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fevereiro 18, 2008

ANOITECIDA EM LEÇA

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Alberto Vargas

Podia falar da chegada que o abraço forte espera. Da prata vagueando na água. Das bordas que a limitam até ao oceano. Da curiosidade silenciosa do motor por temer o extravio da emoção das palavras e a ânsia de muito contarem. Por isso, esmerando o suave rolar entre o casario e o rio. Os vidros abertos à ousadia dos sinais primaveris que interrompem o terço em falta da estação que o não foi. Sem andorinhas à vista; o perfil duma gaivota testemunha a tarde meia no cimo do recorte de um rochedo. Rente à areia, o degrau por onde desce o passeio marginal é assento predilecto de quem a água não dispensa, nem a saliva caindo em gotas nos lábios entreabertos. Depois invertidos, porque mitigar a sede é desejo e dádiva e direito partilhados.

Após a língua macia, o puré dos sentidos amalgamados e o café da sábia mistura de lotes seleccionados, no Carlos Alberto foi tempo de renascer a possibilidade de um eros numa vida interrompida. A dança dos corpos concebida por Romulus Neagu, mais tarde retomada nos laços e folhos pretos de um véu mentiroso. Porque dos enganos pode surgir comédia de langores apressados ou a intensidade de um fluido derrame pendulado pela paixão de dois.

Desmentindo o começo, a tarde escureceu. Para trás a tepidez e a meiga neblina no cais. A maresia anoitecida em Leça. A traça do Siza revestida a madeira. O aroma miúdo do camarão de Espinho, a brancura do peixe-galo e do arroz malandro entremeado por ovas. Levantada a âncora, bamboleou e zumbiu o metal. Chuva do meio em diante das milhas conhecidas. O recolhimento. A escrita sonolenta. A brandura do corpo. Nas bocas, sabores. Regressado o tempo da palavra, da espertina dos mesmos e outros sentidos pendulados pela vontade de dois.

CAFÉ DA MANHÃ

Recebi das mui queridas Rititi e MCorreia o desafio de listar palavras que prefiro. As que no texto de hoje destaquei são dúzia de muitas dúzias que trato com ternura.

Idêntico desafio endereço aos estimados autores

Alba
Dobra
Justo
K.
Rui
Sandro Franco

Publicado por Teresa C. às fevereiro 18, 2008 12:19 AM

Comentários

Há uns quantos sinais a mais no link :D
Aqui http://community.livejournal.com/no_mass_product começam outras ideias, partilhadas (uma comunidade no LJ que iniciei)...
Há uma série de textos a que chamei "The Bullet Songs", a próxima é para ti.

Beijos.

Publicado por: Sandro Franco às fevereiro 18, 2008 03:57 PM

teresa, minha gata, você deve ser um mulherão quentão cheio de tesão.

Publicado por: arnaldo às fevereiro 18, 2008 05:48 PM

Sandro Franco - Espero então esse texto, magnífico como muitos outros teus que já li. Beijinho.

Arnaldo - Ó homem!... Fosse eu uma chimpazé feita gente e, suspeito, o seu brado seria o mesmo. Que tal procurar um Zoo ou o mato ou uma fazenda? Não me engano se lhos aconselhar como os seus paraíso terrestres. Pensando melhor, dispense a Amazónia - assim, como assim, é reserva natural e património da humanidade. Contaminá-la, mais do já está, seria abominável.

Publicado por: Teresa C. às fevereiro 18, 2008 08:14 PM

Obrigada Teresa. Digo eu ainda sob o encantamento da prosa que compôs com algumas das palavras que "trata com ternura". E paixão também.

Publicado por: Alba às fevereiro 19, 2008 01:17 AM

Hahahaha!
Ai em Portugal também tem destes parvos "Fernandos" e "Mários"... Ora, o mundo é mesmo redondo e os tais estão a balançar seus pênis como se ainda fosse um trofeu de "inteligência"?
Porque não vão ler "Os Lusíadas"?
Deixa-nos cá com nossas porcarias. Afinal ainda não conhecem a democracia da Internet.
Façam como Fidel: Renunciem.

Publicado por: justo às fevereiro 19, 2008 10:08 PM

\\:o)

Publicado por: justo às fevereiro 19, 2008 10:09 PM

Já escrevi o meu texto. E gostei do exercício por acaso, é para repetir com outras linguagens à mistura.
(à pouco quis comentar mas não se podia)

Espero que gostes.

Ah, se gostares do conceito, os Mão Morta vêem ao Teatro José Lúcio da Silva com os "Contos de Maldoror".

:)

Publicado por: Sandro Franco às fevereiro 19, 2008 11:46 PM

Alba - há muito sabe quanto significa para mim o seu apreço por alguns textos. Nos detalhes mais subtis, entendeu-me. Entre algumas mulheres, a repetida leitura certeira duma frase, dum texto ou duma atitude revela empatia profunda. Sinto-a.

Justo - Lol! Essa dos Fernandos e Mários fazerem como Fidel está um must! Para si o meu sorriso.

Sandro Franco - sabes que não consigo aceder ao texto a que te referes? Obrigada pela sugestão. Fico a dever-te mais esta.

Publicado por: Teresa C. às fevereiro 20, 2008 07:03 PM

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