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março 26, 2008
SHAKESPEARE JAMAIS ARRANJARIA EDITOR NOS DIAS DE HOJE


Archie Dickens e Amanda Besl
"Já sei que a educação não é o que era. Já sei que foi retirada aos professores toda e qualquer autoridade. Já sei que os miúdos de hoje são demasiado mimados. O que eu quero saber é o que pensariam se, em vez da professora ter tirado um telemóvel à rapariga, tivesse tirado uma carta de amor.
Os adultos morrem de vergonha de quem eram em adolescentes e de alguma forma reprimem essas memórias. Em vez de fazerem as pazes com o seu Eu adolescente e pedir-lhe a opinião, julgam os adolescentes como adultos com borbulhas a mais e rugas a menos. Julgam-nos do alto da sua experiência e hormonas controladas.
Eu fiz as pazes com o meu Eu adolescente. Perdoei-lhe que ela achasse que era imortal e ela perdoou-me o não ter ganho um Óscar antes dos trinta. Quando vi o vídeo da aluna a lutar com a professora pelo telemóvel, quis saber o que levaria uma adolescente a tanto, por isso coloquei-me algumas perguntas:
Joana, 28 anos: – Qual é o maior medo de uma adolescente?
Joana, 15 anos: – Ter um segredo revelado.
Joana, 28 anos: – O que é mais importante para uma adolescente?
Joana, 15 anos: – O amor.
Joana, 28 anos: – Adultos?
Joana, 15 anos: – Não são de confiança.
A minha conclusão? A aluna tinha no telemóvel um SMS do namorado e ficou cheia de medo que a professora o lesse. Era tão lógico, tão óbvio, que nem pensei mais no assunto.
Mas poucos pensaram como eu. E durante dias, em vez de se falar de questões como a permissividade e a falta de respeito por figuras de autoridade, vi especialistas a afirmarem na televisão que os jovens de hoje vivem em tal estado de hedonismo que não conseguem estar sozinhos com eles próprios sem terem de comunicar durante uma aula (sim, porque antes dos telemóveis ninguém trocava papéizinhos durante as aulas); espectadores a queixarem-se que para os jovens é mais importante um telemóvel que a educação; tiras de BD a falarem de telemóveis de última geração...
Tão importante que é o telemóvel!
Hoje, num jornal, li um artigo em que o conselho directivo da escola Carolina Michaelis tinha chegado à conclusão que o telemóvel continha provas duma relação escondida pela aluna e que ela tinha ficado aterrorizada com o perigo da professora as descobrir. Professora essa que, segundo alunos da escola citados pelo mesmo jornal, não será essa santa mártir com a qual todos se têm solidarizado.
A sério? A sério que demoraram tanto tempo a chegar a tal conclusão?
Mas foram tão rápidos a rotular aquela Julieta que defendia as cartas de amor do seu Romeu como ícone de uma geração superficial e sem valores. Como é que se pode pedir mais dos adolescentes, quando os doutos senhores são tão superficiais e tão sem valores, que automaticamente assumiram que o cerne da questão era o objecto e não o conteúdo?
Todas as SMS de amor são ridículas. Se não fossem ridículas não seriam SMS de amor. Só muda o suporte. O conteúdo continua a ser tão intemporal e fundamental como sempre foi e a modernidade nada tem a ver com isso."
Joana Eça de Queiroz, Cronista Convidada no PNET Mulher

Deborah Poynton
A meio da escrita de uma crónica sobre este (mal)tratado assunto, enche o monitor o magnífico texto acima transcrito. Detive-me pela convergência do meu ponto de vista com o da Joana Eça de Queiroz.
Não tenhamos dúvidas - somente a idiossincrasia nacional de chafurdar nas misérias até delas fazer monstro lodoso explica as proporções que o acontecimento gerou.
Como noutros, também neste triste caso erraram todos: a aluna pelo desrespeito e violência; a turma pela cumplicidade; a professora por falta de autoridade e de atitude pedagógica adequada; a escola pela complacência e ruidoso silêncio; a família pela demissão na tarefa de educar com responsabilidade; a comunicação social pelo ênfase (des)propositado e fácil.
A violência nas escolas é uma consequência da desestruturação social. Mal vamos se não fizermos mea culpa. E não fazemos. Preferimos remeter as insuficiências para fantasmas obscuros, agitados por vendavais de interesses fáceis de indentificar.
- Sobre este tema ler a "Ponta do Icebergue" escrito pela Marta Botelho e "Olha a Velha que vai cair!" do Rui Pelejão.
Publicado por Teresa C. às março 26, 2008 08:43 AM
Comentários
O que eu vejo daquilo tudo é um espectáculo deprimente de uma espécie que se julga rebelde, numa qualquer internet de banda larga e a chico espertice de u telemóvel que custa meio ordenado mínimo. O que me chateia é ninguém se ter lembrado que a tecnologia tem a sua utilidade, e que antes de aceder a essa febre de ter e parecer é preciso também ensinar, e ensinar a usufruir dela. O espectáculo deprimente porquê? Porque então se o telemóvel é um pecado mortal, então que o afirme o papa, que parece ter bastante autoridad para isso.
O reverso da medalha: Um país à nora por causa de um telemóvel, numa qualquer turma irriquieta, talvez apenas irriquieta?
Ah, hoje o Governo anunciou que o IVA vai baixar para os 20%, e eu preciso de comprar um iMac...
Publicado por: Sandro Franco às março 26, 2008 07:34 PM
já me debrocei sobre o tema
que chege...
agora lembrei-~me: que éfeito da MINHA t-shirt»!!!!!!!!!!
Publicado por: mcorreia às março 26, 2008 10:40 PM
debrucei rsss
Publicado por: mcorreia às março 26, 2008 10:40 PM
a vox-populi sempre foi farta em indignações avulso e completamente falha em auto-crítica.
o poder e a oposição sabem disso e (ab)usam com mestria.
Publicado por: sextrip às março 27, 2008 01:01 PM
Publicado por: justo às março 30, 2008 06:28 PM