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março 17, 2008

MANIFESTO MASCULINISTA

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Angelina Feldman

1.
Nas questões ligadas à discriminação e aos papéis sexuais, as mulheres já estão na sua, os homossexuais idem, os bi também, e até os machões se organizam e se solidarizam, como se viu no caso daquele cara que ferrou a mulher no rosto e teve apoio da Associação dos Maridos Traídos, fundada no Ceará. Todos os sectores se mobilizam. E como ficamos nós, que não somos mulheres, nem homossexuais, nem bi, e rejeitamos o modelo machista que nos é imposto desde criancinhas como a marca da masculinidade? A resposta está no masculinismo – uma movimentação crítico-autocrítica, reivindicativa, desfrutativa, solidarista e convivencial.
Sabendo que de carta de princípio e discursos generosos a humanidade já está de sacos e ovários repletíssimos, colocamos os dedos nas feridas através de um manifesto e proclamamos, indicativamente, o que rejeitamos e pretendemos transformar para viver melhor.

2.
MMN - Movimentação Masculina Nordestina.
Símbolo: um cacto erecto ou em repouso.
Observação: um cacto sem espinhos.

contra o terror machista.
contra a ditadura clitoriana.
contra o homosexualismo autoritário.
pela reconciliação do espermatozóide com o óvulo.

Renunciamos a todas as prerrogativas do poder machista.
Que omem seja escrito sem "H".

Não nos consideramos superiores nem inferiores às mulheres, aos homosexuais e aos bi: somos diferentes e iguais.

Rejeitamos todos os modelos pré-fabricados de sexualidade, caretosos ou vanguardeiros, partindo de três princípios: 1) carência não se inventa; 2) receita, somente de bolo; 3) vanguarda também é massa.

(...) Exigimos que se respeite a nossa opção fundamental: gostamos é de mulher.

3.
Abaixo o guarda-chuva preto. Não somos urubus.
Abaixo as exigências do paletó e da gravata.
Contra o relógio bolachão.
Pelo direito de mijar sentado.
Pelo respeito ao pudor masculino: mictórios privativos.
Pelo amparo aos pais solteiros e abandonados pelas mulheres amadas desalmadas: creches nos bares.
Queremos pensão por viuvez, auxílio alimentação e licença paternidade.
Não amamentamos, mas podemos trocar fraldinha.
Pela liberação da lágrima masculina.
Contra o fechamento do mercado de trabalho aos homens: queremos ser secretários, telefonistas, babás, etc.
Não queremos ser "chefes" de família nem regentes sexuais. Igualdade fora e em cima da cama.
Queremos trepar mais por baixo.
Queremos ser tirados pra dançar.
Queremos ser cantados e comidos.
Pelo nosso direito de dizer não sem grilos nem questionamentos da nossa masculinidade. (...)
Abaixo a máscara da fortaleza masculina. Queremos ter o direito de assumir nossas fragilidades.
Abaixo o complexo de corno. Por que mulher não é corna? Fidelidade ou infidelidade recíproca.
Cavalheirismo é cansativo e custoso. Delicadeza é unissexo. Que seja extinto o cavalheirismo ou se instaure, também, o damismo.
Queremos receber flores.
Exigimos a modificação do Pai Nosso:
a) Pai e Mãe nossos que estais no céu...;
b) bendito seja o fruto do vosso ventre, do nosso sémen.
Pela capacitação dos homens, desde a infância, para as tarefas tidas como "essencialmente feministas". Reciclagem geral. Queremos aprender corte e costura, culinária, cuidado de crianças etc. Em contra partida, ensinaremos às mulheres: trocar pneu de carro, bujão e fusível; dar porrada, atirar e espantar ladrão; matar barata e rato.
Pela paternidade responsável e contra a gravidez e os filhos serem utilizados como elementos de chantagem sentimental sobre nós.
Pelo respeito à intuição masculina. (...)
Protestamos contra o fato do nosso órgão do amor ser representado, simbolicamente, por espadas, canhões, porretes, e outros instrumentos de agressão e guerra. Só aceitamos a simbolização a partir de coisas gostosas e sadias: chocolates, biscoitos, bananas, batons, picolés, pirulitos, etc.
Denunciamos como principais vias condutoras do machismo: as vovozinhas cândidas, as mulherzinhas dondocas, as mãezinhas possessivas e as professoronas assexuadas.

4.
Considerando que muitos masculinistas trabalham dois expedientes, estudam e frequentam um milhão de reuniões e eventos, sem falar das poligamias possíveis, não iríamos incorrer na atitude fascista de inventar mais uma reunião para a comunidade masculinista. Portanto, o nosso princípio de organização é o seguinte: grupos de um, cada grupo obedece a seu chefe. Assembleias gerais com ego, id e superego. Voto de minerva para ego.
Convencidos de que a perfeição não é uma meta e é um mito, procuramos fazer um esforço no sentido de romper com 70% do nosso machismo actual e acrescentar sempre novos itens neste manifesto, aceitando a contribuição crítica e propositiva de todos os masculinistas e outros segmentos sexuais, preservada a nossa opção fundamental pelas mulheres.

Denunciamos os machões enrustidos, que utilizando o discurso masculinista, pretendem apenas dar os anéis para não perder os dedos: recuam em 30% de machismo para manter os 70%. É a Nova República do machismo.

Somos todos oprimidos. E sendo os homens, estatisticamente, minoritários diante das mulheres, isto já nos caracteriza como minoria oprimida. Nós, homens masculinistas!, sofremos a pressão dos machões, das feministas sectárias e dos homossexuais autoritários – o que nos caracteriza como a menor minoria oprimida. Requeremos, portanto, o apoio extremo e a solidariedade máxima por parte da sociedade inservil. "

Obervações: este manifesto começou a circular em 1985. Foi divulgado e reproduzido em diversos encontros estudantis. A autoria foi creditada a Marcelo Mario de Melo.

Excerto do comentário do Francisco Araújo ao texto “Eles Dizem Merecer”.

Publicado por Teresa C. às março 17, 2008 07:15 AM

Comentários

Ah...não.Parei de ler no "direito de mijar sentado".
Isto tudo é coisa de boiola enrustido.
Tô fora!
Beijos Tati.

Publicado por: justo às março 17, 2008 07:04 PM

Concordo. Achei-o interessante enquanto documento duma época. Tão remota assim?

Publicado por: Teresa C. às março 17, 2008 10:50 PM