imediato apoio dos Estados Unidos à independência do Kosovo, desde que supervisionada internacionalmente, traz-me à lembrança o factor SPAC. Doudice minha, pela certa.
Publicado por Teresa C. às 12:11 AM | Comentários (4)
fevereiro 18, 2008
ANOITECIDA EM LEÇA

Alberto Vargas
Podia falar da chegada que o abraço forte espera. Da prata vagueando na água. Das bordas que a limitam até ao oceano. Da curiosidade silenciosa do motor por temer o extravio da emoção das palavras e a ânsia de muito contarem. Por isso, esmerando o suave rolar entre o casario e o rio. Os vidros abertos à ousadia dos sinais primaveris que interrompem o terço em falta da estação que o não foi. Sem andorinhas à vista; o perfil duma gaivota testemunha a tarde meia no cimo do recorte de um rochedo. Rente à areia, o degrau por onde desce o passeio marginal é assento predilecto de quem a água não dispensa, nem a saliva caindo em gotas nos lábios entreabertos. Depois invertidos, porque mitigar a sede é desejo e dádiva e direito partilhados.
Após a língua macia, o puré dos sentidos amalgamados e o café da sábia mistura de lotes seleccionados, no Carlos Alberto foi tempo de renascer a possibilidade de um eros numa vida interrompida. A dança dos corpos concebida por Romulus Neagu, mais tarde retomada nos laços e folhos pretos de um véu mentiroso. Porque dos enganos pode surgir comédia de langores apressados ou a intensidade de um fluido derrame pendulado pela paixão de dois.
Desmentindo o começo, a tarde escureceu. Para trás a tepidez e a meiga neblina no cais. A maresia anoitecida em Leça. A traça do Siza revestida a madeira. O aroma miúdo do camarão de Espinho, a brancura do peixe-galo e do arroz malandro entremeado por ovas. Levantada a âncora, bamboleou e zumbiu o metal. Chuva do meio em diante das milhas conhecidas. O recolhimento. A escrita sonolenta. A brandura do corpo. Nas bocas, sabores. Regressado o tempo da palavra, da espertina dos mesmos e outros sentidos pendulados pela vontade de dois.
Recebi das mui queridas Rititi e MCorreia o desafio de listar palavras que prefiro. As que no texto de hoje destaquei são dúzia de muitas dúzias que trato com ternura.
Idêntico desafio endereço aos estimados autores
Publicado por Teresa C. às 12:19 AM | Comentários (8)
fevereiro 17, 2008
“IAQUE!”

Philip Castle
«Iaque!!!» é uma das palavras mais universais. Comum a quase todos os povos, sempre acompanhada de lábios descaídos e nariz enojado. Fraldas de bebés que não dos nossos, casa de banho imunda, cuspo ou dentadura navegando num copo merecem repugnância consensual. O mesmo com fotografias repelentes – algumas lesões da pele são exemplo –, não sendo imprescindível que o cheiro acompanhe a visão.
Menos universal é a explicação. Alguns defendem haver sinais de alarme genéticos a impedir-nos ter como hobby criação de larvas de mosca ou ténias em aquários. Porém, aqueles sensores de perigo iminente, dizem outros, evoluem com o tempo, como prova a inexplicável atracção infantil pelas pastilhas caídas no chão. Enquanto quem sabe não se entende, denunciamos pelo esgar da praxe o desprazer por atitudes pouco asseadas como a clássica do condutor entretido a girar o indicador no interior do nariz. “Iaque!”
A intervenção do líder do grupo parlamentar do PSD, Santana Lopes, na Assembleia da República, ao interpelar(?) o primeiro ministro na passada quarta-feira, mereceu-me um “iaque” sentido. Com bichos dengosos e rasteiros tenho a mesma reacção.
“Três milhões e meio de portugueses conheceram-se na internet através do Hi5. Parece-me um manifesto exagero, mas é muito provável que seja verdade. Os portugueses gostam de si mesmos, mas à distância.”
(…)
“Pela internet, no Hi5, conhecem uma fotografia, uma biografia melhorada e os erros ortográficos uns dos outros. Se pensarmos bem, é uma revolução porque corresponde a quase um terço da população. Antes do Hi5 estávamos sós, irremediavelmente sós, sem comunicação, ignorando-nos? Ou já nos conhecíamos mas preferimos a internet porque, ao perto, somos insuportáveis?”
Publicado por Teresa C. às 02:24 AM | Comentários (4)
fevereiro 16, 2008
COMO CHANTILLY

Jim Warren
Após um dia tenebroso, antecipei o regresso a casa. Concedi-me como prémio um banho comme il fault. Montado o cenário com a parafernália de raro em raro usada, desperdicei água até o vapor tudo nublar. Casa ao meu dispor, luz ténue, música num sussurro, velas acesas perfumando a humidade, sumo de laranja ao lado, deslizei voluptuosamente imergindo até ao pescoço.
Já a o espírito vagueava, quando o telefone tocou. Tinha-o esquecido duas divisões à frente. Fingi que não ouvia. Não desistiu. Teimei na surdez. Terceira insistência. Nada! Nem pestanejei. Regressou o silêncio. Pálpebras descidas, adormeci o espírito e despertei os sentidos para os aromas e para o redemoinho da água em cada milímetro da pele.
Tocou a campainha da porta. Rejeitei o incómodo. Insistiu. Também eu. Num repente, abri os olhos e recobrei a lucidez: o técnico, a duras penas arranjado, tinha ficado de vir por essa hora. Na turbulenta saída, derrubei copo e velas que chamuscaram e pingaram de cera verde a brancura do roupão. Abri a porta. Lá estava ele de olhos arregalados como se tivesse visto um ogre. Percebi - a espuma enfeitava-me a cabeça como chantilly em vias de decomposição.
Publicado por Teresa C. às 01:15 AM | Comentários (8)
fevereiro 15, 2008
DO INFERNO AO DESGOSTO DE VIVER

Ghisetti
O fogo do Inferno já não entretém pesadelos. Por ora, é o temor da doença e da degradação do corpo que martiriza os vivos. Foram trocados os temerosos uivos nas labaredas infernais pela consciência do “prazer de hoje, doença do amanhã”. Aos males do corpo acrescemos depressões e medo. O Inferno chama-se agora Desgosto de Viver. Como mezinha corrente, floresce a indústria dos spas e clubes do bem-estar – ginásio é termo out. São reconhecidos novos méritos às águas termais.
E, enquanto no Ocidente é urgente produzir e relaxar para mais produzir, na Somália onde nasceu Ayaan Hirsi Ali, a infibulação do clitóris é prática tradicional. Aos cinco anos, Ayaan, numa cerimónia organizada pela avó, foi amputada do clítoris e dos pequenos lábios; os grandes lábios foram repartidos e suturados em conjunto. Restou um pequeno orifício para escoamento dos fluidos naturais. Não fossem reparados os danos menos gravosos e no lugar da vulva teria uma cicatriz. Hoje, perseguida e sem país que a proteja da fúria do Islão, implora ajuda. Neste Ocidente, dito escrupuloso no respeito pelos direitos humanos, que país a ouvirá?
CAFÉ DA MANHÃ
- Escreveu, ontem, o Manuel da Fonseca: (...) ”J’ai besoin d’aide”, disse ela, no domingo passado, lembrando a Sarkozy a promessa do seu discurso de vitória: ”A chaque femme martyrisée dans le monde, je veux dire que la France offre sa protection en lui donnant la possibilité de devenir française."
- Admitir que "Um Amor Atrevido" chegou ao fim, é penoso para quem, como eu, a cada dia o espreitava na expectativa de um novo e delicioso texto.
- Eis que outro espaço surge, prometendo reacender o apetite diário por um bom momento de leitura.
Publicado por Teresa C. às 12:21 AM | Comentários (3)
fevereiro 14, 2008
MUCHACHOS, COMPAÑEROS DE MI VIDA

Alberto Vargas
A realidade que me perdoe, mas reza o consumo ser hoje dia para namorar. Comportamento ao qual, por todas as razões, teço os maiores encómios e a que não vejo, assim, de repente, nenhuma contra-indicação. E quem disser que já não há muchachos, desengane-se: há e bons! OK, concedo, não falam da santa viejita, y de mi noviecita, que tanto idolatré, ou do Dios el juez supremo. Felizmente, que para tanto não chegaria a paciência! Mas falam de enlevos condimentados por lingerie picante e devassidões que caem sempre bem. Aos muchachos companheiros das nossas vidas: que el Señor, celoso de sus encantos, não os leve sem antes ter feito moldes.
barra querida de aquellos tiempos.
Me toca a mi hoy emprender la retirada
debo alejarme de mi buena muchachada.
contra el destino nadie la talla.
Se terminaron para mí todas las farras.
Mi cuerpo enfermo no resiste más.
de los bellos momentos que antaño disfruté,
cerquita de mi madre, santa viejita,
y de mi noviecita, que tanto idolatré.
y que brioso de amor, le di mi corazón.
Mas el Señor, celoso de sus encantos,
hundiéndome en el llanto se la llevó.
Ya estoy acostumbrado, su ley a respetar,
pues mi vida deshizo con sus mandatos
llevándome a mi madre y a mi novia también.
por la barra querida que nunca me olvidó,
y al dar a mis amigos mi adiós postrero
les doy con toda mi alma, mi bendición.
Poema de César Vedani na voz de Carlos Gardel aqui ao lado.
Publicado por Teresa C. às 11:28 PM | Comentários (6)
fevereiro 13, 2008
“TO FALL IN LOVE”

Jim Warren
“To fall in love”. Numa tentativa de explicação a Física poderá apoiar-se na electricidade e no magnetismo, complementando a fatalidade da lei da atracção universal. Porém, já Einstein avisou: “a gravidade não pode ser culpada pela pessoa que fall in love” .
Andamos precisados de formação científica. O entendimento do quotidiano e do planeta, a alteração dos comportamentos humanos – dentro de quinze anos a água, que hoje damos por garantida, será um bem escasso - obrigam a um lastro de conhecimentos e competências do domínio das ciências. A investigação e as descobertas em ciência merecem protagonismo mediático. É actual a tendência para comprimir e desvalorizar a Química entre a Biologia e a Física. A Matemática é de todas a prima-dona porque se reinventa sem precisar de outros suportes além da mente. Preserva lugar independente e destacado; do raciocínio lógico e abstracto que explora surgem ferramentas depois utilizadas pelas restantes ciências. A Química – mau fado pela certa! – na indústria é entalada pelos engenheiros, físicos e economistas.
Quem tem a sorte de encontrar infinito prazer no puzzle científico, apaixona-se. Paixão não distinta das demais. Extremada como todas. Pode ser obsessiva. Exacerba a imaginação e monopoliza o pensamento. Faz oscilar o apaixonado entre a felicidade da explicação súbita ou o desespero da investigação falhada. E vem e vai o tempo sem que o sentimento esfrie.
Estando o campo gravitacional terrestre arredado da causa que leva alguém “to fall in love”, a Matemática oferece o jogo de probabilidades, a Química e a Biologia baralham «inas» - endorfina, dopamina e ocitocina. Enquanto isso, os apaixonados olham-se nos olhos. Juram mágicos os toques e os beijos. Cegos e surdos ao que neles não se esgote. E são felizes.
Publicado por Teresa C. às 11:49 PM | Comentários (2)
fevereiro 12, 2008
OLHO-POR-OLHO, DENTE-POR-DENTE

Chris Achileos
Há povos culturalmente guerreiros. Relutantes na aceitação de sensos diferentes. Se entre os muçulmanos é comum, o povo timorense prova o mesmo. As gerações mais velhas de Timor conciliam a doce nostalgia pelos colonizadores que nem o souberam ser com o espírito aguerrido do olho-por-olho, dente-por-dente. A mistura de sangues e de genes é caldo ebuliente. Porque pobres e abandonados por um Portugal distante que naquele povo instalou o síndroma duma malquista orfandade? Pobres-ricos por via do petróleo que faz de Timor um sem-abrigo que a sorte abonou com a valiosa herança de um parente, sem que o potencial ricaço saiba o que fazer do súbito giro da fortuna. Cobiçado desvio pelos vizinhos gigantes que sobre o ouro líquido volteiam, quais moscas à volta de um pote de mel.
Nelson Mandela, Ramos-Horta e Xanana Gusmão são os últimos líderes pacifistas nascidos no colonialismo. Souberam reverter em sábio amor pela paz os próprios sofrimentos, desilusões e clausuras. Comoveram o mundo. Assistiram a magníficas ondas solidárias para com o povo cuja dor simbolizavam. Que é feito delas, salvo a traduzida nos militares estrangeiros que as discórdias policiam? Copiaram a democracia, a constituição, o sistema judicial. Insustentável enquanto país organizado e respeitador das instituições e dos seus símbolos, Timor vive um faz-de-conta. E amo Timor sem nunca lá ter estado. Não com o afecto condescendente por alguns reservado aos desfavorecidos. Amo o povo pela simplicidade do ser.
Publicado por Teresa C. às 12:01 AM | Comentários (3)
fevereiro 11, 2008
DE BISCATEIRO A ACTOR PRINCIPAL

Autor que não foi possível identificar
O deputado Paulo Portas lembra-me o Indiana Jones. Como negativo de fotografia. Como reverso de uma medalha. Ao P.P. do CDS-PP faltando tudo o que sobra ao Indy de há vinte anos na “Última Cruzada”. Assemelha-os estarem de início destinados a filmes da série B – produtos menores de Hollywood, contudo rentáveis pratos de substância nas matinés. Histórias triviais, vivem de meia dúzia de recursos e enchem o olho a espectadores fáceis.
Vou mais longe na lembrança. De uma prosaica conversa na praia entre George Lucas e Spielberg nasce a ideia de um herói, logo ali baptizado como o nome do cão de Lucas – Indiana. A escolha do actor para o papel do aventureiro não foi fácil. Harrison Ford, por essa altura sustentando a família como carpinteiro, fazia uns biscates na casa de G. Lucas. De biscateiro a actor principal foi um passo. O segredo do seu sucesso está na expectativa criada no espectador de a qualquer momento poder tirar uma chicote do bolso de trás. O improviso do Harrison Ford, nauseado e com diarreia sob um sol escaldante, tornou de antologia a cena da pistola sacada contra o figurão vestido de negro que esgrimia com o sabre habilidades desérticas. Tal qual o Paulo Portas desfiando reivindicações sardentas sob os holofotes dos mídia.
Qualquer mortal tem razão uma vez por outra. O Indiana teve ao sacar da pistola para arrumar o bazófias. Paulo Portas também ao perfilar-se na procissão contra a insanidade dos prazos estipulados para a avaliação dos docentes. Neste ponto, a cronologia e o método ministeriais logram ser, em simultâneo, risíveis e trágicos. O atropelo das datas, a (des)organização (dis)funcional, alguns dos critérios do processo são dignos duma ópera bufa - “A Criada Patroa” por exemplo, que tanto sucesso teve no último quarto do século XVIII. Evitando fastio, um aspecto chega para o entendimento: na progressão na carreira docente é elemento decisivo o (in)sucesso dos alunos em cada período lectivo e no final do ano. Tem relevo, e esta é a parte sensata!, a discrepância entre as avaliações intermédias e as obtidas nos exames nacionais. E nos anos ou nas disciplinas curriculares em que não existem provas nacionais? Sendo de má colheita os rebentos inclusos nas turmas leccionadas – por que nem todos são anos para produzir um vintage - está à vista o dilema: a verdade pedagógica lesa a carreira, a inflação das notas avilta a consciência. Entre o dever e o querer, ressalvando alguns carolas, idealistas, dos restantes é evidente a opção. Fazem bem. Esta é uma sociedade de espertos que aniquila os inteligentes-burros. Entretanto, o “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” chega a 22 de Maio. Nem de propósito!...
Publicado por Teresa C. às 12:03 AM | Comentários (5)
fevereiro 10, 2008
COMO FACA EM QUEIJO-CREME

Steve Rosendale
Eles dizem-nos infiéis. Tanto quanto eles. Fundamentam a convicção nas inúmeras comprometidas que lhes passa(ra)m pelas mãos. Ao invés, defendo o sofisma da estatística pela escassez e subjectividade da amostra de quem diz. Abespinhados, contrapõem a validade dos dados – questionar a qualidade ou a quantidade do currículo sexual dos homens é o mesmo que certeiro pontapé nas partes moles que pendem do abdómen. Conversando sobre o tema, discretos no início, aumente a cumplicidade e é vê-los mais específicos do que as páginas amarelas. Debitam as solteiras, viúvas, comprometidas e divorciadas. Quantas Helenas, Filomenas e Emilias. Puerilmente, exorcizam o fantasma da precária virilidade pelo reconto dos casos. E elas ouvem-nos. Caladas. Pela sábia contenção, porque é genuíno o espanto pelo dislate, ou por, estando habituadas à compulsão, atentarem nos meandros das estórias que deles mais exibem que o verbalizado. E, não faltando o estímulo das interjeições banais – “a sério?”, “não pode!”, “que horror!”, “ inacreditável!” –, eles deslizam nas memórias, ou no que a partir dos factos construíram, como faca em queijo-creme. O previsível, enfim. Tudo muda quando são elas a legitimar o empate técnico entre os sexos infiéis. Que sim, dizem, que em número enganamos tanto ou mais do que eles. Incomparavelmente melhor quer do ponto de vista cénico como do dramático. A tagarelice feminina é saborosa e entretém, mas, tocando a deslizes conjugais, é de tumba o silêncio. Pela insuspeita verdade, desabaram as minhas fieis convicções!
Publicado por Teresa C. às 12:22 AM | Comentários (2)
fevereiro 09, 2008
BLOG DA TERESA

Recebi este mimo delicioso. Muito, muito obrigada.
Publicado por Teresa C. às 04:00 PM
GEL VERSUS SABONETE, OU O INSONDÁVEL MASCULINO

Roger Payne
Insondáveis mistérios masculinos. Quebra-cabeças planando no entendimento. Com pesos diferentes avaliados pelo assomo recorrente à consciência das mulheres. Porque ociosos, confirmando no gineceu a certeza da simplicidade dos espíritos masculinos. Satisfeitos pela garantia de trabalho adequado à concretização do projecto de vida, de sexo, alimento, liberdade na fruição dos lazeres, roupa lavada e afecto. Por esta ordem. No rol das necessidades fundamentais, bem como no alinhamento daquelas precedências, se distinguem homens e mulheres. Determinadas culturalmente e pelo consequente propósito da diferença biológica – pénis versus vulva.
Intriga-me a opção masculina pelo uso do sabonete ou do gel no duche. Dele fiz case study. Observações empíricas provam que os homens dos cinquenta anos em diante ensaboam-se vigorosamente e revelam cuidado na escolha da barra detergente. Abaixo das cinco décadas, o gel de banho é a opção. Não muda o vigor higiénico e cresce a indiferença pelas características do produto de lavagem.
Concluí que o caso nada tem de enigmático. Estivesse o meu raciocínio disposto a promover a frivolidade a questão meritória, e seria elementar a explicação. Machos jovens por alturas do 25 de Abril apresentam resquícios da diminuta oferta consumista durante a ditadura e dos hábitos espartanos treinados no cumprimento do serviço militar. A par do sabonete, usam ou usaram bigode e/ou barba, putas e slips que as partes moles aconcheguem, evitam os preservativos. Os machos-pós-25-de-Abril cresceram rodeados de maior conforto e com acesso a bens recentes na sociedade portuguesa da época. Usam gel, a face escanhoada, boxers em detrimento das cuecas apertadas, preservativos e raramente se iniciaram sexualmente com putas. No respeito pelo asseio não encontro distinção. Fomos e somos pobrezinhos, porém asseados.
Publicado por Teresa C. às 12:46 PM | Comentários (0)
fevereiro 08, 2008
DAS RATAZANAS AOS TOPOLINOS

Xue Yanqun
Não gosto de ratos. Desagrado independente do pedigree familiar. Da condição de mamíferos roedores e miúdos. Falta de apreço sem alcançar a aversão – todas as criaturas têm propósito com mérito na existência terrestre. Bichos que não convocam a simpatia geral. Inclusivamente, esquecidos pelo espírito amorável do Padre António Vieira – dirigiu aos peixes o seu discurso alegórico e metafórico, não aos rattus rattus, ou mesmo aos topolinos, tão em voga como animais de estimação.
Dificilmente me concebo como cidadã chinesa. O fascínio pela cultura milenar da China não apaga a inflexibilidade social, nela incluída a subalternização da mulher e o trabalho matizado de escravatura. Férias de dez dias para celebrar o Ano do Rato não me suavizam a avaliação. Bem pode Pequim cobrir-se de encarnado feliz e de bons augúrios. Proclamar que o Rato anuncia um ciclo próspero. Que representa o líder natural, conquistador, disciplinado, meticuloso, trabalhador, charmoso, sociável, perspicaz e inovador. Não me convence o rato, o Moita Flores nas diatribes culpabilizadoras dos McCann, a guilhotina social que diariamente reivindica uma cabeça dirigente, seja pelo dito ou pela omissão. À rataria endereço o meu profundo desprezo.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 11:10 AM | Comentários (3)
fevereiro 07, 2008
A FOZ OU A MADRE DE DEUS

Jack Vettriano
Virga é chuva que o calor aborta. Água que a Terra não bebe e os rios não faz crescer. Promessa vã duma atmosfera com tanto de geniosa como de campanular. E há vidas assim, recolhidas no âmago onde são. O contrário das abertas ao melhor que podem recolher. A Foz ou a Madre de Deus passeadas com as mãos em trança, pernas que se procuram e cadenciam o andar. A rua de Santa Catarina e a Garrett conhecem o desejo pelo teor lânguido dos passos. Porque, acredito, o pisar dos amantes é diferente dos demais e as ruas identificam, por eles luzindo a calçada. Mudas, sabem o calcar solitário, atabalhoado dos petizes, desarmónico nos casais estafados que esgotaram o contar.
Gostar do gostar excessivo. Do tudo ou nada. Ao estar pardo recusar a jornada. Comprar presunto fatiado no tasco da rua esconsa – outra que conhece a mútua compressão das coxas como se lhe fora contado. Faltando canela para a aletria, subir ao Pingo Doce, um beijo por cada lanço de escada. Dois na cozinha entremeando fervuras. Na mesa estendendo aromas e sabores trocados. E o serão desliza na pele nua coberta de música. No filme que fica por ver. Na luz branda coada pelo abajur grenat.
CAFÉ DA MANHÃ
Publicado por Teresa C. às 11:20 PM | Comentários (2)
fevereiro 06, 2008
CUERPO DE MUJER

H. Sorayama
Pedindo corpo e alma uma noite de brilho íntimo, harmonia na festa da pele e do olhar, toda a mulher se orna de grinaldas ocultas. Pertencer-lhe o exclusivo saber, acrescenta gosto. Na exposição aos outros, o sigilo condimenta as atitudes – porque o laço aperta na anca, apetecer-lhe-á ondular o passo, porque outro une o peito, ganha altura o porte. Crescida a sedução. E só ela conhece o motivo. Da (in)esperada cobiça também. Desmentindo quem toma por enfeites ociosos o que outrem não veja. Resumir ao visível a minúcia, retiraria prazer à festa e ao jogo. Embaciar a invenção da festa, recusa.
Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
Te pareces al mundo en tu atitud de entrega
Tiembla en la noche húmeda mi vestido de besos
locamente carregado de eléctricas gestiones,
de modo heroico dividido em sueños
y embriagadoras rosas practicándose en mi.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena de alma mía.
Mariposa de suño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palavra melancolia.
Pablo Neruda
CAFÉ DA TARDE
Publicado por Teresa C. às 10:12 AM | Comentários (3)
fevereiro 05, 2008
JOGATINAS DOS DEUSES-JUíZES

John Hagan
Pelo início da Idade Média, o Juízo de Deus ou ordálio correspondia a uma forma de justiça humana sob a égide divina. Submetia o indivíduo acusado a provas, normalmente de água ou fogo, a duelos e ao mais que à crendice ocorresse. Demonstração de culpa ou inocência: morrer ou viver. Sem dúvida ou remissão. O Concílio de Latrão acabou com as jogatinas dos deuses-juízes.
O ordálio desapareceu como justiça vinda do Além. Ficou preservado o essencial na convicção secreta de que a sorte protegia os audazes. A obsessão pela segurança é generalizada, supondo garantir até a paz. Os filmes de catástrofe e de acção permitem hoje viver em segunda-mão o alvoroço e o perigo que se evitam diariamente.
Alguns transformam a vida numa orgia ordálica. Baptizam-na como sorte ou azar. Ultrapassar o perigo, caminhar no arame sobre o abismo. Viver a vida no fio da navalha. O autodestrutivo de forma não consciente. Exposição a um destino que, sendo vago, é igualmente decisório do rumo a dar às asneiras.
CAFÉ DA MANHÃ
Masturbação e formas elementares de acontecimento. Leitura obrigatória.
Publicado por Teresa C. às 10:11 AM | Comentários (6)
fevereiro 04, 2008
DE SENHORAS-DONAS A CABRAS

Baron Van Lind
«_Mary, já me tinham dito que eras uma cabra.
Um insulto. Em 1941, as pessoas não usavam tanto os palavrões como usam hoje, quando já os banalizaram. Em 1941, um insulto era coisa grave. Contudo, ao longo da vida, fui aprendendo que a atracção sexual entre homens e mulheres é cheia de mistérios, e um deles é que os insultos entre seres que se desejam são por vezes naturais. Trata-se de actos drásticos, destinados a despertar o lado irracional das pessoas, o seu lado mais violento, apaixonado e animal.
_Ah! Ah, ah! Cabra? Chamaste-me cabra? (...)
Mary levantou o copo e disse:
_Brindemos a isso! À cabra! Vá lá, inglês, filho de mãe portuguesa, bebe um copo à saúde desta cabra maluca!»
in Enquanto Salazar Dormia, Domingos Amaral, Casa das Letras
Dos mistérios da atracção sexual sabemos pelo aproveitado nos corpos. Explicá-la é contrária ao volátil caldo dos suores. As mulheres da geração anterior a setenta refugiavam-se no amor quando o gosto era lascivo, por inerência cabra-cega dos sentidos, e tinham sede, muita sede de sorver. Ou beijar, eufemismo de um modo outro de beber. O esperado quando, e li bem, "os corpos apertavam". Ela estreitando nas coxas o desejo pelo seu homem, que o acaso podia substituir. Proibidos “cabra” e “puta”, não ficasse gravada nos botões erectos a verdade acontecida. Sem ruído de maior, não transpirassem as paredes, os vãos de escada ou os estofos dos automóveis (referes os de trás, mas permite-me o acrescento, habilidoso, dos dianteiros).
Insultam-se os amantes? Ultraje seria o vigor asséptico fluindo das bocas dos seres. Entre sussurros e vagidos, ruídos surdos arrebentam no expoente do prazer. Outrora, sexo era coisa de homens ou de mulheres-perdidas, pois as senhoras-donas, ao fornicarem, procriavam, despachavam o "serviço" ou concediam favores. Nos arquétipos sensuais, constam “cabras” e “sacanas” e outros jogos de línguas atrevidas. Reaprendidos, sublinhas, nos de hoje homens e mulheres, durando o cio e a refrega pelo gozo. Nela esquecido o amor, ao invés das anteriores gerações do sentimento-contrição. Apaziguada a fome, regressa a consciência da ternura e da paixão. E, na demora do sono, é da ceia o momento - um chá ou um copo de vinho branco. O amor na compota ou no pão.
CAFÉ DA MANHÃ
- "Está em casa com uma gripe das antigas!"
Para que é que as guardam?
Publicado por Teresa C. às 12:07 AM | Comentários (4)
fevereiro 03, 2008
NA INTIMIDADE, UM CENÁRIO

Autor que não foi possível identificar
Um cenário. Um teatro. Um fosso de orquestra. Vazio. Na segunda fila da plateia, uma mão que o fio de luz, sustentado pela poeira, recorta. O braço, o todo que surge. E urge saber por que está ali. Só? O roçagar indicia outra presença. Mais que o som, são os requebros da primeira que denunciam companhia. Uma, duas pernas erguem o ar. Teatro do absurdo? Pois se outro som não há que o do sumido roçagar... Como lograram entrar num teatro vazio? E o vigilante? Pertencer-lhe-á um dos corpos, ou continua no seu posto, talvez adormecido, talvez confiante na modorra do lugar? Peregrinos da noite que das portas conhecem segredos? Espectadores habilidosos decididos a violar a intimidade de um teatro? Impossível. É de defeso o tempo naquele palco. Há poeira nos veludos e nas madeiras. O ouro descarna. Começam a estalar os gessos.
Nenhum dos corpos está visível. Apenas e ainda o roçagar. Suave. Ritmado. Quando as pernas abriam caminho no fio de luz poeirento e um todo surgiu, houvera desacerto no som. Por ora, o compasso nasce do chão atapetado, certamente puído. Encurtam os tempos. Acelera o roçagar. Descendo a caminho do palco, há o perfil do rosto e o recorte de um tronco. Como pêndulo invertido. Louco. Para cá e para lá sem respeitar segundos ou deles os múltiplos. Pendeu para trás o rosto. Depois, o nada. Nem rosto, nem braço, nem pernas. Nem o roçagar. Voltou o silêncio ao teatro. O palco, esse!, movera-se sem o saber.
CAFÉ DA MANHÃ
1. Sem sardinhas, nem espinhas, parece-me consistente a minha reflexão de ontem, como depreendi (mal?) dos escritos destes dois queridos Senhores:
- Eduardo Pitta
- Francisco José Viegas
Publicado por Teresa C. às 02:16 AM | Comentários (3)
fevereiro 02, 2008
FLORIBELA NUINHA

Michel Gourdon
É legítima a denúncia que serve a equidade prevista na justiça-poder ou a favor do bem nacional. Rejeito engenharias maledicentes e atoardas respigadas boca-a-boca. Desaprovo justiças de Fafe – a violência verbal, ou outra, não soluciona desavenças. Enjoo a subserviência, compadrios e navalhadas na ética. Que, escrutinando com verdade passadas ou actuais conjunturas das próprias vidas, todos contabilizamos. É mítico o ser impoluto. Isento de infracções aos códigos morais ou às vigentes regras reguladoras das sociedades. Subíssemos ao altar do poder, e, como São Sebastião, num sopro nos trespassariam flechas justiceiras ou malvadas.
As sucessivas escandaleiras(?) envolvendo o Engenheiro José Sócrates animam a venda dos jornais e as audiências das televisões. São pretexto para os sérios e livres de pecado comentadores políticos enfiarem no bolso uns trocos. O povo reage com um encolher de ombros, tal o débito da torneira que diariamente os inunda de putativos réus a sentar no tribunal da opinião pública. Deixa para os profissionais das conspirações o gozo das inventonas/intentonas, porque, de tão penosa a vida, é parco o tempo de sobra que o merecido sono não aproveite. Além do mais, entre uns projectos a(ssa)ssinados e as fotografias da Floribela nuinha, a escolha está à vista.
Publicado por Teresa C. às 10:40 AM | Comentários (6)
fevereiro 01, 2008
LEITURA DA SENSUALIDADE

Marshennikov
À cause do óleo da Mary Minifie (28 de Janeiro): “ (...) ainda estou pasmo diante de tanta sensualidade. E então me lembro que a autora é mulher e a autora do blog também o é (...) Será que as mulheres conseguem ver mais 'sensualidade' que os homens?”
Não sei. Marshennikov é homem e transpõe para a tela o “dentro de uma mulher”. Amada. Que ama, por certo. Que em si confia. E no corpo. Que se deleita no desejo que sente e provoca. Que não hesita em suprimir véus a pedido do instante. Posar. Pousar. Fazer morada no corpo do homem que quer e a quer com urgência. Ambos exigindo mais do que conjugação de mastro e vela - tem de soprar, doce, a brisa; estar além o único horizonte que a mistura de olhares vê.
O momento faz uma mulher sensual. Concha ou búzio. O instinto da precariedade exaltando o respirar. A sensualidade precisa de mais e diferente de um corpo perfeito. Duma (in)determinada razão que a mulher intui. Ou sabe. E por isso distingue nas outras mulheres a volúpia que a cadência dos passos escreve no chão. Ou de um sorriso rasgando a neblina. O anonimato da cidade. Desvendando a sentida magia de ser mulher inteira. Que dá e recebe. Que não hesita em suprimir véus.
Publicado por Teresa C. às 01:42 AM | Comentários (3)