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fevereiro 25, 2008
TALVEZ UMA BELEZA MIGNONE

Marta Dahlig
Silhueta parada no cimo do Parque Eduardo VII. Pela benesse de inopinado lazer no trabalho, calcorreei o passeio da rua limitado pelos esqueletos dos jacarandás hibernados. Depois o Tejo e a outra margem das outras margens da cidade. A vislumbrada silhueta, cosida aos arbustos marginais, fez-se mulher. Mignone pela figura pequena e esguia; talvez bela na juventude que os sessenta e muitos anos deixaram para trás. Pelo frio do dia que ao sol limitava a quentura, vestia agasalho comprido e na cabeça usava um pequeno chapéu em tricô. Harmónico com o rosto miúdo de sulcos e poucas rugas. Retribuindo a brevidade do meu olhar, desenhou o sorriso bondoso duma avó que, pacientemente, aguarda o fim das cabriolices do neto vagueando no jardim. Cadenciando o passo, desfiei a infinita alegria pela doçura do Inverno português suavemente acenando o fim. À direita, o rio era rego líquido reflectindo o azul perfeito. Verdes rasteiros atapetavam a distância até à modesta arquitectura da praça que a majestade do Marquês vigia. Acelerei o passo que me entretinha o curto ócio.
No regresso do destino que não tinha, repeti a calçada. À minha esquerda, agora, o rio. O sol continuava a branquear Lisboa. Ao fundo, onde antes a vislumbrara, reconheci a silhueta franzina. Parada. Estranhei a presença, a demora da criança ou do marido talvez curvado no assento dum consultório da zona, aguardando a vez com a paciência dos sábios e dos humilhados. Parou um automóvel que fez mover a mulher. Dirigiu-se-lhe. Por essa altura, já os meus passos me haviam aproximado e tornado audível a fala estabelecida. A negociação, entendi. A cedência da intimidade. A venda do corpo. A atitude que explicava a espera. Não o sorriso benévolo, porque a vileza daquele mercado corrói o ser. Talvez avó, talvez uma beleza mignone na juventude, talvez com um neto brincando à solta num outro jardim.
"Porque hoje é segunda-feira, a semana começa com um grito, o de Oscar Wilde.
A questão prende-se com a mulher que tem a consciência entupida de ideias contrárias às que, intimamente, deseja que se materializem. A que se prende de braços e pernas aos ideais mal herdados, sem que possa, por uma vez na vida, ser o que sente. O rosto do politicamente correcto enche-lhe os sentidos, proporciona-lhe o vómito escondido e mudo que, sem pensar, transforma em moralidades que o corpo não aceita e a alma teima em defender, porque sim. É esta consciência inconsciente, a vontade plastificada do feminino mal vivido que ainda persiste. É preciso parecer bem comportada, ser o que as entranhas não pedem, assumir a postura da boazinha, para que não pareça indecoroso ser mulher, com tudo o que isso implica."
Publicado por Teresa C. às fevereiro 25, 2008 07:32 AM
Comentários
Teresa
Afinal que mistério é este da pag.51?
As "coisas" aparecem e logo de seguida levam sumiço.Estou de serviço esta noite e tenho acompanhado o mistério que se passa no seu blog.
Amanhã estou de folga e vou comprar a dita revista.
São 4 da matina e a Teresa já tem o seu blog pronto com a hora de 07.30.Cada vez tudo parece menos claro.
Artur
Publicado por: Artur às fevereiro 25, 2008 04:11 AM
Artur - levam sumiço os comentários que não têm a ver com os textos publicados ou não decorrem de amistosa troca de ideias. Este é um espaço que jamais foi pensado para "recados" que não obedeçam aos interesses subjacentes ao são e desejado debate de ideias, ou à divulgação de informação que não contenha interesse cultural ou social. A admissão ou rejeição dos comentários pertence-me como autora e gestora deste espaço.
Quanto ao desfazamento entre a hora da publicação do texto e o exacto momento em que decorreu, presumo-a devida a erro meu ou da plataforma.
Grata pelos reparos que demonstraram a necessidade de relembrar algumas regras de funcionamento deste blog.
Publicado por: Teresa c. às fevereiro 25, 2008 10:22 AM
Confusão? Ou vontade que haja confusão?
Publicado por: minderico às fevereiro 25, 2008 12:50 PM
Teresa c.
Porque não desvenda a pag.51.
Estou sem perceber nada dito.
O que tam o armani a ver com tudo isto?
Boa tarde
Rosa
Publicado por: ROSA às fevereiro 25, 2008 06:01 PM
TERESA C:
Também estou intrigado com toda esta história da PAG: 51 ?
Que vem a ser isto.
P v. esclareça.
Se calhar tem conteudo de interesse para ser contado no seu BLOGUE.
Beijinhos
Desde já grato
Carlos
Publicado por: Carlos às fevereiro 25, 2008 06:40 PM
Rosa e Carlos - e faço lá a mais pequena ideia de que consta a referia página? Pois se tenho andado arredada destas andanças, salvo para publicar os textos e apagar comentários ociosos que me remetem para o que não vi, não sei e pouco me interessa saber!... Fosse importante uma matéria e já bons amigos me teriam dado notícia.
Meninos: se estão curiosos, investiguem; se era simplesmente pretendido obter uma reacção aqui a têm. Está arrumado o assunto? Se não estiver, que os insatisfeitos rumem a outras paragens com bloggers mais atentos às sugestões dos leitores. Fiquem bem.
Publicado por: Teresa C. às fevereiro 25, 2008 08:03 PM
Oi galera
Por acaso alguém em minha casa tem o hábito de comprar a Visão. Essa página 51 é uma foto do Engº Sócrates quando era garino. Faz parte de um texto sobre o senhor. É uma pepineira a reportagem.
Aliás, pepineiras são normalmente as reportagens sobre políticos. Falam da mãezinha, do paizinho, da infância e coisa e tal, e das saudades da terrinha, onde vão de quando em onde e assim. Olaricas.
Haja Deus!
Publicado por: Minderico às fevereiro 25, 2008 09:35 PM
Ah...Tem também a Área 51.
Por lá, sim, tudo some.
Beijos Tati!
Publicado por: justo às fevereiro 25, 2008 10:54 PM
TATI
Fale do espectacular CHARLES AZAVOUR
Palavras para q.
A Tati deixe o 51 em paz.
Adorei o espetáculo nunca o vou esquecer.
Estes homens nao deviam morrer.
Abracinhos do seu amigo
Adriano.
Comentário da Teresa C.
Não o conheço virtual ou realmente. Rejeito, por isso, a linguagem familiar dos "Abracinhos do seu amigo".
Publicado por: adriano carmo às fevereiro 25, 2008 11:41 PM
Um texto fabuloso que tem o efeito de um imenso murro no estômago. É a sombra de todos nós que vemos no sorriso da avó é a luz generosa de Lisboa que suaviza a dureza desse quotidiano de humilhação.
Publicado por: Alba às fevereiro 26, 2008 12:30 AM
Minderico - até que enfim alguém me explicou onde residia o fulcro da questão. Ai ele era isso?!...
Justo - a sua perplexidade foi de uma ironia deliciosa. Beijinho.
Alba - foi esse o murro cuja pancada senti. Parabéns pelo seu magnífico texto de hoje. Quem me dera, um dia, poder escrever com tanto engenho e sabedoria!
Publicado por: Teresa C. às fevereiro 27, 2008 10:25 PM